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HOSPITALIDADE HÚNGARA E O TRATADO DE TRIANON

No documento adautoluciocaetanovillela (páginas 33-37)

CAPÍTULO 1 O COMEÇO NA HUNGRIA

1.3 HOSPITALIDADE HÚNGARA E O TRATADO DE TRIANON

Não existe cultura, nem vínculo social, sem um princípio de hospitalidade.

JACQUES DERRIDA

No livro O destino dramático da Hungria, escrito por Yves de Daruvar (1970), um franco-húngaro exilado em Paris, encontramos um histórico dos eventos que levaram à assinatura do Tratado de Trianon em 1920, bem como uma análise das consequências disso para a nação húngara. Descobrimos que, no cerne da questão, encontra-se o desastroso desvio da tradicional política de hospitalidade húngara.

Como mencionado, o estabelecimento do reino da Hungria aconteceu no ano 1000, quando Estêvão I foi coroado pelo Papa Silvestre II. Segundo Daruvar, a “atitude de longa data liberal dos húngaros, em face de suas nacionalidades” (1970, p. 17), com o que se refere aos estrangeiros e seus descendentes que habitavam na Hungria, entre os quais se incluem sérvios, romenos, eslovacos, alemães, franceses e espanhóis (são 12 nacionalidade citadas ao todo), “foi ditada durante séculos aos húngaros pelas famosas recomendações de seu primeiro rei Santo Estêvão a seu filho Santo Américo” (DARUVAR, 1970, p. 17). Essas recomendações, que fundamentaram uma atitude liberal ou tolerante para com as minorias, diziam respeito a permitir que cada população estabelecida no reino da Hungria conservasse sua língua e seus costumes. Transcrevemos a seguir o trecho do Vita Sancti Stephani, Acta Santorum, tal como citado por Daruvar:

Os hóspedes e os estrangeiros – escrevia [Estêvão a Américo] – devem ocupar o lugar no seu reino. Acolhe-os bem e deixe aos estrangeiros sua língua e seus costumes, porque fraco e frágil é o reino que possuiu uma só língua e em toda a parte os mesmos costumes (unius linguae uniusque

moris regnum imbecille et fragile est). Não faltes, jamais, com a

equidade e com a bondade para com os que se vieram fixar aqui, trate-os com benevolência para que eles se encontrem melhor junto de ti que em qualquer outro país (SANTO ESTÊVÃO I, séc. XI, citado por DARUVAR, 1970, p. 17).

Até as vésperas da Primeira Guerra, cada minoria mantinha sua língua e seus costumes, e, nas suas respectivas escolas, o húngaro era ensinado como segunda língua. Reforçando a tradicionalidade da hospitalidade húngara para com os estrangeiros, Duruvar cita ainda o trecho de um discurso de Lajos Kossuth, herói húngaro que liderou uma rebelião contra a anexação da Hungria pela Áustria. Como se sabe, essa rebelião fracassou e, graças ao compromisso firmado em 1867, surgiria ao Império Austro- Húngaro. Em seu discurso de 18 de novembro de 1858 em Glasgow, Kossuth conclamou: “Eu desafio que se possa encontrar na História do mundo inteiro o exemplo de uma nação que desde os tempos mais remotos até os nossos dias tenha se mostrado mais tolerante, mais justa, mais liberal com as outras nacionalidades, do que a nação Magiar” (KOSSUTH citado por DARUVAR, 1970, p. 23).

O Tratado de Trianon costuma ser visto como uma punição imposta à Hungria por lutar ao lado de Alemanha, Bulgária e Turquia contra os aliados na Primeira Guerra Mundial. Após sua assinatura em 1920, o território da Hungria ficou reduzido a meros 28,5% do que era antes, e sua população, a 36,4%. As terras que foram desmembradas da Hungria ficaram repartidas entre Áustria, Tchecoslováquia, Romênia e Iugoslávia. Daruvar cita o suíço Aldo Dami, “grande especialista das minorias”, para apontar o fator língua como “primordial na atitude e na orientação posterior de suas nacionalidades”, pois “é a língua que cria, quase sempre, ao menos no longo prazo, o sentimento nacional” (1970, p. 22). Pelo raciocínio de Daruvar, a Hungria foi punida, na verdade, por ter respeitado e deixado livre a cada povo o direito à conservação daquele

que é um dos fatores mais fortes na determinação de uma nacionalidade: sua língua; ou seja, por exercer uma hospitalidade mais próxima da hospitalidade incondicional de que fala Jacques Derrida em Anne Dufourmantelle convida Jacques Derrida a falar da

hospitalidade (2003).

