I. 4.1. O «HOMEM-MASSA» E O «LUGAR DO PRÍNCIPE»
Cremos que o assunto de que a seguir nos ocuparemos é demasiadamente humano para que possa ter sido demasiadamente afetado pela ação do tempo. Assim avisava, também, num registo visionário, José Ortega Y Gasset (1966), no seu “Prólogo para Franceses”, da obra
paradigmática La Rebelión de las Masas (escrito entre 1926 e 1928). A monitória significa, basicamente, que os dilemas sociais que alarmavam Ortega Y Gasset,
nos exórdios do século XX, não diferem substancialmente, na sua atualidade, dos que aqui se vão, agora, escalpelar.
Em A Rebelião das Massas, o “Zaratustra madrileno” (Assumção, 2012) chamava a atenção para a eclosão de um fenómeno que ameaçava desbaratar o maior tesouro do Ocidente: a magnífica pluralidade da grande família europeia e a sua unidade dinâmica. A ameaça, essa, residia numa forma de homogeneidade, fruto da modernidade, que lastreava, triunfante, qual moléstia, por todo o continente: o homem-massa. Não se trata de uma classe social, mas de uma categoria antropológica (Barreiro e Soto, 2001) na qual podem caber espécimes de todos os estratos, desde as “massas operárias” até às (pseudo–)elites intelectuais e económicas. É a categoria do “homem – médio”, fabricada pela
“ (…) mercantilização e a homogeneização da cultura de massa, pela superficialidade do entretenimento, pela invertebração das sociedades, pela desmoralização da educação, pela substituição do valor pelo preço, pela deslegitimação do passado, pelo desrespeito ao que veio antes, pela relação extractivista em relação aos produtos da cultura – o homem-massa é um bárbaro que subiu pelo alçapão da História e que vive na cultura como em estado selvagem.” (Assumção, 2012:19)
Ortega Y Gasset (Ortega Y Gasset, 1966:121) afronta ferinamente este “achado antropológico”, assim:
“Este hombre-masa es el hombre previamente vaciado de su propia historia, sin entrañas de pasado y, por lo mismo, dócil a todas las disciplinas llamadas «internacionales». Más que un hombre, es sólo un caparazón de hombre constituido por meros idola fori; carece de un «dentro», de una intimidad suya, inexorable e inalienable, de un yo que no se pueda revocar. De aquí que esté siempre en disponibilidad para fingir ser cualquier cosa. Tiene sólo apetitos, cree que tiene sólo derechos y no cree que tiene obligaciones: es el hombre sin la nobleza que obliga — sine
nobilitate— snob45.”
Este “homem sem nobreza”, que nunca se havia deparado com um “ambiente vital” (id.,ibid.:176) aparentemente tão favorável às condições da sua existência, implantado pelo século XIX, por via das bendições da democracia liberal, da experimentação científica e do industrialismo, comporta-se como uma verdadeira criança mimada. O “homem-massa” debate- se pela livre expansão dos seus desejos vitais, mas mostra uma “radical ingratidão a tudo
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Em Inglaterra, no fim do século XVIII, as listas de residências indicavam, junto de cada nome, o ofício e classe do indivíduo. Ao lado dos nomes dos simples burgueses, surgia a abreviatura s. nob., isto é, sem nobreza (sine nobilitate).
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quanto tornou possível a facilidade da sua existência” (id.,ibid.:178). Ele vê-se numa paisagem cheia de possibilidades, segura, mas, de tão mimado pela sua circunstância, crê que essa organização material e social é tão natural como o ar que respira. As massas, plebeias ou “aristocráticas”, convenceram-se de que a “perfeição” que as inovações do século XIX trouxeram à organização de certas ordens da vida não é verdadeiramente obra de inspirações e de esforços humanos, mas, antes, natureza:
“Así se explica y define el absurdo estado de ánimo que esas masas revelan: no les preocupa más que su bienestar y al mismo tiempo son insolidarias de las causas de ese bienestar. Como no ven en las ventajas de la civilización un invento y construcción prodigiosos, que sólo con grandes esfuerzos y cautelas se puede sostener, creen que su papel se reduce a exigirlas perentoriamente, cual si fuesen derechos nativos.” (id.,ibid.:179)
O homem que Ortega Y Gasset analisa habituou-se a não apelar a si mesmo, para além da satisfação que sente com as vantagens da civilização e da técnica. Tende a afirmar e a considerar como bom e melhor tudo quanto em si acha: apetites, opiniões, preferências, gostos. O homem-massa sente-se soberano da sua própria vida. Chega mesmo a crer que só ele existe e acostumou-se a não contar com os demais, sobretudo a não contar com nada ou ninguém superior a ele.
