3.2 Identidade e adversário
3.2.1 Identidade étnica e identidade do movimento
O conceito de identidade diz respeito à formação da identidade coletiva por que se reconhece cada movimento. É imprescindível para a interpretação de quaisquer movimentos sociais, porém, para sua aplicação ao caso dos movimentos indígenas, algumas reflexões precisam ser feitas.
113 Alain Touraine desenvolve o conceito para os assim chamados novos movimentos sociais, especialmente os hoje designados como movimentos identitários, movimentos que, inicialmente, não têm o caráter de transformação completa e criação de uma nova sociedade, porém somente de integração de determinado grupo historicamente marginalizado à
sociedade existente por meio de um reconhecimento pleno [frise-se bem: não se trata de transformar a sociedade existente54]. No processo real destes movimentos suas identidades são criadas pelos grupos estigmatizados como contraposição às clivagens sociais que os atingem e subordinam. Por isso são também comumente chamados movimentos identitários, porque, falando genericamente, agem em torno ao reconhecimento de uma identidade historicamente marginalizada. Os movimentos sociais assim formados são
estruturados em torno de um sistema de valores comuns, de um estilo de vida homogêneo, de um sentimento de identidade ou pertença coletivos, ou mesmo de uma experiência de marginalização. Com frequência é esse sentimento de exclusão que leva os indivíduos a se reconhecerem, ao contrário, como possuidores de valores comuns e a se perceberem como um grupo à parte. (SEMPRINI, 1999, p. 44-5).
É este sentimento de identidade coletiva, gerado por uma mesma experiência de marginalização, pelo sentimento de serem vítimas de um mesmo processo de exclusão, que está na base da formação de o que Touraine chama de identidade do movimento social – e assim podemos ver o quanto difere da identidade étnica, que não depende de fatores externos para existir. A identidade coletiva gerada na dinâmica do movimento social existe no conflito engendrado por tais movimentos sociais.
Os movimentos sociais, assim, pode-se dizer, expressam ―uma consciência de grupo e de afinidades percebidas por indivíduos submetidos às mesmas pressões‖. (José Arthur Rios
apud PEREIRA, 2003). A ‗pressão‘, leia-se, a marginalização e estigmatização de um grupo está assim na base da constituição histórica do movimento social.
Para Levi Marques Pereira, como vimos na seção anterior, esta definição aplica-se ao movimento histórico de reivindicação Kaiowá e Guarani de suas terras.
Segundo Pereira, como a ‗ação desestruturadora‘ que atingiu a totalidade das terras dos povos Kaiowá e Guarani (e igualmente dos demais povos indígenas) no Mato Groso do Sul ao longo do século XX (com pontos de inflexão em 1940 e 1970) foi o avanço do capital agrícola e expropriação – ou acumulação primitiva – dele decorrente.
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―As novas contestações não visam criar um novo tipo de sociedade, mas ‗mudar a vida‘, defender os direitos do homem, assim como o direito à vida para os que estão ameaçados pela fome e pelo extermínio, e também o direito à livre expressão ou à livre escolha de um estilo e de uma história de vida pessoais‖ (TOURAINE, 1998, p. 262).
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Todas as comunidades comungam a situação do assédio, pressão e violência que representa o contato com as frentes colonizadoras. Este fenômeno está na base do surgimento de uma consciência de participação em uma história comum, aproximando comunidades distintas em torno de um mesmo problema: a perda do espaço físico necessário à reprodução física e cultural da sociedade, de acordo com sua estrutura social e princípios cosmológicos. (PEREIRA, 2003, p. 142).
A vitimação por um mesmo fator desestruturador está na base da constituição do sentimento de identidade coletiva do movimento social. A identidade do movimento social assim é essencialmente diferente da identidade étnica. Não há necessária relação de correspondência entre elas.
Tonico Benites também indica a ação violenta externa como razão da reação e da mobilização indígena: ―estas práticas de despejo de tekoha geravam situações de reação, perplexidade, aflição e constrangimento entre as famílias indígenas, que por isso começaram a se articular para retornar ao tekoha.‖ (BENITES, 2014, p. 21).
