CAPÍTULO 1 O COMEÇO NA HUNGRIA
1.5 RIBEIRO COUTO, O PRIMEIRO AMIGO BRASILEIRO
Em Encontros com o Brasil (1958), livro de ensaios sobre autores brasileiros, Rónai narra, em dois textos apresentados em sequência, um pouco de suas lembranças de Ribeiro Couto, diplomata cuja intervenção foi crucial para a concessão do visto que salvou sua vida. Embora escritos e publicados no Brasil, o primeiro deles traz reminiscências do relacionamento com Ribeiro Couto ainda na Hungria, e o segundo relembra o primeiro encontro dos dois já no Brasil. Por isso, abordaremos cada um em subtítulos diferentes desta tese.
O primeiro ensaio se intitula “Notícias de Ribeiro Couto” e foi motivado pelo recebimento de um volume de poesias, Rive Etrangère, que o poeta-diplomata lançara em 1951 na França, escrito originalmente em francês. Rónai começa mencionando “o talento de Ribeiro Couto, o primeiro amigo brasileiro que tive, e de quem de vez em quando recebo sinais dos pontos mais variados do globo, sob forma de cartões, cartas, volumes de versos” (p. 51). Havia uma dedicatória para Rónai no livro, com uma palavra em húngaro, forma carinhosa que o amigo encontrou de homenageá-lo. Essa palavra evocou reminiscências da época em que se conheceram, quando Rónai ainda morava na Hungria:
Era por volta de 1938. Estava eu em Budapeste, julgando-me com a vida assentada e dedicando os meus lazeres ao estudo dos idiomas, já de namôro travado com a língua e a literatura portuguêsas. Tinha, até, um livrinho brasileiro, intitulado Antologia de Poetas Paulistas [...]. Foi aí que achei, entre versos de poetas dos quais alguns talvez nunca tenham existido [...], “A Môça da Estaçãozinha Pobre”, a poesia que mais me agradou de todo o volume. Traduzi-a para o húngaro (RÓNAI, 1958, p. 84-85).
O autor desse poema era Ribeiro Couto, e Rónai veio a travar contato com ele da seguinte maneira: em busca de mais livros de literatura brasileira, Rónai dirigiu-se ao consulado brasileiro onde, infelizmente, não havia qualquer livro literário; contudo, funcionários do consulado ofereceram a ele alguns jornais do Rio de Janeiro, os quais ele recebeu de bom grado. Na seção de cartas de um dos exemplares, Rónai encontrou uma delas assinada por “Ribeiro Couto, Secretário da Legação do Brasil em Haia” (RÓNAI, 1958, p. 85). Rónai escreveu a ele perguntando se era parente do autor de “A moça na estaçãozinha pobre”, surpreendendo-se ao saber, em uma carta com a resposta, que se tratava do mesmo Ribeiro Couto.
Essa foi a primeira de muitas cartas que Rónai trocaria com Ribeiro Couto, sempre em francês. Como ele relembra no ensaio:
O autor de “A Môça da Estaçãozinha Pobre” escreveu-me, depois, muitas outras cartas, que infelizmente, ao fugir da Europa, três anos depois, não pude trazer comigo: seria perigoso atravessar a Alemanha com aquêles papéis em que o diplomata brasileiro tomava a defesa da Polônia, condenava as perseguições raciais, mostrava-se abertamente hostil ao nazismo. Havia nêles, inclusive, alguns trechos pessimistas e proféticos sôbre o futuro da Hungria, que muito me assustaram quando os li; o meu correspondente exótico estava muito melhor informado sôbre as condições do meu país do que os próprios húngaros, enganados por notícias tendenciosas.
Mas havia também nas cartas notícias de outro caráter, cuja perda lamento ainda mais: notas sintéticas, imparciais e serenas, sôbre a nova poesia brasileira, esclarecimentos filológicos e métricos, um mapa do Nordeste (RÓNAI, 1958, p. 86).
É possível que as informações privilegiadas que Ribeiro Couto transmitia a Rónai tenham tanto colocado este em estado de alerta em relação ao conturbado ambiente político da Europa, em especial à ameaça aos judeus que trazia, quanto despertado nele o desejo de abrigar-se no Brasil se necessário fosse. O que sabemos ao certo é que, por meio dessa correspondência, Rónai conseguia tirar dúvidas vocabulares e culturais
surgidas nas traduções do português para o húngaro. Por exemplo, ele cita que, não compreendendo a palavra “morro” no contexto de um poema que traduzia do português para o húngaro, trocou cartas Ribeiro Couto expondo sua dúvida. A primeira resposta trouxe uma série de sinônimos como colina, outeiro, etc, o que não solucionou o problema, pois o dicionário também trazia algumas outras possibilidades igualmente denotativas. A questão girava, antes, em torno da conotação da palavra dentro do contexto do poema. Foram precisas novas cartas para o tradutor entender que, “contrariamente ao que se dava na minha cidade [isto é, Budapeste], onde os morros, cobertos de luxuosos palacetes, só abrigam gente rica, no Rio eles eram sinônimos de favelas” (RÓNAI, 1992, p. 14).
Sobre sua dificuldade de entender a palavra “Nordeste”, Rónai relembra: “Foi necessária uma longa carta de Ribeiro Couto [...] para dar-me uma idéia aproximativa do complexo sentido geográfico, antropológico, sociológico e, sobretudo, poético dessa denominação. Com sua compreensiva inteligência, o poeta de Província esboçou um sucinto retrato espiritual da região nordestina, da qual, à falta de outra documentação, me desenhou um mapa esquemático” (RÓNAI, 1992, p. 14). Encontramos um registro em outro texto, o ensaio “Saldos e balanços” que integra o livro A tradução vivida, de que essas dúvidas surgiram e foram sanadas no decorrer do processo de tradução dos poemas que resultariam no livro Mensagem do Brasil, o primeiro livro brasileiro publicado na Hungria (RÓNAI, 1987, p. 167). E, no mesmo ensaio, Rónai observa, em nota de rodapé, que o segundo livro traduzido do português brasileiro para o húngaro a ser editado em seu país natal “foi de Ribeiro Couto, Santosi Versek (Poesias de Santos), também tradução minha”, publicado em 1940 (RÓNAI, 1987, p. 167).
Ao traduzir poesia, Rónai sempre procurava ver, para além da superfície das palavras, o sentido específico, o matiz sentimental, a conotação que cada termo assumia no contexto criado pelo autor. Talvez tenha sido o acesso a essa generosa fonte de consulta aquilo que o encorajou a concretizar o projeto de uma antologia de traduções húngaras de poemas brasileiros, o já mencionado Mensagem do Brasil. E foi este livro, como vimos acima, um dos principais responsáveis pela vinda de Rónai, funcionando simbolicamente como uma chave que lhe abriu as portas de nosso país, como um divisor de águas a separar sua vida em duas metades. Passemos, pois, à segunda metade de sua vida.