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III. Universidade Federal Fluminense Instituto de Letras IV Título.

8. Humor Fantasioso

8.1 Tipos de humor fantasioso

8.1.2 Humor fantasioso absurdo

O HF absurdo flerta com o impossível e o absolutamente imaginado e, embora tenda a não apresentar um alvo específico por conta do nonsense no qual se apoia, pode também demonstrar, por inversão, alguns valores do grupo.

EXCERTO 7

1 Diego gente >que que< o ((nome de jamil))trouxe

2 hein↑

3 Denis racle:tte

4 Letícia raclette de tlenis↑

5 Aurora [((ri alto))]

6 Letícia [((ri))]

7 Fabio [((ri))]

8 Diego [que porra é essa?]

9 Fabio £flondi de quleijo↓

10 Aurora [((ri))]

11 Letícia [((ri))]

12 Marcio [((ri))]

13 Fabio [((ri))]

14 Jamil [chegando: tira aqui↓]

O excerto 7 ocorre no momento em que um dos participantes está esquentando o prato que preparou para o almoço. Jamil, que é conhecidamente um dos participantes que mais ousa no que diz respeito ao que cozinhar, preparou para este encontro uma Raclette, um prato típico da Suiça que não é conhecido por todos os participantes do grupo.

O excerto inicia-se com Diego, que está atento à comoção na cozinha, e, chamando atenção para a complexidade do preparo, traz para o grupo a pergunta: (“gente, >que que< o jamil trouxe hein↑”) (l. 1-2). A resposta de Dália já parece reconhecer o indício de um possível gatilho para o humor, uma vez que ela estende a vogal “e” ao proferir a palavra em língua estrangeira: (“racle:tte”) (l. 3).

O enquadre não sério é confirmado na linha 4 quando Letícia toma a palavra estrangeira como gatilho para uma brincadeira nonsense que vem da semelhança entre “raclette” e a palavra “raquete”, em português.

A linha 4 (“raclette de tlenis”) é recebida com o riso por todos os participantes presentes e, na linha 7, Diego volta a questionar a complexidade do prato de Jamil, demonstrando um certo desprezo pelo prato, tanto com a própria pergunta quanto com o uso de “porra”: (“[que porra é essa?]”) (l. 8).

Usando a pergunta de Diego como mais um gatilho, Fabio dá mais uma contribuição ao HF absurdo, com o mesmo padrão de Letícia (modificando com a letra ‘l’ as palavras “fondue” e “queijo”) ele simplifica o prato: (“flondi de quleijo”) (l. 9). O riso sobreposto confirma o enquadre de humor e, com a chegada do prato, as contribuições se encerram, mas vale notar que o riso permanece sobreposto: (“[chegando: tira aqui↓]”) (l. 14).

Este excerto é um bom exemplo do mecanismo de condensação proposto por Freud, onde há a presença de dois campos de significado que se fundem e causam estranhamento e, consequentemente, geram humor.

O excerto demonstra uma escalada de turnos de humor que gera uma sequência fantasiosa absurda. Ao construir-se em torno do que é complexo para o grupo – preparar uma

Raceltte para o almoço – o humor revela que o grupo preza uma certa simplicidade não com

relação ao que comer, mas com relação ao que preparar para o grupo nos encontros. Assim, da mesma forma que os casos analisados de humor fantasioso exagerado, este excerto faz ver, por inversão, aquilo que é valorizado pelo grupo, que ri daquele que é por demais sofisticado.

No excerto 8, vemos Diego anunciando uma ação, em princípio ordinária (que vai colocar os óculos) não fosse um dia nublado.

EXCERTO 8

1 Diego gente tá um fri:o vou colocar meu £óculos

2 hhh

3 Jamil ah sim. fundamental com esse sol de mil

4 graus

5 Diego olha. pode não tá sol, mas você sabe que o

6 UV tá solto né £e eu me sinto mais protegido

7 aqui-

8 Jamil tá solto. [cuidado pra ele não te £pegar]

9 Letícia ((ri)) [no seu mundo paralelo?]

10 Aurora protegido de que?

11 Diego sim. aqui todos me a:mam, eu sou >rico 12 milionário< (.) não preciso trabalha:r

14 Letícia assiste seus bbbs39, torce pra uma puta

15 qualquer

16 sem prec[sem pre-] sem medo

17 Aurora [acabou o som]

18 Diego isso. sem preconceito 19 Jamil [você trouxe seu ipod?]

20 Diego é:isso é que é vida.

Diego abre o enquadre da brincadeira justificando uma ação – a de colocar os óculos – porque está frio. O absurdo se instala e encontra quem o alimente, num alinhamento que evidencia a função de entretenimento. Vemos, neste turno, a partir de pistas prosódicas e semânticas, dois falantes em ação: o que coloca os óculos escuros em dias nublados e o que recrimina aquele que os coloca.

