UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS LETRAS E ARTES – CCHLA
DEPARTAMENTO DE LETRAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS DA LINGUAGEM - PPgEL
O DISCURSO DO GROTESCO NA MÍDIA DIGITAL
ADRIANO CÉSAR LIMA DE CARVALHO
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS LETRAS E ARTES – CCHLA
DEPARTAMENTO DE LETRAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS DA LINGUAGEM - PPgEL
O DISCURSO DO GROTESCO NA MÍDIA DIGITAL
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem, na linha de pesquisa Linguagem e Práticas Sociais, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), como parte dos requisitos para a obtenção do título de mestre em Linguística Aplicada.
BANCA EXAMINADORA
_________________________________ Dra. Cellina Rodrigues Muniz (UFRN)
Orientadora
___________________________________ Dra. Maria da Penha Casado Alves (UFRN)
Examinadora Interna
___________________________________ Dr. Sírio Possenti (UNICAMP)
ADRIANO CÉSAR LIMA DE CARVALHO
O DISCURSO DO GROTESCO NA MÍDIA DIGITAL UM ESTUDO SOBRE O CIBERBULLYING
Dissertação para a obtenção do título de Mestre em Linguística Aplicada, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (PPgEL/UFRN).
Área de Concentração: Linguística Aplicada Linha de Pesquisa: Linguagem e Práticas Sociais
Orientadora: Profa. Dra. Cellina Rodrigues Muniz
DEDICATÓRIA
AGRADECIMENTOS
À caríssima Prof.ª Dr.ª Cellina Muniz por me orientar, não apenas com seu background
acadêmico tão brilhante, mas por sua amizade e capacidade de entrega que jamais esquecerei, sem mencionar o quanto de transformação e mudanças paradigmáticas que nossas conversas, referentes ou não, ao mestrado, me oportunizaram.
Aos amigos Prof. Dr. Adriano Gomes e Prof.ª Dr.ª Míriam Moema por acreditarem em meu potencial, pelo incentivo, carinho e paciência, sem os quais esse mestrado não teria deixado de ser apenas um sonho longamente almejado.
Ao companheiro Thiago Augusto Vieira da Silva pelo amor de todas as horas e por me apoiar nas minhas escolhas, nunca me deixando sentir solidão ou desamparo, apesar das incertezas comuns da vida.
À colega de mestrado e orientação Jociane da Silva Luciano, pela amizade, cumplicidade, paciência e carinho constantes, sem cuja parceria providencial os desafios teriam sido mais ásperos.
Aos amigos Thiago Cavalcanti e Thaísa Vieira por aquecerem meu coração com muito humor e amor nos meus dias de inverno na alma.
Aos amigos João Victor (colega de orientação), Tacicleide Dantas e Willame Sales (colegas no percurso), Maria José, Gianka Bezerril e Sílvio Luis (colegas doutorandos), pela presença marcante e inspiradora durante as aulas.
Da Perfeição da Vida: Por que prender a vida em
conceitos e normas?
O Belo e o Feio... O Bom e o Mau... Dor e Prazer... Tudo, afinal, são formas E não degraus do Ser!
RESUMO
Apresentamos, nesta dissertação, um estudo sobre o discurso do grotesco na mídia digital, especificamente em dois blogs. Apoiamo-nos sobre a base teórico-conceitual e metodológica da Análise do Discurso de Escola Francesa na leitura e interpretação de um conjunto de postagens dos blogs "Eu Sou Ryca" e "Cleycianne", partindo das proposições sobre o grotesco segundo Mikhail Bakhtin (1999a), Muniz Sodré e Raquel Paiva (2002), Wolfgang Kayser (2003) e Mary Russo (2000). O grotesco surge, inicialmente, como uma característica expressiva das pinturas ornamentais encontradas nas grutas romanas, no final do século XV, e hoje pode ser visto permeando desde esculturas, quadros, obras literárias, programas de auditório para a televisão, a vídeos hospedados no ciberespaço, no coletivo domínio dos weblogs. As expressões discursivas do grotesco analisadas nos blogs em questão resultam, predominantemente, em efeito humorístico, obtido, sobretudo, por meio de ironias e parodização, em que se apela para a ridicularização e para o rebaixamento, através de uma forte tensão entre o "belo" e o "feio", o socialmente aceitável e a aberração, o gosto pelo estranho e pelo esteticamente chocante. Este trabalho busca analisar como o discurso do grotesco constitui o processo humorístico, a partir da sua inserção no ciberespaço.
ABSTRACT
This study presents our research on the discourse of the grotesque in digital media, specifically in two blogs. We rely on the theoretical-conceptual and methodological discourse analysis of the French School. We analyzed a set of posts in the following blogs: Eu Sou Ryca and Cleycianne, and we did it based on some propositions on the discourse of the grotesque by Mikhail Bakhtin (1999a), Muniz Sodré and Raquel Paiva (2002), Wolfgang Kayser (2003) and Mary Russo (2000). The expressions of the grotesque analyzed in the blogs Eu Sou Ryca and Cleycianne result predominantly in humorous effect, obtained by means of irony and parodization, which calls for ridicule and relegation, through a strong tension between the beautiful and the ugly, the socially acceptable and the aberration, the taste for the strange and the aesthetically striking. The grotesque appears initially as a significant feature of ornamental paintings found in Roman caves in the late fifteenth century, and today it can be seen permeating from sculptures, paintings, literary works, talk shows for television, videos hosted in cyberspace, specifically in the collective domain of weblogs. This work seeks to analyze how the discourse of the grotesque constitutes the humorous process in its insertion in cyberspace.
LISTA DE FIGURA
FIGURA 1 Banner do blog Cleycianne. Cleycianne - A criatura. Disponível em: http://cleycianne.com... 53 FIGURA 2 Thiago Pereira. Disponível em: http://blogs.diariodonordeste.com.
br/navegando/blogs/por-tras-da-cleycianne-a-diva-do-senhor/... 53 FIGURA 3 Banner do blog Eu sou ryca. Disponível em:
http://eusouryca.com... 58 FIGURA 4 Cena da novela Beleza Pura que celebrizou o bordão “Eu sou Rica”.
Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=1G_FLcdN5tM... 58 FIGURA 5 Lady Liu. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=Yjt
8LtmTCYQ... 64 FIGURA 6 Postagem de visitante do blog Eu Sou Ryca. Indisponível em razão do
desativamento temporário do Blog... 64 FIGURA 7 Pai ganha bolo de aniversário com o rosto da filha. Disponível em:
http://ego.globo.com/famosos/noticia/2012/08/pai-de-claudia-leitte-ganha-bolo-de-aniversario-inusitado.html... 69 FIGURA 8 Cleycianne ganha pênis de borracha de sua filha no Dia das Mães.
Disponível em: http://www.cleycianne.com/2013/05/drama-em-cristo-cleycianne-ganha-penis.html... 73 FIGURA 9 A crente que enfiou o iPhone na vagina. Disponível em:
http://www.cleycianne.com/2013/01/a-crente-que-enfiou-o-iphone-na-vagina.html... 79 FIGURA 10 Norma Gusmão, personagem da novela Beleza Pura, sendo parodiada
gritando “Eu comi tomate”. Disponível em: http://economia.uol.com.br/album/2013/04/05/precodotomatevira -motivo-de-piada-nas-redes-sociais.htm#fotoNav=15... 85 FIGURA 11 Apresentador da Record coça o saco ao vivo durante telejornal.
Disponível em: http://www.cleycianne.com/2013/05/apresentador -da-record-coca-o-saco-ao.html... 87 FIGURA 12 Senhor faz crente virar helicóptero durante culto. Disponível em:
http://www.cleycianne.com/2012/06/senhor-faz-crente-virar-helicoptero.html... 92 FIGURA 13 15 motivos para você não praticar o satânico Bukake. Disponível em:
FIGURA 14 Lady gaga vestida de carne. Disponível em:
http://lounge.obviousmag.org/cool_and_fresh_sociology/2013/02/ela-e-feia-como-todo-mundo--lady-gaga-e-a-estetica-do-grotesco.html... 100 FIGURA 15 10 motivos para amar o pastor Silas Malafaia. Disponível em:
http://www.cleycianne.com/2013/02/10-motivos-para-amar-o-pastor-silas.html... 102 FIGURA 16 10 motivos (ilustrados) para você amar o Pastor Marco Feliciano.
