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Homem-helicóptero

No documento O discurso do grotesco na mídia digital (páginas 93-103)

4 ANÁLISES

4.6 Homem-helicóptero

Figura 12

Um culto evangélico, no qual supostamente ocorre a manifestação do “Espírito Santo”, não poderia escapar ao processo humorístico de Cleycianne, ainda mais porque esse tipo de situação comum no cotidiano das Igrejas Neopentecostais apresenta para os que não integram suas greis (e talvez até para os que integrem também), uma vasta gama de elementos surpreendentes e inusitados.

O humor se radica nessa postagem através da supressão do elemento espiritual que estava presente no seu contexto de origem: um certo momento do culto em que se espera a manifestação de uma força espiritual (no caso em pauta, o próprio Deus, pois o Espírito Santo

é considerado umas das três pessoas da Santíssima Trindade em muitas denominações protestantes), manifestação que tem um status legitimador para todas as práticas e crenças das igrejas neopentecostais. Propp destaca que quando o princípio espiritual prevalece sobre o físico, não ocorre o riso (1992, p.46). A comicidade, por inversão do conceito, é exatamente o que se oportuniza aqui com a retirada do elemento espiritual do seu tempo e espaço originais, recortando-se o momento da manifestação do sagrado e trazendo-o para um blog humorístico, onde a cena é apresentada de forma crua, despida de todos os elementos religiosos, para a apreciação de olhos profanos.

Entendemos, também, que o efeito humorístico dessa postagem será proporcionalmente maior quanto mais familiarizado se esteja com o que a cena primeiramente representa no seu contexto de origem, pois o que resulta em humor também é o rebaixamento da instância espiritual a algo banal e rasteiro, e rebaixado o universal ao nível da realidade particular, por um olhar que penetra (por sátira, caricatura e ironia) até as estruturas, o rasteiro revela-se grotesco (SODRÉ & PAIVA, 2002, p. 85).

A inscrição do homem-helicóptero de Cleycianne no discurso do grotesco se dá, sobretudo, na alusão que o blog cria a uma fusão entre homem e máquina. Analisando o grotesco presente na produção cinematográfica que trás como elemento central da trama híbridos de homem e máquinas, bem como casos de hibridismos outros, tais como nos filmes A Mosca, Gêmeos, Mórbida Semelhança, Crash e eXistenZ, Sodré e Paiva propõem que:

Nessa cinematografia, o grotesco centra-se no “corpo pós-biológico”, isto é, aquele que ultrapassa pouco a pouco a dimensão biológica ou físico-química da vida em função da mescla entre o natural e o artificial-tecnológico. [...] Na esfera do imaginário, em que se inclui o cinema praticado por um criador como Cronenberg, a animalidade do estado de natureza é substituída pelo maquinalismo animalesco dos cyborgs, robôs e mutantes artificiais (Ibidem, 2002, p. 96).

Os híbridos estão há milênios no imaginário popular, desde as mais recuadas mitologias, onde temos o Minotauro (homem com cabeça de touro), a Medusa (mulher com cabelos de serpentes), o deus egípcio Anúbis (homem com cabeça de chacal), até os mitos de Drácula (híbrido de homem com morcego) e o monstro de Frankstein (homem gerado a partir das partes humanas de vários cadáveres), sem esquecermos a espetacularização como “curiosidade” nas feiras ou nos parques de diversões de antigamente, onde a Mulher- Barbada, a Mulher-Gorila, os Gêmeos Siameses e outras anomalias excitavam a pulsão escópica do público (ibidem, p. 96-97). Modernamente, dos gibis para a tela do cinema, temos

nos x-men um fenômeno de massa, centrado nos seguintes híbridos famosos: Wolverine, um homem com garras e esqueleto de adamantium (um metal fictício considerado como o mais resistente do mundo); Fera, um híbrido entre cientista e animal; Arcanjo, homem com asas de pássaro etc. Sodré e Paiva (2002, p. 97) ainda citam o caso cinematográfico do Homem- Elefante, de David Lynch, que realiza uma prospecção aguda de um fenômeno de deformidade física, confrontado com as reações de seu grupo social, entre elas a tentativa de transformá-lo em espetáculo comercial (grifo nosso). Resta, por fim, acrescentar que o corpo grotesco, diferentemente do corpo definitivo e acabado, nos termos do cânone clássico, presta-se à metamorfose e à mistura, ensejando uma “bicorporalidade” em que os elementos se alteram e se encadeiam aos seguintes (ibidem, p. 59).

