Diz o narrador, a propósito dos temperamentos humanos, que o «manso», seja homem ou mulher, pode muito bem estar a «despedaçar-se no seu interior por efeito da solidão, do desamparo, da timidez, daquilo que os dicionários descrevem como um estado afetivo desencadeado nas relações sociais e com manifestações volitivas, posturais e neurovegetativas»170 e, não obstante, «eis que o pacífico, o dócil, o submisso, de repente, desaparecem da cena e, em seu lugar, desconcertante e incompreensível para os que da alma humana já supunham saber tudo, surge o ímpeto cego e arrasador da ira dos mansos»170. «O mais normal» - diz ele - «é que dure pouco, mas dá medo quando se manifesta»170. Contudo, muito antes deste seu sarcástico, mas interpelador conspecto, já o filósofo Miguel de Unamuno (1911:41), nas reflexões ao longo das suas viagens, entre 1900 e 1909, havia dado conta destes traços idiossincráticos, em Por tierras de Portugal y de España, nos seguintes termos:
“El pueblo portugués tiene, como el gallego, fama de ser un pueblo sufrido y resignado, que lo aguanta todo sin protestar más que pasivamente. Y, sin embargo, con pueblos tales hay que andarse con cuidado. La ira más terrible es la de los mansos.”
Serve esta inquietante digressão acerca da “ira dos mansos” como mote para nos fixarmos sobre a Manifestação Nacional de professores de 8 de março de 2008.
Considerada, ao tempo, a maior manifestação (calculada em 100 000 pessoas) de uma classe profissional em Portugal, no regime democrático, foi, também,
“ (…) o primeiro grande momento de contestação social dos tempos digitais, em que se ultrapassaram os métodos tradicionais de mobilização e se recorreu a todo um novo conjunto de plataformas de comunicação à distância, desde SMS, a redes sociais, da circulação de inúmeros
emails a debates na blogosfera.” (Guinote, 2016, orelha do livro)
Tratou-se de um “sobressalto cívico” (ibid.) que aturdiu um país e uma classe política familiarizados, com efeito, com iniciativas de estilo mais escolástico. E, como veremos, deu origem a um fluxo hipomaníaco de textos e de discursos, num efeito de “histeria discursiva”, sintomática de uma “síndrome de pânico moral”. Contudo, será melhor andar “de diante para trás”, como nos recomenda Tertuliano Máximo Afonso, para melhor compreender a génese deste “sobressalto” que, além de cívico, foi, também, e por isso, evidentemente, discursivo.
Teremos de recuar no tempo, muito para além das razões da contestação. Mas não só no tempo. Também no espaço, para além das “regiões de fachada” goffmanianas, onde se
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desenrolam as representações. Teremos de adentrar nas “regiões de fundo” (bastidores), habitualmente vedadas ao público, onde o humorista rumina o seu pensamento suicida e o candidato a primeiro-ministro se autoflagela pela gaffe cometida numa entrevista, ao calcular, de cabeça, o valor correspondente a uma percentagem do Produto Interno Bruto. E é aqui, muito provavelmente, nestas “zonas de penumbra”, mal iluminadas, onde os atores depõem as “máscaras”, que, ao contrário do que sugeriu Pais (1986:26), a sociologia de Goffman deixa de ser “uma sociologia do efémero, do episódico, em cujo objeto de estudo as estruturas sociais se diluem num intrincado interacionismo”, para passar a ser uma “sociologia dos sussurros”, dos “territórios do eu” e das suas reservas (Goffman, 1979) – nomeadamente a reserva de informação (ibid.) – em cujo objeto de estudo os agentes das estruturas de poder consolidam as suas alianças, representadas, depois, em palco, num interacionismo frequentemente cínico, como o próprio Goffman (1993) entreviu.
Teremos de recuar até dezembro de 2005, altura em que, a então Ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, tem, finalmente, na sua posse, o Estudo sobre a Reorganização da carreira docente do Ministério da Educação, encomendado a João Carlos de Oliveira Moreira Freire, sociólogo e Professor Catedrático de Sociologia aposentado do ISCTE (Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa). A encomenda fora formalizada em 27 de setembro de 2005, através de um ofício com o n.º 6625, tal como consta no ponto 1.1. do referido estudo (Freire, 2005:8).
