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4 MODIFICAÇÕES INTRODUZIDAS COM A REFORMA TRABALHISTA

4.1 HOMOLOGAÇÃO DO TERMO DE RESCISÃO DO CONTRATO DE TRABALHO

Historicamente, segundo Martins (2017, p. 995), a rescisão do contrato de trabalho era feita nas dependências da própria empresa. No entanto, o trabalhador era parte hipossuficiente da relação contratual, oportunidade na qual era aproveitada por alguns empregadores para não quitar com todas as obrigações inerentes ao tipo de rescisão.

Após algum tempo, verificou-se a necessidade de fiscalizar a rescisão do contrato de trabalho, com a finalidade de resguardar o hipossuficiente, bem como filtrar o número de ações trabalhistas sobre o assunto. Foi então que em 1969 a Lei nº 5.562 criou a assistência administrativa com a inclusão do artigo 477, § 1º, à Consolidação das Leis do Trabalho (BRASIL, 1942).

A esse respeito, Martins (2017, p. 995) comenta que “a mudança deu-se em razão das fraudes que eram praticadas, pois o empregado assinava o termo de quitação sem assistência de qualquer pessoa e dava quitação sobre o que era pago, não tendo direito de reclamar eventuais diferenças”.

Destarte criou-se a obrigatoriedade da homologação da rescisão do contrato de trabalho, passando a ser feito pelo sindicato da categoria ou pelo Ministério do Trabalho. Dispõe o artigo 477, § 1º, da Consolidação das Leis do Trabalho:

O pedido de demissão ou recibo de quitação de rescisão do contrato de trabalho firmado por empregado com mais de um ano de serviço só será válido quando feito com a assistência do respectivo sindicato ou perante a autoridade do Ministério do Trabalho e Previdência Social ou da Justiça do Trabalho (BRASIL, 1942).

O pedido de demissão ou recibo de quitação de trabalhador com mais de um ano de duração do contrato passou a ser feito com assistência administrativa e somente teria validade se feito da forma prescrita.

A assistência do sindicato era realizada sem qualquer ônus para o trabalhador e devia ser feito para todos os integrantes da categoria profissional, independente se o trabalhador era filiado ao sindicato ou não (SAAD; SAAD; BRANCO, 2014, p. 642).

O artigo 477, § 3º, da Consolidação das Leis do Trabalho (BRASIL, 1942), revogado com a reforma trabalhista, estabelecia que, quando não houvesse na localidade sindicato ou Ministério do Trabalho, a assistência seria prestada pelo representante do Ministério Público ou, pelo Defensor Público e, na falta destes ou impedimento, pelo Juiz de Paz.

Acerca da subsidiariedade mencionada, comentam Machado e Zainaghi (2013, p. 371) que deveria ser observada a ordem estabelecida, sendo nula a assistência prestada sem a observância da ordem legal.

Conforme Nascimento (2011, p. 1173), “trata-se de assistência e não de conciliação, com a simples verificação de que os pagamentos estão corretos, não se efetivando, em caso contrário, a homologação”.

Ao empregado com um ano ou menos de serviço o pedido de demissão ou recibo de quitação permanecia sem a necessidade da assistência administrativa. Havia duas exceções a essa regra: ao trabalhador menor de 18 anos e ao dirigente sindical (DELGADO, 2017, p. 1301).

Ao trabalhador com mais de um ano de contrato, que não houvesse a assistência administrativa, despontaria presunção favorável ao obreiro, considerando que a ruptura do pacto se deu nos moldes da resilição unilateral por ato empresarial, chamada também de dispensa injusta, com as parcelas equivalentes. Vale frisar que se trata de presunção relativa, admitindo prova em contrário (DELGADO, 2017, p. 1301).

Nesse sentido:

Independentemente de o contrato ter sido celebrado de forma escrita, verbal ou tácita, em se tratando de empregado com mais de um ano de serviço, o pedido de demissão ou o recibo de quitação só terá validade quando feito com assistência do sindicato ou perante órgão do Ministério do Trabalho. Essa homologação materializa um requisito solene previsto em lei, essencial à sua validade, sem o qual tanto o ato em si como a manifestação de vontade nele veiculada são considerados como inexistentes, portanto, não produzem qualquer efeito. Cuida-se de requisito essencial à validade do ato (MACHADO; ZAINAGHI, 2013, p. 370).

Todavia, muitas alterações foram introduzidas com a promulgação da Lei nº 13.467/17, uma delas foi em relação à obrigatoriedade da assistência administrativa na homologação do termo de rescisão do contrato de trabalho. O 477, § 1º, da Consolidação das Leis do Trabalho foi revogado e em sua correspondência foi criado o artigo 477-A, o qual dispõe:

As dispensas imotivadas individuais, plúrimas ou coletivas equiparam-se para todos os fins, não havendo necessidade de autorização prévia de entidade sindical ou de celebração de convenção coletiva ou acordo coletivo de trabalho para sua efetivação (BRASIL, 2017).