É a existência de opressão e estigmatização que cria os grupos oprimidos. Parte da reação e da mobilização sociopolítica destes está em recriar e fortalecer tal identidade - processo em parte descrito pelo termo empoderamento – e a partir desta identidade denunciar e evidenciar a violência e a injustiça que sofrem (MELUCCI, 1998), e exigir reconhecimento (HONNETH, 2003) e reparação.
Os povos indígenas também têm de passar por esta afirmação positiva da identidade, contra a desumanização que lhes é imposta, contra a deslegitimação de seu modo de vida e de sua demanda sociopolítica, contra a estigmatização que lhes é fortemente lançada pelos seus adversários55. Lutar pela afirmação da própria identidade e em oposição a desumanização de si e deslegitimação de seu anseio sociopolítico é tarefa necessária dos movimentos sociais e do movimento indígena no contexto de sua inserção inevitável em lutas simbólicas e disputa por hegemonia, como parte constituinte do desafio do movimento como um todo.
Todavia, bem sabemos, a identidade indígena não é apenas a desta reação à estigmatização e do esforço do empoderamento. A identidade indígena é, sobretudo, a identidade de sua etnicidade; o fato objetivo de ser um sujeito cultural diferente daquele da sociedade envolvente, para além e independente da necessidade de fortalecimento identitário diante do estigma, da denegação de reconhecimento e da violência simbólica.
55 Cf. Tonico Benites, ―As disputas simbólicas sobre o Aty Guasu: desrespeito e racismo na mídia x
autonomia e empoderamento nas redes sociais‖ (2014, pp. 220-44), sobre o Kaiowá e os Guarani; e Andrey Cordeiro Ferreira (2009), sobre os Terena.
115 A identidade coletiva (no sentido touraineano) dos movimentos étnicos - e não dos
grupos étnicos, não confundir -, por mais que constituída pelos fatores e ações desestruturadoras históricos e circunstanciais, têm seu fundamento no elemento étnico.
O fato de ser um sujeito cultural distinto é decisivo sobre a forma de sua mobilização sociopolítica56. Todavia, tal fenômeno, a identificação étnica, não pode ser compreendido como uma essência imutável. A identidade étnica, como sabemos desde Barth (2000), depende de relações sociais, mais do que de uma ‗essência‘ cultural.
Thiago Cavalcante (2013) sintetiza bem as condições da identidade étnica indígena.
De acordo com a perspectiva do antropólogo Fredrik Barth, sabe-se que os grupos étnicos estão mais ligados por relações sociais do que por uniformidades culturais. Sendo assim, as unidades culturais, apesar de não perderem sua relevância na manutenção das identidades étnicas, são vistas, principalmente, como consequência delas e não condição para sua existência. Embora as fronteiras étnicas sejam determinadas pela permanência ou pelo rompimento de específicos valores culturais, são apenas os membros do grupo étnico que, por meio de sua lógica interna, determinam quais são os elementos que circunscrevem a fronteira. Logicamente que tais elementos variam de acordo com inúmeras circunstâncias. A utilização de uma língua comum como a Guarani, bem como a partilha de valores culturais comuns, não são per si suficientes para a determinação de identidades étnicas (BARTH, 2000). (CAVALCANTE, 2013, p. 20).
A identidade étnica, assim, longe de algo essencialista, é definida pelo próprio grupo, pelas relações sociais que decide estabelecer ou deixar de estabelecer. As unidades culturais, assim, como afirma o autor, são mais consequência do estabelecimento da identidade étnica, do que causa para esta. A identidade étnica do grupo, assim, é relativamente definida pelo grupo no conjunto das suas relações sociais com outros grupos e povos circundantes; sendo sede de seus valores culturais, é base para a mobilização política de cada grupo. A identidade coletiva do movimento étnico também depende de relações sociais, mais especificamente das relações sociais em que o movimento existe ou que confronta.
