2 A segregação espacial como elemento da cidade
2.1 Primórdios da cidade moderna
No século XIX consolida-se a segunda fase do
capitalis-mo industrial, marcada por avanços tecnológicos,
desenvolvi-mento dos meios de transporte, audesenvolvi-mento da produção, dentre
outros. Na contramão desses avanços, também provocou o
êxo-do rural e grandes contingentes da população expulsa êxo-do campo
saíam em busca de emprego nas indústrias.
Embora as modificações mais radicais nas urbes ocorram
de maneira mais intensa no século XIX, cidades como Londres e
Paris, onde o desenvolvimento do capitalismo era mais
avança-do, já apresentam mudanças significativas no século XVIII e, no
século seguinte se tornam modelos, em especial a Paris
Hauss-77
maniana, para outros núcleos urbanos que vão se inserindo na
geografia do capital.
A mudança mais relevante é a expansão do sítio urbano,
para além dos muros medievais, formando a periferia da
cida-de. Ao contrário das cidades antigas como Atenas e Grécia, ou
das medievais, renascentistas e barrocas que se desenvolvem
radialmente a partir do centro histórico, expandindo o traçado
urbano de maneira uniforme, a periferia de Paris e Londres é
uma mistura de casas populares, palácios aristocráticos, casas
burguesas e áreas rurais, que seguem o traçado das estradas do
campo. ( cf. BENEVOLO, 2015).
(...) De fato, o rei e outros grandes personagens fixam sua morada no campo: Luís XIV abando-na o Louvre e transporta a corte para sua nova residência em Versailles, que é progressiva-mente aumentada até tornar-se uma pequena capital artificial. (BENEVOLO, 2015, p. 514)
Londres já no século XVII é uma cidade que cresce
aber-ta, com uma coroa de subúrbios a sua volta. No século seguinte,
em Paris, as antigas fortificações no entorno da cidade são
der-rubadas e, em seu lugar, é construída uma coroa de avenidas
arborizadas (boulevards), constituindo um contorno provisório
que apenas estimula um crescimento do território circunstante.
(cf.BENEVOLO, 2015). Apesar de sua abertura ter se dado
de-pois da londrina, Sennett (2014) aponta que a muralha, no
últi-mo século, já não tinha uma função de defesa, mas de um limite
fiscal, e suas portas serviam para controlar e taxar os produtos,
ficando conhecida como a muralha dos coletores de impostos.
78
urbes que cresce de forma homogênea, mas um espaço que se
coloca sempre em oposição ao núcleo da cidade, não só porque
se localiza geograficamente fora desse espaço tradicional, mas
porque apresenta fragilidade ou ausência de elementos
urba-nos simbólicos que dão a ideia de um projeto coletivo.
A periferia não é um trecho da cidade já formado como as ampliações medievais ou barrocas, mas um território livre, onde se somam um grande número de iniciativas independentes: bairros de luxo, bairros de pobres, indústrias, depósitos, instalações técnicas. Num determinado momen-to estas iniciativas se fundem num tecido com-pacto, que não foi, porém, previsto e calculado por ninguém. (BENEVOLO, 2015, p. 565)
Contemporaneamente, a ideia de periferia está associada
ao lugar de moradia da população de menor renda, que trabalha
na cidade, mas não pode pagar para habitá-la.
Entretanto, e certamente por motivações diferentes,
hou-ve deslocamento de ambas classes sociais, conformando a
peri-feria. Esse movimento também ocorreu em São Paulo, mais
tar-de, no final do século XIX, quando os loteamentos para camadas
altas na coroa do núcleo central como Campos Elíseos (1879),
Jardim Paulista (1891), Aclimação (1892), Consolação (década
1870), Cerqueira César (década de 1890) são da mesma
épo-ca dos bairros populares e/ou operários, como a Barra Funda
(década de 1890), Bela Vista (1878), Belém (década de 1890),
Cambuci (década de 1890), para citar alguns exemplos.
O sentido de esfera pública também se transforma. Na
Idade Média, Habermas (1974-1976), afirma que os conceitos
de público e privado não são obrigatoriamente opostos, e não
79
se pode estabelecer uma esfera pública separada dos interesses
privados. A esta condição soma-se uma terceira que é a de uso
comunitário, ou aquilo que é das pessoas comuns:
Nos documentos medievais, "senhorial" é
em-pregado como sinônimo de publicus; publicare
significa: requisitar para o senhor. Na ambiva-lência semântica de "comum" (gemein, com-mon) como comunitário, isto é, acessível (publi-camente) a todos e comuníssimo, isto é, como excluído do direito particular (Sonderrecht), ou seja, do direito do senhor, excluído sobretudo da própria hierarquia social mais elevada (públi-ca), espelha-se até hoje a integração de elemen-tos da organização comunitária numa estrutura social baseada no domínio fundiário. (HABER-MAS, LENNOX e LENNOX, 1974, p. 19)
No antigo regime
16, transitar em público é uma atividade
importante nas relações político-sociais. Quando os
principa-dos se associam à burguesia mercantil, e a economia deixa ser
baseada apenas na troca de excedentes, visando sobretudo, ao
enriquecimento através da obtenção do lucro, toda uma relação
de dentro e fora, ricos e pobres, público e privado se transforma.
A vida pública deixa de ser assunto do rei, e volta a ser assunto
de corpo público que inclui os homens aristocráticos e
burgue-ses, e uma camada da população oriunda do campo que migra
em massa para a cidade.
Há um termo logicamente associado a um pú-blico urbano diverso: “cosmopolita”. De acor-do com o emprego francês registraacor-do em 1738,
16..Periodização utilizada por Sennett (2014) que compreen-de o século XV ao século XVIII, ou período entre a Idade Mé-dia e a sociedade capitalista industrial propriamente dita
.
80
cosmopolita é um homem que se movimentadespreocupadamente em meio à diversidade, que está à vontade em situações sem nenhum vínculo nem paralelo com aquilo que lhe é fa-miliar. Esse mesmo sentido da palavra surgiu em inglês mais cedo do que em francês, em-bora não fosse muito usado até o século XVIII. Por causa dos novos hábitos de se estar em público, o cosmopolita tornou-se o homem pú-blico perfeito. Um antigo emprego em inglês prenunciava o sentido comum da palavra na sociedade burguesa do século XVIII. (SENNE-TT, 2014, p. 61-62)
Naquele momento o fortalecimento da classe burguesa
mercantil, conjuntamente com o crescimento populacional
ad-vindo de uma economia florescente ligada à cidade que a
torna-va notorna-vamente um polo de atração, fez com que a urbes
apresen-tasse novos tipos de espaço ou ressignificação de alguns outros.
O parque surge como uma forma de regulação do espaço
público: as ruas eram ainda estreitas e mal calçadas, e é o espaço
onde não só as diferentes classes sociais se encontram, mas o
espaço onde os estranhos convivem e exercem uma miríade de
atividades. Já os parques são espaços fechados, com controle de
acesso e normativas de comportamento e restrições de
ativida-des.
Os cafés, bares, teatros tornam-se um centro de
sociabili-dade; praças são reformadas, e
(...) A difusão das comodidades urbanas ultra-passou o pequeno círculo da elite e alcançou
81
um espectro muito mais abrangente dasocie-dade, de modo que até mesmo as classes labo-riosas começaram a adotar alguns hábitos de sociabilidade, como passeios em parques, an-tes terreno exclusivo da elite, caminhando por seus jardins privativos ou “promovendo” uma noite no teatro. (SENNETT, 2014, p. 64)