• Nenhum resultado encontrado

HQ S INFANTISGAZY –ELYDIO CAPA

No documento Múltiplo 6 - PDF (páginas 57-85)

Um grande quadrinhista!!!

HQ S INFANTISGAZY –ELYDIO CAPA

58

Perguntas interativas enviadas por leito-

res e quadrinhistas:

Nos anos 1980, Henry Jaepelt fez um trabalho misturando a narrativa gráfica (HQ) com poesia e temas existenciais. Hoje temos vários autores que trabalham nesta temática. Como você vê a importância do trabalho de Jaepelt para o quadri-

nho poético-filosófico que se firma nos dias atuais?(Denílson

Reis – Fanzine Tchê)

Gazy Andraus: Realmente, Jaepelt é um precursor das HQs poéticas, ainda mais que suas artes têm muito a ver com o intuitivo (e surrealismo) que fora deflagrado antes, tanto na pintura de surrealistas como na escrita automática, o que pro- vavelmente faz parte de seu próprio processo. É mister lem- brar que nas décadas de 80 e 90, muitos de nós, como por exemplo, Jaepelt, Calazans, Edgar Franco e eu, criávamos sem sabermos que fazíamos uma “linha”, pois os fanzines, onde todos publicávamos, eram os meios de comunicação entre nós (enviados pelo correio). Então, para os dias atuais, Henry Jae- pelt sem dúvida foi um pioneiro (talvez o primeiro), mas não só ele, como os outros que mencionei aqui, além de mais al- guns, e por isso, caracterizo a linha poética das HQs atinentes a esses autores todos e não a apenas um. Principalmente por- que o “timing” entre um e outro foi muito curto em diferenças de tempo (talvez como o desenvolvimento teórico da seleção

59

Natural de Darwin, que se deu ao mesmo tempo que o de Wallace).

Gazy, como você avalia a atuação de algumas pessoas que procuram, sempre que possível, levar o termo fanzine para dentro da sala de aula e para os eventos de cultura pop, já que hoje, pouco se fala em fanzine nos eventos e sim em indepen-

dentes? (Denílson Reis – Fanzine Tchê)

Gazy Andraus: Bem, não sei se pouco se fala em fanzines, como você mencionou, Denílson. Talvez em eventos, mas na área de educação e mesmo nas redes sociais como o Face- book, vejo grassar o tema dos fanzines (ou zines). E, claro, muitos estão aprendendo e conhecendo o fanzine como ma- terial pedagógico importantíssimo. Desde escolas às faculda- des e pós-graduações. Nas escolas temos vários exemplos, como você mesmo, Adriane Almeida que mescla à didática os fanzines e meditação laica, e Ioneide Santos que usa em aulas, ou Renato Donisete (fanzine “Aviso final”) que utiliza-se do fanzine como material de apoio pedagógico, até Beralto (Al- berto de Souza), Carlos de Brito Lacerda e Hylio Laganá, pro- fessores que empregam os zines como complementos de es- tímulo e criação aos seus alunos de licenciaturas e escolas, ao Elydio dos Santos Neto, falecido, que criou os Biograficzines para usar na pedagogia da Pós-Graduação. E eu mesmo que me utilizei de zines na minha didática, tanto em cursos livres, como na graduação e pós em docência. Portanto, saibamos

60

que não estamos sós no emprego dos zines como materiais de apoio didático-culturais, e que depende mesmo de nós para ampliar esse reconhecimento.

Os fanzines foram o principal espaço independente para que quadrinhistas do mundo todo publicassem HQs livres das cor- rentes do "mercado". Tivemos uma entressafra, em que a pro- dução de fanzines caiu muito, mas agora o "mercado inde- pendente" se mostra como um dos mais fortes no Brasil e no mundo, sendo apontado como Allan Moore como o único meio de se produzir Quadrinhos de qualidade. A que se deve

isto? (Bira Dantas)

Gazy Andraus: Lembro que Moore está certo, pois tudo que nasce criativo e vanguardista, não tem rótulo e advém de um ímpeto criativo. Nisso, as HQs, em especial no Brasil dos anos 80 principalmente, e que eram publicadas em fanzines, tra- ziam inovações e conteúdos experimentais incríveis. Na Eu- ropa, em especial na França, o fanzinato também permitia ex- plorações e até a criação de um grupo nos anos 90 “L’Associ- ation” tido como banda desenhada alternativa. O maior exem- plo de como os fanzines e sua liberdade criativa se distanciam da HQ mainstream são os super-heróis: esses, por estarem atrelados a uma indústria e a editores, têm HQs muitas vezes sem originalidade e criatividades forçadas, que atualmente mostram uma decadência sem par! E aí, sim, com o recrudes- cimento da possibilidade da liberdade criativa, os fanzines

61

despontam-se como alternativa, não só para criação, como na área da educação, sendo uma novidade para o sistema escolar (e até universitário), recrudescendo o potencial dos zines. Lembro também outra vertente atual aos fanzines no Brasil, em que alguns autores os têm como “zines” (retirando o pre- fixo “fan”), numa modalidade artística de igual valor aos livros de artistas. Ou seja, os fanzines sempre estão em mutação.

