2 A segregação espacial como elemento da cidade
2.2 A idade moderna da cidade
São as reformas de Haussmann, em Paris a partir de
1853, que realmente transformam a cidade a partir de um
ideá-rio moderno, movido não só pelo crescimento da cidade, mas
pelo advento de novas dinâmicas do capital; e, principalmente,
pelo controle social de uma população extremamente
empobre-cida, que entre as década 30 e 40 daquele século, ocupava as
ruas pedindo mudanças políticas e econômicas:
O desemprego, condição estrutural da velha Paris, traduzido na fome e nas péssimas condi-ções de habitação, era o principal combustível das barricadas. E o método para tal empresa foi a demolição, seguido da reconstrução. As palavras encontradas com mais frequência no
terceiro volume das”Mémoires du Baron
Haus-smann” são: decreto, utilidade pública, expro-priação, prolongamento, alargamento, abertu-ra e demolição. (ARRAIS, 2016)
Benevolo (2015), afirma que a intervenção em Paris vai,
posteriormente, moldar todas as modificações nas cidades
eu-ropeias; e será também a guia para fundação de novas cidades
nas colônias. Esse modelo tem características que superam o seu
tempo e podem facilmente ser aplicado às cidades
contemporâ-neas.
A primeira delas e, talvez, o mais relevante na medida em
que dá origem aos subsequentes, é o acordo entre a
administra-ção pública e a propriedade imobiliária e que é viabilizado pela
responsabilidade da administração pública em proporcionar a
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infraestrutura mínima necessária para fazer funcionar o
con-junto urbano, qual sejam, as redes de circulação (ruas, praças,
estradas de ferro, etc.) e as redes de instalações (água, esgoto e,
posteriormente, eletricidade etc.). E ao privado cabe
adminis-trar o restante da cidade, isto é, os terrenos servidos por essas
redes.
Aponta ainda que, os edifícios e/ou espaços livres
públi-cos devem ser considerados como propriedades privadas,
pas-síveis de serem demolidos, reconstruídos ou vendidos. Assim, o
uso das propriedades em áreas urbanizadas depende dos
pro-prietários individuais (poder público ou privado). Sobre esses a
administração pública influi apenas indiretamente, através de
regulamentos que limitam as dimensões dos edifícios em
rela-ção ao espaço público.
A publicação de vários decretos, como indica-dos em suas memórias (Haussmann, 1890), instituindo áreas de utilidade pública para fins de desapropriação, funcionou como um verniz para esconder o processo autoritário que co-locou abaixo milhares de residências de ope-rários. (...) O objetivo da administração, para recorrer a Harvey (2015), é reduzir as “barreiras espaciais”. (ARRAIS, 2016)
Como consequência, há uma simplificação com relação
ao desenho da cidade que se estabelece apenas através da
li-nha entre o espaço público e o espaço privado — a fachada do
edifício (rua corredor). Isso faz com que os urbanistas passem
a assumir um papel técnico, distanciando-se do fazer artístico e
das tomadas de decisão que são feitas dentro do pacto entre o
poder público e os proprietários.
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Esta separação entre os aspectos “técnicos” e“ar-tísticos” do trabalho faz decair a integridade e, pois, também a qualidade formal da grande maioria dos objetos de uso: as “obras de arte” destacam-se como exceções numa massa de objetos insignifi-cantes e vulgares. (BENEVOLO, 2015, p. 586)
Especificamente com relação às intervenções de
Hauss-mann, Benevolo (2015) aponta que fundamentalmente é dado
pelo traçado de novas ruas. A cidade haussmanianna acrescenta
95 km de vias à cidade, representando um incremento de
apro-ximadamente 25% do sistema viário. (ARRAIS, 2016)
Interessante notar que na cidade a questão da circulação
interna era um problema devido ao crescimento expressivo de
população, mas também se relaciona com obrigatoriedade da
fluidez na circulação das mercadorias. A figura 8 a seguir,
reti-rada do trabalho de Arrais (2006) mostra a rede de ruas criada
por Haussmann.
