REDES MUSEOLÓGICAS
IV. 2 — Identidade da Rede
A concepção de um projecto amplo, abrangente, e o seu desen- volvimento em rede, fará produzir no seu seio um conjunto de temáticas que, integradas num dado território, originarão um valor histórico de complementaridade. Esta situação possibilitará a criação de um vasto leque de variantes culturais, graças aos modos distintos de actuação de cada uma das unidades e, simultaneamente, proceder a combinações variáveis, com diferentes graus de centralização.
Essa mais-valia beneficiará a rede no seu conjunto, mas também, e sobretudo, cada órgão que a integra enquanto unidade individual. Essa projecção produzirá não só o conhecimento das instituições, interna- mente, como das suas programações para lá dos públicos habituais, apostando num mercado de maior abrangência: o turístico.
O melhor conhecimento e aproveitamento dos recursos culturais existentes no território, neste caso o do Concelho, poderá então gerar um importante papel de coesão e impulso ao progresso do espaço territo- rial que integra181.
Qualquer projecto em Rede deverá ter como ponto de partida uma visão estratégica a implementar, uma missão que tenha objectivos comuns, e esteja igualmente agregada a outras vertentes da Instituição ou Entidade. Se todas estas condições estiverem reunidas, acreditamos que se consiga atingir o objectivo de fomentar o crescimento cultural que, associado a diversos vectores importantes, como o planeamento, a preservação do património, o desenvolvimento urbano, as acessibili- dades e o turismo, entre outros, possam, em conjunto, constituir fac- tores de desenvolvimento e de viabilidade económica para uma região, instituindo-se igualmente como objectos de afirmação de identidade e de cultura locais. Assim, será fundamental reconhecer a cultura, como expressão mais ampla, multifacetada e insubstituível, porque serão esses os traços que farão dela o centro de um desenvolvimento social e economicamente integrado.
Cremos que através da criação de modelos de gestão rigorosos e adequados a uma pluridisciplinaridade de áreas, se poderão desenvolver,
181 CAMACHO, Clara, Renovação Museológica e Génese dos Museus Municipais da Área Metropolitana de Lis-
no terreno, tipos de intervenção técnica e administrativa adaptáveis a uma reutilização efectiva de cada unidade, mantendo o espírito de mis- são de cada museu, embora estes estejam integrados num modelo de rede.
A proximidade entre as várias unidades constituintes da rede só trará benefícios para cada um deles, pois, com um esbatimento do con- ceito de gestão particularizada de cada pólo, haverá espaço para uma abordagem ampla e aberta das várias competências, assim como a cria- ção de modelos e funções de informação transversal, racionalizando processos internos, isto é, melhorando o seu workflow182.
Repensar estes modelos de funcionamento em rede aponta para uma gestão mais orientada para a competitividade, obrigando ao reforço da procura de temas e conteúdos específicos por unidades sistémicas que possam entender este novo sistema como um sentido positivo que determine novos projectos183.
A consciencialização da necessidade de se ser competitivo, irá cer- tamente reforçar a procura e formas de subsistência desses mesmos projectos, fazendo com que o valor desse trabalho possa determinar os seus objectivos quanto a investimentos nas áreas económica, tecnológi- ca (incluindo os meios humanos e financeiros) e, finalmente, como objectivo principal, o desenvolvimento cultural e social.
Estes modelos reflectirão as necessidades de cada unidade, pre- vendo sistemas de planeamento controlado e a fiscalização da sua exe- cução, evitando desse modo as descontinuidades de projectos e alcançando autonomia face às vontades políticas que, normalmente, desencadeiam processos paralelos, porventura alterando o destino de verbas inicialmente afectas a projectos do sistema184. Acreditamos que,
182 CAMPOS, Eduardo Bueno, Organización de Empresas — Estrutura, procesos y modelos, Ediciones Pirámide, Madrid, 1996, pp. 285 a 287.
183 O estudo apresentado pelo Relatório da Digicult, foca a necessidade de se desbloquear o valor do património cultural, propondo para as instituições culturais (Arquivo, Bibliotecas e Museus) uma estraté- gia progressiva dirigida para um modelo cultural baseado em sistemas electrónicos, em que as operações institucionais são centradas no utilizador e na procura dos temas. Este estudo defende ainda a integração digital das instituições como um todo e não apenas numa abordagem baseada em serviços casuísticos. A tecnologia é entendida como um factor sistémico para reestruturação das organizações culturais e, como tal, a necessidade de se entender essa reestruturação como condição para uma boa adaptação a lógicas de redes. http://digicult.salzburgresearch.at/downloads/dc_fuulreport_230602_screen.pdf. 184 CAMPOS, Eduardo Bueno, op. cit, pp. 335 a 357.
através de uma gestão integrada em rede, possa haver a redefinição de modelos estruturantes que se ajustarão aos objectivos das organizações, obrigando-as igualmente a uma implementação rigorosa dos projectos que assentam em rede. Neste quadro não serão facilmente substituídos por outros, tendo como objectivo final alvos que apontámos em capítu- los anteriores, e que são: a cultura como factor de consolidação de iden- tidade, quer a nível regional, quer internacional; factor de aglutinação de comunidades e desenvolvimento; o fomento de campanhas de sensibi- lização e educação patrimonial; promoção da diversidade. A execução destes pressupostos conduzirá à criação de formas de riqueza e desen- volvimento; todos estes factores associados farão com que o desenvolvi- mento de economias criativas, através de sectores especializados, pos- sam permitir o incremento de linguagens culturais contemporâneas185, mesmo no campo museológico.
Dever-se-á, então, concluir que os princípios para o funciona- mento da rede deverão assentar em variáveis fundamentais: interacção, relacionamento, partilha, integração. Todos estes factores de comple- mentaridade ajudarão a sustentar, igualmente, a flexibilidade e o for- talecimento da gestão do projecto em rede.
A forma de organização cultural que vimos defendendo no campo patrimonial e museológico, visa assegurar as devidas e necessárias condições de sobrevivência e desenvolvimento deste sector específico186.
IV. 3 — A especificidade das unidades museológicas