Disponível em: http://www.cleycianne.com/2013/03/10-motivos-ilustrados-para-voce-amar-o.html... 107 FIGURA 17 10 coisas que o Povo de God gostaria que acontecessem no final de
"Salve Jorge". Disponível em: http://www.cleycianne.com/2013/
05/10-coisas-que-o-povo-de-god-gostaria.html... 108 FIGURA 18 Postagem do pastor Marco Feliciano no Twitter. Disponível em:
http://www.cleycianne.com/2013/03/10-motivos-ilustrados-para-voce-amar-o.html... 111 FIGURA 19 O pastor Marco Feliciano em dois momentos: com cabelo crespo e
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO... 13
1 Questões e objetivos de pesquisa... 14
1.1 Metodologia... 15
1.2 Análise do Discurso de Escola Francesa... 15
1.2.1 As quatro épocas da Análise do Discurso... 19
1.3 Articulando a Análise do Discurso com a Linguística Aplicada... 22
1.4 Estado da Arte... 26
1.5 Hipertexto: leitura self-service... 28
1.6 Percurso metodológico... 32
2 REFERENCIAL TEÓRICO 2.1 O grotesco... 35
2.2 Categorias do grotesco em Sodré e Paiva... 41
2.3 O grotesco e o ciberespaço... 44
2.4 Carnavalização... 45
2.5 Sátira menipéia... 47
2.6 Com ou sem humor... 49
3 NUS CORPUS DE EU SOU RYCA E CLEYCIANNE 3.1 Cleycianne... 53
3.2 Eu Sou Ryca... 58
3.3 A questão axiológica e o ato responsável bakhtiniano... 60
4 ANÁLISES 4.1 Lady Liu... 64
4.2 O bolo de aniversário... 69
4.3 O presente do dia das mães... 73
4.4 A crente que enfiou o iPhone na vagina... 79
4.5 Apresentador da Record coça o saco ao vivo durante telejornal... 87
4.6 Homem-helicóptero... 92
4.7 15 motivos para você não praticar o satânico Bukake... 96
4.9 A vez de Marco Feliciano... 107
4.10 Salve Jorge... 112
CONSIDERAÇÕES FINAIS... 118
REFERÊNCIAS... 121
SITES E LINKS... 127
INTRODUÇÃO
A primeira década dos anos 2000 assinalou o que parece, efetivamente, ser o início de uma era intensamente cibernética, em que quase nada escapa mais ao escrutínio de olhos atentos que monitoram a sociedade, vigilantes e sequiosos por novidades, em regime de incessante interação, seja pela tela de um computador pessoal, seja por meio de tantos e inúmeros equipamentos eletrônicos, alguns dos quais menores que a palma de nossa mão.
Política, ciência, religião, costumes, tradições, valores morais, ética, episódios prosaicos da rotina que se transformam em espetáculo, tudo agora alimenta a faminta bocarra da sociedade digital. E com essa expansão e deslocamento da sociedade para a Internet, surge uma nova dinâmica nas relações sociais, agora, mais do que nunca, midiatizadas, mediante o que se tornam necessárias investigações em torno das linguagens e gêneros em novos suportes e em novos contextos.
Este trabalho, partindo da justificativa acima, apresenta um estudo sobre o discurso do grotesco na mídia digital, especificamente em dois blogs que já fazem parte do nosso dia a dia há muito tempo, seja pelo próprio atrativo do discurso do grotesco que nos interessa e fascina profundamente, seja pelas boas gargalhadas que o humor desses blogs arranca de um público crescente, por meio de técnicas de humor as mais variadas. Os referidos blogs são Eu Sou Ryca e Cleycianne.
Nosso objetivo geral é, consequentemente, analisar o discurso do grotesco nos blogs
Eu Sou Ryca e Cleycianne. Para colimarmos tal propósito, arregimentamos esforços no sentido de analisar postagens textuais e imagéticas que apresentassem o discurso do grotesco, classificando essas postagens de acordo com os tipos e gêneros do grotesco propostos por Sodré e Paiva (2002), movidos pelo anseio de perceber como as articulações desse tipo de discurso se efetuam na produção do efeito humorístico e na carnavalização.
1 Questões e objetivos de pesquisa
O objetivo geral dessa investigação foi: “Como o discurso do grotesco se estrutura nos
blogs Eu Sou Ryca e Cleycianne, na produção do humor e da carnavalização?” As outras questões são:
1. Como o discurso do grotesco se estruturou nas postagens textuais e imagéticas dos blogs
referidos?
2. Como podem ser classificadas as postagens analisadas de acordo com os tipos e gêneros do grotesco propostos por Sodré e Paiva (2002)?
3. Que técnicas de humor foram empregadas na produção do efeito humorístico a partir das proposições de Propp (1992)?
Desta forma, tomando como ponto de partida o objetivo geral: “Analisar como o discurso do grotesco se estrutura nos blogs Eu Sou Ryca e Cleycianne, na produção do humor e da carnavalização”, vejamos os objetivos específicos para a realização dessa pesquisa:
1. Analisar as postagens textuais e imagéticas nos blogs referidos que apresentem o discurso do grotesco;
2. Classificar as postagens analisadas de acordo com os tipos e gêneros do grotesco propostos por Sodré e Paiva (2002);
1.1 Metodologia
1.2 Análise do Discurso de Escola Francesa
Michel Pêcheux (1990) é considerado o fundador da Escola Francesa de Análise do Discurso, escola que teoriza como a linguagem é materializada na ideologia e como esta se manifesta na linguagem.
Nessa concepção, o discurso é um lugar particular onde esta relação ocorre, estabelecendo como central a relação entre o simbólico e o político, isto é, uma textualização do político. É, entretanto, preciso que se diga que essa Teoria do Discurso é resultado da interlocução de Pêcheux (1990) com a Teoria das Ideologias, com a História, com o Materialismo Histórico, com a Linguística e com a Psicanálise, áreas das Ciências Sociais representadas por diferentes práticas discursivas, por diferentes atores sociais:
Pêcheux (1977) desenvolve uma crítica marxista da concepção foucaultiana do discurso, considerada do ponto de vista da categoria da contradição e conclui sobre a necessidade de “uma apropriação do que o trabalho de Foucault contem de materialista (BRANDÃO, 2004, p. 38).
Em 1969, Pêcheux publica Análise Automática do Discurso, livro que representa uma tentativa de virada na dominância da metodologia da análise de conteúdo em vigor, uma metodologia altamente formalizada, baseada em estatísticas e vinculada a uma concepção de leitura que pressupõe a literalidade do texto e um sujeito autor/leitor consciente. Essa Análise Automática do Discurso trará uma proposta teórico-metodológica com base em categorias do materialismo histórico, ao lado de uma reflexão que apontava para um dispositivo de análise que não excluía o político de suas discussões sobre a produção de sentidos e, ao mesmo tempo, deslocava a discussão da noção de indivíduo para a de posição-sujeito na produção discursiva.
não é um dado originário, pois ele possui uma genealogia. Essa genealogia não se dá sobre o fundo de uma identidade psicológica, mas no seio de uma série de práticas que dizem respeito aos saberes e ao poder. Já Pêcheux (1990), centra seu trabalho nas relações entre o sujeito, a língua e a história:
Para ele (Pêcheux) é impossível a Análise de Discurso sem sua ancoragem em uma teoria do sujeito, tema que também deve ser visto como um lugar problemático, que deve ser constituído (GADET, 1990, p. 9).
