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O principal objetivo de nossa pesquisa foi identificar e analisar a construção de significados durante a trajetória de vida de empreendedores, ao longo de suas rupturas e transições, através do entendimento do papel que a atividade semiótica pode desempenhar na regulação da atividade empreendedora, mantendo-a ou transformando-a.

Nossa pesquisa contou com uma triangulação metodológica (VERGARA, 2005; DENZIN, 2009) assumindo que os métodos podem ser vistos como complementares ao invés de rivais. Para Zittoun (2009) que faz uma reflexão sobre quais as estratégias metodológicas seriam capazes de captar o sentido de transição, a conclusão é que pela combinação de métodos a complexidade sistêmica pode ser avaliada.

Assim, procuramos construir nossos dados para investigar a construção de significados na trajetória de vida de empreendedores a partir de diferentes formas de externalização do indivíduo. No caso das entrevistas, todas adotaram o conceito amplo da história de vida, que é uma metodologia que visa ao estudo e ao registro de acontecimentos nas histórias de vida, através de uma narração autobiográfica onde o próprio personagem a constrói e a produz (LAVILLE; DIONNE, 1999; VERGARA, 2005; MARCONI; LAKATOS, 2011).Utilizamos os seguintes instrumentos para construção de dados: (I) ficha de dados sócio demográficos, (II) três entrevistas narrativas individuais em profundidade, sendo a primeira uma entrevista aberta e não-estruturada e duas outras semiestruturadas e (III) diário de campo.

I: Ficha de dados sócio-demográficos (Apêndice 3)

Antes de iniciar a primeira entrevista, os participantes receberam uma ficha com dados sócio-demográficos, incluindo as seguintes informações: nome completo, data de nascimento, escolaridade, ocupação atual, estado civil, presença de filhos, com quem reside, endereço e telefone para contato posterior.

II: Entrevistas narrativas em profundidade

As entrevistas usadas em nosso projeto tiveram por base o conceito amplo da história de vida, que é uma metodologia que visa ao estudo e ao registro de acontecimentos nas histórias de vida, através de uma narração autobiográfica onde o próprio personagem a

constrói e a produz (LAVILLE; DIONNE, 1999; VERGARA, 2005; MARCONI; LAKATOS, 2011;).

A estratégia da história de vida atribui importância aos indivíduos e à sua vivência e pode ser definida como a narração, por uma pessoa, de sua experiência vivida de uma forma transitória, fluida e flexível – não cristalizada – de suas ações e posicionamentos. Trata-se de uma técnica para gravar não apenas lembranças do passado, mas reflexões e opiniões daqueles cujas vidas estão ainda comprometidas com atividades públicas (MOSS, 1974).

III: Diário de campo

Durante a realização das entrevistas, foi mantido um diário pelo pesquisador na forma de anotações realizadas após cada entrevista. Mynaio (1993) aponta que o diário deve conter todas as informações extra-fonte de pesquisa, tudo aquilo que não está nas fontes. Já para Demo (1996) o diário é uma técnica de registro dos pensamentos e dos grupos de pesquisa no quotidiano da própria pesquisa.

Assim, a escrita do diário permite coletar, no dia a dia, “instantes” que se vivem e que nos parecem trazer neles uma parte de significado. No diário foram anotadas informações relevantes que não puderam ser gravadas nas entrevistas, tais como expressões não verbais e emoções manifestadas pelos entrevistados, novos temas emergentes, insights do pesquisador e interpretações relevantes.

O estudo agora se volta a descrever como foi feita a seleção da amostra. A definição da amostra consiste numa etapa importante do trabalho do pesquisador. Os critérios para a seleção da amostra, como enfatiza Merriam (1998) deverão refletir diretamente o propósito do estudo e guiar a identificação de casos ricos em informações. Para a autora, a escolha dos critérios deverá levar em consideração “o quê” o pesquisador quer descobrir e “o que deseja entender” a respeito do fenômeno estudado, selecionando assim, um campo onde mais possa aprender.

Uma vez que o objetivo geral deste estudo é identificar e analisar a construção de significados durante a trajetória de vida de empreendedores, ao longo de suas rupturas e transições, através do entendimento do papel que a atividade semiótica pode desempenhar na mediação e regulação da atividade empreendedora, mantendo-a ou transformando-a, optou-se por uma amostra não probabilística intencional.

De acordo com Patton (2002) a lógica desse tipo de amostragem está no entendimento em profundidade de um fenômeno, que conduz à seleção de casos ricos em informação para o estudo em profundidade. Casos ricos em informações são aqueles por meio dos quais, o pesquisador, pode aprender sobre assuntos de importância central ao seu propósito de pesquisa, daí o termo amostragem intencional.

