IV. ARTICULAÇÕES NO LOCAL: DINÂMICA DE TRANSFORMAÇÃO SOCIAL
4.2. Modernidade e identidades
4.2.1. Identidade nacional e identidade local
A década de 1970 representava um momento em que estava em pleno andamento o projeto (ânsia) de modernização do país e a superação do atraso, quando o Brasil torna-se o país mais moderno da América Latina. A partir deste momento, é inegável nossa modernização, no entanto, podemos melhor posicioná-la, situando-a na dimensão econômica. Para assumir que nos tornamos uma sociedade moderna, dois esclarecimentos são necessários. O primeiro refere-se à própria ideia do país ser moderno, mesmo considerando apenas a dimensão econômica. Dediquei passagens anteriores à imposição capciosa que costuma reduzir a população brasileira ao mínimo econômico baseado em médias, o que fica por destacar é nossa nítida e marcante heterogeneidade; da base produtiva instalada à mestiçagem dos brasileiros. A segunda alegação decorre da crítica anterior, ampliando-a, pois nem mesmo a própria ideia de modernização teria alcançado a mente e a identidade nacional de forma significativa, como se houvesse uma legitimação constituída em seu apoio. Assim, a própria multiplicidade cultural e racial do país, naturalmente, dificulta uma conjugação unânime em favor da modernização. Somos muitos, e muitas são nossas diferenças, o que também preserva o “atraso” em várias frações de nosso território. O projeto modernizador prevalece, então, por força de uma estrutura de poder que o torna possível a despeito de tanta diferença e desigualdade social, a qual parece imune ao processo de modernização, pois, mesmo diante dos frutos gerados, eles insistem em manter-se inalcançáveis à grande parte das pessoas.
Se tamanha parcela de marginalizados ainda há, em meio aos progressos alcançados com a modernização econômica do país, e tendo visto que seu curso pouco tem se alterado, seria necessário criar novos moldes ao que tem se construído como projeto de modernização. Ou seja, é preciso encontrar um elo mais justo para se conjugar modernização e identidades da nação, e não uma única e exclusiva identidade nacional. A aproximação das duas pode deflagrar as inúmeras identidades locais que da nacional se distinguem, pois a nacional não
deve ser vista como soma das locais. Não só as duas podem conviver em um só tempo, como cada uma pode retratar condições e referências distintas.
Quais são as diferenças possíveis entre a identidade nacional e as locais? Primeiramente, é preciso reconhecer que as duas existem e que são distintas, e a identidade nacional refere-se a um nível mais abrangente da identidade que temos, voltada à ideia de pertencimento ao país, podendo ser ainda a identidade social de um indivíduo que não tem vínculo exclusivo a uma materialidade geográfica específica ou com as edificações humanas nela exibida.
Amparado por Ribeiro (2006), é possível despojar da identidade nacional sua peculiar formação. Somos originários da mescla de três raças e suas diferenças culturais e sociais, adequada perante uma diversidade de influências econômicas e ambientais peculiares à formação do que o autor chamou de “novo povo”. A miscigenação típica que se conjugou, a partir de um processo de colonização escravista, o europeu, o índio e o negro, geraram, na visão de Ribeiro (2006), uma espécie de fusão (uma gente nova), onde manifestaram as três identidades em um só povo, e não apenas uma nova versão para estas origens. Ao mesmo tempo em que somos um só povo, brasileiro, isso não leva a uma caracterização necessariamente uniforme. As diferentes geografias do País geraram distintas experiências, às quais se relacionaram diferentes modos de vida e culturas. Nascendo da miscigenação, criamos um novo, onde a diferença fez a unidade.
Para a formação dessa unidade, foi decisivo o papel daquela que gerou muitas das heranças que ainda notamos as consequências, a colonização. Antes da chegada dos europeus, não havia entre os índios um sentimento de identidade e nacionalidade. O início das atividades econômicas e os vários ciclos produtivos que se seguiram permitiram não só a expansão territorial, como a geração paulatina da concepção de identidade nacional. Com a intensificação do comércio com outras nações, foi possível a formação de recursos que facilitariam a independência política do País. Chegando à República, um suficiente processo histórico teria se formado, misturando povos e formando uma identidade nacional, consolidada sobre um território e uma história comum.
