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Identidade e cultura sob a perspectiva de Stuart Hall

3 PRESSUPOSTOS TEÓRICOS

3.8 Identidade e cultura sob a perspectiva de Stuart Hall

Atualmente, há um amplo debate nas Ciências humanas sobre o que é, afinal, a identidade social e cultural. Neste trabalho, seguimos a perspectiva de Stuart Hall sobre as identidades, pois acreditamos que as reflexões desse autor convergem com a discussão oriunda da Análise do Discurso sobre a constituição discursiva dos sujeitos.

Na perspectiva de Hall (2000, p. 105), para compreendermos a identidade não é necessário elaborarmos uma teoria ―sobre o sujeito cognoscente‖, mas, sim, uma teoria das representações discursivas que constituem os indivíduos como

sujeitos sociais. Portanto, é muito importante aproximarmos a discussão sobre as identidades sociais às reflexões da Análise do Discurso, pois entender a identidade é interpretar quais são os discursos que constituem e conferem existência histórica aos sujeitos.

Contudo, Hall (2000) adverte que o conceito de identidade é ―demasiadamente complexo, muito pouco desenvolvido e muito pouco compreendido na ciência social contemporânea‖. Assim, propõe que em lugar de se pensar em ―identidade como uma coisa acabada‖, dever-se-ia pensar em ―identificação‖, concebendo-a como ―um processo em andamento‖. Logo, a identidade não emerge plenamente do interior dos indivíduos, e sim de uma ausência de completude que é ocupada ―a partir de nosso exterior, pelas formas através das quais nós imaginamos ser vistos por outros‖ (HALL, 2000, p. 8).

A questão da identidade é vista, dessa forma, como um posicionamento assumido por cada indivíduo, não de forma fixa, mas como resultado de formações históricas que devem ser vividas em sua completude. Nos dizeres de Stuart Hall (2006, p. 409):

Acho que a identidade cultural não é fixa, é sempre híbrida. Mas é justamente por resultar de formações históricas específicas, de histórias e repertórios culturais de enunciação muito específicos, que ela pode constituir um ‗posicionamento‘, ao qual nós podemos chamar provisoriamente de identidade. Isso não é qualquer coisa. Portanto, cada uma dessas histórias de identidade está inscrita nas posições que assumimos e com as quais nos identificamos. Temos que viver esse conjunto de posições de identidade com todas as suas especificidades.

Hall (2007) teoriza também que tanto o significado como a identidade surgem nas relações de semelhança e diferença com o outro (palavra ou indivíduo). Isso nos leva a pensar que a identidade é construída em processos linguísticos e sociais de natureza ideológica, ao invés de ser simplesmente algo natural, como concebe o senso comum, pois, como afirma:

A identidade é definida historicamente, e não biologicamente. O sujeito assume identidades em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um ‗eu‘ coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas [...]. A identidade é, pois, vista num constante processo de mudança e é na comunidade que essa identidade será preservada, cultivada, perpetuada, enfim, construída. (HALL, 2007, p.23).

Portanto, não podemos deixar de lado o contexto histórico, social e cultural em que estão alicerçados os discursos, pois, de acordo com o autor, as culturas nacionais constituem uma das principais fontes de identidade cultural no mundo moderno. Ele argumenta que o sujeito sempre fala a partir de uma posição histórica e cultural específicas a fim de autenticar uma determinada identidade, como podemos observar no seguinte trecho:

Ao ver a identidade como uma questão de ―tornar-se‖, aqueles que reivindicam a identidade não se limitariam a ser posicionados pela identidade: eles seriam capazes de posicionar a si próprios e de reconstruir e transformar as identidades históricas, herdadas de um suposto passado comum (WOODWARD, 2000, p.28).

A identidade cultural está diretamente relacionada com os costumes, as tradições, os hábitos, os valores, as crenças, enfim, com o modo de viver de um determinado povo. Devemos considerar também o sentimento de pertencimento a uma comunidade ou mesmo a uma sociedade. Nesse sentido, a construção de identidades, de acordo com Stuart Hall (2007, p.49), na verdade, são formadas e transformadas no interior da representação, assim:

Segue-se que a nação não é apenas uma entidade política mas algo que produz sentidos — um sistema de representação cultural. As pessoas não são apenas cidadãos/ãs legais de uma nação; elas participam da idéia de nação tal como representada em sua cultura nacional. Uma nação é uma comunidade simbólica e é isso que explica seu ―poder para gerar um sentimento de identidade e lealdade‖.

A identidade é, pois, vista num constante processo de mudança e é na comunidade que essa identidade será preservada, cultivada, perpetuada, enfim, construída. Como diz Castells (1999, p. 23), ―[...] as comunidades, construídas por meio da ação coletiva e preservadas pela memória coletiva, constituem fontes específicas de identidades‖. Nesse sentido, quando as pessoas se agrupam em comunidades por um longo tempo gerarão um sentimento de pertencimento e, em muitos casos, o que o autor chama de ―identidade cultural comunal‖. No entanto, conforme afirma Cicília Peruzzo (2003), a comunidade não pode ser confundida com bairro, cidade ou com segmentos étnicos, religiosos, de gênero, acadêmicos etc. ―Ela pressupõe a existência de elos mais profundos e não meros aglomerados humanos‖ (PERUZZO, 2003, p. 56). De acordo com a autora:

São características da comunidade que têm perdurado no tempo, embora assumam novas feições, linguagens e interpretações: sentimento de pertença; participação; interação; objetivos comuns; interesses coletivos acima dos individuais; identidades; cooperação; confiança; cultura comum etc. [...] Comunidade nos dias atuais carrega noções de ―coisas‖ em comum, de laços fortes entre os membros e de um ―movimento‖ em torno do coletivo que supera as amarras do individualismo (PERUZZO, 2003, p.56).

A manifestação, seja ela qual for, é compreendida localmente como tradicional, uma vez que possui uma longa permanência no tempo com uma reprodução de conteúdos semelhantes, mas que admitem mudanças resultantes de disputas e negociações entre vários agentes, por exemplo, brincantes, plateia, promotores culturais etc.

E a música, neste contexto, consiste em parte fundamental para a exposição da identidade cultural de uma determinada sociedade. E isto é o discurso que a música maranhense tem com outros discursos, como por exemplo, a figura do bumba meu boi, símbolo maior da cultura do Maranhão, e se institui como uma das principais temáticas na qual a MPM pautou grande parte de sua produção literomusical.

Assim sendo, buscaremos em nossa análise nuances interpretativas que revelem a marca identitária da Musica Popular Maranhense em seu contexto histórico, social e cultural, pois, como Stuart Hall, acreditamos que os aspectos subjetivos da(s) identidade(s) surge(m) do pertencimento a culturas étnicas, raciais, linguísticas, religiosas e, acima de tudo, nacionais e regionais. O autor argumenta que ―uma cultura nacional é um discurso – um modo de construir sentidos que influencia e organiza nossas ações quanto à concepção que temos de nós mesmos.‖ (HALL, 2006, p. 50). Com respaldo nessas referências, entendemos que as canções da MPM, vistas como construções discursivas, nos possibilitam identificar o sentimento de pertencimento à cultura maranhense.

Portanto, esse pertencimento vai se estabelecer também como base para a construção dessa identidade discursiva, uma vez que se constrói através do próprio discurso, por isso, permeável e passível de movências de sentido. Quando um discurso é proferido, ele já nasce filiado a uma rede tecida por outros discursos com semelhantes escolhas e exclusões.