A reforma trabalhista revogou os §§ 1º e 3º. Dessa forma, deixa de ser obrigatória a assistência administrativa para homologação da rescisão, podendo ser celebrada na própria dependência da empresa. A obrigatoriedade poderá ser prevista em acordo ou convenção coletiva.

Comenta Pretti (2017, p. 78), que “não há mais a necessidade de homologação no sindicato das rescisões, podendo ser realizadas nas dependências da empresa”. Ademais, Melek (2017, p. 124) acrescenta que deixou de ser obrigatória a homologação, porém pode existir tal regramento na convenção coletiva. A respeito, Nahas, Pereira e Miziara (2017, p. 323) comentam:

A revogação dos §§ 1º e 3º acena a intenção do legislador da reforma de dar maior autonomia às partes e não subordiná-las à burocracia que antes existia de terem necessariamente que ser assistidas por sindicato que, muitas vezes, não tinha disponibilidade de agenda para atendimento às partes. [...]. O problema e a possibilidade de fraudes poderão ficar por conta da revogação dos parágrafos que tratavam da assistência na rescisão e a possibilidade de pagar em dinheiro o trabalhador analfabeto, o qual poderia ficar suscetível a eventuais abusos cometidos pelos empregadores.

Sobre o mencionado acima, para o trabalhador analfabeto as verbas trabalhistas deviam ser pagas em espécie, conforme o artigo 477, § 4º, da Consolidação das Leis do Trabalho (BRASIL, 1942). Contudo, a reforma trabalhista trouxe a possibilidade do pagamento ser realizado em depósito bancário ou em dinheiro.

Ao estabelecer expressamente como deverá ser dado o pagamento ao trabalhador analfabeto, o texto de lei estabelece um requisito essencial à validade do ato, portanto, se realizada de outra forma acarretará sua nulidade (MACHADO; ZAINAGHI, 2013, p. 372).

Com a revogação do artigo 477, §§ 1º e 3º, da Consolidação das Leis do Trabalho (BRASIL, 1942), pode-se verificar que o termo de rescisão do contrato de trabalho não tem mais a obrigatoriedade de ser homologada no sindicato da categoria ou no Ministério do Trabalho, podendo ocorrer nas dependências da empresa.

Conforme Lima e Lima (2017, p. 77), “acabou essa proteção. Logicamente, irá tudo esbarrar na Justiça do Trabalho”. Tal comentário merece ressalva, uma vez que a homologação da rescisão era crucial justamente para evitar fraudes e o inadimplemento das parcelas. Nesse diapasão, Delgado (2017, p. 177) faz o seguinte comentário:

O art, 477 da CLT, em seu novo formato jurídico, simplifica, de um lado, o procedimento rescisório. Mas, lamentavelmente, realiza tal simplificação no sentido contrário ao interesse de uma das partes contratuais, o empregado. Isso porque, de outro lado, a nova regra elimina a assistência sindical e/ou administrativa para os

trabalhadores relativamente ao ato de formalização da ruptura do contrato de trabalho, diminuindo, sem dúvida, uma importante garantia trabalhista (Súmula 330, TST).

Frisa-se que em relação à obrigatoriedade da discriminação das verbas trabalhistas no recibo de quitação não houve alteração. O artigo 477, § 2º, da Consolidação das Leis do Trabalho (BRASIL, 2017), possui a seguinte disposição:

O instrumento de rescisão ou recibo de quitação, qualquer que seja a causa ou forma de dissolução do contrato, deve ter especificada a natureza de cada parcela paga ao empregado e discriminado o seu valor, sendo válida a quitação, apenas, relativamente às mesmas parcelas.

O objetivo da norma acima é eliminar a prática dos empregadores em pagar verbas globais, sem especificar o que está sendo pago, também chamado de “quitação geral” (MARTINS, 2017, p. 995). Assim, se teve a necessidade de estabelecer a distinção entre cada parcela paga.

Houve muitas mudanças em relação ao artigo 477 da Consolidação das Leis do Trabalho (BRASIL, 1942), como a mudança na forma pagamento ao trabalhador analfabeto, podendo ser em espécie ou depósito bancário e com a revogação da homologação da rescisão. Foi mantido acerca da discriminação de cada parcela no recibo de quitação.

Sobre a revogação da homologação da rescisão do contrato de trabalho, o que se verifica na prática é que com a ausência de fiscalização o trabalhador volta à condição de hipossuficiente na relação contratual, possuindo a Justiça do Trabalho para obter seus direitos.