De que forma a espiritualidade está presente em seus quadri-

nhos e na vida, como artista e educador? (Alberto de Souza,

Beralto)

Gazy Andraus: Beralto: na minha juventude e no início como autor de HQs, eu me desprendi dos super-heróis e me aproxi- mei das HQs autorais fantásticas, como as de Moebius, Druil- let e Caza enquanto ia lendo livros da área espiritualista e eso- térica. Minha educação inicial e mais forte foi com Huberto Rohden e Trigueirinho (e outros como Anne Besant etc.), mas também tive altos arroubos ao ler, na época, quando tinha uns vinte e poucos anos, o Tao! Isso tudo me foi influenciando na realização de HQs que passaram a ser conhecidas como poé- ticas (e que eu chamo de fantástico-filosóficas como Henrique Torreiro as chamou num de seus catálogos de Exposição de Fanzines em Ourense na Espanha, quando lhe chegou o zine “Irmãos Siameses”, cocriado por mim e Edgar Franco). Assim, todas as leituras que eu fazia, as reflexões advindas delas e de minha experiência na vida, acabavam por serem difundidas

62

homeopática e elipticamente nas minhas HQs poéticas que se- riam a contraparte imagética equivalente do que são os Hai- Kais, ou então, do que são os Koans-zen budistas (que expla- nei e usei de exemplos em meu mestrado: http://tesegazy.blo-

gspot.com.br/p/blog-page_3859.html) – frases-enigmas sem

respostas racionais, utilizadas pelos monges budistas a que seus pupilos transcendessem a mera mente cartesiana. Essas eram minhas intenções, sem que eu as soubesse, até fazer o mestrado. Lembro também que para deflagrar tais HQs, o es- tímulo é obtido com a audição de músicas que reverberam em mim, trazendo riscos e traços hachuriados “nervosos”, num ar- roubo criativo que pode ser observado no livro recente da li- nha Sketchbook-Custom da Ed. Criativo, lançado com meu

nome (http://editoracriativo.com.br/produtos/exi-

bir/203/gazy-andraus-sketchbook-custom#). E é assim que

uno a espiritualidade que busco, quando escuto músicas e leio, deflagrando as imagens com textos que vão sendo “jo- gadas” intuitivamente no papel, ao deflagrar uma HQ poética, ou fantástico-filosófica das que crio.

Qual o papel da arte dos quadrinhos em um mundo que ca- minha para a sexta extinção massiva de espécies, e no qual

nossa espécie também pode extinguir-se? (Edgar Franco, Ci-

berpajé)

Gazy Andraus: Acredito que cada um de nós expressa em vida, a arte, sendo arte, como significado original, um modo de

63

ser/agir na vida. Porém, a maioria acaba por não concretizar isso, trocando sua “vida/arte” pelo que o sistema que foi cri- ado, entrega: que é o deus “mamon”, seja para seu bel-prazer (ilusório), seja pela sua subsistência (que o sistema lhe im- pinge). Assim, os artistas verdadeiros (em quaisquer áreas: há médicos que operam artisticamente, e engenheiros que tra- balham com poeticidade) são os esteios que mantêm a vida ainda em ressonância. Foi Carl Gustav Jung quem afirmou que o artista é uma pessoa que traz do psíquico aquilo que se torna existente, materializando o inconsciente coletivo, e tra- zendo aquilo que os humanos buscam e não sabem. Essa é a função do artista verdadeiro, e como quaisquer outras artes, os quadrinhos-arte desses que percebem isso (como você e Laudo, por exemplo), buscam sustentar o que resta dessa hu- manidade, trabalhando o criativo e o que deve (ria) possibili- tar nossa redenção.