A esta altura já deve ter ficado claro que existe significativa tensão entre a identidade étnica e a identidade coletiva (touraineana) na mobilização sociopolítica de grupos étnicos, inclusive dos movimentos indígenas. No caso dos movimentos étnicos, assim, incluindo os
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Catherine González (2010, p. 84), por exemplo, menciona a possibilidade de perguntar-se sociologicamente quais as condições de possibilidade que a identidade étnica estabelece para o fenômeno político. Nesta seara a autora cita trabalhos sobre mobilizações sociopolíticas de grupos étnicos em que se ―evalúa sus acciones a partir del grado de reindianización de dichos grupos, determinando la conservación de sus lenguas nativas, ritos y trajes tradicionales, o preguntándose hasta dónde la identidad da posibilidades a lo político y, en esa medida, explicar sus procesos políticos como una vía de manipulación ideológica o instrumental‖. Não obstante a autora manifestar reservas a esta abordagem, esta é bastante próxima daquela defendida por outro autor trabalhado aqui, Contreras (2008).
116 movimentos indígenas, não se pode aplicar simplesmente o conceito touraineano de identidade coletiva do movimento social, ou princípio de identidade, e crer que com ele se apreende tudo sobre a identidade de um movimento étnico-social; e não se pode fazer o inverso, tomar a identidade étnica como a identidade do movimento social (no sentido touraineano), porque aquela é muito maior e mais profunda que esta, porque se transforma conforme alteram-se relações sociais gerais, e não apenas as do movimento precisamente, e inclusive se transforma nos processos políticos nos quais se envolvem os grupos, ou seja, as exigências da identidade coletiva sociopolítica, e seus efeitos e processos políticos, têm efeitos em algum nível transformadores da identidade étnica de cada grupo, na medida em que esta é ancorada em fatores políticos e nas relações sociais do grupo, incluso as do campo político.
O meio correto de investigar a identidade sociopolítica de um movimento étnico, portanto, não é tomar a identidade touraineana ou a identidade étnica como suficiente; é trabalhar intelectualmente na tensão real, e não apenas conceitual, que vivem os movimentos étnicos, entre eles os indígenas, ou seja, neste dualismo de sua existência étnica (sua subjetividade como existência objetiva), na qual está ancorado seu elemento étnico, que no caso dos movimentos étnicos é importante sede de sua força política, e de sua existência sociopolítica, circunstanciada ao contexto histórico e ao contexto de ações desestruturadoras que os atingiram e que eles buscam reverter.
Na sequência, apoiado nesta reflexão, descreverei a identidade dos movimentos étnicos-sociopolíticos indígenas de Mato Grosso do Sul com base em como os grupos operam esta tensão entre identidade étnica e identidade touraineana que se coloca como desafio às suas existências e práticas reais.
No caso dos grupos indígenas de Mato Grosso do Sul aqui caracterizados, a identidade étnica é bem conhecida e determinada, porém algumas palavras precisam ser ditas.
Os Guarani Ñandeva e os Kaiowá, malgrado a percepção errônea que a sociedade envolvente tem deles como pertencentes a um mesmo grupo, são na verdade grupos étnicos distintos.
Em Mato Grosso do Sul vivem os Kaiowa e os Guarani Ñandeva. É muito comum ouvir pessoas de vários meios sociais, incluindo a imprensa, acadêmicos e governos, referirem-se a estes grupos como sendo Guarani-Kaiowa, conotando a ideia de que os Guarani Ñandeva e os Kaiowa são um mesmo grupo étnico. No entanto, somente os Ñandeva é que se autodenominam como Guarani. De fato, o que se tem são dois grupos distintos que frequentemente, a contragosto, são tratados como se fossem um. A única exceção para isso está em seu uso político. Quando é politicamente interessante, como expressão de uma luta comum, as
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lideranças utilizam o designativo Guarani Kaiowá. (CAVALCANTE, 2013, p. 21).
Para o caso destes grupos, há uma operação razoavelmente consciente da variação da identidade étnica à sociopolítica conforme cada grupo sente a necessidade. O dualismo identitário é assim um desafio real que o processo sociopolítico coloca aos grupos em movimento; trata-se de dilema e desafio a ser resolvido e operado constantemente pelo movimento indígena.
Ellen Almeida (2012, p. 8) responde esta questão em consonância com Pereira e Cavalcante, indicando como a identidade do movimento indígena de Mato Grosso do Sul vem da história comum de violência que sofreram.
a história regional e a própria organização dos grupos locais fizeram com que o Movimento Indígena do Cone-sul do Mato Grosso Sul criasse uma identidade específica. Exemplo disso é a centralidade em torno da demarcação dos Territórios Indígenas resultante do processo de colonização que expropriou os Guarani, os Kaiowá e os Terena de seus territórios tradicionais.