4.2 VERBAS RESCISÓRIAS

A antiga redação do artigo 477 estipulava, no § 6º (BRASIL, 1942), dois prazos para pagamento das verbas rescisórias, diferenciada pela forma do aviso-prévio (cumprido ou indenizado). Ainda, no § 8º (BRASIL, 1942), disciplinava a multa em caso de atraso do pagamento.

Em relação aos prazos, eram dois, quais sejam: “a) até o primeiro dia útil imediato ao término do contrato ou b) até o décimo dia, contado da data da notificação da demissão, quando da ausência do aviso-prévio, indenização do mesmo ou dispensa de seu cumprimento” (BRASIL, 1942).

A alínea a se refere ao empregado que cumpre o aviso-prévio integralmente, ou seja, o empregador tem 30 dias para preparar os valores devidos ao trabalhador, devendo efetuar o pagamento “até o primeiro dia útil imediato ao término do contrato”. Se o

pagamento cair em um sábado, deverá ser feito no primeiro dia útil seguinte (MARTINS, 2017, p. 1003).

Machado e Zainaghi (2013, p. 372) defende que o prazo da alínea a será considerado também nos casos de contrato por prazo determinado e nos contratos de experiência, devendo as verbas trabalhistas serem pagas no primeiro dia útil imediato ao término combinado.

No tocante ao prazo da alínea b, caberá quando o empregado é dispensado, pois, conforme Martins (2017, p. 1003) “no cumprimento do aviso-prévio, na demissão ou no despedimento, o prazo a ser observado será o da alínea a”.

Em caso de assistência, se o prazo cair em um sábado, deverá ser pago no primeiro dia útil seguinte e se não houver assistência, a empresa deve ter o cuidado de antecipar o pagamento. Ainda sobre o prazo da alínea b:

Nas três hipóteses assinaladas, o prazo será o décimo dia, contato da notificação da demissão. Não existe amparo legal à figura do aviso-prévio cumprido em casa, cuja prática é equivalente ao aviso-prévio indenizado. Cuida-se, na verdade, de expediente do empregador que visa postergar o pagamento das verbas rescisórias, devendo ser observado o prazo previsto no art. 477, § 6º, b, da CLT, para pagamento das verbas rescisórias (MACHADO; ZAINAGHI, 2013, p. 372).

A recepção da reforma trabalhista trouxe uniformização do prazo para o pagamento das verbas rescisórias, passando a ser de dez dias a partir do término do contrato de trabalho. Dessa forma, o artigo 477, § 6º, da Consolidação das Leis do Trabalho passou a ter a seguinte redação:

A entrega ao empregado de documentos que comprovem a comunicação da extinção contratual aos órgãos competentes bem como o pagamento dos valores constantes do instrumento de rescisão ou recibo de quitação deverão ser efetuados até dez dias contados a partir do término do contrato (BRASIL, 2017).

Nahas, Pereira e Miziara (2017, p. 323) explicam que “término do contrato quer dizer seu exaurimento, ou seja, se o trabalhador cumprir aviso-prévio, a partir do seu termo final; se não cumprir aviso-prévio, a partir do dia em que o contrato for rescindido” (sic).

Percebe-se, com a nova disposição do artigo, a uniformização dos prazos para pagamento das verbas rescisórias, deixando de existir prazos diferentes para cada situação. Sobre a alteração do artigo, Lima e Lima (2017, p. 77) comentam:

O § 6º distinguia entre demissão com aviso-prévio cumprido e aviso dispensado de cumprimento, para efeito de prazo de pagamento. A nova redação trata uniformemente as duas modalidades: o prazo é de dez dias para pagamento dos valores da rescisão contratual e para efetuar a comunicação aos órgãos competentes, contados da rescisão contratual.

Quanto ao atraso do pagamento das verbas trabalhistas ao infrator, mencionado na introdução do presente tópico, não teve alteração com a reforma trabalhista. Já disciplinava o artigo 477, § 8º, da Consolidação das Leis do Trabalho:

A inobservância do disposto no § 6º deste artigo sujeitará o infrator à multa de 160 BTN, por trabalhador, bem assim ao pagamento da multa a favor do empregado, em valor equivalente ao seu salário, devidamente corrigido pelo índice de variação do BTN, salvo quando, comprovadamente, o trabalhador der causa à mora (BRASIL, 2017).

Dessa maneira, percebe-se que a única modificação foi em relação ao § 6º do artigo 477 com a fixação do prazo de dez dias para pagamento das verbas rescisórias, revogando as alíneas a e b. Vale ressaltar que em relação ao § 8º, do artigo 477, no qual se refere à multa pelo atraso do pagamento das verbas rescisórias não houve alteração.

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