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4.2 CASOS DE REPERCUSSAO MÍDIATICA QUE INCITARAM AO CLAMOR PÚBLICO

4.2.4 Homem flagrado com fuzil em Florianópolis

Dentre os inúmeros relatos com notoriedade midiática, está o caso de Elian Lucas Ferreira Dias, preso em flagrante, no dia 19 de janeiro de 2019, por possuir ilegalmente em sua residência um Fuzil AR – 15, de uso restrito às forças armadas. Lavrado o termo de prisão em flagrante, constatou-se a idoneidade moral do acusado, que, até o momento, não possuía antecedentes criminais. (CLICRBS, 2019).

Ao mesmo dia, iniciou-se a audiência de custódia, conduzida pela Juíza Ana Luísa Schmidt Ramos, a qual decidiu por relaxar da prisão em flagrante, concedendo ao acusado a liberdade provisória, condicionada a substituição por outras medidas cautelares menos gravosas, visto que o acusado não preenchia os pressupostos necessários para efetuar a prisão

preventiva. Ao concluir seu despacho, a juíza ainda determinou que o Coronel Araújo Gomes, do Comando Geral da Policia Militar de Santa Catarina, justificasse em 48 horas. (CLICRBS, 2019).

O caso ganhou notoriedade após o comandante da PM queixar-se publicamente em uma rede social, gerando uma grande instabilidade ao processo, segundo a imagem ilustrada a seguir:

Figura 7 - Publicação de Araújo Gomes, Coronel da Policia Militar de Santa Catarina

Fonte: Domínio público

Tal episódio gerou uma série de críticas à juíza plantonista que entendeu por não haver motivos para decretar a prisão preventiva do réu. Após a decisão, a Associação Metropolitana dos Conselhos Comunitários de Segurança de Florianópolis (Amecon) e os

Conselhos Comunitários de Segurança de Florianópolis (Consegs) emitiram notas de repúdio à decisão da magistrada, já a Ordem dos Advogados do Brasil de Santa Catarina (OAB-SC) emitiu notas defendendo o judiciário. (NDMAIS, 2019).

Nesse momento, inúmeras publicações foram veiculadas, todavia, sem informar o texto de lei utilizado para fundamentar a decisão da magistrada, apenas alegando que o réu foi solto em menos de 24 horas, interpretando a liberdade provisória como impunidade, ilustrada na figura abaixo, sobre a reportagem do site, De Olho na Ilha:

Figura 8 - Reportagem do jornal online De olho na ilha

Fonte: jornal online De olho na Ilha, publicado em 19/ 01/ 2019

Posteriormente, no mesmo dia em que ocorreu a decisão, o Ministério Público de SC (MPSC) ofereceu recurso em sentido estrito, arguindo a gravidade do ato ocorrido, enfatizando o elevado poder bélico referente à arma apreendida, alegando também os riscos oferecidos à sociedade, citando a alta probabilidade de que o acusado voltaria a delinquir. (TJSC, 2019).

Embora Elian possuísse residência fixa, fosse réu primário e sem antecedentes criminais, esses fatos não seriam suficientes para manter a ordem pública, tal qual, não afastariam a necessidade da decretação da prisão preventiva. (TJSC, 2019).

Em decisão interlocutória, a relatora em plantão, Bettina Maria Maresch de Moura, conheceu do recurso e lhe deu provimento, alegando a presença de fumus comissi delicti e relativamente ao periculum in liberatis, verificando-se a necessidade em garantir a ordem pública, determinando a prisão preventiva do réu. (TJSC, 2019).

Ocorre que os advogados de defesa do réu impetraram um pedido de Habeas

Corpus (HC) junto ao Supremo Tribunal de Justiça (STJ), tratando-se de um HC substitutivo

de recurso próprio com pedido de liminar, buscando suspender a decisão proferida pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC), alegando incongruências processuais, pois o MP não poderia impetrar mandado de segurança para atribuir efeito suspensivo ao recurso criminal. Devido a esse fato isolado, decidiu o Ministro João Otavio de Noronha, determinando a soltura imediata do acusado, fazendo valer a primeira decisão proferida, seguindo os trâmites processuais. (TJSC, 2019).

Dando prosseguimento ao processo judicial, o réu, Elias Lucas Ferreira Dias, tornou a ser preso preventivamente, e, posteriormente, em decisão judicial, foi considerado culpado, condenado à pena privativa de liberdade, com pena de três anos de reclusão, bem como pagamento de dez dias de multa, tendo o réu o direito a recorrer em liberdade. (TJSC, 2019).

Já em sede recursal, interposta a apelação pelo MPSC, restou a condenação do réu, majorando 0a pena para quatro anos, dois meses e dezoito dias de reclusão em regime fechado. (TJSC, 2019).