Refletir sobre a identidade nacional de expressão única é um esforço factível ao erro, à simplificação. As interpretações do País são muitas, e o somatório de uma ou outra visão particular e isolada não leva necessariamente a uma espécie de compreensão geral. Neste ponto, concordo com Reis (2005), quando diz que uma expressão de síntese da identidade nacional não viria de uma integração de todas as interpretações em uma única, na esperança
de uma superinterpretação. Para ele (idem, p. 13), “a síntese seria um diálogo entre todas, que se esclarecem pelo reconhecimento e contrastação recíprocas”.
Em sua formação, podemos assumir que a identidade nacional vem da ideia de vários “Brasis”, que acumulam mudanças e continuidades nas junções que acontecem entre os diversos momentos do presente e do passado, delineados pelos projetos de modernização que nessas ocasiões se fazem das projeções futuras. Mudança e continuidade, na visão de Reis (2005, p. 14), seriam as categorias fundamentais na orientação das interpretações do Brasil. Sobre os diversos autores que buscaram sua interpretação, ele afirma:
O que os diferencia e aproxima, o que os separa e agrupa, é uma representação particular do tempo histórico brasileiro. As duas categorias fundamentais que permitem inteligibilidade e diferenciação desses discursos sobre o Brasil são categorias temporais: mudança e continuidade. Esses autores realizaram fundamentalmente uma articulação de mudança (processo, modernização, progresso, revolução, na direção da independência e autonomia) e continuidade (estrutura, permanência, tradição, resistência, conservadorismo, que significam dependência e heteronomia). [...] Mudança, para o Brasil, significa a identificação das forças que produzem a autonomia e a emancipação nacional; continuidade, a identificação das forças que reproduzem e renovam a dependência (Grifos do autor).
Esse reconhecimento de nossa diversidade e, consequentemente, da possibilidade que se abre para a conformação de identidades, além da exclusivamente nacional, é amparado pela posição de Halbwachs (1990, apud SOUZA, 2007). Para ele, é intrínseca à formação da identidade a ideia de memória coletiva. Isso porque, mesmo a lembrança que nos é mais pessoal e estranha ao grupo social do qual fazemos parte (seja ele regional ou nacional), reflete um ponto de vista sobre a memória coletiva. Nossa identidade viria em parte de uma memória autobiográfica e outra de uma memória histórica, sendo que esta última não só apóia a primeira como é mais ampla do que ela.
Dessa forma teríamos, em cada um de nós e nos grupos sociais que fazemos parte, uma importante referência sobre as ocorrências e imagens de nossas vidas. Somos nós que tornamos determinados momentos passageiros ou permanentes em nossa memória, experiência que acaba, naturalmente, refletindo as particularidades sociais e materiais de cada lugar que vivemos. Dessa forma, “o que consideramos nosso íntimo e nossa individualidade é, também, um produto social e, dessa forma, todo “eu” pressupõe um “nós”” (SOUZA, 2007, p. 18). Uma identidade nacional, nesse sentido, afirma-se “subjacente aos povos e moldada por regularidades humanas e sociais” (ELIAS, 1990, apud SOUZA, 2007, p. 18).
Souza (2007, p. 24-25), ainda sugere certas características necessárias à problematização da identidade nacional, das quais destaco: nenhuma identidade se faz de forma mecânica e integral nos indivíduos; nasce de uma relação de poder na qual setores dominantes da população buscam construir uma imagem de si e uma representação histórica compatível com seus interesses; inexistem alteridades absolutas e homogêneas representadas por cada identidade, pois nações (ou locais) diferentes moldam suas identidades em interação e não em isolamento; identidade alguma é estática, embora, muitas vezes, assim se proceda. Em outro sentido, são permanentemente reformuladas no decorrer dos processos históricos dos quais fazem parte. Reforçando o que venho articulando, a identidade nacional não deve ser compreendida de forma isolada. Basta resgatar que, no período colonial, sequer nos identificávamos como brasileiros, mas segundo a região de origem ou status derivado do nascimento, embora desde esse tempo ela já estivesse se edificando. Ponto comum em todas essas principais transformações foi a busca da modernidade, o ingresso não só no sistema, como no modo de vida capitalista, a busca pela integração à cultura europeia, quando importamos padrões e os impomos à nação.