Kayser (2003) associa o grotesco ao que ele designa de elemento demoníaco do mundo (ibidem, p. 161) e informa que há animais preferidos pelo grotesco, como serpentes, corujas, sapos, aranhas – os animais noturnos e os rastejantes, que vivem em ordens diferentes, inacessíveis ao homem (ibidem, p. 157). Dentre esses animais, ele destaca o morcego, notável representante dessa modalidade discursiva, que se apresenta no cinema e na literatura crepuscular, de voo silencioso, com inquietante agudeza perceptiva e de segurança infalível nos rápidos movimentos (ibidem, p. 158). Não há como deixar à margem do grotesco os vampiros de Anne Rice30 (Lestat, Armand, Louis, a criança vampira Claudia etc.), bem como a dupla dinâmica Batman (homem-morcego) e Robin (inglês para o pássaro pintarroxo- comum).

Propp já havia se inquietado com esse tipo de humor, que tem como figura central o que ele chamou de homem-coisa, dedicando a essa reflexão todo um capítulo na sua obra Comicidade e Riso. Ele afirma que a representação do homem como coisa é cômica pelas mesmas razões e nas mesmas condições em que é cômica sua representação em vestes de animal (1992, p. 73). Inegavelmente, o humor atinge o ápice no vídeo da postagem com os movimentos do homem que lembram um helicóptero, mediante o que concordamos com Propp mais uma vez quando, ao citar Gogol31, estabelece nesse mesmo capítulo que:

O ser humano pode ser ridículo também em seus movimentos: “Aqui vai para vocês mais um sinal: quando anda, ele sempre agita os braços. Já o falecido assessor local Denis Petróvitch, sempre calhava de vê-lo por detrás, dizia: ‘Olhem, olhem, lá vai o moinho de vento” (PROPP, 1992, p. 75).

30 Escritora norte-americana dos gêneros terror e fantasia, celebrizada pela obra Entrevista com o Vampiro que foi transformada em filme em 1994.

Mas para Propp não é tão somente a semelhança entre o homem e a máquina que geraria um efeito humorístico, tanto que ele virá a discordar de Bergson que, refletindo sobre essa temática, estabeleceu que atitudes, gestos e movimentos do corpo humano são risíveis na exata medida em que esse corpo nos leva a pensar num simples mecanismo (1983, p. 18). Para Propp, o homem-mecanismo não é sempre ridículo, mas somente nas mesmas condições em que uma coisa é ridícula (1992, p. 77), efeito humorístico que se acentua quando a natureza íntima desse homem é revelada (ibidem, p. 77).

O humor em torno da fusão homem/máquina é retomado no enunciado verbal que sucede à postagem do vídeo, quando Cleycianne afirma que: “Eu até ficaria com inveja do crente helicóptero, mas o Senhor me fez assim, linda, loura, seios duros, praticamente um

Avião Gospel (grifo nosso), muito melhor, né?!! DURMAM COM ESSA RECALCADAS SATÂNICAS!!” Avião é um adjetivo elogioso, praticamente já em desuso, que faz referência