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Ainda que a implantação de um sistema de transporte
público pareça louvável, segundo Sennett (2015), ele não
obje-tivava a melhoria da qualidade de vida, ou o lazer;
(...) nem tampouco seus itinerários contri-buíam para a interpenetração das classes so-ciais. Destinava-se a transportar trabalhadores ao trabalho e às lojas. (SENNETT, 2015, p. 460)
Também é deste período a implantação de serviços
pú-blicos, que Benevolo (2015) denomina de secundários: escolas,
hospitais, prisões, quartéis e, principalmente, os parques; e, por
fim, a criação da nova estrutura administrativa da cidade, os
ar-rondissements, que surgem da anexação de comunas nas áreas
pe-riféricas.
Apesar do termo gentrificação ter sido cunhado pela
pri-meira vez por Ruth Glass, em 1964
17, para descrever mudanças
verificadas na estrutura social de bairros londrinos, o projeto
de Haussmann é o primeiro a realizar as melhorias do espaço
urbano associadas diretamente com o deslocamento da
popu-lação mais pobre.
No caso de Londres, ao contrário, no século XIX, são as
classes abastadas que abandonam o centro caótico da cidade
em direção à periferia, deixando suas casas para serem
dividi-das em pequenas moradias para a massa de trabalhadores que
migram para cidade. (cf. BENEVOLO, 2015). Esta dinâmica
tam-bém ocorreu em São Paulo da década de 1920 e 30, quando as
camadas mais abastadas abandonam as áreas centrais (Sé,
Re-pública e Campos Elíseos), em direção aos bairros jardins da Cia
City. (cf. tabela 01 página 121)
17. GLASS, R. (1964) Intro-duction to London: aspects of change. Centre for Urban Studies, London (reimpresso in GLASS, R. (1989) Cliche´s of Urban Doom.
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Engels (2009)
18, afirma que o deslocamento espacial da
população é a estratégia para fragmentar as classes e
capitali-zar a burguesia, em um momento em que o solo urbano passa a
ser uma mercadoria em si. Ele ainda estende suas análises para
outras cidades que seguem o mesmo modelo Haussmanniano
como Londres, Manchester, Liverpool, Berlim e Viena.
Segundo Arrais (2016), a partir de dados retirados do
li-vro Mémoires du Baron Haussmann de 1890,
A escala da remoção, mesmo considerando as possíveis imprecisões nas informações, é assustadora. Mais de 350.000 pessoas, a jul-gar pela ocupação média domiciliar, por assim dizer, “trocaram” de lugar. Um deslocamento espacial. Observa-se, por exemplo, a relação entre construções e reconstruções na Paris antiga, comparando-as ao subúrbio (...) Há, claramente, um deslocamento de habitações e alguns tipos de indústrias para as faixas subur-banas, motivo pelo qual outro anel foi incorpo-rado, via decreto, ao sítio de Paris, formando os
vinte “arrondissements” atuais. (ARRAIS, 2016)
Arrais (2016) é cauteloso em apontar Haussmann como
o criador do mercado imobiliário e da segregação espacial
ur-bana, porém afirma que é ele quem primeiro instrumentaliza
as condições para a maximização da exploração do solo urbano,
facilitado naquele momento, por um protagonismo do Estado
que se utiliza de um regime de exceção de leis e regulamentos
do solo urbano que passa a ter alto valor de troca, a partir de
sua modernização e segmentação da cidade.
18. A obra Para a questão da Habitação é resultado da compilação de textos publica-dos pelo jornal Volksstaat de maio de 1872 a janeiro de 1873
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(...) muitas alterações em Paris já estavam emcurso. Haussmann não partiu do zero. Não há como negar, entretanto, que sua ampla recons-trução de Paris foi funcional para o capital, em um sentido amplo, uma vez que eliminou as “barreiras espaciais” para a produção, a circu-lação e o consumo segmentado. Capitalizou, via crédito, os agentes do mercado imobiliário. Como garantia o aparato legal, que permitiu, a um só tempo, aproveitar o excedente de mão de obra, abrir espaço para novas lojas, embelezar a cidade e construir conjuntos de apartamen-tos confortáveis para determinadas frações da burguesia. (ARRAIS, 2016)