5.5 O MODELO DE EQUIFINALIDADE DE TRAJETÓRIA – TEM
5.5.1 HSS, EFP, OPP e TEM
A Amostragem Historicamente Estruturada – HSS (Historically Structured Sampling) é um método de amostragem de casos individuais baseado nas histórias previamente conhecidas de seu curso de vida até o presente, analisadas como uma série de pontos de bifurcação. A noção do HSS está baseada fortemente na noção de equifinalidade que se originou na Teoria Geral dos Sistemas de Bertalanffy (SATO et al., 2007) e acarreta um movimento radical de outros métodos de amostragem aceitos – sendo a amostra randômica o mais glorificado dele – para uma versão não-randômica de casos individuais (SATO et al., 2009).
Para Sato et al. (2009) o HSS foca na experiência de vida de uma pessoa qualquer dentro do tempo irreversível. As experiências vividas poderiam ser consideradas como verdadeiros fenômenos abertos sistemicamente. E todas as experiências vividas estão incorporadas num tempo e lugar específicos.
Sato et al. (2007) afirmam que o HSS pretende selecionar casos individuais para o estudo através da consideração de suas trajetórias históricas movendo-se através de um estado temporário comum (ponto de equifinalidade). Em outras palavras, o HSS tem seu foco nos eventos e / ou estados considerados como pontos de equifinalidade – EFP (Equifinality
Points).
O EFP definido na pesquisa localiza, em diferentes trajetórias de vida, o ponto temporariamente comum aos participantes. E decorre do interesse do pesquisador no estudo psicológico do indivíduo, voltado muito mais à experiência vivida. Isto é, o pesquisador determina o que deseja estudar a partir da teoria e da metodologia escolhidas.
A equifinalidade significa que um mesmo estado pode ser atingido a partir de condições iniciais diferentes e por diferentes maneiras no curso do tempo. Então as pesquisas tentam retratar a multi-linearidade, ou seja, as trajetórias para aquele EFP. Isso tem um papel central na seleção de casos de sistemas de desenvolvimento no caso do HSS. Quaisquer
estados psicológicos e / ou eventos na vida nos quais os pesquisadores tenham interesse são estruturados historicamente (Sato et al., 2007).
O TEM (Trajectory Equifinality Model) se trata de uma proposta para descrever o desenvolvimento humano a partir da perspectiva histórico cultural. Ele é o método para descrever a trajetória de vida das pessoas dentro do tempo irreversível após os pesquisadores centrarem seu foco em eventos importantes marcados como Pontos de Equifinalidade (EFPs). Após estabelecer esse ponto de equifinalidade, as trajetórias devem ser traçadas (Sato et al., 2007; 2009).
Sato et al. (2007; 2014) traz como primeira noção no uso do TEM para construir modelos o tempo irreversível. Depois, o Ponto de Bifurcação – BFP (Bifurcation Points), que é o ponto que apresenta pontos alternativos para onde ir, que se configuram como momentos de ruptura e transição. Já o Pontos de Passagem Obrigatória – OPP (Obligatory Passage
Points) se trata de uma fase ou evento que uma pessoa deve experienciar inevitavelmente. E
são de dois tipos: endógenos e exógenos (Sato et al., 2007; 2014). Os primeiros estão ligados aos pontos de transição que espécies biológicas precisam vivenciar, como a perda dos dentes- de-leite pelas crianças, a primeira menstruação das adolescentes ou a menopausa. O OPP exógeno, é aquele gerado pelo ambiente e / ou pela vivência do sujeito.
Valsiner (2017) afirma que Driesch trouxe a noção de equifinalidade para o ramo das ciências biológicas. Equifinalidade traz a ideia de chegada a um mesmo estado desenvolvimental final (ou intermediário) através de vários caminhos. No processo de desenvolvimento – baseado no ponto inicial caracterizado pela potencialidade do futuro, são os reguladores hipotéticos que – através das diferentes trajetórias – trariam o organismo à sua forma final esperada (equifinal).