Gazy, você e o Edgar Franco sempre tiveram estilos parecidos de desenho, e hoje em dia, diria que continuam com o mesmo estilo? Como classificaria o seu estilo e qual a principal dife-

rença do estilo do Edgar Franco?(Clodoaldo Cruz)

Gazy Andraus: Realmente, Clodoaldo, no início nossos traba- lhos eram sumariamente similares: tanto que eu não o conhe- cia, e quando vi uma HQ de Franco, muitos anos atrás no Fan- zine “Barata” (editado por Calazans), achando-a muito pare- cida com as minhas, me espantei ao ver o endereço de contato

64

dele ser de Ituiutaba/MG, onde nasci também. Após escrever para ele, encontramo-nos lá nas férias (pois ele estudava Ar- quitetura em Brasília) e coproduzimos o zine “Irmãos Siame- ses”, mostrando a semelhança de nossas artes. Atualmente o caminho das HQs dele segue poeticamente, adicionado a um viés de temática mais pertinente aos estudos que ele singrou, como os de tecnologia e interferência ao humano. Sem falar que a produção dele é intensa, tanto nas HQs (seu “Artlectos e Pós-Humanos” se encontra no nº 10 pela Marca de Fantasia

- http://marcadefantasia.com/revistas/revistas.htm), como no

meio acadêmico. No meu caso, eu produzo bem menos HQs que antes, e ainda me situo pela metodologia de ouvir músi- cas e “jogar” sequências curtas poéticas que aparecerem com base na intuição (também derivadas de leituras). Assim, a se- melhança atual é que ainda estamos na linha de HQ ‘poéticas” e/ou “poético-filosóficas”, mas as dele têm uma linha de con- textualização mais atinente ao universo pós-humano técnico que ele criou, e as minhas ainda estão na linha fantástico-filo- sóficas, sem uma linha própria além dela conquanto ao tema, ou seja, não criei (ainda) um universo.

Como é atualmente sua relação autor-espiritualidade e pes-

soa-espiritualidade? (Laudo Ferreira Jr.)

Gazy Andraus: Laudo, amigo, minha relação é intrínseca: en- quanto ser humano, sinto-me espiritualmente potencializável, mas não ainda realizado (como diria Huberto Rohden). Já fui

65

mais atinente à espiritualidade quando tinha desde meus vinte e tantos anos aos trinta e tantos, mas conforme fui me embrenhando na área da pós-graduação acadêmica com mes- trado, e depois com o doutoramento, afastei-me bem mais das leituras espirituais e foquei na racionalidade. Isso compro- vou a minha própria tese tornando-me cobaia de mim mesmo: vi que minha mente foi diminuindo de atuação na espirituali- dade e se ampliando na racionalidade do pensamento carte- siano do pesquisador científico. Mas também mantive em meio às pesquisas, vez ou outra, leituras de cientistas e pen- sadores com um pé na espiritualidade, como Amit Goswami. Ao mesmo tempo, minha produção artística foi diminuindo, e minha canalização foi passando para as escritas acadêmicas. Resumindo: quero voltar a equilibrar-me com mais leituras do espírito, e mais artes das minhas HQs poéticas ao som musical que abriam (e ainda abrem) canais na minha mente para o universo de maneira distinta da racional. E vi que você, Laudo, fez talvez caminho inverso ao meu: suas HQs vieram num pro- cesso cronológico, de algo mais – digamos – terreno, para algo mais além, como “Yeshuah” e agora seus “Cadernos de Viagem” com seu alterego psiconauta (este não li ainda, mas está na minha lista de desejos). Assim, apesar de aparente- mente eu estar produzindo menos artes e mais racionalismos, minha verve interior continua gritando e demandando pela minha relação pessoa/autoria/espiritualidade! Grato mesmo, por essa pergunta, que me fez redirigir-me a meu âmago!

66

André Carim (Múltiplo): Obrigado, meu amigo Gazy, pela dis- posição em responder às minhas questões e as dos leitores e quadrinhistas.

Gazy Andraus: Eu que agradeço: entrevistas são como resul- tantes num processo criativo/racional, similar ao de se elabo- rar um zine ou até um biografiazine (lembrando o grande Ely- dio!): ao redigir as respostas é como se houvesse um estudo interno para ampliar o autoconhecimento. E a cada fase em que sou entrevistado, percebo que as questões e questiona- mentos mostram que estou sempre diferente, embora o mesmo na essência, percebendo isso durante a elaboração das respostas que pedem uma reflexão sempre mais apurada, como que numa busca da maturidade e espiritualidade! São Vicente-SP, março de 2017.

67

71

Fórum de Discussão

Preto e Branco ou Colorido?