O filósofo francês contrasta a hospitalidade tradicional ou condicional com uma hospitalidade incondicional. Esta seria a hospitalidade absoluta, uma hospitalidade que não perguntaria ao estrangeiro sequer seu nome, recebendo-o de braços abertos em sua condição de Outro, completamente outro. Reconhecendo que tal é impossível, Derrida se vale do conceito de hospitalidade incondicional para enxergar um tipo de violência na relação de um país com os cidadãos estrangeiros que nele adentram:

Entre os graves problemas de que tratamos aqui, existe aquele do estrangeiro que, desajeitado ao falar a língua, sempre se arrisca a ficar sem defesa diante do direito do país que o acolhe ou que o expulsa; o estrangeiro é, antes de tudo, estranho à língua do direito na qual está formulado o dever de hospitalidade, o direito ao asilo, seus limites, suas normas, sua polícia, etc. Ele deve pedir a hospitalidade numa língua que, por definição, não é a sua, aquela imposta pelo dono da casa, o hospedeiro, o rei, o senhor, o poder, a nação, o Estado, o país, etc. Estes lhe impõem a tradução em sua própria língua, e esta é a primeira violência (DERRIDA, 2003, p. 15).

Caso tivesse imposto aos seus habitantes uma língua única, a húngara, as minorias presentes em seu território teriam sido forçosamente assimiladas, na opinião de Daruvar, e, por exemplo, não haveria razão para a Romênia, que entrou na guerra ao lado dos aliados, reivindicar a parte do território húngaro onde residiam imigrantes romenos. Como dito, foi por deixar aos hóspedes o direito à própria língua que a Hungria teria sido punida por meio do Tratado de Trianon (DARUVAR, 1970).

No entreguerras, com a Hungria debilitada e reduzida a menos de um terço de seu território e pouco mais de um terço de sua população, a antiga tradição de

hospitalidade se perdeu. Em Pomos da discórdia: política, religião, literatura etc., no artigo dedicado a Paulo Rónai, Nelson Ascher explica que, depois de se desvincular da Áustria após o fim da Primeira Guerra Mundial, a Hungria passou a ser governada por um tirano, o “almirante sem frota nem mar, Nicolau Horthy” (1996, p. 52), e, entre as “táticas de que seu regime lançou mão para se tornar mais popular encontrava-se o anti- semitismo” (ASCHER, 1996, p. 52). Sobre este, completa Ascher: “Como tantos outros ódios tribais, [o antissemitismo] nunca esteve particularmente distante da consciência política primitiva dos povos da Europa centro-oriental. Os judeus passaram a ser cada vez mais discriminados e, quando o regime horthyista fez causa comum com o Terceiro Reich, tiveram sua sorte selada” (ASCHER, 1996, p. 52).

No que concerne a Rónai, sabemos que cerca de dez meses após o início da Segunda Guerra, ele foi levado a um campo de trabalho, onde permaneceria por seis meses. Oficialmente, tais campos ainda não eram campos de concentração ou de extermínio, pois estes não concedem licenças de final de ano, sendo justamente durante uma dessas que Rónai deixou seu país; porém, viriam a ser, principalmente após 1944, quando a Hungria colaborou, junto com outros países, com a “Solução Final” nazista. Em 1940, apesar de a atitude do governo húngaro com os jovens judeus já ser marcada pelo antissemitismo, tentava-se manter a aparência de que estavam sendo absorvidos aos “esforços de guerra” (ASCHER, 1996, p. 53), mesmo realizando tarefas absurdas como aquela a qual Rónai foi submetido: colocar abaixo um prédio apenas para reconstruí-lo praticamente no mesmo local.

No documento adautoluciocaetanovillela (páginas 33-37)