Mas, note-se: a “nobreza” a que Ortega se refere não é uma “nobreza de sangue”, estamental, hereditária. Ouçamo-lo, uma vez mais, na sua própria língua:
“Para mí, nobleza es sinónimo de vida esforzada, puesta siempre a superarse a sí misma, a trascender de lo que ya es hacia lo que se propone como deber y exigencia. De esta manera, la vida noble queda contrapuesta a la vida vulgar o inerte, que, estáticamente, se recluye a sí misma, condenada a perpetua inmanencia como una fuerza exterior no la obligue a salir de sí. De aquí que llamemos masa a este modo de ser hombre—no tanto porque sea multitudinario, cuanto porque es inerte.” (id.,ibid.:183)
Sempre houve “massas”, mas a grande diferença da atual, relativamente às anteriores, é a sua disposição radical para o hermetismo e a indocilidade, na medida em que o “homem- massa” acredita que se basta a si mesmo. Mas, não era isto que se queria? – questiona-se Ortega. Que o “homem médio” se sentisse dono e senhor de si mesmo e da sua vida? Então, não se estranhe que esse homem reclame todos os prazeres, imponha a sua vontade e as suas opiniões com força de lei, ache que tem mais direitos do que obrigações e se negue a toda a servidão, que não seja, portanto, dócil (id.,ibid.). Alain Renaut (2004:190) associa a dessacralização da autoridade (e.g., política, jurídica, educativa) à perda de “transcendência” conferida pela tradição e ao aumento das liberdades individuais:
“Mais autonomia, mas menos referências. Mais liberdade de escolha, mas menos certezas. Mais espaço de discussão, mas também mais conflitos e confrontações entre os indivíduos ou entre os grupos (…). Mais espírito crítico, mas cada vez mais dificuldade, para os diversos poderes, sem os quais não existe coexistência possível, de fazerem prevalecer os objetivos que querem atingir, quer para o bem de todas as pessoas quer para o de todas as comunidades envolvidas.”
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Para Renaut (ibid.:108), a confusão em que nos encontramos no espaço da escola, tal como na família, “tem no seu cume de dificuldade os paradoxos da identidade democrática”:
“A cultura democrática é uma cultura de igualdade, que é, em primeiro lugar da igual dignidade de todos os seres humanos. Ela conduz a pensar o outro sob o regime do «mesmo»: a mesma dignidade, o mesmo respeito, os mesmos direitos, as mesmas liberdades. Num tal contexto, a diferença (étnica, genérica ou geracional) não pode nem deve ser reconhecida (e sabemos que ela exige cada vez mais fortemente sê-lo), a não ser num fundo de identidade partilhada – com todas as interrogações que levanta nessas condições, no entrecruzar do «mesmo» e do «outro», a noção de identidade.” (id.,ibid.)
Em «The Crisis in Education, publicado, pela primeira vez, em 1957, na revista Partisan Review, Hannah Arendt (2006) relacionava, também, a crise de autoridade na educação com a crise da tradição, no sentido em que, pela sua própria natureza, a educação não pode “fazer economia nem da autoridade nem da tradição, sendo que, no entanto, essa mesma educação se deve efetuar num mundo que deixou de ser estruturado pela autoridade e unido pela tradição” (id.,ibid.:205).
Mario Vargas Llosa (2012) refere mesmo que em nenhum campo esta dessacralização da autorictas46 foi tão catastrófica para a cultura como na educação:
“ O professor, despojado de credibilidade e autoridade, convertido, em muitos casos, na perspetiva progressista, em representante do poder repressivo, isto é, no inimigo a quem, para alcançar a liberdade e a dignidade humana, era preciso resistir e, até, abater, não só perdeu a confiança e o respeio sem os quais era impossível cumprir eficazmente a sua função de educador (…) perante os seus alunos (…), personificaram nele um daqueles instrumentos sinistros de que (…) o establishement se vale para refrear o espírito crítico e a sã rebeldia de crianças e adolescentes.” (id.,ibid.;80)
Llosa (ibid.) considera que muitos professores acreditaram de boa-fé nesta
“ (…) satanização de si mesmos e contribuíram, atirando baldes de azeite para a fogueira, para agravar o estrago, fazendo suas algumas das mais disparatadas sequelas da ideologia do Maio de 68 relativamente à educação, como considerar aberrante reprovar os maus alunos, fazê-los repetir o ano e, até, dar classificações e estabelecer uma ordem de preferência no rendimento académico dos estudantes, pois, fazendo semelhantes distinções, propagar-se-ia a nefasta noção de hierarquias, o egoísmo, o individualismo, a negação da igualdade e o racismo.”