Essa formação de uma consciência de personalidade geral do povo brasileiro – identidade nacional –, conota um conjunto de características e circunstâncias que o distinguem de outros povos, garantindo-lhe características e comportamentos inerentes à sua individualização. No entanto, há outro tipo de identidade. Além de nos revelarmos de forma mais geral segundo referências à nação, também expressamos nossa identidade social pelo sentimento de pertencimento a um determinado lugar, geralmente calcado por critérios relativos aos locais específicos onde passamos a maior parte de nossa vida. A diferença se tornaria mais clara na medida em que retomamos a temática do território como auxílio.
Digo isso, pois, diante da identidade nacional, várias outras se formam nas diferentes frações de nosso território. Se inicialmente eram essencialmente regionais, com a constituição das cidades também passa a ser possível a percepção de diferenças típicas de uma identidade local. Seu sentido, neste estudo, deve ser percebido pela contraposição da dimensão espacial- geográfica, quando algo menor (local) opõe-se conceitualmente a uma dimensão maior da qual faz parte (nacional, mas poderia ser o regional e o estadual; ou até mesmo o global). Assim, quando falar em local, a referência será a uma pequena fração de território, mais especificamente, ao município (a cidade e seu entorno rural). Um significado a partir do qual se relacionam referências de valor mais abstrato, relativos à dinâmica social dos que vivem
sobre este espaço, e de onde acabam, em alguns pontos, diferenciando-se de indivíduos e grupos de outros espaços.
Assim, a identidade local é coerente com toda manifestação que guarda exclusividade ao modo de ser e agir do lugar. Essas manifestações tornam-se mais nítidas à medida que ampliamos a dimensão geográfica, ou seja, sendo de São Roque de Minas, determinado indivíduo conjuga valores e modos de pensar e agir que encontram similares com a população local, o que não impede que tenha características da região, do estado e do país, onde se afirma a identidade geral conjugada por todos – a identidade nacional. Na análise das diferenças do local ao nacional, torna-se importante identificar o grau ou capacidade que o ator social tem em exercer participação, como a possibilidade de ação e controle sobre a realidade dos fatos que o atingem, assim como a percepção da ação em jogo e o retorno de suas ações. A manifestação do indivíduo tende a ser maior onde é mais efetiva sua participação, o local.
Partindo da reflexão de que todo processo de construção de identidades está imerso na configuração de igualdades e diferenças, torna-se plausível diferenciar a identidade nacional da local pela ideia que o indivíduo tem de ser membro de um grupo em relação aos membros de outros grupos. Igualmente, a identificação do indivíduo, como membro de um grupo, implica atributos, valores, normas e ideias compartilhadas, permitindo que possa estar situado em um determinado espaço histórico-social (HOGG e ABRAMS, 1988, apud LORDELO e BARROS, 2008). Considerando que os principais influenciadores da identidade dos indivíduos são a família e os diferentes grupos sociais com os quais se relacionarão na vida, são com estes que eles, permanentemente, irão orientar-se e reorganizar suas relações. Nesse processo de igualdade e diferenciação desenvolvem-se estereótipos sociais e preconceitos de ação. Não é necessária uma ampla discussão e um aprofundamento teórico sobre a formação da identidade, e, dessa forma, restrinjo à formação de uma referência básica no decorrer da análise pretendida. Nesse sentido, a relação que se estabelece entre o lugar e a formação da identidade merece considerações adicionais.
