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O papel do contexto no modelo de Roberts (2006)

3. PRIMEIRA INFÂNCIA, CLIMA ESCOLAR E O PROCESSO DE FORMAÇÃO

3.3 O modelo de Roberts (2006)

3.3.2 O papel do contexto no modelo de Roberts (2006)

Ao contrário de muitas teorias da personalidade, o modelo de Roberts (2006) também vê contexto (ou situação, na figura 2) hierarquicamente. Segundo Bronfrenbrenner (1979) contextos amplos são representados com conceitos tais como cultura em um país ou clima social na comunidade. O clima escolar também pode ser visto como conceito parte dos contextos amplos. Fatores contextuais de nível médio podem ser representados como fenômenos baseados em papéis, tais como o papel das expectativas, que são as demandas que os outros têm por como se deve agir em certos papéis sociais. No nível mais estreito de amplitude, estão os estímulos concretos discriminativos, recompensas, ou punições que formam o comportamento.

Com esta elaboração hierárquica a aparente contradição das mudanças de comportamento e disposição parecem mais estáveis. Segundo Roberts & Pomerantz (2004), muito da pesquisa contextualmente dirigida, tal como aquelas que focam no efeito das manipulações experimentais, é focada no nível baixo de abstração de específicos tipos de pensamentos, sentimentos ou comportamentos. Pesquisadores estudando atributos da personalidade, por outro lado, focam na agregação de pensamentos, sentimentos e comportamentos através de muitos contextos. De acordo com Roberts (2006) esta é a razão pela

qual psicólogos de atributos e aqueles que estudam os efeitos de experimentos se referem aos trabalhos uns dos outros. Eles estudam um fenômeno similar em níveis diferentes de abstração.

Especificamente, comportamentos são ambos resultado e causa dos atributos. Além do mais, o efeito do contexto em um atributo, que impacta diretamente o comportamento, é mediado por uma ou mais leis da hierarquia. Assim, o efeito de um contexto ou situação em um atributo é filtrado e diluído. Uma simples mudança no comportamento não resultará em mudança para o atributo, que reflete uma ampla agregação de comportamentos através de muitos contextos e situações.

Roberts (2006) descreve a mudança no comportamento registrada como uma pedra jogada em um lago. A mudança de comportamento pode causar uma ondulação na superfície da lagoa, mas é improvável que afete a profundidade da água. Do mesmo modo, o efeito de um atributo em um comportamento restrito contextualmente é filtrado através de múltiplos níveis e, portanto, seu efeito é diluído. Por causa dos múltiplos níveis de distância que um atributo deve atravessar, é razoável assumir que a relação entre um comportamento e a disposição de um indivíduo deve ser modesto na melhor das hipóteses.

A figura 3 mostra um cenário hipotético elaborado por Roberts (2006) detalhando a relação entre experiências de trabalho e o atributo da conscienciosidade. Neste exemplo, o indivíduo começou no seu primeiro emprego fora da escola ou faculdade. O papel do novo trabalho traz com ele uma pressão por trabalhar mais duro do que ele trabalhou na escola.

Figura 2. Modelo hierárquico do processo de socialização no trabalho.

Fonte: Roberts (2006).

mas essas mudanças não necessariamente afetariam as inferências associadas com o atributo conscienciosidade. Ao invés disso, essas mudanças primeiro afetariam o papel identidade de conscienciosidade.

Wood & Roberts (2006) utilizam o mesmo cenário hipotético para dizer que este indivíduo enquanto funcionário pode, depois de poucas semanas de trabalho exigente e esforço ativo para corresponder a essas demandas, começar a ver a si mesmo como “trabalhador”, mas não necessariamente como alguém com perfil de um industrial. Ao longo do tempo, com mais experiências consistentes, uma pessoa pode internalizar e generalizar estes atributos de nível baixo em alguma coisa ampla, como uma inferência na disposição.

Por exemplo, segundo Kohn & Schooler (1978), observar a si mesmo fazendo algo diferente é um dos mecanismos-chave de aprendizagem da hipótese de generalização. Essa hipótese propõe que experiências de trabalho são internalizadas e então generalizadas para outros domínios. Por exemplo, pessoas podem ver a si mesmas agindo de forma mais intelectual no trabalho, e ao fazê-lo, começar a ver a si mesmas como mais intelectuais, e então generalizar essa mudança adotando passatempos mais intelectuais, tais como xadrez.

Esta integração de um modelo topográfico neosocioanalítico e o modelo hierárquico da figura 2, também ajuda a identificar muitos dos mecanismos responsáveis por mudanças na personalidade que tem se delineado em outros trabalhos como Caspi & Roberts (1999), Roberts & Caspi (2003) e Roberts & Wood (2006). Um exemplo claro são os papéis das expectativas. Esses papéis estão incorporados nos papéis que as pessoas adquirem. Elas agem como estímulos discriminativos, sinalizando para as pessoas quais comportamentos são requeridos em contextos específicos.

Segundo Roberts, Wood & Smith (2005) agir em concordância com o papel das expectativas pode levar a mudanças na personalidade. Mecanismos de feedback em que as pessoas contam como se pode mudar ou como eles estão agindo também vêm como uma parte do papel. Por exemplo, supervisores fornecem mensagens concretas de quais comportamentos são aceitáveis ou inaceitáveis. Presumivelmente, supervisores têm também o poder de administrar recompensas para certos comportamentos (aumentos), e punições para outros comportamentos (rebaixamentos e demissões).

Roberts & Wood (2006) mostram que um dos mediadores-chave da influência das expectativas nas mudanças na personalidade é que no trabalho as pessoas que estejam comunicando expectativas sejam queridas por seus interlocutores. Kochanska & Murray (2000) apresentam o exemplo de que crianças tendem a responder mais de bom grado às expectativas dos pais para o proibido quando elas têm uma relação mais positiva com eles. Do mesmo modo,

a habilidade dos supervisores em influenciar os padrões de comportamento de seus protegidos no longo prazo pode ser dependente do fato se eles são estimados ou não por seus subordinados. Similarmente, os pares devem ter maior poder de influência sobre seus amigos se são estimados por eles.

Contrariando esses processos de mudanças estão os mecanismos do lado pessoal ou genético da equação que podem tornar inócua ou anular a pressão para mudança. Segundo Roberts e Caspi (2003) na medida em que o processamento heurístico de cima para baixo acontece, certas pessoas podem não perceber ou reconhecer a pressão para mudança porque elas não possuem os esquemas de registro de pressão. Alternativamente, pessoas podem usar meios mais efetivos para evitar mudanças, como por exemplo evitar a situação, ou usar mais mecanismos que processam a informação estratégica, como por exemplo, minar a mensagem de mudança, enxergando a pessoa que pressiona por mudança como não qualificada ou ignorante. Naturalmente, mais processos psicodinâmicos são possíveis uma vez que as pessoas simplesmente negam a pressão por mudança ou projetam a pressão para trás da mensagem. (Roberts & Caspi, 2003; Roberts & Wood, 2006).

Em resumo, o panorama neosocioanalítico do modelo de Roberts (2006) traz junto consigo um complexo intervalo de diferenças individuais e fornece um claro canal para entender como o contexto social afeta aquelas disposições. Segundo Roberts (2006) pode-se localizar muito do núcleo das questões dentro dos estudos de comportamento organizacional explorando as relações entre papel e identidade.

Segundo Haslam, Alexander, Postmes & Ellemers (2003) o clima organizacional dita a natureza dos papéis experimentados no trabalho. Ilgen & Hollenbeck (1991) mostram que o desenho do emprego reflete como o papel do trabalho de alguém está configurado pela organização. Por fim, este modelo dá a oportunidade de ver uma interface construtiva entre campos ora opostos. Baseado nesta conceitualização, a personalidade afeta os fenômenos organizacionais e é afetada pelas experiências da organização.

Além do importante papel que se dá no mercado de trabalho, a complexidade da inter- relação entre os diferentes domínios dá a ideia da extensão da importância do clima escolar na construção da identidade e da reputação dos indivíduos durante uma fase considerada crítica para tantas habilidades importantes. Em última instância, o desenvolvimento dos indivíduos vai ter seu efeito também dentro das organizações, que valorizam indivíduos com determinadas habilidades.

O clima escolar ainda tem a característica de se relacionar não só com os contextos amplos culturais como também com os contextos médios e estreitos, uma vez que existem

papéis e expectativas a serem cumpridos dentro da escola, além de punições e recompensas para determinados comportamentos.