Pêcheux (1990) funda uma noção de sujeito apoiando-se na noção althusseriana que prevê o atravessamento da ideologia; e na noção lacaniana, que implica o inconsciente como constitutivo. Mais tarde, Pêcheux reconhecerá a contribuição teórico-metodológica de Foucault para a Análise do Discurso.
Graças à articulação do linguístico com o social (BRANDÃO, 2004), a chamada “Escola Francesa de Análise do Discurso” tem características muito próprias que a fazem estender-se para diversas áreas do conhecimento. Dentre essas características, destacam-se: união entre reflexão sobre texto e sobre história, fruto de uma articulação que surge a partir dos anos 1960 entre Linguística, marxismo e psicanálise, articulações que efetivamente possibilitam incursões de muito amplo espectro no texto que se pretende analisar.
A análise do discurso foi definida no seu início como o estudo linguístico das condições de produção de um enunciado, conceito mais tarde ampliado quando se passou a considerar: o quadro das instituições em que o discurso é produzido, as quais delimitam fortemente a enunciação; os embates históricos, sociais, etc. que se cristalizam no discurso; o espaço próprio que cada discurso configura para si mesmo no interior de um interdiscurso:
Dessa forma, a linguagem passa a ser um fenômeno que deve ser estudado não só em relação ao seu sistema interno, enquanto formação linguística a exigir de seus usuários uma competência específica, mas também enquanto formação ideológica, que se manifesta através de uma competência socioideológica (BRANDÃO, 2004, p. 17).
Dentro dessa perspectiva, compreende-se o discurso como sendo “efeito de sentidos entre locutores” (ORLANDI, 2010), pois à linguagem cumpre o papel de comunicar (e não o de não comunicar), e suas relações são relações de sujeitos e de sentidos e seus efeitos amplamente variados.
permanência e a continuidade quanto o deslocamento e a transformação do homem e da realidade em que ele vive. O trabalho simbólico do discurso está na base da produção da existência humana (ORLANDI, 2010, p. 15).
Foucault (1996) nos dá a ideia de discurso como uma dispersão, ou seja, como algo formado por elementos que não apresentam um elo comum, um princípio de unidade. Por esta razão, o encargo de promover inteligibilidade sobre essa dispersão é da Análise do Discurso, a qual empreenderá a tentativa de estabelecer as regras que resultam na formação dos discursos.
Tais regras, chamadas por Foucault de “regras de formação”, possibilitariam a determinação dos elementos que compõem o discurso, a saber: os objetos que aparecem, coexistem e se transformam num “espaço comum” discursivo; os diferentes tipos de enunciação que podem permear o discurso; os conceitos em suas formas de aparecimento e transformação em um campo discursivo, relacionados em um sistema comum; os temas e teorias, isto é, o sistema de relações entre diversas estratégias capazes de dar conta de uma formação discursiva, permitindo ou excluindo certos temas ou teorias (FOUCAULT apud BRANDÃO, 2004, p. 32).
A tradição firmada com Bakhtin da linguagem considerada sob a ótica da prática social, constitutiva da tessitura da realidade social, bem como dos sujeitos nela imbricados, ensejou que autores e teóricos vissem na linguagem marcas de exercícios e relações de poder.
No círculo de Bakhtin, a compreensão dialógica da linguagem fez oposição à visão
saussureana da língua como sistema deslocado da dimensão da prática social. Bakhtin (1999b, p. 96) propõe que na prática social da linguagem, o sentido de um enunciado não jaz na sua determinação da forma utilizada, mas nos novos significados que a linguagem enquanto realidade social possibilita.
Foucault (1996), ao estabelecer que o discurso é o lugar onde se exerce o poder, implica que discurso e linguagem se entrelaçam numa dinâmica em que se percebem avanços e recuos, resistência e dominação, refletindo bastante visivelmente, em determinadas situações, as relações sociais onde o poder vaza em todas as direções, e não apenas de cima para baixo. Dessa forma, o discurso pode ser percebido como um ponto de continuidade de quem veio antes – o discurso do sujeito não é original, mas só é possível porque alguém já o falou antes dele. E outro lhe dará prosseguimento (DANTAS, 2012, p. 40). Esse lugar
Por mais que o discurso seja aparentemente bem pouca coisa, as interdições que o atingem revelam logo, rapidamente, sua ligação com o desejo e o poder. Nisto não há nada de espantoso, visto que o discurso – como a psicanálise nos mostrou – não é simplesmente aquilo que manifesta (ou oculta) o desejo; e visto que – isto a história não cessa de nos ensinar – o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar (FOUCAULT, 1996, p. 10).
O discurso, então, para Foucault (1996) se estrutura em uma família de enunciados articulados em uma formação discursiva (BRANDÃO, 2004), e quatro características assinalam esse enunciado: 1ª) relação do enunciado com o seu correlato que ele chama de “referencial”; 2ª) relação do enunciado com seu sujeito; 3ª) existência de um “campo adjacente” ou “espaço colateral”, associado ao enunciado integrando-o a um conjunto de enunciados, e 4ª) emersão do enunciado como objeto, sua condição material (BRANDÃO, 2004, p. 33-36).
Foucault (1996) rompe com a ordem clássica que concebia a história numa perspectiva linearizante, uma espécie de sequência que se prendia e se encadeava a fatos anteriores, o que possibilitava presumir-se o que viria a seguir ou, pelo menos, encontrar uma lógica de sequência ou continuidade nesse raciocínio. Ele rompe, portanto, com esse discurso do contínuo na história e passa a vê-la como ruptura e descontinuidade. O reflexo disso na Análise do Discurso é que o sujeito não existe enquanto unidade, e sim dispersão. As muitas possibilidades de posicionamentos que o sujeito assume no discurso refletem, por sua vez, a descontinuidade dos planos de onde o sujeito fala. Logo, o sujeito deixa de ser a causa e a origem da significação do enunciado, que requer um exame mais detido nas práticas sociais de modo a gerar compreensões e inteligibilidades quanto ao seu campo de regularidades.
vê como pertencentes ao “sociologismo” e ao “humanismo teórico” (GREGOLIN, 2006, p. 37). O pensamento de Pêcheux se alinha com o de Bakhtin, entretanto, conforme pondera Gregolin (2006, p. 37), quando este último volve às bases saussurianas para tratar do conceito de língua enquanto sistema abstrato, disso derivando seu conceito de discurso.
1.2.1 As quatro épocas da Análise do Discurso
Marcada por deslocamentos, revisões e mudanças em seus conceitos basilares (FERNANDES, 2008, p. 86), a história da AD, não apenas na França, retrata um processo de constante elaboração e reelaboração de seu aparato teórico e metodológico, sempre de modo a responder às necessidades e demandas do tempo e do espaço onde seja albergada.
Pêcheux (1990) sintetiza as três épocas da AD (AD1, AD2 e AD3), não a partir de balizas cronológicas lineares e bem definidas, mas a partir das reformulações, rupturas, retomadas, saltos, que caracterizam essas fases. Com respeito ao texto de Pêcheux “A Análise do Discurso: Três Épocas”, Orlandi (2001) destaca que:
É preciso esclarecer que Análise de Discurso: três épocas não se trata de um texto "acabado" como os demais, mas de um esboço, de anotações que Pêcheux fazia sobre suas reflexões e que pontuam aspectos importantes dos diferentes momentos que constituem o campo teórico da Análise de Discurso (ORLANDI, 2001, p. 16).
A primeira época (AD1) tem início ao ser fundada a École Française d’Analyse du
Discours, em 1969, assinalando-se essa fase pelo anseio de construção de um aparato metodológico apto à exploração de uma maquinaria discursiva (fechada em si), onde se supunha existir estabilidade e homogeneidade nas condições de produção dos discursos, em termos de circunstâncias históricas e sociais de produção (COSTA, 2005, p. 17).
pós-saussureana). O sujeito era considerado assujeitado e detentor da ilusão de que era a fonte do discurso que (nele) veiculava.
