PARTE III: DISSOLUÇÃO HIPERESPETACULAR: JOGOS DE (IN)VISIBILIDADE E
CAPÍTULO 1 – O IMAGINÁRIO HIPERESPETACULAR E A FENOMENOLOGIA DO ― APARE S ER ‖
1.2 Iconofagia, mediosfera e desejo de visibilidade
Quando tudo é tela, a imagem torna-se a única realidade visível. (MACHADO DA SILVA, 2007, p. 33).
No hiperespetáculo, os indivíduos não se limitam a produzir e consumir imagens. O processo de espectralização, sem o qual não é possível adentrar a inabitável nulodimensionalidade ciberespacial, tem por consequência a redução/abstração da complexidade multissensorial do ser. Diferentemente do aparecer como ser/existir no mundo para um olhar, ―apareSer‖ é ser imagem-técnica. Os indivíduos são imagens, habitam-nas, vivem por elas. Diagnóstico semelhante foi feito por Trivinho (2007b, p. 10) ao tratar do fenômeno da existência em tempo real: ―Essa experiência encerra, grosso modo, o significado ontológico e tecnocultural do que é ‗viver‘ no e como espectro, através e a partir dele‖.
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Tal promiscuidade permite que se diga, sem exageros, que os indivíduos se alimentam de imagens, ao passo que, por sua vez, são por elas devorados, tal é a proposição de Baitello Jr. (2005) ao tratar da era da iconofagia. Nesse sentido, observa-se um interessante exemplo ligado às redes sociais digitais: antes de realizar as refeições, tornou-se comum fotografar e publicizar o prato (figura 47), preferencialmente em tempo real.
O "crime" parece irresistível: você está em um restaurante fino, o prato chega bonito e apetitoso e, mesmo com água na boca, você para tudo para tirar uma foto da comida e postar no seu Instagram, Facebook ou Twitter. A prática é tão disseminada no mundo – e desagradável – que alguns estabelecimentos já proíbem clientes de fotografar os pratos. (IKEDA, 2013).
A produção incessante e desmesurada de imagens parece não aplacar a insaciável e irascível fome de imagens. Aliás, conforme Baitello Jr. (2005, p. 54), ―cada vez menos se comem alimentos, cada vez mais se comem imagens de alimentos (embalagens, cores, formatos, tamanhos, padrões etc.)‖.
Figura 47. Imagem do álbum Instagram do Facebook de Julie Fernanda (16 dez. 2012).
Aplicativos de fotos como o Instagram4, no vácuo da popularização do acesso à
Internet por meio de dispositivos tecnológicos de conexão móvel e contínua, associada à
integração de câmeras digitais a smartphones, tablets e netbooks, contribuiram para a
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intensificação das práticas autoexpositivas e autorreferenciais nas redes sociais. Além de facilitarem a publicação imediata das cenas capturadas, esses aplicativos possibilitam a aplicação de filtros pré-configurados que hiper-realizam-nas. Graças a eles, os cibernautas não precisam mais escrever onde estão ou com quem estão. Podem, simplesmente, postar uma foto. Espectralização instantânea.
Em consonância, o irônico cartoon ―Cézanne, o tataravô do Instagram‖ revela o sentido implícito na prática autoexpositiva de publicar imagens de refeições: a pressuposição de que o outro precisa saber, no instante mesmo em que acontecem, coisas tão banais quanto ―o que vou comer agora‖ (figura 48).
Figura 48. Cartoon “Cézanne, o tataravô do Instagram”. Autoria desconhecida.
O traço neonarcisista da indiscriminada publicização de si não pode ser desconsiderado. Tele-existir é uma estratégia de afastamento do outro que implica, ao mesmo tempo, uma espécie de intimidade voyeur. Convocado a assumir o papel de audiência, o outro observa, tudo sabe, mas não pode aproximar-se, não pode tocar aquilo que vê. Como apresentado anteriormente5, tal comportamento é fruto da cultura narcisista que caracteriza a pós-
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modernidade, mas há outro aspecto subjacente ao desejo de visibilidade que precisa ser considerado: o fato da subjetividade alterdirigida, comumente contraposta ao sujeito introspectivo da modernidade disciplinar, ter emergido sob a vigorosa mediosfera desenvolvida ao longo do século XX.