Se nosso foco conceitual é o estado presente e seus futuros caminhos (visão prospectiva), a terminologia da potencialidade prospectiva nos permite olhar para as ramificações das trajetórias potenciais que se apresentam em direção ao futuro. Se, contudo, nosso foco está no ponto de chegada – no futuro ou no presente – é a noção de equifinalidade que se encaixa em nosso discurso (visão retrospectiva) (VALSINER, 2017).
Segundo Valsiner (2014) o TEM é um método que tem como objetivo revelar o processo de construção de uma trajetória do movimento de um sistema à medida que ele está acontecendo. A fim de fazer isso, o método precisa considerar o que já aconteceu até agora na vida de uma pessoa, à luz do que poderá (grifo do autor) acontecer no próximo passo no
futuro e o que deveria (grifo do autor) ter acontecido, como determinado pela pessoa e pelas demandas sociais que agem sobre ela.
O TEM funciona com uma unidade de análise estrutural qualitativa que pertence a ambos os lados da fronteira do presente. Assim, ele envolve uma investigação cuidadosa de fenômenos relevantes e nossas suposições básicas sobre eles. Sua estrutura básica é orientada na distinção entre o futuro e o passado considerando trajetórias reais ou potenciais. Ambos os tipos de fenômenos – reais (o que aconteceu) e um fenômeno imaginário do que poderia ter acontecido (X, Y, Z) e um futuro imaginário (A, B, C) são tratados como relevantes no TEM (Valsiner, 2014) onde, em trajetórias reais, sempre coexistem trajetórias possíveis (alternativas) que, mesmo sendo rejeitadas, continuam a exercer uma influência sobre o sistema.
Para Valsiner (2014) considerar que o real e o imaginário são fontes iguais – embora distintos – para extração de dados psicológicos, posiciona o TEM como um método distinto de outras formas de olhar as trajetórias de vida. Além disso, descrições de trajetórias de vida de um passado real (e futuro) falham em considerar o ponto central do presente imediato – onde o futuro está sendo negociado.
E isso o TEM faz – ele está localizado no presente (não importando o quão minúsculo momento no tempo ele pode ser – um microssegundo ou um ano) fazendo as pessoas olharem para frente (antes que o evento aconteça) e para trás (o que já aconteceu) nas suas vidas subjetivas (encarando o infinito) através de suas vidas sociais (infinidade externa). Em suma – o pesquisador procurará descobrir as relações de ambas as trajetórias – as reais e as imaginárias (VALSINER, 2014).
Desse modo, a imaginação, como proposta por Zittoun et al. (2011) traz uma reflexão importante na criação de possibilidades de construção de significados no futuro. Nossa capacidade para a imaginação cria um reino de objetos na vizinhança de nossas vidas reais – o que nós imaginamos não existe (como objetos “reais”) no entanto também não “não-existe” (no sentido de que esses objetos que não são reais podem ser imaginados como se eles existissem). Ao invés da estrita lógica clássica que lida com X ou Y / ou da designação do VERDADEIRO ou FALSO (tanto o verdadeiro ou falso, ambos podem não existir) nossa capacidade de imaginação cria uma terceira classe de objetos que estão situados entre essas posições (“FALSO – ainda que IMAGINARIAMENTE VERDADEIRO”).
Nesse ponto, o TEM nos dá uma oportunidade de colocar os eventos reais (a experiência efetivamente vivida) e os não-reais (imaginado – mas pessoalmente importante) no mesmo esquema funcional. A imaginação se torna real – e o “real” adquire um novo valor através da imaginação. A imaginação direciona o desenvolvimento humano (ZITTOUN; VALSINER, 2016).
Enquanto prosseguimos para o futuro em cada momento nos cursos de nossa vida, a imaginação – baseada em nossos passados – podem criar cenários esperados e desejados do que pode acontecer. A partir dessa perspectiva, o fingimento das brincadeiras de crianças, as aspirações pessoais e profissionais dos adultos e as adaptações psicológicas dos mais velhos ao lidar com as limitações da idade são todas geradas pelo mesmo sistema básico: a capacidade construtiva para imaginar o estado AS-IF (como se fosse) de objetos que são acessíveis na forma AS-IS (como são) ou em outras palavras, a capacidade para imaginar que qualquer que seja o caso ele poderia ser diferente ou que o que não é poderia ser verdadeiro (ZITTOUN et al., 2011; ZITTOUN; VALSINER, 2016).