à mulheres muito bonitas e esculturais de corpo, não podendo ser usado apenas em referência a um rosto bonito. Ao se denominar um avião gospel, Cleycianne cria um jogo de palavras que também suscita o riso, ao propor uma oposição entre o homem-helicóptero, enquanto ridículo, e dela, enquanto uma mulher bonita e sensual, o que também se opõe aos rígidos valores protestantes para os quais a mulher não deve ser angulada numa perspectiva de corpo bonito e sensual, mas de espírito puro e livre dos pecados da carne. Inclusive, a forma como Cleycianne encerra essa postagem (DURMAM COM ESSA RECALCADAS SATÂNICAS!!) reforça a sua imagem pretendida de mulher sensual e bonita, invejada pelas visitantes do blog, ideia que também acentua o humor do site pelos seguintes motivos: a) em Cleycianne, a mulher deveria ser apresentada com a rigidez e o recato que se esperam de uma mulher protestante; b) entretanto, além da imagem de Cleycianne não corresponder a essa expectativa (sendo esse um dos caminhos do humor), a imagem de uma Cleycianne pura e recatada é sempre apresentada ao visitante do blog com tintas de deboche, ironia e paródia, contrastando com a própria imagem de santa que ela parece querer apresentar.

Do ponto de vista da forma discursiva, temos um grotesco do gênero atuado (vivido), da espécie chocante, pois o efeito humorístico está na referência risível à deformação e hibridização (pretendida na postagem) do homem em helicóptero (o que também o insere na espécie teratológica), embora o que se procure aqui seja a provocação superficial de um choque perceptivo com intenções sensacionalistas (ibidem, p. 69).

4.7 15 motivos para você não praticar o satânico Bukake

Figura 13

1. Seu rosto não é vagina para receber leite ungido;

2. Muitas japonesas adúlteras do Japão já morreram afogadas em esperma após serem punidas com um bukake;

3. Impede a continuação da sociedade, pois esse monte de esperma desperdiçado poderia estar fecundando alguma varoa louca para reproduzir;

4. Arde o olho;

5. Pode te deixar cega;

6. Dá espinhas, pois entope os poros da face;

7. Bukakes diários fazem parte da rotina de cantoras pop como Lady Gaga, Miley Cyrus e Katy Perry. Condições para manter o pacto com Satanás em dia;

8. Gangues homossexuais usam a técnica como forma de "batismo" para comemorar a "saída do armário" de seus membros;

9. Causa ressecamento dos lábios;

10. A palavra "Bukake" é muito parecida com "Cupcake". Muitas pessoas já aceitaram "Bukake" achando que era algo parecido com os bolinhos recheados, mas acabaram recebendo chuva de esperma na face;

11. Rola muito em Baile Funk;

12. Quem pratica ganha VIP para o inferno instantaneamente; 13. Vai ficar parecendo uma boneca de cera, só que feita de esperma; 14. Marco Feliciano não pratica;

15. Jesus também não.

DEUS É MAS, BUKAKE É MENAS!!

ANÁLISE

Segundo Pamela Paul32 (2006, p. 64), Bukake (ou bukkake) é uma prática sexual grupal, que consiste em vários homens (dois ou mais) ejacularem no rosto de uma pessoa ajoelhada. Essa prática passou a ser largamente difundida pela indústria pornográfica europeia e norte-americana a partir da década de 1990 e ganhou a reputação de ter sido uma forma de humilhação aplicada às adúlteras japonesas durante a Idade Média, ideia de que Cleycianne se utiliza na construção do efeito humorístico dessa postagem, na enunciação do segundo motivo

32 A jornalista Pamela Paul é editora da crítica literária do jornal The New York Times. Fonte: http://jimromenesko.com/2013/04/09/pamela-paul-is-named-new-york-times-book-review-editor/. Acessado em: 26 de outubro de 2013.

para não se fazer essa prática:“Muitas japonesas adúlteras do Japão já morreram afogadas em esperma após serem punidas com um bukake.”