Foram escolhidos como participantes do estudo, dois empreendedores, sendo uma do gênero feminino e um do gênero masculino. Os casos pesquisados foram escolhidos por critérios de julgamento intencional, tipicidade e acessibilidade (COOPER; SCHINDLER, 2003; MARCONI; LAKATOS, 2011). Apesar de critérios de idade, mínima ou máxima, não serem fatores determinantes para escolher os empreendedores, isto porque a atividade empreendedora não pode ser situada em uma faixa de idade predominante (CABRAL, 2007) todos os participantes eram adultos, maiores de dezoito anos.

Os participantes escolhidos atuam em atividades terciárias de produção (comércio e serviços), no estado de Pernambuco, proprietários de empresas formalmente inscritas no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ) do Ministério da Fazenda (MF), por pelo menos 42 meses (3,5 anos).

Este tempo mínimo de duração do negócio dos empresários escolhidos para participar da pesquisa levou em consideração a pesquisa do GEM (2015) que no Brasil é coordenada pelo SEBRAE, que estabelece empreendedores estabelecidos como aqueles cujos negócios que administram e são proprietários, pagam salários, geram pró-labores ou qualquer outra forma de remuneração aos proprietários, por, pelo menos, esse período.

Os participantes selecionados foram abordados através de um contato telefônico onde se explicou em linhas gerais sobre o que se tratava a pesquisa, fazendo o convite. Após aceitar o convite, foi marcada a primeira reunião onde realizamos a explicação minuciosa dos objetivos da pesquisa, efetuando a leitura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) obtendo a assinatura do participante para formalizar sua participação na pesquisa.

Aplicamos a ficha de dados sócio demográficos e foram aplicadas duas entrevistas, a primeira aberta e não-estruturada e uma segunda semiestruturada. A 1ª entrevista visava obter uma primeira descrição da história de vida do entrevistado, deixando-o livre para traçar sua trajetória, mas deixando-o livre para traçar sua trajetória e tinha como pergunta deflagradora: “Gostaria que você me contasse um pouco sobre quando você pensou em ser empreendedor(a) pela primeira vez”. Durante essa entrevista, o pesquisador interferiu o mínimo possível,

fazendo apenas perguntas de caráter complementar ou elucidativo do evento narrado, ou perguntas para manutenção do foco da entrevista, e ainda perguntas que garantiram que eles conseguissem narrar sua experiência. Outro objetivo dessa primeira entrevista foi também identificar a presença de recursos semióticos que pudessem ser explorados na construção de significados.

A 2a. entrevista usou um roteiro semiestruturado (ver roteiro no Apêndice 2) com o objetivo de fazer o participante relatar especificamente a esfera de experiência do ser empreendedor(a), procurando destacar elementos como: rupturas percebidas; o que vivenciou, mas gostaria de não ter vivido ou vivido de uma outra forma; o que menos tem afinidade na vivência como empreendedor(a) e quais os sentimentos envolvidos; como imagina seu futuro. Foi realizada, então, a 3ª entrevista, que seguiu também um roteiro semiestruturado (ver roteiro de Lúcia no Apêndice 4 e o roteiro de Cláudio no Apêndice 5) procurando dirimir dúvidas e esclarecer pontos que precisavam ser melhor elucidados.

Essa nova entrevista procurou perguntar aos participantes sobre os períodos considerados na pesquisa mais de uma vez, como forma de fazê-los reconstruir com mais detalhes um momento rico em transições e construção de significados (ZITTOUN, 2009) possibilitando recuperar informações relevantes levantadas nas primeiras entrevistas e que ainda necessitem de uma abordagem mais aprofundada.

Utilizamos um smartphone para gravar as entrevistas, já que este instrumento além de produzir uma gravação de qualidade é um objeto discreto, de pequeno tamanho e, em geral, familiar às pessoas no dia a dia, o que reduz a possibilidade da sua presença inibir o entrevistado. As entrevistas foram posteriormente transcritas integralmente para efetuar sua análise.

Após a realização dessa terceira entrevista usamos elementos do modelo de equifinalidade de trajetória – TEM, buscando os pontos de bifurcação e ruptura na trajetória de vida dos participantes. Tanto a trajetória efetivamente concretizada como aquela de futuros possíveis imaginados.

6 DISCUSSÃO DOS CASOS

Nossa proposta metodológica combina métodos de base idiográfica (MOLENAAR, 2004; MOLENAAR; VALSINER, 2005) que buscam “compreender a generalidade dentro de particulares sempre únicos” (VALSINER, 2012a, p. 320). Assim, para investigar a construção de significados durante a trajetória de vida de um empreendedor, ao longo de suas rupturas e transições, propomos fazê-lo através de estudo de caso (YIN, 2001; ZITTOUN, 2006b). Isto porque assumimos a concepção de que os seres humanos são únicos – embora compartilhando o mesmo background geral da cultura coletiva (em separação inclusiva), vivendo suas experiências de vida numa relação cognitiva e afetiva com o ambiente e com os outros, sobretudo, construindo significados sobre elas.