Na segunda época (AD2), entra em cena o conceito foucaultiano de “formação discursiva”, que começa a fazer explodir a noção de maquinaria estrutural fechada uma vez que o dispositivo da formação discursiva está em relação paradoxal com seu exterior
(PÊCHEUX, 1990, p. 314). A implicação disso era que uma formação discursiva era constituída de outras formações discursivas (FD). Costa (2005) posiciona-se da seguinte maneira com relação a esse segundo momento:
Podemos dizer que nesta segunda fase se instaura o primado da relação. A relação entre uma formação discursiva (FD) e seu exterior: entre formações discursivas ou entre uma formação discursiva e o interdiscurso, ou ainda, entre uma formação discursiva e o “pré-construído” ou “memória discursiva” (COSTA, 2005, p. 25).
Surge aqui, a noção de interdiscurso, como fazendo referência ao exterior de uma formação discursiva, o que não deixa de caracterizá-lo ainda como relação, encadeamento e articulação entre discursos:
O interdiscurso consiste em um processo de reconfiguração incessante no qual uma formação discursiva é conduzida [...] a incorporar elementos pré-construídos produzidos no exterior dela própria; a produzir sua redefinição e seu retorno, a suscitar igualmente a lembrança de seus próprios elementos, a organizar a sua repetição, mas também a provocar eventualmente seu apagamento, o esquecimento ou mesmo a denegação (COURTINE & MARANDIN, 1981 apud BRANDÃO, 2004, p. 91).
Na AD2, permanece a noção de sujeito assujeitado à Formação Discursiva à qual ele se filia; retoma-se a noção de dispersão do sujeito e abandona-se a ideia de unidade do sujeito, que passa a ser concebido como aquele que desempenha diferentes papéis de acordo com as várias posições que ocupa no espaço interdiscursivo (MUSSALIM & BENTES, 2009, p. 133).
Na AD3, ocorre a desconstrução da ideia de maquinaria discursiva fechada, dando-se o primado teórico do outro sobre o mesmo, além de também se darem os seguintes acontecimentos:
passa a ser abordada e as reflexões sobre a heterogeneidade enunciativa levam à discussão sobre o discurso-outro. São colocadas, enfim, várias interrogações acerca do sujeito do discurso, do espaço de memória, e sobre a Análise do Discurso em si, enquanto procedimento de análise, e até mesmo sobre a possibilidade de redefinição de uma política da Análise do Discurso (FERNANDES, 2008, p. 89).
Costa (2005, p. 45) propõe como características da quarta época da AD: a relativização do assujeitamento, o qual pode dar-se em graus vários, por isso mesmo não se apresentando absoluto, tendo-se que levar em consideração o recorte da instância social em que esse sujeito é analisado; o caráter de interdisciplinaridade aqui figura múltiplo, com uma tendência para a etnologia, antropologia, midiologia etc.; as marcas do materialismo histórico e dialético, bem como do dialogismo bakhtiniano são reforçadas. Como princípios metodológicos, rejeitará tudo o que “cale” o objeto empírico por meio de grades analíticas, estatísticas, dispositivos formais etc., havendo o concurso mais amiúde de análise qualitativa e interpretativa dos fatos discursivos.
Costa (ibidem) também elenca como procedimentos metodológicos da AD4, no tocante ao objeto empírico (unidade de análise) o texto, o qual não é visto como ponto de partida absoluto, dado que o pesquisador não se lança na pesquisa sem sua própria bagagem de ideias, premissas, posicionamentos e (pré)conceitos. O texto, então, não é visto como estanque, mas como um “elo da cadeia” do fluxo ininterrupto que é a linguagem (Bakhtin). Esse recorte é o corpus (ibidem, p. 45). E o objeto teórico será o discurso, a discursividade e a interdiscursividade.
Como princípios teóricos dessa quarta época, Costa (ibidem) vê o discurso como um processo movente, uma intervenção no mundo: a prática discursiva é a prática de sujeitos que só se constituem enquanto tal porque vivem em sociedade; portanto, o primado da prática é também primado do interdiscurso (ibidem). Ele ainda destaca os sujeitos não apenas como singulares e sociais, mas como interventores no mundo, na medida em que constroem, destroem e mantem instituições por meio de seus esforços. Ele ainda pontua que o estudo da discursividade se detém na articulação radical entre uma prática enunciativa e lugar social dos sujeitos dessa prática (ibidem). E conclui Costa:
Percebemos nessa desterritorialização experimentada pela AD4, um processo em curso que vem tocando e abrangendo todas as práticas sociais mediadas pela mídia digital, como reflexo de um mundo que vê suas fronteiras culturais paulatinamente desaparecendo em meio à globalização em curso.
1.3 Articulando a Análise do Discurso com a Linguística Aplicada
Ao se situar a linguagem como prática discursiva, adiciona-se aos estudos da Linguística Aplicada (LA) a dimensão do olhar crítico e atento às relações de poder de que o texto se torna plataforma, graças à materialidade histórica da linguagem através do discurso, sem, contudo, se poder nutrir a pretensão de se estar consciente de tudo full time e de se poder abarcar todo o universo simbólico presente na sua malha (ORLANDI, 2010, p.10). A análise da discursividade da linguagem se dá por meio dos vestígios e pistas que constituem os sujeitos e a produção de sentidos, na historicidade do texto, na tentativa de resgatar os trajetos ideológicos que marcam e permeiam as palavras.
Em razão de tentar criar clareza, inteligibilidade e possibilidades de entendimento em torno de problemas sociais que se consubstanciam na linguagem, a LA, ao posicionar-se nas ciências sociais, oferece as mais excelentes ferramentas de investigação e de olhar crítico, entendendo-se aqui o sentido de crítico enquanto objetivo, mas que se distancia do objeto, ensejando poder destacar a relevância social das suas investigações através de uma prática problematizadora, nos moldes e tradições das pesquisas neomarxistas (PENNYCOOK apud MOITA LOPES, 2006, p.67).
Espaço onde o saber e o poder se articulam (BRANDÃO, 2004, p.37), o discurso aponta para um lugar de onde se fala, de onde um saber institucional é gerador do poder que se disputa e dos elementos de controle desse mesmo poder, que o controlam, selecionam, organizam e redistribuem (FOUCAULT, 1996, p.8-9), através de um jogo estratégico de ação e reação, pergunta, resposta e luta, em que tudo o que representa ameaça a esse poder deve ser eliminado. A linguagem, portanto, vista nessa perspectiva de prática discursiva, permite-nos relacionar sujeito e sentido, fornecendo-nos instrumentais de como perceber esse sujeito produzindo sentido e sendo por ele produzido por meio da ideologia e da política.
Com base nesses entendimentos que sedimentam nossa prática investigativa e nossos rumos na pesquisa em LA, é que presenciamos um perene diálogo entre muitas teorias da contemporaneidade e a LA, o que confere a esta última, consoante o olhar de Luiz Paulo da Moita Lopes (2006, p.14), esse epíteto assaz interessante, atual e oportuno de LA mestiça ou nômade, acentuando-se, a partir daí, suas possibilidades interdisciplinares e transdisciplinares. Esse diálogo com teorias as mais diversas enseja, inevitavelmente, que a LA passe a albergar, na sua ampla esteira, concepções divergentes e similares de LA, fato que não lhe compromete nem arruína a sua criticidade, ao contrário trazendo a marca desses novos tempos em que a pluralidade e multiplicidade de posicionamentos e as diferentes perspectivas cada vez mais magnificam o valor do que se pesquisa, do que resulta uma multidão de diferentes objetos de conhecimento, cada qual com suas características e propriedades (ORLANDI, 2012, p. 18).
