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IV. ARTICULAÇÕES NO LOCAL: DINÂMICA DE TRANSFORMAÇÃO SOCIAL

4.3. Poder local e a autodeterminação local

4.3.1. O ator social local

A primeira consideração a ser feita é que o ator social será definido relacionando-o, inicialmente, com a cena social na qual desenrola sua ação (AROCENA, 2004). A partir daí, sua conceituação tem como ideia central a de que são os sujeitos os que ativam, impulsionam e agem na criação de espaços de oportunidades e interferência no futuro (MATUS, 1996). E para sua concepção final, tendo em mente os interesses da tese, busco relacionar o ator social ao processo de autodeterminação como é assumido no campo das doutrinas filosóficas (BOBBIO, MATTEUCCI E PASQUINO, 2003). Neste esforço final, pretendi expor a necessidade de ajustes na conformação conceitual da ideia de autodeterminação quando voltado ao nível local.

Segundo Arocena (2004, p. 27), “uma forma de definir um ator é relacionando-o com a cena social no qual desenrola sua ação77”. Neste espaço ele inclui “indivíduos, grupos ou instituições cujo sistema de ação coincide com os limites da sociedade local78

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Tradução literal para: “Una forma de definir un actor es relacionándolo con la escena social en la que desarrolla su acción”.

”, não estando em jogo, nesse momento, a qualidade da ação que deles partem, mas apenas o ambiente de

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Tradução literal para: “indivíduos, grupos, o instituciones cuyo sistema de acción coincide con los limites de La sociedad local”.

manifestação das relações sociais. A este tipo de ator Arocena (2004) chama “ator local”, e são aqueles comprometidos com a melhoria da qualidade de vida de um determinado território. Sua ação é ampla, não distinguindo a qualidade da ação, mas a força e conquistas do ator em meio às relações sociais que empreende. Trata-se de uma conceituação simples, porém insuficiente para melhor explorarmos como o jogo de interações que entre os membros de uma localidade pode se relacionar com o seu desenvolvimento.

Já Cavestany (1988, apud Arocena, 2004) relaciona ator local a processos de desenvolvimento, entendendo-o tanto como motor quanto expressão do desenvolvimento local. Além do mais, dá-lhe categorização, como os que estão ligados à tomada de decisão, que chama de atores político-institucionais, os ligados a técnicas particulares, que classifica de experts-profissionais e os ligados a ações sobre o espaço, que são a população e todas suas expressões ativas. Para este autor, o desenvolvimento local supõe interação entre os atores.

Essa definição mostra-se mais próxima ao que possibilita amparo à pretendida análise da dinâmica de relações sociais. Ao aproximar a noção de ator local à de desenvolvimento, adiciona à cena social local as ações como fatos sociais primordiais ao desenvolvimento local, ressaltando que mais importante do que as ações em si, que se manifestam neste espaço, é o sentido que o ator imprime a partir delas. Assim, mesmo mantendo o foco da ação social no sentido do desenvolvimento, pode ser considerado ator local qualquer indivíduo, grupo ou instituição que atue em nível local. E para evitar perdas desnecessárias com preciosismos de definições, Arocena (2004) indica que bastaria distingui-los em “ator local” como aqueles que no campo político, econômico, social e cultural são portadores de propostas que tendem a melhor capitalizar as potencialidades locais, e “agente de desenvolvimento local” como aqueles que têm estas ações relacionadas a projetos de desenvolvimento. A conjunção de ator local com desenvolvimento imediatamente explora a noção de desenvolvimento considerada para seu emprego. Dessa forma, e considerando discussões anteriores, torna imprópria toda qualificação de ator local àqueles que contaminem rios, poluam o meio ambiente ou, no geral, desfigurem as potencialidades de sustentabilidade da vida econômica e social local. Igualmente não se enquadrariam nessa perspectiva os que agem, prioritariamente, por influências de uma lógica exógena, facilitadora de desarticulações e verticalizações. Por fim, a perspectiva de Arocena (2004) ainda considera o ator local com uma espécie de guardião dos interesses locais, posto que cabe a ele submeter as iniciativas de desenvolvimento ao interesse local, adaptando as tecnologias e as características dos sistemas locais de produção.

A despeito da direção possível pela combinação entre ator local e desenvolvimento, não pretendo restringir o principal indicador da categoria “dinâmica de relações sociais” – o ator social –, apenas ao sentido de desenvolvimento. Mesmo que esta seja não só a expectativa, mas ainda a suposição da ação depreendida no espaço local escolhida para a análise. Neste sentido, aproximo da proposta conceitual de Matus (1996) para o ator social, que entendo permitir uma visão mais geral das ações postas em prática por indivíduos, grupos e instituições, admitindo uma captação mais primorosa de seus atos, de certa forma tem-se em Matus (1996) uma visão pró-ativa do ator social, como aquele que age mais como jogador do que expectador na cena do jogo social do qual faz parte. O que torna suficiente para tratar os atores e suas influências no desenvolvimento local, este, sim, uma consequência, um produto das relações sociais a serem exploradas; para não inverter meios e fins desta tese.