De acordo com Contrera (2010, p. 56-57), a mediosfera não é uma esfera à parte da noosfera, mas pode ser entendida como o imaginário próprio da sociedade mediática. Noosfera é um neologismo introduzido por Teilhard de Chardin em O Fenômeno Humano que conjuga noûs (em grego, espírito, psique) e sphaíra, do latim sphaera (esfera) para designar a ―‗camada pensante‘ que, após ter germinado nos fins do Terciário, se expande desde então por cima do mundo das Plantas e dos Animais: fora e acima da Biosfera, uma Noosfera‖ (1994, p. 197). Essa realidade hiperfísica de dimensões planetárias ―tem na Humanidade sua base física‖ (ibid., p. 120). Morin (1998, p. 140) retoma o termo para designar, em consonância com Chardin e o conceito de ―mundo três‖ de Popper, o universo de signos, símbolos, imagens e ideias no qual a humanidade vive imersa. Nesse sentido:
[...] a noosfera está presente em toda visão, concepção, transação entre cada sujeito humano com o mundo exterior, com os outros sujeitos humanos e, enfim, consigo mesmo. A noosfera tem certamente uma entrada subjetiva, uma função intersubjetiva, uma missão transubjetiva, mas é um elemento objetivo da realidade humana. (Ibid., p. 146).
Para Morin, é impossível negar existência e realidade próprias aos mitos e ideias que habitam a noosfera. São seres do espírito (ibid., p. 139). Trata-se do ―mundo das ideias, dos espíritos/mentes, dos deuses, entidades produzidas e alimentadas pelos espíritos humanos na cultura‖ (id., 2005, p. 303).
Pode-se dizer, conforme Contrera (2010), que conteúdos arquetípicos, míticos e milenares, devidamente tratados por meios de comunicação de massa e pelas tecnologias digitais, objetos de recontextualizações que invariavelmente os afasta de suas raízes originais e os transforma em estereótipos pela redução simbólica que sofrem, são ―seres do espírito‖ pertencentes a um universo próprio, a mediosfera. Não por acaso, concorda-se com Morin (1969, p. 83) que o culto às estrelas, a despeito da cultura de massa ser ―fundamentalmente estética e profana‖, secreta uma mitologia própria.
Se, como lembra Machado da Silva (2012, p. 51), ―a noosfera é feita de imaginários‖, é preciso considerar o quanto os media, como dispositivos suaves e difusos, inoculam o imaginário, provocando, pela produção excessiva de sentidos, uma crise de sentido sem
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precedentes. São, sem dúvida, poderosas ―tecnologias do imaginário‖ que, na sociedade do espetáculo, ―trabalham pela povoação do universo mental como sendo um território de sensações fundamentais‖. Eis o alinhamento entre mediosfera, iconofagia e hiperespetáculo: as imagens mediáticas em circulação alimentam as almas, levando-as a crer que não existe sentido fora do mundo das imagens; por isso, todos querem participar do ―show da vida‖, viver seu próprio espetáculo. Tele-existir é ―apareSer‖. E ―apareSer‖ é ser hiperespetacular, por-se como imagem entre imagens e continuamente renovar sua própria aparição, consumindo-as, consumindo-se e pondo-se como objeto de desejo e de consumo. A esse respeito, Baitello Jr. (2012, p. 124-125) assevera:
A iconofagia também ocorre quando pautamos nossa vida pelas imagens, desejamos ser como as imagens (dos corpos esculturais, dos ídolos, dos rostos perfeitos, das peles sem rugas nem cicatrizes do tempo, dos cabelos sedosos e sempre lisos e esvoaçantes, dos narizes de padrão Barbie e tantos outros modelos desejados), queremos ser como as imagens ideais. Perdemos o contato com o nosso corpo real, com o mundo das diversidades infinitas de corpos, de rostos, de narizes, de cabelos e peles. Alimentamo-nos com imagens e nos transformamos em imagens. Os exemplos dramáticos de enfermidades como anorexia, bulimia e obesidade mórbida nos desafiam a pensar sobre os efeitos danosos de uma sociedade da imagem sobre os corpos reais.
Torna-se compreensível a vivacidade do desejo de visibilidade que consome tantos nas práticas tele-existenciais de autoexposição: o imaginário, devidamente semeado pelas narrativas mediáticas que viscejam nos mais diversos meios e formatos, tomado pelas figuras e pelos valores da mediosfera, assume o ―apareSer‖ como prioridade vital. Apoiadas em Debord (1967) e Fridman (2000), Bruno e Pedro (2004, p. 4) tecem a seguinte consideração:
Num mundo que se apresenta sob a forma de imagem espetacular, a vida real é experimentada como pobre e fragmentária, movendo os indivíduos a contemplar e a consumir passivamente tudo o que lhes falta em sua existência real. O espetáculo é, assim, o sequestro da vida e a cisão do mundo em realidade e imagem.
Espectralização da existência e hiperespetacularização nas plataformas ciberculturais são intrínsecas: a projeção de si visa à conquista da visibilidade mediática para, nela, o sujeito autoafirmar-se. Ressalte-se, inclusive, o fato de que espectro e espetáculo comungam a mesma raiz latina, specto, e são da ordem da visualidade. Nos termos de Chauí (2006, p. 81-82), pertencem ―ao campo da visão‖.
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