A LA, hoje apresentada enquanto indisciplinada e transgressora, leva em consideração na sua pauta de debates a heterogeneidade, fragmentação e mutabilidade do sujeito social (MOITA LOPES, 2006, p.27), sem deixar também de contemplar questões políticas, éticas e de poder no entorno desse sujeito, enquanto produtor e produzido pela/na linguagem. Esse novo prisma abriu espaços cada vez mais amplos para pesquisas que se debruçassem sobre as possíveis relações entre linguagem e classe social, etnia, raça, gênero, sexualidade, nacionalidade etc., levando os pesquisadores aos chamados campos de estudos
queer, feministas, afro-asiáticos, entre outros, o que jamais poderia se efetivar na prática se a LA não tivesse se tornado interdisciplinar, transdisciplinar, transgressora, mestiça, nômade, híbrida, ousada, fronteiriça, violadora etc.
mudanças no percurso investigativo (LEFFA, 2001, p.2), sem o que a pesquisa se tornaria inviável.
Uma sociedade, um sujeito e sua linguagem vistos como mutantes, moventes, fragmentados, contraditórios, contingentes, líquidos, fluidos, histórica e socialmente, não podem, consequentemente, ser analisados por disciplinas que se mostrem estáticas e que não dialoguem numa perspectiva interdisciplinar e transdisciplinar com o mundo contemporâneo e suas multifaces. A percepção da fluidez das identidades e das sociedades (BAUMMAN, 2001, p.14) foi decisiva no desencadeamento da mudança de paradigmas e dos novos rumos das pesquisas realizadas no âmbito da LA. De acordo com Vieira (2009), o objetivo desse novo paradigma seria o de estabelecer uma aliança antihegemônica e antiexcludente, contrariando a concepção tradicional de vida social que encara os sujeitos como homogêneos e os discursos como globalizados.
As mudanças na cultura e no cenário político motivadas pela exacerbação e asselvajamento do capitalismo e da consolidação de uma sociedade de consumo, o avanço do feminismo, o fim do sonho positivista que salmodiava um estado de perfeição a ser alcançado no futuro, uma insatisfação permanente e inarredável (BAUMAN, 2001, p.26), as crises nos valores socioculturais e instabilidades nas instituições outrora pétreas como a religião e a família, deram no século XX origem a um cinismo e a uma duradoura desilusão angustiosa que se fez notar nas artes e na literatura.
Importante, igualmente, destacar uma postura que tem sido a pedra angular nos atuais percursos e trajetos da LA, definida por Pennycook (apud MOITA LOPES, 2006, p.82) como
o imperativo foucaultiano de sempre interrogar nossos próprios modos de pensar, de manter um ceticismo constante em relação aos conceitos e modos de pensar que preferimos,
imperativo esse que tem possibilitado à LA transgressiva engajar-se sempre em práticas problematizadoras.
Ao caráter digital das novas mídias que estruturam essa cultura da convergência, agregam-se as características de um (ciber)espaço plástico, fluido, funcionando em tempo real, preciso, hipertextual e interativo. Levy ainda propõe a perspectiva, acerca do ciberespaço, de que ele, já no início desse século, se tornaria o principal canal de comunicação e suporte de memória da humanidade (1996, p.95).
Essa revolução digital, tendo a Internet como grande epicentro de transformações econômicas, identitárias, culturais e linguísticas (KUMARAVADIVELU apud MOITA LOPES, 2006, p.131), tem impactado o mundo de três maneiras especiais: 1ª) diminuindo a distância espacial entre as pessoas, que passam a se influenciar mutuamente como se estivessem no mesmo território, graças ao que emergiu a ideia de desterritorialização, que por sua vez implica concomitantemente uma reterritorialização da subjetividade (LEVY, 1996, p.49), sendo essa virtualização do espaço geográfico uma marca distintiva do ciberespaço; 2ª) diminuindo a distância temporal, desencadeando mudanças e impactando vidas em tempo real, e 3ª) dissolvendo as fronteiras nacionais, comerciais, culturais, normativas, valorativas etc.
As contribuições do trabalho de Stuart Hall (2002), esclarecendo-nos quanto ao aspecto de sujeito interpretativo de que nos constituímos, razão porque as ações alheias, ao serem interpretadas (e concomitantemente sendo o objeto da atribuição de sentidos dos sistemas ou códigos de significados que constituem nossas culturas), logram determinar que o alcance dessas culturas se expanda através de toda ação levada a efeito no universo social, mediante a maneira como atribuímos sentidos e significações ao mundo. E ao discutir esse aspecto de produção de culturas na nova mídia digital, Hall (2002) aponta para uma homogeneização cultural, paradoxalmente sustentada por uma força que acentua as diferenças através de múltiplas identificações, gerando um mundo híbrido e diversificado, onde as disputas pelo poder ocorrem nos âmbitos discursivo e simbólico.
A gênese das nossas identidades culturais se daria ao respondermos às interpelações do universo sociocultural para que assumamos posicionamentos, para que nos identifiquemos ou nos diferenciemos pela atração ou pela repulsão, frente às significações discursivas que nos atravessam no dia a dia, bem como através de nossas próprias pressões psíquicas, sejam elas conscientes ou inconscientes, de cujo diálogo incessante, no tempo e no espaço, resulta a nossa identidade, que se apresenta movente, dinâmica, em processo de definição e redefinição constante.
semiotizar e representar simbolicamente as coisas, as pessoas, o mundo etc., apontando para a linguagem como elemento que, ao mesmo tempo em que é construído socialmente, simultaneamente constrói o simbólico, o discursivo, o ideológico, as representações sociais, de cuja atitude nasce, ademais, a expressão “virada cultural”, como nova forma de pensar a cultura e a linguagem, gerando o entendimento de que toda prática social tem condições culturais ou discursivas de existência, isto é, dependem do significado para funcionarem e produzirem efeitos, discursivamente (ibidem, 2002).
1.4 Estado da Arte
Importa informar desde já que não existe um volume grande de trabalhos acadêmicos sobre o grotesco, razão pela qual não faremos referência a uma caudal de dissertações, teses e autores que se debruçaram sobre o tema. Especificamente, não encontramos nenhum trabalho analisando o grotesco nos blogs por nós escolhidos, apesar de, conforme mostraremos em nosso estado da arte, termos encontrado algumas vezes o grotesco associado ao cômico e ao riso.
Almeida (2007) analisa em seu trabalho, ora por meio de um método histórico-sociológico, ora através de um método biográfico-psicológico, a poética de três autores do início do século XX: Augusto dos Anjos, Mário de Sá-Carneiro e Ramón López Velarde, trazendo como elemento central e construtivo das obras analisadas o corpo grotesco. Recorre Almeida (2007) na sua investigação a dois teóricos por nós também considerados fundamentais na realização do nosso trabalho: Mikhail Bakhtin, com o seu realismo grotesco, e Wolfgang Kayser, com o seu grotesco romântico.
Feitosa (2011) analisa os romances “Noites no circo”, de Angela Carter, “Exílio”, de Lya Luft, e “The Biggest Modern Woman of the World”, de Susan Swan, com as lentes do grotesco. Essa possibilidade de análise se mostra especialmente acurada dado o fato de as personagens centrais desses romances estarem situadas em espaços deslocados do centro de poder, marginalizadas por se enquadrarem esteticamente na categoria grotesca. A grande aproximação desse trabalho com nossa pesquisa é no sentido mesmo de trazer o grotesco enquanto um dispositivo de questionamento e discussão em torno daquilo que deve ser (e por que deve) como socialmente aceito e/ou aberração.
Gil (2011) traz uma pesquisa sobre o modelo de corporalidade propalado pela cinematografia atual e que, inspirado pelo movimento cyberpunk, recorre à estética grotesca na produção de novas concepções sobre corporeidade e conflito mente/corpo. A aproximação desse trabalho com o nosso se dá na medida em que o ciberespaço figura como um elemento recorrente, no qual as novas mídias se inserem como lugar de diálogo privilegiado. A comparação corpo/hardware e mente/software trazida nesse trabalho se nos afigura extremamente pertinente nas discussões do grotesco contemporâneo, em se considerando que, da mesma forma que a cinematografia cyberpunk fundiu essas duas instâncias antes separadas pelo cânon cartesiano, historicamente no universo grotesco elas sempre estiveram integradas, inseparáveis.
