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Movimento Estudantil e movimentos de saúde

No histórico do movimento estudantil, vários foram os momentos em que a interlocução com os movimentos de saúde teve visibilidade. Porém, esse laço tornou-se significativamente ampliado e fortalecido com o processo de redemocratização do país.

Como já realçamos anteriormente, a necessidade de reorganização da sociedade civil, no momento de abertura democrática, exigiu e favoreceu um diálogo mais contínuo e frequente entre os movimentos sociais que, ao voltarem à cena, criaram vários mecanismos e espaços de participação social. A sociedade que se redemocratizava, redescobria a força e a atualidade que estes movimentos tinham e as lutas sociais e políticas ganharam espaço.

A articulação para debater um projeto de país – que se manifestava de modo mais visível através da construção de uma nova constituição – os organizava, os vinculava de alguma forma, fortalecendo seus laços.

Foi neste cenário que o movimento estudantil, ao reconectar-se com as outras diferentes expressões da sociedade civil, re-estabeleceu sua interlocução com os movimentos de saúde.

Neste sentido, o movimento realiza esta interlocução a partir de duas esferas: a) a partir da própria UNE que cria em sua estrutura uma diretoria de biomédicas; e b) a partir da organização dos estudantes da área de saúde, em

especial, os estudantes de medicina, que com o Movimento Estudantil de Medicina (MEM), começavam a se organizar nacionalmente enquanto executiva de curso.

A discussão acumulada por estes grupos de estudantes deu um enorme impulso para o movimento estudantil intervir de maneira qualificada nos espaços em que se debatia e se postulava um novo cenário para a saúde pública no país.

A preocupação com um sistema de saúde com caráter mais popular, voltado à medicina social e preventiva; a atuação integrada dos movimentos populares de saúde e sua aproximação com as periferias e comunidades; a luta pela reforma sanitária que se incorporaria à discussão acerca do Sistema Único de Saúde (SUS); entre outros, foram debates realizados no interior do movimento estudantil que subsidiavam a luta maior e geral organizada pelos movimentos de saúde.

Se a intervenção dos militantes estudantis nos movimentos populares de saúde foi importante na conquista de direitos sociais e na implementação de um projeto nacional, esta também foi fundamental no processo de criação e fortalecimento de uma rede de entidades estudantis ligadas a esta área. Em momentos diferenciados, mas com grande poder de intervenção no interior do movimento estudantil, surgem a maioria das Executivas e Federações de Curso58que, separadas e coletivamente, se organizam no sentido de lutar pela melhoria de seus cursos e da sua qualidade de ensino. Na área de saúde, são alguns exemplos a Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina (DENEM), a Executiva Nacional dos Estudantes de Enfermagem (ENEEnf), a Executiva Nacional dos Estudantes de Fisioterapia (ENEFIsio), entre outras.

As Executivas e Federações de Curso, na área de saúde, são, portanto, as responsáveis por realizarem, hoje, o elo entre o movimento estudantil e os movimentos populares de saúde. A interlocução se realiza de diversas formas, sendo, porém, as práticas de extensão universitária, as de maior visibilidade. Entre estas práticas, o estágio de vivência, talvez seja a experiência mais sistematizada no campo das executivas e federações de curso. Este estágio interdisciplinar é, como sugere Mesquita (2001:58),

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As Executivas de Curso que iremos tratar com maior profundidade em capítulo posterior, são também conhecidas como movimento estudantil de área, isto é, um movimento organizado pelos estudantes a partir de cada área do conhecimento. Nesse sentido, existem Executivas em quase todos os cursos. Assim, dependendo do grau de participação e mobilização dos estudantes, a Executiva terá maior ou menor visibilidade na universidade, bem como no próprio movimento.

“uma tentativa de conscientizar politicamente os jovens estudantes que, ao entrar em contato com uma outra realidade, pode ser capaz de atuar e intervir na perspectiva de valores como a solidariedade, participação e ética. Desta forma, é também uma maneira de ‘combater’ a formação de práticas individualistas entre os mesmos”.

Assim, além de ter um cunho formativo no desenvolvimento profissional dos estudantes, o estágio de vivência propicia mais que isso; ele desempenha um papel educativo e de formação política, chamando os estudantes para uma atuação mais comprometida com os segmentos populares.

Uma de suas últimas versões foi o estágio intitulado VER-SUS, que teve o apoio do Ministério da Saúde e se propôs a realizar uma intervenção no SUS, sistema que congrega hospitais públicos, prontos socorros, associações de atendimento à população, etc.

Outra forma de atuação tem sido a participação ativa de algumas Executivas em fóruns importantes como os encontros da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO), as reuniões setoriais com o Ministério da Saúde e os conselhos municipais de saúde.

Desta forma, ao realizar estas experiências, o movimento estudantil fortalece e amplia seu campo de atuação, bem como, oferece aos estudantes novos espaços de participação política que, bem organizados, poderão fomentar e gerar outras formas de cultura política, oxigenando sua prática. Além disso, como os próprios militantes observam, estas experiências de extensão universitária aliada aos movimentos populares de saúde, podem diminuir (e tem diminuído!) a distância entre estudantes e entidades, principalmente, no caso daqueles que, não se identificando com a estrutura e modelo do movimento estudantil clássico, vêem nestas uma oportunidade de atuar politica e socialmente.