Ou seja, a identidade do movimento indígena aparece como identidade diante da similaridade da violência sofrida e subordinação estrutural, material e cultural, instaurada e diante da identidade comum da demanda e dos caminhos da luta por ela; é uma identidade que aparece como referência de outro plano por que os grupos se orientam fazendo nesse momento relativa abstração de sua identidade étnica.
Para o caso do povo Terena, a construção da identidade do movimento social, na acepção touraineana, deu-se vinculada sobretudo à resistência ao massivo poder tutelar imposto sobre o grupo.
Como os índios Terena foram usados pelo poder estatal como forma de controle e apropriação da fronteira brasileira com o Paraguai, a incidência do poder estatal sobre eles foi, como sabemos, excepcionalmente grande, relativamente aos Guarani Ñandeva e aos Kaiowá, que também foram confinados em reservas, e marcante de sua história e da posição social em que vieram a ser colocados.
Assim que a incidência do poder estatal é marcante para a história recente, de fim do século XIX para cá, dos índios Terena, a resistência contra esse poder e essa força de subordinação estatal é correlativamente foco central da história Terena. Assim que a resistência ao poder tutelar pode ser usada como chave de leitura para intepretação da resistência Terena como um todo e desta resistência como assentamento das bases para a compreensão da gênese do movimento sociopolítico Terena.
118 O povo Terena durante todo o tempo expressou ―uma continua e forte política de resistência dos indígenas ao regime tutelar, talvez principal forma de dominação operante em relação aos índios. As formas de luta política e resistência indígena existentes remetem sempre (em termos simbólicos e práticos) a essa estrutura de dominação.‖ (FERREIRA, 2007, p. 1).
Uma via de acesso à compreensão da identidade do movimento sociopolítico Terena é a resistência terena ao poder tutelar e a criação subsequente de seu movimento sociopolítico. Tal chave de leitura foi escolhida com base em pesquisas anteriores, especialmente as de Andrey Cordeiro Ferreira (2002, 2009 e 2011), e especialmente sua tese de doutorado (2007). A resistência ao poder tutelar expressa bases da identidade touraineana do movimento sociopolítico terena.
É indubitável a magnitude exponencial e relativamente maior do poder tutelar sobre o povo Terena, dado o local estratégico imposto a ele pelo Estado no projeto de conquista da região de fronteira. A magnitude de tal poder e o que ele expressa na relação de força com os Terena induziram Estado, sociedade e incluso cientistas sociais a acreditar na completa ‗assimilação‘ do Terena.
Para Estado e sociedade, a assimilação apareceu como resultado inevitável e desejável do poder tutelar. Para os adversários dos Terena, o sucesso da imposição da representação da assimilação sobre os Terena implica em ganho de poder para aqueles na correlação de força, implica em cassação da legitimidade terena de reivindicar direitos como grupo étnico, incluso o direito ao território. O discurso da ‗assimilação‘ para os adversários, não é resultado descritivo de um processo histórico inevitável. É projeto. A resistência e movimento social Terena seguem lutando contra esta representação.
Entretanto, o que Estado e sociedade viram como assimilação, como perda de identidade Terena, na verdade deve-se à capacidade étnica Terena de realizar com desenvolvera atividades e papeis sociais provenientes de outras formações sociais, como vimos anteriormente.
No caso da identidade do movimento sociopolítico terena temos que o dualismo formado pelo ethos terena aberto para o exterior, como nos demonstrou o antropólogo Levi-Marques Pereira, pela resistência histórica terena ao poder tutelar e a violência simbólica do estigma da assimilação.
O movimento sociopolítico terena, especificamente, opera nesse dualismo que lhe é peculiar, condicionado em parte por seu ethos em parte pela sua história de resistência ao
119 poder tutelar. Todavia, no contexto mais amplo da articulação com os demais povos indígenas de Mato Grosso do Sul em luta, algumas particularidades são abstraídas e o elemento comum referência da luta é a perda do território tradicional.