Segundo Zittoun et al. (2011) e Zittoun (2012) para ter em conta a unicidade é necessário procurar demonstrar como as pessoas constroem sentido em relação ao que ocorre a elas. Nossa ênfase se dá na construção da cultura pessoal, nos processos de autorregulação que caracterizam o sujeito, que em nossa pesquisa são dois empreendedores, envolvendo a construção de novos sentidos de si e a busca de integração entre as esferas da experiência de vida ao longo do tempo, mediada por relações dialógicas com outros sociais significativos.

No caso de Lúcia, identificamos a macrobiótica como um signo autorregulador que orienta as experiências sua na trajetória de vida, regulando o papel de outros signos em sua conduta (heteroregulação). Quanto a Cláudio, entendemos que o signo autorregulador música atua na construção de uma generalização integrada ao seu sistema pessoal de sentidos e aos seus afetos pessoais, orientando as experiências na sua trajetória de vida, regulando o papel de outros signos em sua conduta.

Procuramos descobrir como os participantes entendem seu presente e criam um sentido, um significado em relação a suas ações e trajetórias. Sendo que essa compreensão inclui tanto as partes reais quanto as imaginárias dessas trajetórias (o que aconteceu, ou o que poderia ter acontecido, ou o que deveria ter acontecido).

Para iniciar a análise, foi feita anteriormente uma pré-análise de todo o material, consistindo na leitura e releitura flutuante dos textos transcritos das entrevistas, procurando preservar os núcleos de sentido presentes nas falas dos participantes. Buscamos com isso

obter maior familiaridade com o conteúdo, identificando os principais aspectos ou temas abordados pelos nossos participantes.

Primeiramente, as entrevistas foram transcritas e analisadas, verbatim, procurando preservar os núcleos de sentido presentes nas falas dos participantes. De cada entrevista foi realizada uma síntese geral, em torno dos temas ou eventos mais relevantes. A análise foi feita identificando marcadores recorrentes e significados, indicadores dos posicionamentos dos participantes ao longo de seus cursos de vida com base em suas narrativas, sendo que cada uma das entrevistas foi revisada em sucessivas análises.

O diário de campo permeou a análise de todos os instrumentos, servindo para complementar os dados já coletados. A escrita do diário nos permitiu coletar instantes vividos durante os momentos de coleta de dados que nos pareceram trazer neles uma parte de significado. No diário foram anotadas informações relevantes que não puderam ser gravadas nas entrevistas, como expressões não verbais e as emoções manifestadas pelos entrevistados,

insights e interpretações relevantes do pesquisador.

Além disso, para investigar a trajetória dos participantes da pesquisa recorreremos ao

Modelo de Equifinalidade de Trajetórias – TEM (SATO et al., 2007; 2009; SATO;

VALSINER, 2010; VALSINER, 2014; JENSEN; WAGONER, 2016; ZITTOUN; VALSINER, 2016) cuja abordagem e procedimentos também serão fundamentais na construção de nossos instrumentos de análise. Utilizamos o TEM por entender que ele nos ajuda a perceber mais claramente a articulação entre o que foi vivido e o que é projetado, imaginado, na constituição das trajetórias de vida.

Para Valsiner (2012a) a construção e o uso de signos agem para regular fenômenos psicológicos emergentes, tanto os interpessoais quanto os intrapessoais. Assim, pelo uso de signos, os seres humanos podem transcender qualquer contexto de atividade situada no aqui- e-agora, lançando mão de significados pessoais subjetivamente construídos (ou seja, a cultura pessoal). De acordo com Cabell (2010) os reguladores semióticos podem tanto se tratar de dispositivos intra-mentais, ativa e diretamente utilizados nos processos psicológicos, como por dispositivos extra-mentais, ativa e diretamente utilizados para cultivar a cultura pessoal ou do campo cultural coletivo.

Utilizamos, assim, o conceito de reguladores semióticos para nos referir aos mediadores semióticos que tiveram efeitos diretos sobre os fenômenos observados de nossos participantes. Dessa maneira, identificamos como reguladores semióticos no caso de Lúcia:

sua adesão à macrobiótica, a formação de sua família e o tornar-se empreendedora. Para Cláudio: ser músico, ser professor e ser empreendedor.

Como já dissemos anteriormente, optamos para o desenvolvimento de nosso estudo pela investigação construtivo-interpretativa, que é centrada no significado que os indivíduos dão aos fenômenos. A investigação interpretativa coloca o interesse central no significado humano, na vida social e na sua elucidação e exposição por parte do investigador. Assim, consideramos que este tipo de análise constitui uma oportunidade de investigar os significados construídos pelos participantes no contexto da pesquisa. A partir das transcrições, as narrativas foram segmentadas em trechos onde os significados, especificamente relacionados ao tema e objetivos da pesquisa, foram identificados. Tendo o projeto de pesquisa sido cadastrado na Plataforma Brasil com o CAAE 49925615.8.0000.5208 e submetido em 08/10/2015, foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de Pernambuco em 05/11/2015.