De fato, não se pode mensurar as consequências causadas ao processo em questão, como bem aduz Anylar (2002,p. 201): “ [...] os meios criam uma sensação de universalidade, de um mundo sem lutas e expropriam do homem sua capacidade de intervir nos processos sociais, interpretá-los”.

Como aduz Vieira, na seguinte narrativa:

A mídia que se utiliza da linguagem espetacular influência a opinião pública desde o impacto inicial do processo informativo. Esse fator de influência se dá, não necessariamente, com a informação do acontecimento transformada em notícia, mas pela forma como ela é comunicada. A notícia que interfere na opinião pública é a capaz de sensibilizar o leitor, ouvinte ou telespectador. Ela é intensa, ela produz impacto que fortalece a informação. O redator da notícia transforma o ato comum em sensacional, cria um clima de tensão por meio de títulos e imagens fortes, contundentes, que atingem e condicionam a opinião pública. (2003, p. 54).

Em síntese, é nítido aos olhos, a influência midiática, capaz de converter a opinião pública, em opinião publicada, fazendo com que o julgador, em meio a pressão social, venha a decretar a prisão preventiva do acusado, com o intuito de mitigar o anseio da sociedade, sempre que os meios de comunicação, veiculam de forma exagerada e com total aversão, a possibilidade de que o magistrado garanta ao acusado, o direito inerente a liberdade provisória enquanto responde ao processo.

Dessa forma a repercussão midiática leva ao público a sensação de que a liberdade provisória, não passe de uma impunidade do sistema judiciário, de modo que somente a prisão preventiva possa estancar a sangria gerada pelo abalo social.

5 CONCLUSÃO

O cerne principal para o desenvolvimento deste trabalho deu-se a partir do questionamento quanto à influência exercida pela mídia sob o clamor social, utilizado como o principal fundamento para decretar a prisão preventiva do indivíduo sob o argumento de garantir a ordem pública.

Ocorre que, no decorrer dos anos, devido à globalização, a comunicação entre as pessoas passou a ser rápida e acessível. Com isso, a sociedade passou a acompanhar os trâmites processuais e as decisões proferidas no judiciário através de reportagens sobre os fatos.

Por óbvio, este cenário atual é de extrema valia, deixando a sociedade informada quanto aos acontecimentos, garantindo assim o devido Estado Democrático de Direito.

Todavia, fez-se necessário indagar a qualidade das informações repassadas. Ocorre que a opinião pública e a opinião publicada andam lado a lado, e muitas vezes os canais midiáticos não se atentam à veracidade dos fatos, e, tampouco, preocupam-se em informar o mínimo conhecimento técnico necessário para a interpretação do devido processo legal, uma vez que a mídia visa apenas a comoção pública, alcançada através de reportagens tendenciosas que choquem a população, desprezando um dos princípios fundamentais do jornalismo

A persuasão midiática torna-se ainda mais perceptível quando as reportagens veiculadas incentivam a penalização do réu, noticiando incessantemente o suposto crime, e repudiando o fato de que o acusado tenha garantido o seu direito à liberdade provisória. Consequentemente, tamanha repercussão faz com que o cidadão leigo crie o sentimento de impunidade judiciária sempre que a prisão preventiva é afastada.

Consequentemente, torna-se irrefutável a assertiva de que a mídia não só interfere na opinião pública, mas também manipula a figura do acusado, exibindo um sujeito desumano, considerando-o um verdadeiro inimigo do Estado, e a imprensa, sem o mínimo conhecimento técnico, toma para si o poder de instruir, colher provas e condenar o acusado, como nos casos da Escola Base, no qual a sentença midiática ocorreu antes mesmo do inquérito policial ser instaurado, prejudicando todos os envolvidos no caso e trazendo consequências negativas em suas vidas pessoais e profissionais.

Diante do que foi apresentado, percebe-se que a mídia exerce forte influência sobre a população, criando um abalo social responsável por interferir nas decisões jurídicas. A partir disso, é evidente a relação entre o clamor público, gerado pelas notícias sensacionalistas, com a decretação das prisões preventivas, motivadas pelo anseio da população por justiça, e não priorizando o devido cumprimento da lei.

Por fim, a mídia não deveria antepor o jornalismo sensacionalista em prol da divulgação dos fatos, para, assim, evitar que a sociedade interfira negativamente na condenação dos acusados, que acabam sendo presos preventivamente ou até mesmo sentenciados pela própria população, sem direito à defesa, tal como no caso de Fabiane Maria de Jesus, assassinada pela comunidade apenas para satisfazer a falsa sensação de justiça da população, tornando necessário maiores estudos e debates acerca do tema.

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