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Primórdios da cidade moderna

No documento ARQUITETURA DA SEGREGAÇÃO: (páginas 77-83)

2 A segregação espacial como elemento da cidade

2.1 Primórdios da cidade moderna

No século XIX consolida-se a segunda fase do

capitalis-mo industrial, marcada por avanços tecnológicos,

desenvolvi-mento dos meios de transporte, audesenvolvi-mento da produção, dentre

outros. Na contramão desses avanços, também provocou o

êxo-do rural e grandes contingentes da população expulsa êxo-do campo

saíam em busca de emprego nas indústrias.

Embora as modificações mais radicais nas urbes ocorram

de maneira mais intensa no século XIX, cidades como Londres e

Paris, onde o desenvolvimento do capitalismo era mais

avança-do, já apresentam mudanças significativas no século XVIII e, no

século seguinte se tornam modelos, em especial a Paris

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maniana, para outros núcleos urbanos que vão se inserindo na

geografia do capital.

A mudança mais relevante é a expansão do sítio urbano,

para além dos muros medievais, formando a periferia da

cida-de. Ao contrário das cidades antigas como Atenas e Grécia, ou

das medievais, renascentistas e barrocas que se desenvolvem

radialmente a partir do centro histórico, expandindo o traçado

urbano de maneira uniforme, a periferia de Paris e Londres é

uma mistura de casas populares, palácios aristocráticos, casas

burguesas e áreas rurais, que seguem o traçado das estradas do

campo. ( cf. BENEVOLO, 2015).

(...) De fato, o rei e outros grandes personagens fixam sua morada no campo: Luís XIV abando-na o Louvre e transporta a corte para sua nova residência em Versailles, que é progressiva-mente aumentada até tornar-se uma pequena capital artificial. (BENEVOLO, 2015, p. 514)

Londres já no século XVII é uma cidade que cresce

aber-ta, com uma coroa de subúrbios a sua volta. No século seguinte,

em Paris, as antigas fortificações no entorno da cidade são

der-rubadas e, em seu lugar, é construída uma coroa de avenidas

arborizadas (boulevards), constituindo um contorno provisório

que apenas estimula um crescimento do território circunstante.

(cf.BENEVOLO, 2015). Apesar de sua abertura ter se dado

de-pois da londrina, Sennett (2014) aponta que a muralha, no

últi-mo século, já não tinha uma função de defesa, mas de um limite

fiscal, e suas portas serviam para controlar e taxar os produtos,

ficando conhecida como a muralha dos coletores de impostos.

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urbes que cresce de forma homogênea, mas um espaço que se

coloca sempre em oposição ao núcleo da cidade, não só porque

se localiza geograficamente fora desse espaço tradicional, mas

porque apresenta fragilidade ou ausência de elementos

urba-nos simbólicos que dão a ideia de um projeto coletivo.

A periferia não é um trecho da cidade já formado como as ampliações medievais ou barrocas, mas um território livre, onde se somam um grande número de iniciativas independentes: bairros de luxo, bairros de pobres, indústrias, depósitos, instalações técnicas. Num determinado momen-to estas iniciativas se fundem num tecido com-pacto, que não foi, porém, previsto e calculado por ninguém. (BENEVOLO, 2015, p. 565)

Contemporaneamente, a ideia de periferia está associada

ao lugar de moradia da população de menor renda, que trabalha

na cidade, mas não pode pagar para habitá-la.

Entretanto, e certamente por motivações diferentes,

hou-ve deslocamento de ambas classes sociais, conformando a

peri-feria. Esse movimento também ocorreu em São Paulo, mais

tar-de, no final do século XIX, quando os loteamentos para camadas

altas na coroa do núcleo central como Campos Elíseos (1879),

Jardim Paulista (1891), Aclimação (1892), Consolação (década

1870), Cerqueira César (década de 1890) são da mesma

épo-ca dos bairros populares e/ou operários, como a Barra Funda

(década de 1890), Bela Vista (1878), Belém (década de 1890),

Cambuci (década de 1890), para citar alguns exemplos.