Segundo Twigger-Ross e Uzzel (1996), há pelo menos duas formas nas quais o lugar se relaciona com a identidade. Uma refere-se às identificações com o lugar, à assimilação expressa do indivíduo com o lugar, quando uma pessoa de São Roque de Minas refere a si mesmo como sendo um Sanroquense. Nesse sentido, o lugar aparece como uma categoria social, uma aproximação à já discutida ideia de territorialidade, ou seja, a identificação com o lugar expressaria ou definiria determinado membro de um grupo segundo o local onde
mantém suas principais relações sociais (muitas vezes as mais duradouras). A outra forma onde se relacionam identidade e lugar está no conceito de identidade-lugar. O termo foi usado por Proshansky et al (1993, apud TWIGGER-ROSS e UZZEL, 1996) no sentido de mostrar que a identidade-lugar é um outro aspecto da identidade, se comparado à identidade social. Para ele, neste caso, o importante é a socialização das pessoas com o mundo físico a sua volta. Dessa forma, os objetos e características do lugar são incorporados aos conceitos que os indivíduos fazem de si. Mas evitando simplificações, Twigger-Ross e Uzzel (1996) alertam que o conveniente é entender quais aspectos da identidade estarão, de alguma forma, relacionados com as implicações do lugar, sejam elas sociais ou físicas, pois o local é sempre parte do conteúdo da identidade. Os autores66
Por essas considerações, entendo que o vínculo com a realidade do local torna-se mais influente na formação da identidade do indivíduo do que a força das referências nacionais, embora não sejam excludentes, pois a ação é conjunta. Assim, a presença coincidente das referências do local, da região, do estado e do país fazem com que nos identifiquemos como brasileiros.
ainda sugerem que o lugar não só serve de referência para a formação da identidade da própria pessoa, como também para manter, simbolizar e estabelecer novas referências identitárias.
A Teoria da Identidade Social de Tajfel e Turner (1979, apud LOUREIRO e PRINCIPE, 2002) aborda a formação da identidade social do indivíduo como parte da própria imagem que este consegue e mantém por pertencer a determinados grupos sociais. Partindo deste ponto, Loureiro e Principe (2002) relacionam identidade social aos conceitos de local e nacional. Argumentam que “associados ao processo básico de categorização social, os níveis de identidade podem variar entre mais específicos (identidade local) ou mais inclusivos e abrangentes (identidade nacional) e cada nível de identidade pode mediar percepções e julgamentos de forma importante” (p. 2). A partir desse aspecto de vários “Brasis”, entendem que a identidade nacional é o elemento básico da formação da identidade dos indivíduos, enquanto a local remete à ideia de que o mesmo está ligado ao contexto e ao ambiente onde vive, podendo satisfazer suas necessidades biológicas, psicológicas e sociais. A identidade local aparece, assim, como uma complexidade articulada em torno da interação indivíduo- ambiente, mas não pode estar reduzida a uma mera ligação com determinado lugar, como pelo
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Os autores evitam o determinismo que facilmente poderia ser derivado de seu trabalho ao indicarem que há pessoas que ainda não desenvolveram uma identidade voltada a um lugar específico, identificando-se como viajantes ou nômades, cuja identidade local ainda estaria em formação. Neste caso, o lugar ainda é referência, na ideia de mudança em oposição à de permanência em um determinado lugar (TWIGGER-ROSS e UZZEL, 1996).
fato de nele ter nascido. Mais do que isso, refere-se a uma experiência vivida e que a ele fique impregnada.
Também comentando a pesquisa de Tajfel e Turner (1979, apud HORNSEY, 2008), Hornsey (2008) estes comentam que a interação humana pode manifestar-se tanto de forma interpessoal, embora sejam raras, como intergrupal. É mais pertinente o significado da interação que parte das diferenças e similaridades entre os grupos, e neste caso percebe-se o quanto são diferentes uns dos outros (como na identificação das diferenças entre cariocas e paulistas, por exemplo). Assim, na dimensão intergrupal, o autoconceito de determinado indivíduo reproduzirá a identidade social que sente pertencer, e para a qual manterá parcialidades.
