III. Universidade Federal Fluminense Instituto de Letras IV Título.
4. Perspectivas Analíticas Sobre o Humor
4.2 Humor e face
No modelo de polidez mais conhecidamente discutido e criticado, o de Brown e Levinson (1978, 1987) a polidez é considerada um elemento essencial para a vida em sociedade e é concebida tendo como base duas ideias centrais, a de que os humanos são racionais e que têm face.
A racionalidade está diretamente relacionada ao princípio da cooperação proposto por Grice (1978). Assim como Grice, Brown e Levinson acreditam que a comunicação é baseada na cooperação entre indivíduos que buscam evitar situações de conflito e manter o respeito mútuo. Trata-se de um processo racional e calculado em que o indivíduo é um modelo ideal
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Most literature on humour (…) assumes that laughter is the normal and most appropriate support for an attempt at humour: Coser (1960) observes that to joke and not to hear anyone laugh in response is similar to initiating a handshake and only to have one’s outstretched hand ignored (Hay, 2001, p. 62).
que usa a linguagem de forma estratégica, assumindo um comportamento cooperativo de modo a garantir a harmonia interacional.
A noção de face é originalmente discutida por Goffman (1967). Segundo o autor, em comunicação os indivíduos monitoram seus comportamentos empenhados em manter as
faces, tanto a sua própria quanto a de seu interlocutor. Espera-se que o respeito mútuo
(garantido pelo processo de socialização) dê-se de bom grado, espontaneamente, por conta da identificação emocional com os sentimentos dos outros e com os seus próprios.
Para Brown e Levinson os aspectos da face são tratados a partir de dois desejos básicos, “que todo membro sabe que todo outro membro deseja e que, em geral, é de interesse de todos os membros satisfazer parcialmente” (Brown & Levinson, 1987, p. 62). A face positiva relaciona-se ao desejo de ser aprovado e a face negativa ao desejo de não sofrer imposição.
Apoiados ainda em Goffman, os autores afirmam que, à exceção de situações de ruptura social ou de cooperação urgente, os participantes tendem a (i) mostrar auto- respeito, controlando sua conduta de modo a evitar comportamentos inconsistentes com a imagem reivindicada; (ii) e mostrar consideração pelo outro, sustentando sua imagem ou evitando seu desmascaramento. (Oliveira, 2008, p.183)
De acordo com Brown e Levinson (1987), quando o objetivo comunicativo envolve a necessidade da realização de um Ato de Ameaça à face (doravante AAF), os interlocutores têm as seguintes opções: a) não fazer o AAF; b) fazer o AAF diretamente; c) fazer o AAF diretamente, mas com o apoio de estratégias de polidez positiva/negativa ou d) fazer o AAF indiretamente.
Nesse sentido, os autores apresentam uma hierarquia de estratégias disponíveis aos falantes. A decisão quanto ao tipo de estratégia relaciona-se a três variáveis sociais, a distância social entre falante e ouvinte, a sua relação de poder e o grau de imposição do ato em questão.
Dentre as estratégias apresentadas, o humor é considerado uma estratégia de polidez positiva, através da qual a distância social entre falante e ouvinte é diminuída. Nas palavras dos autores:
Já que as piadas são baseadas no conhecimento mútuo e valores compartilhados, elas podem ser utilizadas para enfatizar este conhecimento ou os valores compartilhados. Fazer piada é uma técnica básica de polidez positiva para deixar o ouvinte ‘à vontade’ – por exemplo, em resposta a um faux pas do ouvinte, o falante pode brincar [...] As brincadeiras podem ser usadas também como uma exploração de estratégias de
polidez, em tentativas de redefinir o tamanho do ato de ameaça à face20. (Brown e Levinson, 1987, p.124 [tradução minha]).
A perspectiva de Brown e Levinson revela uma rigidez com relação à função do humor, uma vez que dá a entender que o humor tem a função exclusiva de comunicar polidez positiva ou estratégias off record. Embora tenha também esta função, quando problematizada – levando em conta principalmente aspectos interacionais e relacionais – a relação do humor com a face torna-se mais complexa.
Béal e Mullan (2013) afirmam que o elo entre humor e preocupações com a face é mais delicado do que propõem Brown e Levinson, sobretudo quando o alvo do humor é o interlocutor. Nesse sentido, ao analisarem comparativamente o humor Francês e o Australiano, as autoras ampliam o escopo da temática humor/face, estabelecendo para esta relação três subcategorias de funções pragmáticas:
i) O humor que ameaça à face do outro em prol do humor simplesmente – a ameaça à
face é um subproduto do humor: as preocupações em relação às faces são
temporariamente suspensas para fazer os outros rirem. Muitas dessas ameaças entram nas categorias ‘falsas’, elas são ‘falsos desafios’, ‘falsas imitações’, ‘falsa impolidez’.
ii) O humor que é usado para reparar uma ameaça à face real ou em potencial do outro, por exemplo, o humor que ajuda a manter as interações em harmonia mesmo que tenha havido alguma forma de ameaça à face (uma pergunta indiscreta ou uma crítica velada, por exemplo, ou uma autoameaça do falante anterior).
iii) O humor que é usado como autodefesa, em resposta a uma percebida ameaça à face (humorística ou não), por exemplo, o humor permite que o falante contra ataque, sem que revele nenhuma mágoa, protegendo assim sua face positiva.
Por outro lado, o humor que tem como alvo uma terceira parte é mais simples de ser analisado de um ponto de vista pragmático, pois seu objetivo é, segundo as autoras, na maior parte das vezes, criar ou reforçar cumplicidade entre o falante e seus interlocutores.
20 Since jokes are based on mutual shared background knowledge and values, jokes may be used to stress that shared background or those shared values. Joking is a basic positive-politeness technique, for putting H ‘at ease’ – for example, in a response to a faux pas of H’s S may joke […] Jokes may be used as an exploitation on politeness strategies as well as, in attempts to redefine the size of the FTA (Face Threatening Act) (Brown & Levinson, 1987, p. 124).