Para Llosa (ibid.:82), o empobrecimento e a desordem, gerados por aqueles disparates, no ensino público, deram ao ensino particular, que terá sofrido menos estragos com a suposta revolução libertária, “papel preponderante na forja dos dirigentes políticos, profissionais e culturais de hoje e do futuro”.
Os tempos – tornemos a Ortega – são os das correntes e do “deixar-se arrastar” (Ortega Y Gasset, 1966:213). É diminuta a resistência aos torvelinhos superficiais que se formam na política, nas ideias, na arte ou nos costumes sociais. Por essa razão, a retórica triunfa mais do que nunca. Os tempos são de nivelação: nivelam-se as fortunas, nivela-se a cultura entre as
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De acordo com o Diccionario da Real Academia Espanhola, a autoridade, no sentido romano de auctoritas, designa “prestígio e crédito que se reconhece a uma pessoa ou instituição pela sua legitimidade ou pela sua qualidade e competência em alguma matéria”.
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classes sociais, nivelam-se os sexos – nivelam-se os continentes (id.,ibid.). A vida mundializou- se e, com isto, Ortega quer dizer que “el contenido de la vida en el hombre de tipo medio es, hoy, todo el planeta; cada individuo vive habitualmente todo el mundo” (id.,ibid.:163). Ainda há pouco mais de um ano – escrevia Ortega, referindo-se à globalização das comunicações – os sevilhanos acompanhavam, hora a hora, através dos seus jornais populares, as desditas de uns homens junto ao Pólo. Ao largo da ardente paisagem bética – ironiza – passavam icebergues, à deriva. O mundo cresceu e, com ele, o repertório das possibilidades vitais:
“Cada trozo de tierra no está ya recluido en su lugar geométrico, sino que para muchos efectos vitales actúa en los demás sitios del planeta. Según el principio físico de que las cosas están allí donde actúan, reconoceremos hoy a cualquier punto del globo la más efectiva ubicuidad. Esta proximidad de lo lejano, esta presencia de lo ausente, ha aumentado en proporción fabulosa el horizonte de cada vida.” (id.,ibid.:163)
Porém, o crescimento substantivo do mundo está menos na diluição das fronteiras espaciais e temporais do que no facto de “incluir mais coisas”: mais coisas para desejar, para comprar, fazer, desfazer, encontrar, desfrutar, repudiar.
As atuais performances superam grandemente as do passado. Mas,
“No basta con admirar cada una de ellas y reconocer el record que baten, sino advertir la impresión que su frecuencia deja en el ánimo, convenciéndonos de que el organismo humano posee en nuestro tiempo capacidades superiores a las que nunca ha tenido.” (id.,ibid.:166)
Essas capacidades superiores estão bem patentes, por exemplo, no desenvolvimento científico. A Física de Einstein move-se em espaços tão vastos e esconsos que, comparativamente, a Mecânica Clássica de Newton parece ocupar, apenas, uma cave. “El átomo, en fin, límite ayer del mundo, resulta que, hoy, se ha hinchado hasta convertirse en todo un sistema planetário “(id.,ibid.). Assim, é possível compreender que, na mente do “homem- massa” se tenha criado uma fabulosa impressão de prepotência. Não obstante, ele sente-se perdido no meio da abundância. Daí – diz Ortega – essa estranha e paradoxal dualidade de prepotência e de insegurança que se aninhou na sua alma. De tanto tudo lhe parecer possível, pressente-se que é possível o pior: o retrocesso e a barbárie. Para Ortega e Gasset, o fascismo é um bom exemplo de regressão substancial. Para Ortega, trata-se de
“Movimientos típicos de hombres-masas, dirigidos, como todos los que lo son, por hombres mediocres, extemporáneos y sin larga memoria, sin «conciencia histórica», se comportan desde un principio como si hubiesen pasado ya, como si acaeciendo en esta hora perteneciesen a la fauna de antaño.”“(id.,ibid.:204)
Nas escolas – continua Ortega – ensina-se às massas as técnicas da vida moderna, mas não se consegue educá-las, ou seja, dá-se-lhes os instrumentos para viverem intensamente, mas não “a sensibilidade para os grandes deveres históricos” “(id.,ibid.:173); inoculam-se-lhes, a trouxe-mouxe, o orgulho e o poder dos meios modernos, mas não o espírito. O resultado está à vista: