3. PRIMEIRA INFÂNCIA, CLIMA ESCOLAR E O PROCESSO DE FORMAÇÃO
3.3 O modelo de Roberts (2006)
3.3.1 Identidade e reputação no modelo de Roberts (2006)
Os componentes da personalidade são ambos manifestados e organizados ao redor de duas entidades psicológicas e metodológicas: identidade (ou relatórios auto referidos) e reputação (relatório observador). Segundo Roberts (2006) de uma perspectiva metodológica, há dois privilegiados, ainda que falhos, caminhos para acessar informação sobre os indivíduos: o que eles dizem sobre si mesmos e o que os outros dizem sobre eles.
Inventórios de personalidade representam métodos típicos de relatórios auto referidos. Esta categoria também inclui classificação básica de atributos, medidas de autoconceito, tais como autoestima, bem como medidas de motivos e valores. Segundo Piedmont, McCrae, Riemann, & Angleitner (2000) relatórios auto referidos tipicamente são preteridos por serem viesados para um conjunto de respostas, tais como conveniência social de responder ao questionário.
Já os métodos observadores abrangem classificações observadoras de comportamento, testes projetivos, medidas implícitas e mesmo testes psicológicos. Esses métodos observadores possuem maior respeito dentro da psicologia da personalidade, mas segundo Visewesvaran, Schmidt & Ones (2005), para psicólogos que trabalham com sistemas de processamento de informação, onde esses métodos observadores são muitas vezes utilizados, é amplamente conhecido que eles também sofrem vieses tais como viés de impressão geral do avaliador, conhecido como halo error36.
Segundo Mount, Barrick, & Strauss (1994) quando pesquisadores se preocupam em avaliar utilizando ambos os métodos, relatório auto referido ou relatório observador, eles muitas vezes encontram que ambas perspectivas predizem resultados organizacionais.
Esses dois métodos de avaliação correspondem a dois construtos psicológicos globais, identidade e reputação, que têm um significado que vai além dos métodos de avaliação. O aspecto identidade reflete a soma total das opiniões que são cognitivamente avaliadas para o indivíduo através dos quatro domínios de análise. O primeiro domínio seria o próprio conteúdo da identidade, por exemplo, se a pessoa considera a si própria tímida ou criativa. Identidade também pertence à percepção metacognitiva37 daquela mesma autopercepção. Especificamente, pessoas podem simultaneamente enxergar a si próprias como extrovertidas e trabalhadoras, e ao mesmo tempo se sentirem mais ou menos confiantes ou aplicadas (metapercepção) naquela autopercepção.
Esta conceitualização de identidade é tanto consistente como também diferente daquela perspectiva social psicológica clássica em identidade social. Similar à teoria de identidade social, segundo Tajfel & Turner (1979) é assumido que o conteúdo de identidade é
36 Um tipo de erro ou viés cognitivo que pode ocorrer na avaliação de performance de indivíduos onde eles estão consistentemente classificados com base na impressão geral do avaliador, ao invés da sua efetiva performance e seu desempenho nesta. (Thorndike, (1920); Balzer & Sulsky (1992); Saal, Downey & Lahley (1980)).
37 Etimologicamente, metacognição significa para além da cognição, isto é, faculdade de conhecer o próprio ato de conhecer. Segundo Brown (1978); Flavell & Wellman (1977) e Weinert & Kluwe (1987), são os processos metacognitivos que coordenam as aptidões cognitivas envolvidas na memória, leitura e compreensão de textos, bem como as capacidades de planificar, dirigir a compreensão e avaliar o que foi aprendido. Segundo Pressley (1986), em termos de realização escolar, para além da utilização de estratégias, é importante o conhecimento sobre quando e como utilizá-las, sobre sua utilidade, eficácia e oportunidade.
formado por interações sociais e que estas interações são organizadas de acordo com categorias sociais específicas, tais como o papel na sociedade. Mas segundo Salancik & Pfeffer (1978) o papel das experiências também pode afetar a experiência das pessoas e desse modo sua autopercepção.
Prat & Rafaeli (1997) exemplifica como as organizações podem afetar os símbolos utilizados nos papéis de trabalho e seus significados, que por sua vez podem afetar o conteúdo da identidade. Por exemplo a utilização de diferentes versões do simbólico casaco branco, utilizado para marcar transições de status no processo de mobilidade entre um estudante de medicina e um médico em pleno exercício da profissão. Segundo os autores, presumivelmente, receber esses símbolos facilita o deslocamento na identidade de um estudante de medicina.
A conceitualização neosocioanalítica de identidade no modelo de Roberts (2006) adiciona à conceitualização oferecida pela teoria de identidade social a suposição que os atributos também causam o conteúdo da identidade. No entanto, esse não é um afastamento radical da teoria de identidade social. Por exemplo, não há razão porque uma pessoa não possa mudar sua identidade ao longo do tempo de acordo com a moda. Uma pessoa pode vir a enxergar a si mesma como alguém que trabalha duro simplesmente por experimentar um ambiente de trabalho altamente competitivo. Essa nova autopercepção pode ser perpetuada simplesmente porque a pessoa permaneceu no ambiente por algum tempo. No entanto, o autor propõe que alguma coisa mais que apenas o contexto social se faz necessária para entender a experiência de uma pessoa e que fatores internos como temperamento são influências adicionais na variação em identidade social.
Johnson, McGue & Krueguer (2005) mostram que, especificamente, padrões de gosto e preferência derivam em parte de fatores genéticos e psicológicos que contribuem para a continuidade desses padrões ao longo do tempo. Estes sistemas psicológicos implícitos no indivíduo podem fornecer um forte poder de compreensão contra a influência do meio- ambiente. Por exemplo, um indivíduo tímido pode ter sempre uma prontidão para responder às interações sociais com reticência, apesar das pressões sociais para fazer o contrário.
Uma segunda característica do panorama neosocioanalítico do modelo de Roberts (2006) que é distinta da maioria das teorias de identidade social, sociocognitiva e personalidade é a inclusão de reputação. Reputação é a perspectiva de parte dos outros sobre os atributos de uma pessoa, motivos e valores, habilidades e narrativas. Consistente com o olhar para si mesmo, a reputação é conceitualizada afetando a identidade. Pessoas verão a si mesmas diferentemente dependendo de como outras pessoas as definem. Por outro lado, disposições já implícitas no indivíduo podem afetar sua reputação diferentemente sem serem mediadas através de
identidade.
Isso reflete o fato de que pessoas não são sempre conscientes de seu próprio comportamento e que os outros podem ver padrões em seus comportamentos que eles não podem ver. Dada a direção de identidade apontando para a reputação, pode-se propor também que pessoas formam ativamente sua reputação. Goffman (1959) salienta para um fato da interação social: as pessoas não compartilham tudo de sua autopercepção, e elas ativamente tentam persuadir os outros de suas qualidades desejáveis.
Reputações são claramente importantes, de uma perspectiva organizacional. Pessoas são contratadas, demitidas, promovidas e rebaixadas, em parte por causa da sua reputação. No contexto escolar, reputação tem um papel ainda mais importante, porque ela pode influenciar diretamente a identidade, e nem sempre de um modo positivo. Um aluno com uma má reputação pode ter uma avaliação tendenciosa do seu desempenho pelo fato de ser conhecido como tendo mal comportamento, ou o contrário, um aluno com reputação positiva pode ser tendenciosamente aprovado mesmo que seu desempenho acadêmico seja aquém do estabelecido pela escola ou professor. Pode ser muito mais difícil e demandar muito mais esforço para um aluno com má reputação alterar sua identidade.