O que coloca os óculos sinaliza o humor por elementos prosódicos como o alongamento da vogal em (‘fri:o’) e a partícula de riso em (£óculos) (l. 1). E conta ainda com a incongruência da ação que evidencia o discurso humorístico. Com a falta de sol, não há a necessidade de óculos de sol.

Este primeiro turno é recebido com mais humor – validando o enquadre como ‘não sério’ – por Jamil, com ênfase em (“fundamental”), e com a incongruência em: (“sol de mil graus”) (l. 3-4). Portanto, o ato absurdo da linha 1 abre espaço para um segundo turno que alimenta o humor e dá início a sequência de HF absurdo que segue.

Vendo a ironia como uma ação que ocupa uma posição de avaliação na sequência e, consequentemente, de distanciamento do falante, podemos dizer que em (“fundamental”) e (“sol de mil graus”) não ouvimos Jamil, mas sim um personagem que é trazido ao discurso por Jamil de modo a servir de vítima de Jamil e demonstrar a sua avaliação crítica.

Este personagem proposto por Jamil alinha-se a Diego e à sua atitude incongruente de colocar os óculos de sol em um dia nublado, dando continuidade ao HF absurdo. Dessa forma, na ironia de Jamil a vítima agora é Diego.

Como numa dupla, a fala de um serve como escada para o outro. Agora é a vez de Diego aproveitar a escada, dando uma justificativa que reivindica a coerência da ação (“olha. pode não tá sol, mas você sabe que o UV tá solto né £e eu me sinto mais protegido aqui-”) (l. 5-7). Ainda num trabalho em equipe, Jamil se aproveita da expressão “tá solto” para tornar mais absurda a conversa, personificando o raio de sol (“tá solto. [cuidado pra ele não te

39 Referência ao programa de televisão Big Brother Brasil, que consiste no confinamento de um número variável de participantes em uma casa cenográfica, sendo vigiados por câmeras 24 horas por dia, sem conexão com o mundo exterior.

£pegar]” l. 8). A função de entretenimento é instalada e outros participantes cooperam para alimentar o enquadre, seja com o riso, seja explicitando o absurdo: Letícia e Aurora: (“((ri)) [no seu mundo paralelo?]) (l. 9) e (“protegido de que?”) (l. 10).

A referência ao mundo paralelo funciona como um gatilho para que HF absurdo seja alimentado. Em seu turno, Diego apresenta o mundo paralelo como o mundo ideal (“sim aqui todos me amam, eu sou rico, milionário não preciso trabalhar”) (l. 11-12). Novamente, a questão do trabalho e do dinheiro refletem por inversão os valores do grupo. Pelo que se observa, o trabalho que não dá prazer ou que só dá dinheiro não pode fazer parte do mundo ideal.

O grupo parece ironizar o ideal de vida vendido por uma sociedade capitalista e do espetáculo: ser (“rico, milionário”) (l. 11-12) que (“vive de renda”) (l. 13), (“assiste bbbs”) (l. 14) e (“torce pra uma puta qualquer”) (l. 14-15). A ironia fica clara na fala de Diego: (“é: isso é que é vida.”) (l. 20).

Através do humor, o grupo se une em torno do que despreza: programas como o BBB que fazem o povo fazer coisas como: (“torce pra uma puta qualquer sem prec [sem pre-] sem medo.) (l. 14-16) e (“isso. sem preconceito”). (l. 18). A fala de Aurora (“[acabou o som]”) (l. 17), seguida por Jamil: (“[você trouxe seu ipod?]”) (l. 19), fecha o enquadre da brincadeira e traz todos de volta à realidade e ao enquadre sério.

Neste excerto, observamos que mais uma vez todos participam do entretenimento. Gatilhos são deixados e aproveitados pelos participantes para criar esse mundo absurdo. Observamos também que os valores que unem o grupo são reiterados pela ironia, o que reforça a unidade do grupo. Mas talvez, dada a natureza absurda do humor, sem um alvo específico e, possivelmente, com limites mais fechados, as sequências não são tão longas, a manutenção do humor seja mais difícil.