3 ENTRE CURRÍCULOS E IDENTIDADES PROFISSIONAIS
3.5 NOÇÕES DE IDENTIDADE
3.5.2 Identidade profissional e Identidade profissional docente
Em diálogo constante com a identidade pessoal de cada indivíduo, está a sua identidade profissional. Entre os aspectos mais significativos para a construção da identidade profissional, está a saída do indivíduo de um sistema escolar e, por decorrência, o enfrentamento do mercado de trabalho. Segundo Schaffel (2008, p. 108) “é da estratégia desenvolvida nessa fase que depende, simultaneamente, a identificação pelos outros de suas competências e a construção para si de seu projeto, de suas aspirações, de sua identidade”.
Conforme Dubar (2005), a saída do contexto escolar para o contexto do mercado de trabalho pode tanto ser marcada por continuidades e integrações, como por rupturas, que trazem questionamentos sobre as identidades anteriormente adquiridas. Essa mudança de um contexto ao outro pode assumir formas e significados diversos, a partir de variantes diversas, como a origem social, a escolaridade, o contexto social, político e econômico, etc., onde o indivíduo esteja inserido.
Ainda segundo o autor, a inserção na vida profissional não pode ser reduzida apenas pelo ato de escolher uma profissão, “mas de construção pessoal de uma estratégia identitária que mobilize a imagem de si, a avaliação de suas capacidades e a realização de seus desejos” (DUBAR, 2005, p. 150). Essa identidade profissional agora adquirida, lembra-nos o autor, não é definitiva, ao contrário disso, ela será “marcada pela incerteza” (DUBAR, 2005, p. 150) em um contínuo processo de busca por uma estabilização social.
Em acordo com isso, Papi (2005, p. 51) afirma que a identidade profissional “é uma construção que perpassa a vida profissional, desde a etapa de escolha da profissão, passando pela formação inicial e pelos diversos espaços onde a profissão se desenvolve”. A construção da identidade profissional, afirma a autora, abrange os saberes profissionais e as atribuições de ordem ética e deontológica.
Pimenta (2008, p. 19) anuncia que a identidade profissional se constrói a partir da “significação social da profissão; da revisão constante dos significados sociais da profissão; da revisão das tradições e da reafirmação de práticas consagradas culturalmente e que permanecem significativas”. Desse modo, uma identidade profissional é o resultado do confronto teórico e prático, dos significados que cada indivíduo dá à sua atividade profissional, assim como das relações estabelecidas com outros grupos profissionais e/ou sociais.
As concepções de Pimenta (2008) estão em acordo com as ideias de Moita (2007, p. 116) acerca dessa temática, ao afirmar que “o processo de construção de uma identidade profissional própria não é estranho à função social da profissão, ao estatuto da profissão e do profissional, à cultura do grupo de pertença profissional e ao contexto sociopolítico em que se desenrola”. Para a autora, portanto, a identidade profissional se efetiva a partir dos enquadramentos tanto interno como externos da profissão.
Schaffel (2008, p. 113) concebe a identidade profissional como uma “instância que perpassa todo o campo simbólico da profissão e do profissional” e aponta a importância da formação inicial para a construção e/ou reconstrução dessa identidade. Acrescentamos, aqui, as compreensões de Sainsaulieu (1985), ao afirmar que o que ocorre no local de trabalho acaba interferindo nas demais formas de relação do indivíduo, ou seja, a identidade laboral é constituída sobre representações – individuais e/ou coletivas – acerca daquela profissão. Nesse sentido, a identidade profissional é um investimento em relações permeadas pelo reconhecimento recíproco entre os sujeitos.
Como, neste estudo, interessa-nos compreender a identidade profissional docente dos estudantes/futuros professores de Artes Visuais, apresentamos autores que tratam dessa temática. O estudo acerca da identidade profissional docente também se constitui historicamente e, tal como na identidade pessoal e na identidade profissional, também não se trata de uma construção fixa, ao contrário, ela é adquirida na diferença, em uma complexa rede de relações. Ela emerge, portanto, de um contexto histórico, cultural, político, social, etc., como resposta das necessidades e urgências do indivíduo em particular e das demandas da própria sociedade.
Sobre isso, Marcelo (2009) aponta o quanto as mudanças ocorridas nos contextos sociais afetam e exigem, da escola e de seus profissionais, novas competências e atitudes; por consequência, afetam e exigem novas identidades docentes. O autor afirma que são necessárias “boas políticas para que a formação inicial dos professores lhes assegure as competências que vão precisar durante sua longa, flexível e variada trajetória profissional” (MARCELO, 2009, p. 111). A identidade profissional docente é compreendida pelo autor como “a construção do si mesmo profissional” (MARCELO, 2009, p. 112). Tal construção influencia e é influenciada, ao longo da carreira profissional, pela escola, pelas reformas educacionais, pelos contextos políticos, etc.
Sobre esse ponto de vista, a identidade profissional docente para Marcelo (2009, p. 112) não é algo que o indivíduo possui, e, sim, algo que ele desenvolve tanto no âmbito individual como coletivo, portanto, “a identidade não é um atributo fixo para uma pessoa e sim um fenômeno relacional”. Em outras palavras, o docente estará sempre interpretando e reinterpretando experiências diversas, envolvendo-se em contextos também diversos e, dessa forma, sua identidade profissional docente estará em constante mudança, tanto pessoal, como social e cognitiva.
Brito (2009, p. 100) alerta que a construção da identidade profissional e, por consequência, a identidade profissional docente, está sempre em relação com a estrutura política, social, econômica e histórica onde se insere o indivíduo; ela se constitui como uma busca individual, porém “condicionada à estrutura social e histórica e cada contexto”. Em seu estudo, além de demarcar as várias identidades docentes que foram almejadas ou produzidas historicamente, a autora destaca como as atuais políticas educacionais têm proposto formas de financiamento, de gestão e de formação de professores que se encaixem em uma ideologia profissional, “fundamentada na lógica empresarial de eficiência e produtividade” (BRITO, 2009, p. 100).
Em contrapartida, a autora defende que a identidade profissional docente seja pensada “tanto como processo de construção da prática docente qualificada como também como processo de afirmação da profissionalidade do professor” (BRITO, 2009, p. 91), ou seja, que a formação docente seja baseada na compreensão da totalidade e da complexidade das relações sociais e das atividades educacionais, uma vez que a identidade profissional docente estará sempre desafiada pelas interações e situações reais, pelo desenvolvimento profissional ético e reflexivo.
Nóvoa (1999; 2007) adverte que a identidade profissional docente (ser e sentir-se professor) não é um dado, também não é uma propriedade e, menos ainda, um produto acabado. É um lugar de lutas e de conflitos, um espaço de construção/desconstrução e reconstrução de maneiras de ser e estar na profissão.
A identidade profissional docente é, desse modo, uma construção que tem as marcas das experiências feitas, das opções tomadas, das práticas desenvolvidas, das continuidades e descontinuidades, quer ao nível das representações, quer ao nível do trabalho concreto. Dessa forma, o processo de construção da identidade docente não está desvinculado da identidade pessoal, da função social da profissão, da cultura do grupo de pertença dessa profissão e do profissional e, também, do contexto sócio-político onde se desenrola.