Miranda (2009) analisa na sua dissertação os percursos humorísticos do grotesco através da charge na mídia jornalística impressa, detendo-se nos aspectos discursivos e na produção de sentido no texto de humor, seja imagético ou verbal. Conclui a autora que, na sua significação social, a fealdade e a estranheza proporcionadas pelo grotesco, constroem o sentido de entretenimento humorístico que se pode produzir na busca do cômico chargístico.
Vieira (2008), ao analisar a prosa de Fialho de Almeida, escritor português do final do século XIX e da primeira década do século XX, identifica-o como escritor decadentista, dada à sua recorrência a elementos que o filiam à crença no artificial, à consciência da degenerescência humana (psíquica) e ao niilismo, filiação que se realiza através da apresentação de personagens bizarras e estranhas, deformadas e grotescamente distorcidas. A prosa fialhiana, observa Vieira (2008), nos tira o chão sob os pés e, ao fazê-lo, realiza aquilo a que se propõe o grotesco, isto é, desconstruir a ordem vigente, instituir a anormalidade, derrubar, por fim, as barreiras que separam o belo do feio, o mundano do sublime.
Hora do Mução” e “Fala, Gente Fina”. A autora recorre às categorias do grotesco de Muniz Sodré e Raquel Paiva (2002), as mesmas que utilizamos em nosso trabalho, dessa forma se aproximando de nossa pesquisa. Zampar (2010) propõe que o uso do grotesco nos referidos programas radiofônicos de humor gerou uma fidelização do público e, não apenas isso, mas um aumento na audiência das suas respectivas emissoras. Um outro fato curioso veio à tona nessa pesquisa: a autora observou que, enquanto alguns anunciantes temiam ter seus produtos associados ao grotesco, o que geraria queda de vendas, outros encontraram nisso um forte atrativo entre o público jovem.
Apesar de algumas aproximações e dos muitos distanciamentos com os trabalhos referidos, sentimos reforçar-se a importância da nossa pesquisa que certamente dialoga com as outras aqui pontuadas. De fato, são recentes os estudos em torno dos fenômenos culturais e sociais que ocorrem na Internet, no ciberespaço e nos blogs, e no tocante ao uso do grotesco nessas esferas, seja pela busca do efeito humorístico ou simplesmente pelo sentido de estranheza, nossa pesquisa penetra um território que muito ainda poderá revelar à medida que mais pesquisas se realizarem.
1.5 Hipertexto: leitura self-service
Nova forma de organizar o texto, o hipertexto teve o seu nome proposto em meados dos anos 60, quando Theodore Nelson desejou exprimir a ideia de escrita/leitura não linear em um sistema de informática (LEVY, 1993, p. 23), algo semelhante a uma biblioteca na qual o leitor disporia de relativa liberdade na sua exploração, não apenas restringindo-se à mera leitura, mas podendo também escrever, deixar comentários em formato de vídeo ou áudio nos livros, filmes, imagens, interagindo, interconectando-se globalmente. Mas Levy (ibidem) informa que foi o matemático Vannevar Bush, mediante o projeto Memex, que o idealizou em 1945.
O hipertexto demanda uma forma de leitura que poderíamos chamar de self-service no que concerne à exploração dos hiperlinks dispostos na superfície semiolinguística da tela. Em outras palavras, é o “consumidor” (no sentido empregado por Certeau, 1999) quem folheia o cardápio disponível naqueles sítios digitais, seleciona o que vai querer e, em seguida serve-se das “iguarias” dos hiperlinks que mais lhe apetecerem, na porção que desejar e na mesma velocidade do fluxo do pensamento (ibidem, p. 212).
As recentes possibilidades de apreensão e construção de sentidos, bem como as novas formas de veiculações discursivas, ambas por meio de sons, gráficos, diagramas, imagens 3d, com que nos amalgama o atual momento de tecnocracia em que vivemos na globalizada
sociedade de informação, se por um lado situa o hipertexto numa plataforma de obrigatória adesão por parte dos sujeitos sociais, por outro amplia os processos de exclusão a que são arrojados os que ainda não fizeram sua inserção no mundo virtual. Na definição crítica de Xavier:
Há uma nova ordem mundial – a tecnocracia – que se vislumbra inevitável anunciando a hegemonia da globalização nas relações econômicas, do neoliberalismo como ideologia política e da informática digital no domínio tecnológico. Esta conjuntura nos tem imposto um formato de texto sobre o qual os discursos doravante deverão se (hiper)textualizar. Refiro-me ao hipertexto protocolo oficial da tecnocracia que, com todas suas idiossincrasias, nos coloca como desafio uma, no mínimo, diferente forma de abordar os materiais legíveis e, por conseguinte, interpretar o mundo (XAVIER, 2002, p. 208).
Graças ao hipertexto, consumimos o mundo e somos por ele consumidos a uma velocidade estonteante; estamos virtualmente e em tempo real discutindo e observando os grandes acontecimentos da hora, sob a impressão de que o mundo inteiro (ou as partes que nos interessam) cabem no monitor do nosso computador pessoal, no nosso tablet, no nosso
smart phone etc.
Algumas características do hipertexto o tornam imensamente inovador. Levy (1993) elenca seis dessas características ou princípios abstratos que fortalecem a ideia do hipertexto enquanto uma revolucionária tecnologia de linguagem:
papel nas formas pelas quais se conforma ou rompe com as demandas sociotécnicas dos sujeitos operando ou implicados no contexto hipertextual. A atividade do sujeito-leitor relaciona-se diretamente com este princípio, determinando a mutabilidade da rede hipertextual. Se tomarmos os blogs como exemplo, esse princípio se verifica no fato de que, a todo instante, o blog é modificado pelo internauta que o acessa, quer seja pelo compartilhamento de suas ideias e opiniões, adicionando vídeos, imagens, textos, seja pela própria ação do proprietário do blog quando adiciona ou remove o que bem queira;
2ª) Princípio de heterogeneidade: Os nós e as conexões de uma rede hipertextual são heterogêneos (ibidem, p. 15). Diferentes formas de documentação são vistas no hipertexto: imagens, sons, textos, softwares, jogos, gêneros, sensações etc. A diversidade social e cultural dos sujeitos envolvidos na malha hipertextual se expressa através de multimodos e multimídias, seja digital ou analogicamente, ensejando que o processo sociotécnico coloque
em jogo pessoas, grupos, artefatos [...], com todos os tipos de associações que pudermos imaginar entre estes elementos (ibidem, p. 15).
3ª) Princípio de multiplicidade e de encaixe das escalas: O hipertexto se organiza em um modo "fractal", ou seja, qualquer nó ou conexão, [...] pode revelar-se como sendo composto por toda uma rede (ibidem, p. 16). A falta de uma unidade interna no hipertexto articula um sem número de textos entre si, anulando a ideia de sequenciamento entre os conhecimentos e informações que compõem sua malha. Nesse tocante, Xavier (2002) acrescenta:
Em relação ao texto convencional, o hipertexto não impõe ao leitor uma ordem hierárquica de partes e seções a serem necessariamente seguidas. Há na tela um esboço com caminhos sugestivos, totalmente “violáveis”, pois um dos princípios fundamentais que norteiam os construtores de hipertextos é optimização ao máximo das escolhas de trilhas no ciberespaço. A consequência direta disso é a multiplicação das opções de perspectivas do usuário que poderá, caso queira, checar em tempo real outras “fontes”, para só depois chegar a uma conclusão própria referente a uma dada questão, claro que não tão independentemente quanto deveria, não nos iludamos (XAVIER, 2002, p. 211).
4ª) Princípio de exterioridade: A rede não possui unidade orgânica, nem motor interno
diminuição, sua composição e sua recomposição permanente dependem de um exterior indeterminado: adição de novos elementos, conexões com outras redes, excitação de elementos terminais (captadores), etc. (ibidem, p. 16).
