É esse dar lugar ao lugar. A hospitalidade nos faz entender a questão do lugar como sendo fundamental, fundadora e impensada da história da nossa cultura Jaques Derrida e Anne Dufourmantelle, Da hospitalidade
A palavra hospitalidade provém do latim, hospitalitate, que denomina o ato de hospedar, a hospedagem, a qualidade de hospitaleiro e o acolhimento afetuoso. Antigamente, a palavra hóspede tinha um sentido duplo, designava quem hospeda e quem é hospedado. Hoje significa a pessoa hospedada apenas, aquela que recebe hospitalidade, que é acolhida na casa de alguém.
Hóspede, também provém do latim, hospes era a pessoa que se aloja temporariamente em casa alheia, era um visitante, e hospite era o senhor do estrangeiro, a pessoa que vem de outra terra. Hospitalidade, hospitalitas, é tanto o ato de hospedar, de receber afetuosamente, e hospitatem, a disposição acolhedora de quem oferece hospedagem, a qualidade de quem bem recebe o hóspede.
A hospitalidade também está presente na mitologia grega, na Bíblia e em diversas culturas, e representa a visita de um deus à casa de um mortal para testar sua hospitalidade. Na literatura dos mitos greco-romanos, a deusa da hospitalidade é Héstia, em grego, ou Vesta, no mito romano, e está em permanente interação com Hermes, ou Mercúrio, na designação latina, aquele que chega.
Hermes representa o peregrino, aquele que vem pelos campos. Está associado ao que vem chegando, o que é recebido, o turista, o imigrante, o estranho, o estrangeiro, o hóspede, o outro. Deus das viagens, presente em toda pedra do caminho, assinalando por onde seguir. Deus da comunicação, é o mensageiro dos deuses, carrega uma boa palavra, uma boa nova.
Héstia, deusa da hospitalidade, permanece imóvel no centro do Olimpo, considerada o princípio abstrato de lar. Ao contrário de outros deuses, sua representação não ocorria na forma humana, mas pela chama viva. Em tempos antigos, cada cidade-estado grega tinha a sua lareira comum, assim como cada casa. Quando alguém deixava sua cidade natal, impregnado do espírito
de Hermes, levava consigo o fogo sagrado, de tal forma que, onde quer que estabeleça um novo lar, Héstia estaria junto. Héstia, a chama que aguarda, é também a que ilumina o caminho de Hermes.
A hospitalidade, então, não se limita na hospedagem, ela trata, também, do acolhimento, da relação estabelecida entre quem hospeda e quem é hospedado. Está ligada a questão do lugar, do espaço em relação ao indivíduo, como se ele próprio fosse portador da hospitalidade.
Jaques Derrida dedicou-se ao tema da hospitalidade, dando destaque a importância do outro no processo de significação da existência. A hostilidade, como propõe Derrida, é aquilo que funda as cidades, tendo relação não somente a hospedagem e ao hotel, uma hospitalidade exploratória, comercial, mas também ao hospital, o lugar onde se cuida dos outros.
Para ele, a hospitalidade pode falar tanto de uma primeira morada, e, também, de uma última morada. Hospitalidade pode ser alteridade. A hospitalidade está diretamente ligada ao lugar, ao território. Só se pode oferecer hospitalidade num acontecimento específico, em um aqui e agora, em um determinado lugar.
O outro pode ser recebido tanto como hóspede ou como inimigo, pois tememos o diferente, o que é estranho. Segundo Fernando Fuão (2012), na contemporaneidade, a hospitalidade pressupõe, também, a possibilidade de uma delimitação rigorosa das fronteiras: entre o estrangeiro e o não estrangeiro, entre o dentro e o fora, entre o público e o privado.
A hospitalidade e a hostilidade caminham lado a lado. Os lugares das cidades estão cada vez mais fechados, reclusos. Vivemos em bairros e cidades, cada dia, mais hostis. Não nos abrimos mais aos outros, não recebemos. As cidades não nos passam confiança. Viver nas cidades já não nos transmite confiança. Viramos hostis na maneira de construir, vivemos trancados em grades, vigiados por câmeras, com senhas para entrar nos lugares, tudo para vivermos em segurança. Não abrimos nossas portas, ficamos à espreita nas janelas, passivos, apenas observando.
Agimos como se a hospitalidade, a aceitação do outro em nossa casa, em nosso país, representasse um perigo: em algum momento, o hóspede pode ser um ladrão, um traidor ou um terrorista, alguém que não queremos em nossa casa.
Por outro lado, a hospitalidade é um imperativo ético e a chance de uma relação pacífica entre os homens. A hospitalidade deve ser incondicional. A hospitalidade no museu deve ser incondicional. Lugar onde a construção deve ser comunitária, coletiva. Onde as múltiplas vozes, dos múltiplos autores sociais da cidade, devem ser afinadas, aproximadas, para que componham os discursos e as informações.
No vídeo “Amor e Arte, o filme”, vemos a questão da hospitalidade do museu, como ele pode receber seu visitante, aquele que vive no território do museu. Como ele pode, inclusive, transformar o dia do visitante ao recebê-lo, torna-lo mais sensível graças às condições e experimentação que disponibiliza. O audiovisual, que começa com a agitação da rua movimentada do museu, onde transitam automóveis, pedestres, em plena atividade, com uma trilha sonora agitada, o espectador, pode experimentar a sensação do lugar. Então, quando acontece a visitação ao Museu de Arte, a trilha sonora muda instantaneamente, uma musica instrumental, tranquila, então, podemos sentir o momento de relaxamento, e o visitante diminui o ritmo. Ao sair do museu, a trilha mantém-se, temos a ideia de que o visitante permanece relaxado, e retorna a rotina assim.
O museu poderia ser o lugar do hóspede e do hospedeiro. Onde estes trocam objetos, memórias, experiências. O museu no centro, como uma chama viva, à espera daquele que vêm em busca de alguma coisa, seja para um pequeno descanso durante o caminho cotidiano. O visitante seria o peregrino, que busca o abrigo, o acolhimento, talvez um consolo ou alguma certeza: “O acolhimento se situa em todas as coisas que esperam na espera, na natureza do mundo, no recortado de suas aberturas, nos seus sorrisos, nos braços, na mão estendida, en la mano de lo hu-mano” (FUAO, 2013, p.: 28)