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Identidade coletiva: uma ferramenta no estudo dos

CAPÍTULO 3 – O mapa, o roteiro e a viagem rumo ao

3.3. Identidade coletiva: uma ferramenta no estudo dos

A discussão acerca da temática da identidade, definitivamente, não é uma discussão recente. Desde meados dos anos 1950, psicólogos sociais vem se

debruçando sobre esse tema, sendo talvez, um dos mais tradicionais e trabalhados nesta disciplina69.

Mas se este debate não é tão novo, também não é o mesmo desde sua origem e foi trabalhado e traduzido a partir de diversos focos de análise, tanto na psicologia como na sociologia. Desta forma, a identidade passou a ser estudada e relacionada sob diversas perspectivas, desde às análises sobre a categorização social trabalhada por Tajfel e Turner – que desenvolveram pesquisas relacionando a questão da identidade aos estereótipos e grupos sociais –, às análises sobre a constituição dos movimentos sociais.

No que tange às discussões acerca da identidade formadas a partir dos processos de categorização social, Tajfel (1972) se preocupou em estudar, principalmente, os processos pelos quais os conteúdos destas categorizações eram transmitidos, assimilados e compartilhados.

Para Tajfel, o sujeito não só adota uma identidade pessoal, mas também uma identidade social que reflete a sua pertença nos vários grupos aos quais ele faz parte70. A identidade social seria, portanto, definida por Tajfel (1972:271) como “aquela parte do auto-conceito de um indivíduo que deriva do conhecimento de sua pertença a um grupo (ou grupos) social junto com o significado valorativo e emocional associado à dita pertença”.

O conceito de identidade social está intimamente ligado à idéia de categorização social também trabalhada e desenvolvida pelo mesmo autor e que alude “aos processos psicológicos que tendem a ordenar o entorno em termos de categorias: grupos de pessoas, de objetos, de acontecimentos, tanto por serem parecidos ou por serem equivalentes uns aos outros enquanto ação, intenções ou atitudes de um sujeito” (Tajfel, 1972:272).

69 No Brasil, esse debate foi incorporado após e na crista da onda das discussões sobre a

temática da identidade nacional realizada nos anos 40 que – tanto na sociologia como na história – levantaram uma infinidade de questões acerca do “ser brasileiro”. Neste sentido, foram autores fundamentais Sérgio Buarque de Hollanda, Gilberto Freire, Caio Prado Júnior, entre outros. Na psicologia Dante Moreira Leite talvez tenha sido o expoente maior desse debate, problematizando e relacionando categorias como nacionalismo e identidade. E se é verdade que aqui a discussão realizada é diferente da identidade coletiva que iremos discutir neste capítulo, não poderíamos deixar de registrar este fato como importante para demarcar a força dos estudos sobre identidade como pertencendo ao espírito da época.

70 Importante salientar que, apesar de Tajfel (e Turner, posteriormente) discutir e relacionar

continuamente os dois processos (comportamentos interpessoais e intergrupais, que estão na base dos conceitos de identidade pessoal e social), este demarca claramente sua diferença, sendo o primeiro, a diferenciação entre si mesmo e os outros, e o segundo, a diferenciação entre grupos ou entre o “nós” e os “outros”.

Neste sentido, a categorização sistematiza (divide e organiza) e por isso mesmo, simplifica, tendo como um de seus principais efeitos, a percepção acentuada de diferenças entre as categorias e de semelhanças numa mesma categoria (Deschamps e Devos, 1996).

A teoria da identidade social define como uma de suas bases a idéia de que os sujeitos têm a necessidade de alcançar uma identidade social positiva. Assim,

“se assume que os sujeitos buscam uma auto-imagem positiva e que no transcurso com um grupo, esta necessidade se traduzirá em uma tendência a ver favoravelmente o seu próprio grupo, o qual não necessariamente se logra mediante uma percepção positiva, senão mediante à comparação dimensões apropriadas. A comparação nos permite perceber o in group como melhor que os out groups relevantes” (Bar-Tal, 1996:255) (grifo nosso).