O acesso ao conceito de ator social para a análise das relações sociais justifica-se pela ênfase ao indivíduo em contraposição ao coletivo, mas não no sentido de desqualificar o sujeito organizado coletivamente. Trata-se apenas de uma defesa metodológica, para evitar análises que consideram extratos ou porções de pessoas, como é típico na economia de tradição mais ortodoxa, ou no marketing que segmenta mercados. A consideração das pessoas em extratos os iguala, eliminando a percepção da ação individual e, assim, os despersonaliza. A perspectiva de ator social de Matus (1996) enfatiza o que diferencia um indivíduo do outro, e não o que os iguala, ou agrupa. Como cada indivíduo é único, uma análise que os compreenda em extratos sociais, consumidores, no campo da economia, ou empresários, no da contabilidade nacional, leva à perda de nitidez sobre a complexidade e força de suas ações individuais. Sua visão fica prejudicada por lentes que captam apenas o bloco. Em favor de evitar confundir indivíduo com sua expressão agregada, o autor faz seu alerta. Para ele,

A diferença entre o agente da teoria econômica e o ator da estratégia política deve ser claramente destacada, para evitar a confusão entre cálculo interativo e cálculo de projeções deterministas, porque se trata de modos antagônicos de exploração do futuro. O conceito de agente confunde indivíduo e massa, ou incorpora o indivíduo à massa, ao destacar o que ambos têm em comum; o conceito de ator destaca o líder do coletivo social ao privilegiar suas diferenças (idem, p. 206).

Por isso as tão comuns previsões de mercado, na economia, ou tendências de comportamento para definição de apelos à compra, no marketing, diferem-se do que define o autor. Pois sobre esse não é possível fazer presciências e, assim, antecipar-se às suas ações.

Assumindo que os acontecimentos relacionados à recuperação econômica e ao desenvolvimento de São Roque de Minas estiveram inseridos em um cenário em que

mudanças eram urgentes, e onde a ação individual foi tão importante quanto a coletiva, entendo como coerente o emprego da visão de Matus (1996) sobre o indivíduo, o ator social. O fato de a reorganização produtiva ter acontecido a partir de um intenso processo de relações sociais, guiado pela busca do poder necessário à ação concreta no domínio particular dos envolvidos, reforça a indicação de que é a “análise dos jogadores que viabiliza o cálculo das jogadas”. Somente o “estudo de atores [...] fornece as bases de informação para realizar esses cálculos” (MATUS, 1996, p. 203).

Para Matus (1996), o que marca, e ao mesmo tempo diferencia, o conceito de ator social de outros conceitos é sua caracterização individualizada em oposição àquelas que são tomadas como grupos humanos. Quando posto em comparação a conceitos que se referem ao indivíduo, diferencia-se por caracterizar, como sujeitos, aqueles que ativam, impulsionam e agem na criação de espaços de oportunidades e interferência no futuro. São jogadores, não espectadores. Não se limitam a comportamentos reativos e mecânicos, facilitando a predição de suas ações futuras, sendo, assim, motores das mudanças, “que declaram as insatisfações, que processam ou ignoram as teorias para entender a realidade em que vivem; [...] criam visões diferenciadas, como se usassem óculos que os fazem ver a realidade com lentes de diferentes cores e graus; se rebelam contra o evitável e geram conflito” (idem, p. 203).

O ator social é a cúpula ou direção de uma organização, embora não possa ser confundido com esta, ou seja, com o centro de poder que controla. Procurando delimitar com mais precisão o conceito, Matus (1996) identifica seis requisitos que qualificam o ator social. Nesse sentido, o ator social é aquele cuja

ação é criativa, não segue leis, é singular e único como ente com sentidos, cognição, memória, motivações e força; é produtor e produto do sistema social; tem um projeto que orienta sua ação, mesmo que seja incoerente, errático ou parcial; controla parte relevante de recursos críticos do jogo [VCR], tem força e capacidade para acumular ou desacumular força e, portanto, tem capacidade para produzir os fatos do jogo social; participa de algum jogo parcial ou do grande jogo social, não é uma analista ou um simples observador; tem organização estável, que lhe permite atuar com peso de um coletivo razoavelmente coerente; ou, tratando-se da exceção aplicável a uma personalidade, tem presença forte e estável no sistema, que lhe permite atrair, com suas ideais, uma coletividade social; pode ser um ator-pessoa ou um ator-grupo, no caso de que se trate de um líder ou da direção de uma organização. É um jogador real que acumula perícia e emite julgamentos, não uma ficção analítica. É um produtor de atos de fala e de jogadas (MATUS, 1996, p. 204)79

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Grifos do autor.