O sentido de esfera pública também se transforma. Na

Idade Média, Habermas (1974-1976), afirma que os conceitos

de público e privado não são obrigatoriamente opostos, e não

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se pode estabelecer uma esfera pública separada dos interesses

privados. A esta condição soma-se uma terceira que é a de uso

comunitário, ou aquilo que é das pessoas comuns:

Nos documentos medievais, "senhorial" é

em-pregado como sinônimo de publicus; publicare

significa: requisitar para o senhor. Na ambiva-lência semântica de "comum" (gemein, com-mon) como comunitário, isto é, acessível (publi-camente) a todos e comuníssimo, isto é, como excluído do direito particular (Sonderrecht), ou seja, do direito do senhor, excluído sobretudo da própria hierarquia social mais elevada (públi-ca), espelha-se até hoje a integração de elemen-tos da organização comunitária numa estrutura social baseada no domínio fundiário. (HABER-MAS, LENNOX e LENNOX, 1974, p. 19)

No antigo regime

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, transitar em público é uma atividade

importante nas relações político-sociais. Quando os

principa-dos se associam à burguesia mercantil, e a economia deixa ser

baseada apenas na troca de excedentes, visando sobretudo, ao

enriquecimento através da obtenção do lucro, toda uma relação

de dentro e fora, ricos e pobres, público e privado se transforma.

A vida pública deixa de ser assunto do rei, e volta a ser assunto

de corpo público que inclui os homens aristocráticos e

burgue-ses, e uma camada da população oriunda do campo que migra

em massa para a cidade.

Há um termo logicamente associado a um pú-blico urbano diverso: “cosmopolita”. De acor-do com o emprego francês registraacor-do em 1738,

16..Periodização utilizada por Sennett (2014) que compreen-de o século XV ao século XVIII, ou período entre a Idade Mé-dia e a sociedade capitalista industrial propriamente dita

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cosmopolita é um homem que se movimenta

despreocupadamente em meio à diversidade, que está à vontade em situações sem nenhum vínculo nem paralelo com aquilo que lhe é fa-miliar. Esse mesmo sentido da palavra surgiu em inglês mais cedo do que em francês, em-bora não fosse muito usado até o século XVIII. Por causa dos novos hábitos de se estar em público, o cosmopolita tornou-se o homem pú-blico perfeito. Um antigo emprego em inglês prenunciava o sentido comum da palavra na sociedade burguesa do século XVIII. (SENNE-TT, 2014, p. 61-62)

Naquele momento o fortalecimento da classe burguesa

mercantil, conjuntamente com o crescimento populacional

ad-vindo de uma economia florescente ligada à cidade que a

torna-va notorna-vamente um polo de atração, fez com que a urbes

apresen-tasse novos tipos de espaço ou ressignificação de alguns outros.

O parque surge como uma forma de regulação do espaço

público: as ruas eram ainda estreitas e mal calçadas, e é o espaço

onde não só as diferentes classes sociais se encontram, mas o

espaço onde os estranhos convivem e exercem uma miríade de

atividades. Já os parques são espaços fechados, com controle de

acesso e normativas de comportamento e restrições de

ativida-des.

Os cafés, bares, teatros tornam-se um centro de

sociabili-dade; praças são reformadas, e

(...) A difusão das comodidades urbanas ultra-passou o pequeno círculo da elite e alcançou

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um espectro muito mais abrangente da

socie-dade, de modo que até mesmo as classes labo-riosas começaram a adotar alguns hábitos de sociabilidade, como passeios em parques, an-tes terreno exclusivo da elite, caminhando por seus jardins privativos ou “promovendo” uma noite no teatro. (SENNETT, 2014, p. 64)

Os parques na cidade contemporânea ainda preservam

as mesmas características de controle. Obviamente, os parques

urbanos têm sua importância, principalmente no que diz

res-peito à preservação ou criação de grandes massas verdes no

in-terior das urbes, em geral, muito edificadas e densas.

Porém, é interessante notar que os movimentos civis

sur-gidos nos últimos anos na cidade de São Paulo, que demandam

a criação de espaços públicos, em geral, pedem parques: parque

Augusta, parque Minhocão, parque Bixiga, para citar os

movi-mentos mais notórios; no entanto, as praças têm um poder de

reforço da vida pública muito maior e relevante, na medida em

que não existe o controle de acesso, e está ligada diretamente ao

tecido da cidade. Esta força pode ser notada nos casos das

refor-mas da Praça Roosevelt e do Largo da Batata, em São Paulo, que

passaram quase cinquenta anos como elementos de

infraestru-tura urbana (ligações viárias e terminais de transporte público),

e nos anos 2000 quando retomam seus aspectos de praça são

automaticamente apropriados pela população, inclusive como

espaço de manifestações políticas.

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