Foi desta forma que Tajfel, a partir de seus experimentos, percebeu que os sujeitos têm uma tendência em favorecer valorativamente seu grupo (in group) em detrimento e frente aos outros grupos (out group). Mais: verificou também que nesse processo de diferenciação intergrupal, a acentuação de uma identidade social pode conduzir à discriminação de outros grupos sociais, quando do resultado da interiorização tanto de estereótipos como de preconceitos.

Por conta da simplificação, concernente à categorização social, os sujeitos pertencentes ao out group passam a ser vistos de modo idêntico, de modo homogeneizado, a serem considerados como possuidores das mesmas características, sem diferenças entre si, por isso, vulneráveis à discriminação quando do realce de identidades. Neste sentido, suas pesquisas foram essenciais, entre outras dimensões, nos trabalhos relacionados ao preconceito e ao racismo.

De modo breve, podemos considerar que

“a teoria da identidade social e a categorização social se centram na definição do “nós somos” por parte dos membros do grupo sobre a base do fato de que “nós pertencemos a um grupo”. Neste processo, os membros de um grupo se percebem como membros de um grupo, se identificam como tal e estabelecem a diferenciação entre seu próprio grupo e os outros grupos. E é esse processo primário de cunho cognitivo-emocional que molda a identidade social dos sujeitos” Bar-Tal (1996:256).

E apesar de serem de escolas diferentes, esta visão parece advir, em boa medida, das idéias de Blumer (1951), herdeiro do interacionismo simbólico, que ao

se reportar ao que ele intitula de “espírito do corpo”, o considera como a consciência compartilhada de pertencer a um mesmo grupo, mecanismo que faz possível o desenvolvimento e organização de um movimento social. Em suas palavras, o espírito do corpo é “o sentido que o povo tem de pertencer conjuntamente e de ser identificado com outros numa empresa comum de maneira que o sentimento de pertencer a outros, e os outros a ele, lhe outorga um sentido de apoio coletivo” (Blumer, 1951: 14-15).

Javaloy (1993), ao fazer referência ao pensamento de Blumer, considera que o fato das pessoas compartilharem as mesmas experiências e um mesmo orgulho de pertença ajuda a fortalecer uma nova concepção de si mesmo que o indivíduo havia adquirido ao filiar-se ao movimento, assim como a desenvolver um compromisso de militância e uma solidariedade que dá consistência ao movimento social.

Além disso, podemos ainda considerar que Blumer destaca pelo menos três eixos essenciais para a constituição do espírito do corpo, a saber: a) a criação de uma relação endogrupo/exogrupo; b) o desenvolvimento de um companheirismo informal e, c) a participação na conduta cerimonial formal. Estes eixos são de fundamental importância para percebermos a compreensão acerca da identidade social formulada por este autor.

Para ele, é necessário um exogrupo para que o endogrupo possa se auto- definir positivamente71. Além disso, considera que as relações informais entre os companheiros de militância, bem como, a conduta cerimonial permitem que o indivíduo adquira “um sentido de aceitação social e apoio”, alimentando “sentimentos de identidade e simpatia comum” (Blumer, 1951:16) e fazendo que as pessoas se sintam cada vez mais fortalecidas em sua identificação com o movimento (Javaloy, 1993).

De fato, estas dimensões de sociabilidade que se expressam através do companheirismo entre os pares e por meio dos rituais têm sido centrais nas análises atuais acerca da identidade, filiação e participação nos movimentos sociais72.

71 Discípulo de Mead, Blumer, de outra forma, recupera sua discussão realizada por Mead

acerca do processo de identidade, onde o outro generalizado tem um papel central.

72 Como veremos posteriormente, McAdam (1993) se utilizará desta mesma lógica para

trabalhar as categorias de rede e identidade. Para este autor, o recrutamento de indivíduos num movimento social só se dará se este escolher o movimento a partir de uma associação

positiva entre os dois e se o movimento em questão reforçar esta ligação. Certamente, estão

nesse segundo nível as relações entre os pares e toda e qualquer atividade do movimento (sejam aquelas de cunho mais comum e centrada no cotidiano, sejam aquelas de cunho

Todas estas reflexões e considerações são importantes na análise de como se dão os processos de acesso, identificação, filiação e participação num movimento social dado, sendo atualmente a categoria da identidade, uma das mais centrais quando da análise dos movimentos.