Vale indicar que o rigor da definição deste conceito contribui para que se haja uma vantagem analítica que permita diferenciar necessidade de demanda política. A primeira refere-se àquilo que é inerente à qualidade humana, enquanto a segunda afeiçoa-se por ser uma força organizada, com determinação e poder para converter sentimentos em ação com potencial para se desenrolar. Desse modo, a fome é uma necessidade, mas somente quando associada à renda que se viabiliza como demanda, ou a necessidade política das pessoas em participar das decisões só se concretiza pelo amparo de uma organização que tenha algum poder para sustentar tal realização (MATUS, 1996).

Reforçada fica a consideração dos atores em uma determinada cena social territorialmente localizada, afastada qualquer concepção que assume sistemas sociais como aquele constituído apenas por “agentes reduzidos a comportamentos reativos e mecânicos, sujeitos as leis que tornam seu jogo predizível”, o que para Matus (1996, p. 203) é uma ficção teórica. Por isso, acessá-los é tão importante para se captar a essência das ocorrências particulares nas mudanças locais, pois

São eles os motores da mudança, aqueles que declaram as insatisfações, que processam ou ignoram as teorias para entender a realidade em que vivem; acumulam vontade, valores, preconceitos, ideologias, poder de mudança e incapacidades; criam visões diferenciadas, como se usassem óculos que os fazem ver a realidade com lentes de diferentes cores e graus; rebelam-se contra o evitável e geram conflito; lutam pelo poder e governam no âmbito particular de seus domínios (ibidem).

Resta reforçar que o ator social se refere às pessoas e suas ações, ou ainda a grupos, mas desde que pequenos, dirijam ou não organizações, dado que o jogo social é de poucos, não de multidões. Como diz Matus (1996, p. 206), “Não se trata de muitos que produzem uma decisão coletiva na qual cada indivíduo pesa muito pouco. Ao contrário, trata-se de poucos

que pesam muito na tomada de decisões, representando organizações sociais80

As análises das realidades sociais modificadas a partir de dinâmicas sociais desenroladas em um espaço-território específico, local, exigem uma aproximação individualizada aos indivíduos do jogo social. Nesta tese, a estratégia utilizada foi a coleta de testemunhos dos principais atores envolvidos com as modificações que passam a proceder no início da década de 1990, na cidade de São Roque de Minas. Essa afirmação é nesse momento resgatada para aproximar a proposta de categorização assistida proposta por Voldman (2006).

”.

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Nela, há destaque para diferentes tratamentos e considerações dependendo do tipo de ação, envolvimento e importância de cada um dos autores dos testemunhos. Nesse sentido, o autor sugere duas perspectivas gerais para classificar as testemunhas, as grandes e as pequenas.

No caso destas últimas, Voldman (2006) identifica-as como aquelas que agem mais como meros expectadores, como sujeitos aos acontecimentos e ao peso da história. Uma definição exatamente oposta ao que pressupõe as grandes testemunhas, reconhecidas como as que são conscientes de seu papel e importância para a mudança de curso da vida social. Como referências à identificação dos atores nas duas categorias, o autor considera a ação e a responsabilidade de cada um deles. Assim, seria pertencente ao status de grande testemunha aquele ator que teria construído sua identidade a partir de uma ação voluntária e consciente. Também tratado como testemunha-sujeito, são nítidas as coincidências, para o alinhamento deste conceito com o de ator social de Matus (1996), ajudando a dar coesão suficiente à análise das ações que dinamizaram a rearticulação produtiva do local em estudo.

É na observação das relações sociais que é possível perceber a ação do ator social desprender-se em desenvolvimento; explorar suas motivações, interesses e insistências com projetos que se confundem com sua própria vida. Como supõe o título deste trabalho, é a partir da análise focada no ator que pretendo identificar o quanto sua motivação (e/ou de seu grupo) foi autodeterminada, embora não seja objetivo deste relacionar elementos psicológicos ou desvendar indutores motivacionais próprios de uma análise do campo da psicologia. Isso, apesar do uso do termo autodeterminação ter diversas possibilidades de aplicação, abrangendo desde questões mais amplas, como as do Direito Internacional Público (nas abordagens sobre relações internacionais, como, por exemplo, no trabalho de Goffredo, 2006), quanto as mais específicas, como na identificação de motivação para permanência em atividades físicas, como no estudo de Murcia e Coll (2006).

Para chegar à conformação do conceito de autodeterminação local, adotei as referências tanto de sua concepção macro quanto micro. Entendo como macro as questões próprias da dimensão internacional, voltadas à soberania nacional e à independência para se reger os rumos de uma nação. A ideia da concepção micro está mais distante dos meus interesses, pois situa-se no campo da psicologia, especialmente na compreensão dos componentes motivacionais da ação humana. Entre esses dois âmbitos, outros conceitos são resgatados na intenção de reforçar o amparo necessário para a conformação conceitual que é central na suposição assumida para este tese. Essas referências foram organizadas como

pontos de partida à construção do que suponho ser expressão da autodeterminação no contexto analítico do desenvolvimento de São Roque de Minas.