Aqui vemos novo desafio lançado às teorias interpretativas e novo elemento a adicionar na tensão dualista identitária. Por mais que a identidade étnica dê toda a base para a constituição da identidade dos movimentos indígenas, uma identidade pois que tem determinações mais complexas do que a identidade touraineana, todavia é a esta que os movimentos indígenas, quando convivem proximamente com diferentes grupos étnicos com quem se aliam na luta, recorrem na prática para as ações do movimento57.
São nove, como disse anteriormente, hoje, os povos indígenas de Mato Grosso do Sul. Todavia, apenas quatro direcionaram sua resistência e luta até agora para uma mobilização sociopolítica nos termos adotados aqui. Em termos da categoria movimento social, porém, podemos falar de três movimentos: um, formado em conjunto pelos Kaiowá e Guarani; outro, formado pelo povo Terena – os dois povos indígenas mais populosos do estado; e um terceiro, o povo Kinikinau, pelo processo de etnogênese que vive no momento e manifestação de expressivo ativismo, malgrado o contingente populacional relativamente pequeno.
O dualismo consiste em que cada grupo étnico realiza uma mobilização sociopolítica própria; porém mesmo as ações coletivas que são genuinamente próprias de cada movimento são realizadas com participação de lideranças de outras etnias, e constantemente fazem referência a identidade de indígena, que os reúne a todos segundo a história comum.
O terceiro povo mais populoso do estado, o Kadiwéu, 1.346 pessoas (URQUIZA, sem data), manteve-se até recentemente afastado da mobilização indígena, fato que tem mudado desde 2012. Desde esse ano o grupo tem se mobilizado e criado ações de resistência e reação à violência. Ainda assim, por mais que já se possa falar sem sombra de dúvida de uma luta Kadiwéu, sua mobilização manifesta-se em uma forma sociológica diferente da de um movimento sociopolítico. Falarei pormenorizadamente do caso Kadiwéu na seção dedicada a eles neste capítulo.
Antes de se falar de um movimento sociopolítico indígena, ou de um movimento étnico-socioterritorial indígena, é preciso falar de resistência indígena, ou antes ainda, de ―processos de resistência étnica‖, para falar como Ferreira (2007). A forma sociológica de movimento sociopolítico é apenas uma das formas que pode assumir ou por que pode se expressar a resistência indígena. A princípio não podemos nem temos o direito, nós
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Em casos onde grupos indígenas vivem relativamente isolados de outros grupos indígenas, o movimento tende a adotar a identidade do grupo, por exemplo, o movimento Munduruku.
120 pesquisadores, de estabelecer valoração entre elas. Ou seja, não se trata de dizer se ela é melhor ou pior do que as outras. Segundo Weber (1964) ela poderia ser interpretada, pelo seu maior grau de organização, como uma forma mais eficaz; segundo outra linha de pensamento, ela poderia significar perda de força, por ceder a atuar nas regras do jogo. Não cabe a nós pesquisadores decidirmos.
É fato incontestável que todos os povos remanescentes resistem, e remanescem hoje por conta de sua extrema força. Trata-se neste capítulo assim de identificar os grupos indígenas na região do Mato Grosso do Sul cuja resistência adquiriu a forma de movimento social, uma vez que como afirmei alhures neste texto, a resistência indígena se deu e se dá de muitas formas; a mobilização sociopolítica é apenas uma delas, e não proponho-me aqui a qualquer tentativa de hierarquização das formas de resistência.
Malgrado, assim, serem quatro grupos étnicos distintos em processo de mobilização sociopolítica – fazendo a exceção ao grupo Kadiwéu -, hoje caminham para a constituição de um movimento indígena único, baseado na identidade de ‗indígena‘, uma identidade coletiva no sentido touraineano, ou seja, na certeza de sofrer uma violência em comum, e que a luta de todos é a mesma.
Tal abstração das diferenças culturais e identidades étnicas não é surpresa na configuração dos movimentos indígenas pelo continente. Este fenômeno é característico da mobilização sociopolítica indígena e já está descrito na noção de etnopolítica.
―Etnopolítica‖ é uma categoria que pode ser alocada e desenvolvida para ajudar a pensar e tentar resolver conceitualmente o dualismo entre os níveis identitários e sobre qual