De fato, a herança deixada pelos interacionistas foi importante na continuação dos estudos acerca da identidade, sobretudo pelo fato de mencionar a importância da dimensão simbólica no processo de filiação e participação nos grupos e movimentos sociais.

Com o surgimento dos novos movimentos sociais nos anos 1970, a questão identitária toma força no meio social com a visibilidade dos movimentos feministas, raciais, etc. Estes movimentos em sua práxis e conteúdo acabam por sustentar a idéia da busca coletiva da identidade como um aspecto central em sua formação73.

Como afirmam Johnston, Laraña e Gusfield (1994:11),

“os fatores de mobilização tendem a centrar-se em questões simbólicas e culturais que estão associadas a sentimentos de pertença a um grupo social diferenciado onde seus membros podem sentir-se fortes e com orientações sub-culturais que desafiam o sistema de valores prevalecentes na sociedade”.

Com o surgimento de outros elementos de análise advindos de novas questões postuladas pelos novos movimentos sociais, muito desta herança foi recuperada e as dimensões culturais e simbólicas ganham destaque. Certamente, a valorização destas dimensões no estudo do comportamento coletivo, vêm à tona no meio da discussão que fizemos anteriormente acerca das abordagens teóricas (o falso antagonismo postulado entre as perspectivas de cunho mais estrutural e cultural).

Se as questões estruturais são importantes, as de cunho processual e cultural também o são e é nesta perspectiva que estes níveis de análise tornam-se importantes no estudo do agir coletivo dos movimentos sociais que iremos estudar. Como afirma Estramiana (1995:37), reforçando a idéia da importância de uma abordagem que leve em contas os aspectos culturais, “as pessoas não são

mais ritualístico, como as assembléias, manifestações, místicas, etc.) que reforce esta ligação identitária.

73 Esta perspectiva ficou conhecido como paradigma da identidade e se fortaleceu – como

sugere Laraña (1999) – nos anos noventa quando se difundiu a expressão movimentos de

receptores passivos que vão acomodando suas necessidades às demandas dos meio, senão antes de tudo, atores que reconstroem simbolicamente o mesmo”.

Neste sentido, Melucci se destaca enquanto um teórico que – ao estudar a identidade coletiva e as ações advindas desta – propõe um conceito que leva em conta os aspectos simbólicos e culturais inerentes aos processos de toda e qualquer coletividade.

Desta forma, este autor entende identidade coletiva como sendo

“uma definição compartilhada do campo das oportunidades e as limitações de ação coletiva: compartilhada significa construída e negociada através de um processo repetido de ‘ativação’ de relações sociais que põem em contato com os atores” (Melucci, 1985:793).

Essa idéia de negociação permeia todo o pensamento do autor acerca da construção das identidades coletivas. No centro desta questão está a perspectiva e o entendimento deste conceito como algo que está em permanente processo e mudança, portanto, algo não rígido74.

Essa metamorfose75 própria das ações e identidades coletivas é fruto da

rapidez com que as mudanças e as relações de poder no campo político se estabelecem no seio de um dado grupo ou movimento social. Por isso, a importância de tentar inserir-se na lógica de observar a ação como algo não dada a priori, mas continuamente elaborada, discutida e negociada pelos diversos atores que a realizam76.

74 Uma das principais críticas de Melucci neste campo é a percepção equivocada – por parte

de muitos estudiosos – das ações coletivas e da própria identidade coletiva como algo unitário e rígido (como já havíamos situado quando nos referimos à idéia e conceituação dos movimentos sociais, ainda neste capítulo).

75 Ciampa (1987), um dos estudiosos da temática da identidade – a partir de suas análises e

investigações – compartilha da mesma compreensão aqui referida e a substancia a partir da idéia de metamorfose, movimento. Neste sentido, tanto a idéia de identidade coletiva como dos próprios movimentos e grupos sociais, comungam da mesma perspectiva.