Dando sequência aos questionamentos feitos a diversos dese- nhistas no número anterior, mais algumas respostas enviadas por amigos e leitores do Múltiplo! E você, já opinou? Não? Está esperando o que para interagir?

Perguntas para artigo do Múltiplo: O que você prefere quando desenha HQ/Ilustração, Preto e Branco e Colorido? Por quê? O que te inspira nessa escolha e qual o sentimento em relação à sua escolha preferida? Com a palavra, os desenhistas:

Prefiro em cores, pois creio que o bom uso delas dá um toque mágico à criação. Embora eu prefira em cores, boa parte do que já fiz foi publicado em preto e branco devido aos custos de impressão. Lembrando que eu sou mais da parte escrita, as obras que tenho com desenhos fiz mais em parceria com Ed- gar Franco, o Ciberpajé. Meus desenhos por enquanto deixo apenas como uma arte guardada para meu prazer, não di- vulgo tanto quanto meus textos. Acho que o mais importante, seja no desenho, no texto ou qualquer expressão artística é criar sem amarras, sem demandas, como um processo de cura interior que acontece durante o ato de criar. Nieva Rosle Balisi é escritora e sacerdotisa da Aurora Pós-Humana. Contato: Pá- gina Escritos da Nieva Rosle Balisi no Facebook.

[Nieva Balisi]

Minha formação básica como artista foi com o preto e branco numa época que era impensável ver reproduções coloridas de meus trabalhos. Assim, só comecei a trabalhar mais efetiva- mente com cores aos 18 anos de idade, quando entrei para a Faculdade de Arquitetura da UnB. Nunca deixei de amar o

72

preto e branco e continuo produzindo e explorando suas múl- tiplas possibilidades técnicas, mas aprendi a amar a expressão colorida também e divirto-me muito criando obras em cores.

[Edgar Franco]

Gosto do P&B pela praticidade no acabamento e poder fazer auto contraste com nanquim. Em HQs de terror, que é um dos gêneros que mais gosto de fazer, funciona bem demais!

[Carlos Henry]

Como leitor prefiro a cores, como autor depende, algumas ideias surgem pedindo cores e outras pedindo P&B, haverá ou aguada ou contraste a pincel. A dificuldade de publicar e custo reduzem a produção a cores e eu desenho em ritmo europeu, o oposto do mangá; ou seja, uma ilustração colorida leva 18 a 36 horas e uma HQ colorida de três páginas como a do Visões de Guerra Pátria Armada levou 3 meses.

Flávio Calazans

Boa noite. Sou das antigas e como tal, sou apaixonado pelo traço puro da tinta preta (Nanquim). Mas também gosto das cores. Não gosto do meu colorido, porquê fazer uma ótima colorização leva tempo e tempo é um luxo que não tenho há muitos anos. Tudo me inspira, desde as séries da Netflix, noti- ciários no Yahoo, coisas do cotidiano. O artista não tem que escolher, mas deve encarar cada trabalho como um novo de- safio e ser melhor que no último trabalho. Qualidade, tanto no texto como na narrativa dos desenhos.

[Airton Marcelino]

Olá André, como disse por estes dias, tenho andado fora. Vou agora então responder às perguntas. Não tenho uma prefe- rência. Gosto tanto de trabalhar a preto e branco como a co- res, tendo a perfeita noção de que são duas formas de traba-

73

lhar distintas. Por exemplo, atualmente sinto-me mais moti- vado com o preto e branco e toda a complexidade de texturas que essa técnica envolve, mas existem outras alturas em que a riqueza de trabalho da cor me atrai. Por isso, a escolha de- pende unicamente daquilo que sinto em determinado mo- mento. E confesso que quando escolho se quero desenhar de uma determinada forma nem sequer penso no custo que isso envolve. O mais importante na hora de começar a trabalhar para mim tem unicamente a ver de como é que vou gostar do trabalho, porque de certa forma quando vou começar a dese- nhar ou pintar eu o tenho visualizado na minha cabeça. O im- portante, acima de todo o resto, é no fundo o desafio da cria- ção e a constante procura de novas técnicas e formas de tra- balhar. Pronto, com este pequeno texto espero ter respondido de forma satisfatória às questões colocadas. É que a escrita inteligente de vez em quando prega-nos peças.

[João Amaral]

Nossa discussão vai continuar, envie a sua opinião e in- teraja com os demais participantes... abraços e até a próxima.

84

85

No documento Múltiplo 6 - PDF (páginas 57-85)

Documentos relacionados