Bakhtin é quem nos fornece, inicialmente, duas chaves de entendimento do discurso do grotesco manifesto na imagem da mulher com o rosto abundante exageradamente coberto de esperma: a) o exagero (hiperbolização) é efetivamente um dos sinais característicos do grotesco, embora Bakhtin não o considere como a natureza intrínseca da natureza grotesca (1999a, p. 268), e b) o aspecto topográfico da hierarquia corporal às avessas, o baixo ocupando o lugar do alto (ibidem, p. 270). Na figura 13, essa inversão topográfica comum ao elemento grotesco ocorre quando o esperma, que deveria estar no domínio hemisférico do baixo-ventre, é visualizado na cabeça, a parte mais alta do corpo, relacionada à inteligência, à razão, portanto o oposto simbólico da genitália. Cleycianne materializa essa inversão topográfica quando admoesta no primeiro motivo: “Seu rosto não é vagina para receber leite ungido.” A tentativa de ocultamento ou redução da materialidade grotesca do esperma se repete em muitas postagens, nas quais o líquido espermático é sempre chamado humoristicamente de leite ungido, como uma forma de tornar ridícula (e com isso produzir o riso) a tentativa de Cleycianne de sublimar os aspectos corporais da sexualidade masculina, a partir do uso de nomes e adjetivos que agreguem jargões ou imagens cristãs.

Numa postagem de 04 de agosto de 2011, intitulada “Como apelidar a sua vagina sem ser vulgar”33, Cleycianne propõe todos esses apelidos para o órgão feminino: bolsinha de Jesus, smilinguida, Jacozinha, ungidinha, florzinha ungida, centro reprodutivo, cabelinho de Jesus, abençoada, repouso do varão, peixinha do Rio Jordão, milagrosa, Hana Macantarava Suya, boquinha louvadeira, casulinho do bebê, amiguinha puro fogo, lábios ungidos, portinha do céu, abertura divina, casinha do Smilinguido, Mar Vermelho, porta neném e Cassiane. Posteriormente, no dia 31 do mesmo mês, Cleycianne posta a versão masculina intitulada “Como apelidar o pênis do seu varão sem ser vulgar34”, com os seguintes apelidos: cajado de Moisés, Smilinguido, mangueirinha de Leite Ungido, palhacinho de Jesus, lançador de sementinha, espada de Davi, microfone da unção, Torre de Babel, fazedor de neném, mastro da vitória, canetão do Senhor desenhar os mas lindos bebês, cogumelo do Sol, Josué, encaixe vaginal, narigão de Noé, serpente reprodutiva, rolo de macarrão (porque mulher que é ungida, pensa em cozinha até durante na hora da reprodução) e Edir Macedo.

33 http://www.cleycianne.com/2011/08/como-apelidar-sua-vagina-sem-ser-vulgar.html. Acessado em 27 de agosto de 2013.

Vejamos ainda o que diz Bakhtin sobre o corpo grotesco:

Por isso o papel essencial é entregue no corpo grotesco àquelas partes, e lugares, onde se ultrapassa, atravessa os seus próprios limites, põe em campo um outro (ou segundo) corpo: o ventre e o falo; essas são as partes do corpo que constituem o objeto predileto de um exagero positivo, de uma hiperbolização; elas podem mesmo separar-se do corpo, levar uma vida independente, pois sobrepujam o restante do corpo, relegado ao segundo plano (o nariz pode também separar-se do corpo). Depois do ventre e do membro viril, é a boca que tem o papel mais importante no corpo grotesco, pois ela devora o mundo; e em seguida o traseiro. Todas essas excrecências e orifícios caracterizam-se pelo fato de que são o lugar onde se ultrapassam as fronteiras entre dois corpos e entre o corpo e o mundo, onde se efetuam as trocas e as orientações recíprocas. Por isso os principais acontecimentos que afetam o corpo grotesco, os atos do drama corporal – o comer, o beber, as necessidades naturais (e outras excreções: transpiração, humor nasal, etc.), a cópula, a gravidez, o parto, o crescimento, a velhice, as doenças, a morte, a mutilação, o desmembramento, a absorção por um outro corpo – efetuam-se nos limites do corpo e do mundo ou nas do corpo antigo e do novo; em todos esses acontecimentos do drama corporal, o começo e o fim da vida são indissoluvelmente imbricados (BAKHTIN, 1999a, p. 277).