De acordo com o seu autor, o estudo assume um caráter, simultânea e sucessivamente, de diagnóstico, parecer e proposta (ibid.:10). Não tendo “caráter jurídico”, confessa-se, porém, com pretensões analítico-sintéticas e político-estratégicas (ibid.), ou seja, orientado, claramente, por horizontes ideológicos, ao pretender legitimar um discurso com base em representações sociais axiomáticas (acerca de uma classe profissional) que o autor agregará, sumariamente, no seu “diagnóstico”, um procedimento tipicamente retórico171 enquanto processo de estatuir uma legibilidade do mundo (Die Lesbarkeit der Welt), para que este se “faça experiência”, através dessa legibilidade (Pinto, 2015). O objetivo do estudo prefigura-se particularmente complexo, em termos metodológicos:
“ (…) [a] revisão urgente do modelo de progressão nas carreiras de educadores de infância e de professores do ensino básico e secundário, norteada pelo princípio da valorização da prática letiva e sustentada por referências comparativas de outras carreiras profissionais de estatuto social equivalente em Portugal e com as carreiras homólogas em outros países.” (ibid.)
Estamos diante de mais um exemplo daquilo que, porventura de modo não muito exagerado, poderíamos denominar de “indústria de persuasão dos decisores políticos”. A legitimidade de decisão do poder político chama a si a auctoritas científica172, apresentada como
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No sentido aristotélico do termo, como capacidade de persuadir.
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possuindo um valor de índole moral determinante que assegura a axiopistía173 da decisão (Arévalo, 2014). Trata-se, em suma, de uma forma de legitimidade outorgada pela auctoritas científica e pela crença nesta (Weber, 2002).
É certo que já não bastam “os méritos do caráter sagrado da tradição” (ibid.:30) para garantir a validade legítima de uma determinada ordem sociopolítica nem, pelo visto, a “autoridade carismática” (ibid.), devido, quiçá, a uma crise de confiança relativamente à exemplaridade dos agentes políticos nas suas esferas de ação. Desconfiança, pois “quando a política, como profissão, se encontra ao serviço dos chamados beati possidentis, assegurando a viciação do sistema e a dominação das paixões e dos interesses parciais, a democracia, como regnum de transparência, deixa de cumprir a sua promessa” (Prior, Guazine, e Araújo, 2015:168). O papel crescente da ciência nos processos de tomada de decisão política talvez reflita, então, mais esta crise de autoridade carismática do que um excesso de “confiança epistemológica” (Santos, 2010:12) no paradigma da ciência moderna. Em suma, e regressando a João Caraça (1999:687),
“ (… ) o poder mantém uma relação ambivalente com a ciência, permitindo suficiente «poder da ciência» com o objetivo da sua própria legitimação, mas induzindo o necessário «poder na ciência» como garantia da sua capacidade de supervisão em questões de competência.”
Toda esta expedição pela complexidade das relações entre os “saberes” que se “alinham” com os poderes para produzir legitimidade política, faria sentido, a nosso ver, se o documento elaborado por João Freire pudesse ser reconhecido como “científico”, ou seja, como um conjunto sistematizado de dados obtidos mediante demonstração metódica e racional e passíveis de verificação empírica. Não cabe aqui uma autópsia integral do documento, por falta de espaço útil, mas não nos inibiremos de dizer que, em muitos aspetos, o texto aproxima-se mais de um texto de opinião do que de um trabalho com pretensões de (alguma) cientificidade. Como quando é dito, por exemplo:
«À partida, pareceu que a situação atual de organização e funcionamento da carreira (…) podia ser descrita sinteticamente [pelo] fraco rendimento do sistema, medido pela insuficiente qualidade dos “formados” (…)»
Poder-se-á indagar: Como se mede/mediu a qualidade dos “formados”? Com que indicadores? Quem mediu? Admitindo que a qualidade dos “formados” é insuficiente, que responsabilidade tem o empregador (o Estado) no défice de formação dos seus “formados”? O único indicador do (fraco) “rendimento” do sistema é a (insuficiente) qualidade dos “formados”? Atente-se, ainda, para o efeito modal174
do verbo parecer. Como referem (Duarte e Pinto, 2013:36),
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Do grego , que significa credibilidade, motivo de confiança (Arévalo, 2014:21)
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A Modalização é um fenómeno característico do processo de enunciação e refere-se, essencialmente, a como as coisas são ditas, isto é, à expressão verbal ou não verbal da perspetiva do locutor que afeta, naturalmente, o conteúdo do seu enunciado (Blancafort e Valls, 2001). Por outras palavras, a Modalização “refere-se à relação que se