O “tomar o partido” e defender o próprio grupo em detrimento de outro foi questão estudada por outros pesquisadores67
A identidade local, como expressão da identidade social dos indivíduos, tem sido comum, mesmo que de forma apenas retórica, da importância do local como estratégia de enfrentamento das influências globais que alcançam os territórios com sua tendência homogeneizante. A forma como suas manifestações, diante da temática do desenvolvimento, já foram discutidas, e, dessa maneira, darei destaque às discussões sobre a reafirmação da . Importante discussão desenrolada neste tema refere-se à situação daqueles que pertencem a determinados grupos com status inferior ao de outros. As ocorrências mais comuns foram o abandono do grupo (psicológico ou mesmo físico), comparações que ainda podem ser benéficas ao grupo, desvalorização das dimensões que reflitam fraquezas do grupo ou assumir/engajar uma mudança social para tentar alterar a atual hierarquia do grupo. Antecipando ocorrências que serão analisadas no próximo capítulo, o início da década de 1990 marca uma posição de clara inferioridade no status do local investigado em relação a um município próximo, que assumiu parte importante do fornecimento de suas necessidades comerciais; econômicas de forma geral. Nesse momento, foi nítida na entrevista concedida pelo ator identificado como líder na reestruturação econômica de São Roque de Minas sua identificação com seu local de origem. Uma identidade que agiu como base para que os primeiros passos, no sentido da retomada do desenvolvimento local, não cessassem, como veremos no decorrer da análise. Igualmente, a estratégia escolhida dependerá do grau de legitimidade e estabilidade que o grupo conferir a si.
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Hornsey (2008) apóia-se nos trabalhos Tajfel & Turner, 1979; Turner & Brown, 1978 e Hogg & Abrams, 1988.
identidade local como forma de superação de condições desfavoráveis. Um tipo de investigação ainda carente de evidências empíricas, como sinalizaram Roca e Mourão (2001).
É diante da contínua investida da ideologia neoliberal, que tanto espaço vem concedendo ao avanço da globalização em território nacional, que trato o tema. Entendo que essa conjugação expõe um paradoxo. Isso porque, agindo de forma contínua e multifacetada, seus efeitos provocam nos territórios e nas pessoas práticas que tendem a homogeneizá-los. No entanto, este movimento não conseguiu ser unânime. Permanecem as diferenças entre os lugares, talvez em respeito à sua natureza espacialmente diversificada que, por iniciativa de sua gente, mantém a singularidade própria de cada lugar, seus conhecimentos, sensos comuns, práticas discursivas, comportamentos e reações. Elementos que não deixam de figurar nas distintas frações ocupadas de território, mas que podem se tornar inoculadas em momentos de uma ação mais direta de capitais e corporações globais sobre o mesmo. Nesse sentido, é possível que a globalização possa mais exacerbar do que atenuar as diferenças entre regiões e lugares.
Em suma, o que percebo é que ambas as ocorrências se manifestam. Os discursos proferidos pela mídia de massa são homogêneos, sendo esta um veículo e agente decisivo na disseminação ideológica que expõe os acontecimentos sem incitar a interpretação. São discursos já interpretados, já embebidos pelos interesses dos grupos aos quais pertencem, chegando ao público como sinônimo da verdade dos fatos. Ao mesmo tempo, é possível vermos articulados esforços que recuperam e se baseiam na identidade dos territórios como estratégia de saída aos obstáculos da intensificação da concorrência mercadológica internacional.
Por isso, as iniciativas que, sobre a realidade globalizada, pretendem resgatar a força da utopia para contribuir onde ainda há muito por fazer, encontram dificuldades. Como já argumentado, ingressar na dinâmica industrial e comercial mundializadas coloca em questão a força da integração nacional. Esse fato é mais grave no caso dos países com acentuada heterogeneidade cultural e/ou econômica, onde tendem a serem triunfantes as crescentes pressões desarticuladoras, como as que se processam na fragmentação territorial, quando opõe uns aos outros. Frente a esse avanço desarticulador que figura nas relações estabelecidas em território nacional é importante preservarmos a identidade nacional para garantirmos a integridade nacional.
Isso porque vimos deflagrar no país um movimento circular contínuo, em que, ao mesmo tempo, impõe-se uma integração baseada em padrões e culturas exteriores e é
produzido um movimento que deixa grande parte da população em posição marginal às estruturas políticas, sociais e culturais dominantes. Como visto no Capítulo 2, a adoção de padrões de consumo e de vida extranacionais fica restrita a uma pequena parcela da elite nacional, cuja formação da identidade considera a forte expressão de outras culturas. Para visualizar de forma mais nítida essa dinâmica, ou ainda as possibilidades de rompimento da mesma, priorizo o espaço mais próximo ao indivíduo, onde a identidade nacional é reforçada