Para Sato et al. (2007) o TEM é uma estratégia para pesquisa qualitativa e pode ser um modo de descrever toda a história de vida caso em estudo e que inclui tanto os movimentos reais do passado e possíveis (alternativas) ações as quais – por uma razão ou outra – foram deixadas apenas dentro do campo das possibilidades, quanto do futuro.
Contudo, Jensen e Wagoner (2016) chamam a atenção para o fato de que, mesmo que através do TEM seja possível analisar tanto os caminhos realizados como os não realizados, deve-se entender que a nossa memória é construtiva ao invés de meramente reprodutiva, o que pode trazer dificuldades à pesquisa desses caminhos não realizados. O ponto principal a considerar é que a rememoração é raramente, se alguma vez, um registro estático de todas as coisas que aconteceram no passado. Ao invés disso, ela é reconstruída no presente sofrendo a influência de outras demandas atuais (WAGONER, 2013).
Nesse sentido, a ação retrospectiva se torna uma ferramenta semiótica através da qual nós racionalizamos todo o nosso comportamento passado orientando o futuro, sem que haja uma evidência clara e transparente de como as decisões foram tomadas. Como tal, o que podem inicialmente parecer ser trajetórias de vida similares para diferentes pessoas que atingiram um mesmo EFP em particular podem na verdade ser identificações individuais com uma narrativa sociocultural compartilhada do passado que permite a essas pessoas justificar suas circunstâncias atuais e se aproximar do futuro (JENSEN; WAGONER, 2016).
Segundo Zittoun e Valsiner (2016) no caso do desenvolvimento psicológico humano, os processos regulatórios direcionam a pessoa em desenvolvimento para o campo de possibilidades que se estende para além do estado de equifinalidade. O desenvolvimento não tem um ponto equifinal, mas que se estende para além deste ponto (post-equifinal): em cada realização desenvolvimental está a raiz para fenômenos adicionais, não previamente conhecidos. Assim, o desenvolvimento psicológico implica uma liberdade para o futuro – em vez da chegada a um estado final de funcionamento psicológico. Isso é possível graças à capacidade para imaginação ao nível da construção de significados do sujeito.
Jensen e Wagoner (2016) afirmam que para descobrir a natureza multifacetada das experiências, incluindo os fatores de encarnação e criação de significado, é possível verificar os detalhes empíricos de como as trajetórias se desenrolam em vários casos diferentes, idealmente atingindo um EFP especificado. Porém, se fizer isso, o pesquisador que utiliza o TEM pode perder de vista indivíduos que tomaram caminhos alternativos (ao invés de simplesmente imaginar aquelas alternativas) ou para quem o EFP especificado sempre foi um resultado qualquer atingido (seja por razões econômicas, geográficas, sociais ou culturais, por exemplo).
Considerando que o objetivo principal de nossa pesquisa é identificar e analisar a construção de significados durante a trajetória de vida de empreendedores, ao longo de suas rupturas e transições, através do entendimento do papel que a atividade semiótica pode desempenhar na mediação e regulação da atividade empreendedora, mantendo-a ou transformando-a, optamos por não determinar um EFP próprio para nossos estudos de caso. Entendemos que, na análise dos casos selecionados, estabelecer um EFP poderia nos limitar a explorar apenas uma perspectiva retrospectiva da vida de nossos entrevistados, como, por exemplo, a abertura do negócio. Assim, optamos por ampliar a análise para uma perspectiva prospectiva, incluindo a projeção de futuros possíveis, explorando outras diversas possíveis trajetórias. Dessa maneira, tanto para o ponto de equifinalidade (EFP) como para o estabelecimento de um possível ponto de passagem obrigatória (OPP) optamos em nossa pesquisa por não estabelecer qualquer desses momentos.