Com base nessa citação de Bakhtin, fica evidente porque o destaque na figura vai para o esperma (independente e separado do corpo que o gerou), tornando o rosto da mulher um elemento secundário e hierarquicamente abaixo dele, caracterizando-se plenamente a inversão topográfica a que Bakhtin se refere. O humor, então, começa a ser constituído na hipérbole da grande quantidade de esperma no rosto da mulher (pode-se questionar quantos homens seriam necessários para produzir toda aquele volume de esperma) e continua a ser construído no texto que segue.

No sétimo motivo do enunciado humorístico, lemos o seguinte: “Bukakes diários fazem parte da rotina de cantoras pop como Lady Gaga, Miley Cyrus e Katy Perry. Condições para manter o pacto com Satanás em dia.” Na grande busca pela fama através do viés da subversão, Lady Gaga incorpora o discurso do grotesco tanto nas canções que compõe quanto nas suas apresentações públicas. A referência de Cleycianne à cantora que se faz atualmente reconhecer como Mother Monster35 não é fortuita ou acidental.

A cantora nariguda subverte o padrão de diva do pop abraçando o grotesco, com ele fazendo sua trajetória na contramão do percurso que cantoras como Shakira, Britney Spears, Beyoncé, Madonna e Rihanna têm como receita de sucesso: a fiel observância à norma estética e aos padrões de beleza femininos vigentes.

34 http://www.cleycianne.com/2011/08/como-apelidar-o-penis-do-seu-varao-sem.html. Acessado em 27 de agosto de 2013.

Figura 14 – Lady Gaga vestida de carne

Por representar o feio escancaradamente, Lady Gaga é associada por Cleycianne ao diabo, outra metáfora do grotesco:

Na verdade, esses seres que carregam consigo o elemento do “diabólico” ou do “demoníaco”, estão associados a um estado de estranheza, pois são manifestações imaginárias de caráter grotesco que geram estranheza no leitor (VIEIRA, 2008, p. 84, grifo nosso).

Minois (2003), na sua História do Riso e do Escárnio, estabelece um paralelo entre o diabo e o grotesco, colocando-o no centro do grotesco romântico36. Refletindo sobre como Bakhtin pontuava o grotesco numa perspectiva carnavalizante e libertadora na sua análise à obra de Rabelais37, Minois considera que:

35 É assim que os fãs de Lady Gaga a chamam e, consequentemente, se auto-intitulam little monsters.

36 Designação de um grotesco individualizado e sem carnaval dada por Bakhtin (SODRÉ & PAIVA, 2002, p. 57).

37 BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. A cultura na Idade Média e no Renascimento: o contexto de

O riso irônico é um meio de se vingar do mundo. Esse riso, diz Mikhail Bakhtin, mudou de natureza desde Rabelais. Seu aspecto regenerador desapareceu em proveito de sua função libertadora. Libertadora porque, agora, o mundo provoca medo, e só o riso irônico pode livrar-nos do medo. O mundo grotesco romântico é assustador, monstruoso. Percebê-lo por meio do riso faz com que fique suportável. O próprio diabo, o diabo romântico, é grotesco, já que é, ao mesmo tempo, terrível e bufão, amedrontando e fazendo rir. Para Bakhtin, “no grotesco romântico, o diabo encarna o espantoso, a melancolia, o trágico. O riso infernal torna-se então sombrio e maldoso38” (MINOIS, 2003, p.531).

Na perspectiva de Propp (1992, p. 88), a comicidade aqui se instaura enquanto exagero cômico, e das três formas fundamentais que ele considera como constituintes do exagero cômico - a caricatura, a hipérbole e o grotesco -, as duas últimas estão indelevelmente presentes.

Do ponto de vista da forma discursiva, temos um grotesco do gênero representado (suporte escrito e imagístico), da espécie chocante, pois o efeito humorístico está na representação escatológica do banho de esperma no rosto (referência à secreções e partes baixas do corpo) e o que se procure aqui é tão somente a provocação superficial de um choque perceptivo com intenções sensacionalistas (SODRÉ & PAIVA, 2002, p. 69).

No documento O discurso do grotesco na mídia digital (páginas 93-103)