76 A idéia de identidade como negociada pelos diversos atores que compõem um dado

movimento social parte também do pressuposto da heterogeneidade dos mesmos. E se partimos da compreensão de que o movimento social não é unitário – como já realçado neste capítulo – assim o fazemos por tomarmos como base a idéia de que em seu seio existem diferentes grupos que dialogam e comunicam entre si suas percepções e ideários acerca de como o movimento deve ser e agir. Portanto, torna-se central nesta reflexão, o elemento do

conflito entre os grupos, fruto de uma dinâmica própria dos movimentos sociais. Como

destaca o próprio autor ao referir-se sobre a composição dos movimentos “qualquer investigação sobre a formação do ator coletivo deveria ter em conta sua natureza diversa e complexa como critério fundamental. O que é empiricamente referido como ‘movimento’, e tratado por conveniência para a observação e descrição como uma unidade, na realidade contém uma ampla gama de processos sociais, atores e formas de ação” (Melucci, 1999:43).

Podemos falar, portanto, a partir de uma perspectiva da identidade no plural (identidades) que são desenhadas e costuradas pelos diversos atores que participam de um movimento. Em nossa pesquisa, a partir dos diferentes grupos escolhidos, poderemos compreender melhor como esse processo se constrói.

Para Melucci, o conteúdo da identidade coletiva – ou o sentido de “nós” – consiste na combinação de três fatores:

“a) formulação das estruturas cognoscitivas relativas aos fins (o sentido que a ação tem para os atores), aos meios (as possibilidades e os limites da ação) e o âmbito da ação; b) a ativação das relações entre os atores, como interagem, como se comunicam, negociam e adotam decisões e c) a realização de inversões emocionais que permitam aos indivíduos reconhecerem-se” (Melucci, 1999:66).

Em sua teoria da ação coletiva, um ponto de destaque – e central nos processos que permitem a construção das identidades num determinado movimento – é a existência das redes sociais submersas77. É neste campo, onde as diferentes redes dialogam e se inter-cruzam, que se gestam, se experienciam e se constroem as identidades coletivas.

Verdadeiros “laboratórios culturais” e espaços de ampla troca de experiências, estas redes sociais tomam diferentes formatos e se constituem na base da dinâmica do cotidiano, se realizando, quase sempre, no nível da invisibilidade e da transitoriedade, devido à rapidez com que se transformam os contextos e campos políticos.

Mas se estas redes se dão num nível micro da ação dos movimentos, em seu âmbito privado, as mesmas ganham visibilidade e força quando os atores coletivos se enfrentam ou entram em conflito no espaço político e público da sociedade (Mueller, 2001). E é nesse contínuum fronteiriço que se estabelece entre latência e visibilidade das redes sociais que as identidades coletivas são gestadas e fortalecidas.

77 Num mesmo sentido, como lembra Johnston, Laraña e Gusfield (1994:28), ao propor o

termo catnet (fusão dos termos categoria e redes) para aludir a relação existente entre uma categoria social e uma identidade coletiva, Tilly também seria um dos autores que compartilhava com a perspectiva da importância das redes no processo de construção de identidades coletivas. O mesmo “se referia também às redes sociais como a base estrutural necessária para que a primeira produza a segunda. Estas redes estão na maior parte das vezes submersas na vida cotidiana, mas se fazem visíveis quando se produzem mobilizações”.

É neste perspectiva teórica acerca da identidade coletiva abordada por Melucci (recuperada em muito da tradição do interacionismo simbólico) que iremos ter como base e suporte para nossas análises. A idéia de identidade coletiva continuamente negociada a partir das relações estabelecidas e concretas de determinado campo político é central na compreensão dos atuais movimentos sociais que atuam num ritmo cada vez acelerado.

Certamente esta velocidade está relacionada com uma maior criação de oportunidades políticas, gestadas tanto a partir do aumento no número de interlocução entre as diversas redes sociais organizadas na sociedade civil como do aumento da informação possibilitada pelo surgimento das novas tecnologias.

E a relação que estabeleceremos com o conceito de representações sociais é o que iremos discutir a seguir.