5ª)Princípio da topologia: Nos hipertextos, tudo funciona por proximidade, por vizinhança. Neles, o curso dos acontecimentos é uma questão de topologia, de caminhos. [...] A rede não está no espaço, ela é o espaço (ibidem, p. 16). Esse princípio guarda relação com o caráter de deslinearização do hipertexto, ao que recorremos a Xavier (2002) quando nos elucida que:
Afirmar que o hipertexto é deslinearizado não equivale a dizer que ele seja um conjunto de enunciados justapostos aleatoriamente, um mosaico de frases randômicas. Esperét (1996, p. 151) afirma que, dentro de um contínuo de linearidade, o hipertexto apresenta um maior distanciamento das formas tradicionais de hierarquizações por ser mais flexível na sua formatação visual, estocagem do material discursivo e, sobretudo, por colocar na mão do usuário um maior controle sobre a seleção das unidades de informação. Todavia, para ser inteligível, o hipertexto – como qualquer tecnologia enunciativa – precisa apresentar alguma linearidade, pois não pode subverter os níveis de organização das línguas naturais (sintaxe, semântica e pragmática) utilizada em uma dada sociedade (XAVIER, 2002, p. 214).
Essa quebra da linearidade da leitura, embora assuma uma condição a priori no hipertexto que já nasce assim, pode também ser encontrada nos textos tradicionais por meio das notas de rodapé, sumários, índices remissivos, divisão em capítulos etc. É a ausência de um foco dominante de leitura que marca fortemente a deslinearização hipertextual, materializada na multiplicidade de caminhos possíveis na leitura de um hipertexto, isto é, o leitor escolhe como fará esse trajeto. Vale destacar também, conforme alerta Xavier (2002, p. 211), que essa liberdade não é ideal, mas possível, pois o produtor do hipertexto é quem decide disponibilizar ou não links para outros hipertextos afins.
encaixe das escalas, que propõe o hipertexto como algo fractal, isto é, uma figura geométrica dividida em infinitas partes igualmente geométricas, onde cada uma das partes é semelhante ao objeto original. Esse princípio também acena com a inexistência de fronteiras, pois o hipertexto permite uma navegação para além dele próprio.
Além desses princípios propostos por Levy (1993), Bolter (1991, p. 25 apud XAVIER, 2002, p. 214) refere-se a um outro aspecto singular do hipertexto: a leitura sinestésica, a qual se caracteriza pela mobilização multissensorial, o que sem sombra de dúvida torna a trajetória pelo hipertexto muito mais envolvente comparativamente aos textos tradicionais.
Xavier (2002, p. 214), ademais, nos chama a atenção para a pluritextualidade ou multissemiose como elementos que tornam o hipertexto fascinante, por viabilizar a absorção de diferentes aportes sígnicos numa mesma superfície de leitura, tais como palavras, ícones animados, efeitos sonoros, diagramas e tabelas tridimensionais. Ele ainda acrescenta que a fusão dessas várias linguagens em um mesmo ato de leitura provoca um construtivo, embora volumoso, impacto perceptual-cognitivo no processamento da leitura.
1.6 Percurso metodológico
Silva (2008) nos fornece a compreensão de que, uma vez que o ciberespaço passou a ser um novo campo de inter-relações humanas, as práticas sociais envolvendo a linguagem oportunizaram que o foco de interesse das pesquisas sociais (e adimos por nossa vez, especialmente as de natureza linguística) para lá fosse naturalmente direcionado.
A nossa pesquisa se trata, portanto, de pesquisa qualitativa, em razão de não recorrermos a quantificações, enumerações de eventos ou instrumentais estatísticos.
O corpus pesquisado, ademais, não é um texto escrito em suporte de papel; é um conjunto de textos verbais, não verbais, filmes (videoclips originalmente hospedados no youtube), imagens (reais e/ou editadas), todos parodiados para gerar efeito humorístico, hospedados no ciberespaço, nos domínios digitalizados dos weblogs.
Guiou-nos, igualmente, em nossa investigação, a guisa de norte metodológico, a sincera interrogação da relevância social do tema, como consequência direta de tudo que se postula no território da Linguística Aplicada (MOITA LOPES, 2006, p.59), o que nos descortinou os vários atores sociais envolvidos no fenômeno focalizado, a dimensão crítica das realidades sociais implicadas no discurso do grotesco e seus sentidos históricos e socioculturais apreendidos.
Procuramos nos ditames de nossa investigação, portanto, os elementos geradores de efeito humorístico e carnavalesco (neste último caso, quando se fizessem presentes) que incidem sobre o discurso do grotesco, nas postagens do referido blog, tais como: a linguagem (enquanto prática situada histórica, cultural e socialmente), a forma de articular os sentidos e as diferentes vozes sociais que entrecortam e compõem a malha multiforme das postagens analisadas.
Como lente crítica do aspecto cômico, debruçamo-nos sobre as proposições de Vladimir Propp (1992) no tocante à comicidade e ao riso.
Na análise do efeito carnavalesco, refletimos sobre as proposições de Bakhtin (1999a). Quanto ao grotesco considerado na sua amplitude e em suas variadas e mutantes expressões, auxiliaram-nos as proposições de Bakhtin (1999a), de Russo (2000), de Kayser (2003) e de Sodré e Paiva (2002).
No específico aspecto da tipologia do discurso do grotesco adotada nessa pesquisa, Sodré e Paiva (2002) é quem nos forneceu uma proposta de gêneros e espécies do grotesco, aos quais recorremos na análise de todas as postagens.
Outros teóricos da comicidade, do riso, do feio e do grotesco também foram nossos interlocutores na análise de algumas postagens, dentre eles: Eco (2007), Bergson (1983) e Minois (2003).
Em seguida, demarcamos um espaço de tempo para considerarmos, sobretudo, a recorrência de certos elementos discursivos que interessaram à nossa investigação, do que resultou a coleta dos dados que foram analisados na perspectiva teórica acima detalhada.
no formato hipertextual do site, para lançarem um novo conceito de postagens e, às vezes, por motivos de agenda profissional mesmo (ambos os blogueiros são DJs muito requisitados em todo o Brasil, como se pode ver em sua agenda de trabalho em seus perfis do Facebook), ficando o blog sem postagens durante períodos que podem variar de dias, semanas e até meses. Por essa razão, usamos as duas únicas postagens do blog Eu Sou Ryca que havíamos coletado em agosto de 2012 em nossas análises. Por ter sido Eu Sou Ryca o primeiro blog na categoria humorística a nos chamar a atenção, dada à abundância do discurso do grotesco que nele encontramos, decidimos não descartá-lo ou substituí-lo por outro blog humorístico. Quanto ao blog Cleycianne, fizemos a coleta no período de 01 de janeiro a 30 de junho (seis meses). A escolha do período de seis meses (e não um trimestre, por exemplo) aconteceu em razão de as suas postagens se verificarem em intervalos muito grandes, ocorrendo às vezes de não se verificar nenhuma postagem, ou apenas uma num determinado mês, provavelmente em razão da agenda profissional do blogueiro como DJ.
Assim, o corpus do estudo foram os blogs da Internet Cleycianne e Eu Sou Ryca, por apresentarem farto material do grotesco, sendo este o nosso objeto.
Na primeira fase, foi feita a catalogação, fixação e seleção temática do material pesquisado. Na segunda fase, foi feita a leitura crítica dos textos e imagens e a análise dos mesmos, tendo em vista a sistematização dos estudos e, consequentemente, a elaboração e conclusão do presente trabalho.
Ao escolhermos os blogs Cleycianne e Eu Sou Ryca, consideramos algumas características desse tipo de blog, dentre as quais a dificuldade em contextualizar tudo o que encontrássemos lá e a não veracidade como parte do processo de construção do discurso do grotesco através da carnavalização, pois muitas imagens e vídeos postados podem ter sofrido processos de edição amplamente disponíveis na Internet. Mesmo assim, nos foi possível identificar a razão histórica de muitas postagens, razão pela qual, em algumas análises, recorremos a revistas, jornais e sites da imprensa digital para respaldarem nossas análises.
Interessaram-nos, portanto, apreender os processos discursivos do grotesco no
2 REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 O grotesco
É Bakhtin (1999a) quem situa a origem do termo que designará essa modalidade discursiva tão multíplice e mutante, o grotesco, no século XV, século que marca o fim da Idade Média e que será antecedido por importantes acontecimentos que convulsionaram o século XIV, tais como: a Peste Negra, que dizimou algo entre 25 e 75 milhões de pessoas, o aumento brutal da mortalidade e da superexploração camponesa, fatores que respondem pelo enraizamento de uma crise profunda na Europa, que regada à fome, guerras e rebeliões de servos, abalarão as bases do sistema feudal. No transcurso do século XV, essa crise generalizada foi se equacionando gradualmente, proporcionando um novo crescimento populacional, agrícola e comercial. Os senhores feudais, nas regiões rurais, substituíram as corveias por salários, decretando a morte do sistema senhorial de produção. Nas cidades, o fortalecimento do mercado encontrou na ascensão dos preços das manufaturas um estímulo grandiloquente. E quando estavam para se acender as primeiras luzes da Idade Moderna, o termo grotesco desponta, passando a aglutinar em torno de si atenção e aprofundamentos:
Nessa época, precisamente, aparece o próprio termo "grotesco", que teve na sua origem uma acepção restrita. Em fins do século XV, escavações feitas em Roma nos subterrâneos das Termas de Tito trazem à luz um tipo de pintura ornamental até então desconhecida. Foi chamada de grottesca, derivado do substantivo italiano grotta (gruta). Um pouco mais tarde, decorações semelhantes foram descobertas em outros lugares da Itália (BAKHTIN, 1999a, p. 28).
A observação que Russo (2000) faz quanto ao surgimento do termo é, no mínimo, definidora, em suas linhas gerais, dos rumos que o grotesco adotará, enquanto uma categoria discursiva:
A própria palavra [...] evoca a caverna – a grota-esco. Baixa, escondida, terrena, escura, material, imanente, visceral. Como metáfora do corpo, a caverna grotesca tende a se parecer (e, no sentido metafórico mais grosseiro, identificar) com o corpo feminino anatomicamente cavernoso (RUSSO, 2000, p. 13).
E Russo (2000) prossegue destacando alguns dos elementos fortemente corporais que não mais abandonarão esse domínio discursivo: sangue, lágrimas, vômito, excremento – todos os detritos do corpo que são separados e colocados com terror e repugnância [...] estão ali embaixo, naquela caverna de abjeção (RUSSO, 2000, p. 14). Isso ajuda a esclarecer a razão de o termo grotesco haver-se associado, ao longo do tempo, à deformidade, estranheza e à aceitação do imperfeito, apenas para citarmos alguns dos muitos caminhos de entendimento e apreciação do grotesco contemporaneamente.
As figuras que foram encontradas nos subterrâneos de Roma, onde estão localizadas as Termas de Tito, numa ex-cavação, Bakhtin descreve nessas palavras:
Essa descoberta surpreendeu os contemporâneos pelo jogo insólito, fantástico e livre das formas vegetais, animais e humanas que se confundiam e transformavam entre si. Não se distinguiam as fronteiras claras e inertes que dividem esses "reinos naturais" no quadro habitual do mundo: no grotesco, essas fronteiras são audaciosamente superadas. Tampouco se percebe a imobilidade habitual típica da pintura da realidade: o movimento deixa de ser o de formascompletamente acabadas - vegetais e animais - num universo também totalmente acabado e estável; metamorfoseia-se em movimento interno da própria existência e exprime-se na transmutação de certas formas emoutras, no eterno inacabamento da existência (BAKHTIN, 1999a, p. 28).
Kayser (2003), realizando uma vasta varredura histórica no processo de incorporação às línguas do termo grotesco, afirma que já no século XVI, outros países aceitavam, com o novo estilo ornamental, a denominação correspondente:
A mistura do animalesco e do humano, o monstruoso como a característica mais importante do grotesco, já transparece no primeiro documento em língua alemã. [...] O monstruoso, constituído justamente da mistura dos domínios, assim como, concomitantemente, o desordenado e o desproporcional surgem como características do grotesco num documento antigo da língua francesa (KAYSER, 2003, p. 24).
Muito embora fosse paulatinamente incorporando-se às línguas diversas, não se perdia de foco a sua ligação com a arte ornamental descoberta no século XV.
Analisando a obra de François Rabelais, Bakhtin (1999a) afirma que o carnaval é uma ruptura com os valores normativos dominantes, caracterizando-o como uma forma de libertação do controle que a sociedade exerce sobre si mesma. Essa perspectiva ensejará a formulação das imagens referentes ao princípio material e corporal, tomando como base a obra de Rabelais, e essas imagens ou princípios, considerados como herança da cultura cômica popular, estrutura a concepção bakhtiniana do realismo grotesco.
No realismo grotesco, o princípio material e corporal aparecem sob a forma universal, festiva e utópica, identificados e integrados a todos os outros aspectos da vida, positivos e negativos, espirituais e materiais, nobres e vulgares, sem prevalência de um sobre o outro, mas integrados todos, como num verdadeiro evento carnavalesco:
Não apenas as paródias no sentido estrito do termo, mas também todas as outras formas do realismo grotesco que rebaixam, aproximam da terra e corporificam. Essa é a qualidade essencial desse realismo, que o separa das demais formas “nobres” da literatura e da arte medieval (BAKHTIN, 1999a, p. 20).
embora mutável, fosse parte de tudo, como se não houvesse começo, meio ou fim, alto ou baixo, esse ou aquele, mas a vida nascendo da morte e a morte da vida, sem interrupção, o que não concedia espaço para se valorar algo como bom ou mal, certo ou errado, pois tudo estava conectado e em transição:
A imagem grotesca caracteriza um fenômeno em estado de transformação, de metamorfose ainda incompleta, no estágio da morte e do nascimento, do crescimento e da evolução. A atitude em relação ao tempo, à evolução, é um traço construtivo (determinante) indispensável da imagem grotesca. Seu segundo traço indispensável, que decorre do primeiro, é sua ambivalência: os dois polos da mudança – o antigo e o novo, o que morre e o que nasce, o princípio e o fim da metamorfose – são expressados (ou esboçados) em uma ou outra forma (BAKHTIN, 1999a, p. 21).
Na diversidade de símbolos e imagens do carnaval do fim da Idade Média, temos no realismo grotesco, o corpo inacabado, capaz de ressurgir e de se refazer, um humor positivo, no sentido de restaurador e revigorador. Já na paródia do século XX, conforme observa Bakhtin, já não se encontra mais a dualidade grotesca, que vive a degradação como forma de renascimento:
As grosserias e obscenidades modernas conservaram as sobrevivências petrificadas e puramente negativas na concepção do corpo. Nas grosserias contemporâneas não resta quase mais nada desse sentido ambivalente e regenerador (o enviar para o baixo corpo e consequentemente renascer), a não ser a negação pura e simples, o cinismo e o mero insulto, dentro dos sistemas de significantes e valorativos das novas línguas (BAKHTIN, 1999a, p. 25).
Bakhtin (1999a, p. 23-24) traça, portanto, um breve histórico da evolução das imagens grotescas e esclarece que seu apogeu toma lugar na literatura do Renascimento, quando então o termo “grotesco” surge com um sentido muito específico. Com a Idade Moderna, por meio de mudanças paradigmáticas radicais, o grotesco perde o seu aspecto positivo, o de ser capaz de rir de si mesmo, e surge (ou resta), no resgate da Antiguidade Clássica, por meio da valorização do esteticamente perfeito e acabado, um grotesco negativo, onde o corpo já não se mostra mais aberto e incompleto (agonizante-nascente ou prestes a morrer) (BAKHTIN, 1999a, p.24):