4 ANÁLISE E DISCUSSÃO
4.3 Maria Flor
4.3.2 Identidade racial transeunte
Maria também desafia estereótipos associados à negritude – tem 27 anos e está em seu segundo ano de doutorado, constantemente considerada uma das melhores alunas do programa de pós-graduação da universidade em que está matriculada.
Em termos de autoestima e autoconfiança, Maria demonstra percepção sobre sua trajetória de vida, e entendimento das dificuldades vividas pela sua família. No entanto, não relata problemas que ela teria identificado como decorrentes de sua classe racial – ela comenta que em termos de inglês, se sente segura sobre sua proficiência, especialmente depois de tantos anos de estudos científicos na área da linguística aplicada pela perspectiva pós-estruturalista. Sua única insegurança, segundo ela – compartilhada em conversa informal – vem do fato de ser nordestina. Maria relata ouvir comentários de pessoas de outras universidades – em especial do Sul e do Sudeste – “questionando a qualidade das universidades nordestinas”. Assim, neste ponto, Maria se torna uma representante da região quando fora dela, o que gera receios sobre impressões em meios acadêmicos.
O que mais se destaca na trajetória de Maria é perceber como o deslocamento do norte pro sul reverbera na identidade racial da participante.
Embora tenha vivido os primeiros anos de sua vida em uma das regiões mais negras do país44, Maria não ouvia as pessoas negras de sua família abraçando sua identidade racial. Assim, com o deslocamento, houve, também, uma mudança de vivências, o que causou estranhamento inicial, embora ela tenha facilmente conseguido entender o que aquilo representava.
De acordo com Gomes (1995) e Ferreira (2007), ao se pensar identidade racial no contexto brasileiro, percebe-se que a porção da construção de uma identidade negra, que poderia ser associada à ancestralidade por meio de traços físicos ditos negróides, perde a força em virtude da importância da cor da pele. Assim, por ter pele clara, embora tenha os atributos físicos de uma pessoa negra, Maria perde a construção de sua identidade negra durante a sua
44 https://g1.globo.com/economia/noticia/populacao-que-se-declara-preta-mantem-tendencia-de-crescimento-no-pais-aponta-ibge.ghtml
infância. O surgimento da palavra “pardo” para se auto-definir nasce de uma identidade racial confusa, tendo em vista que é um termo para o local que reside no meio do espectro branco-preto; o afrodescendente que não goza do privilégio branco nem sofre diretamente a opressão violenta que recai sobre a negritude retinta – a participante, inclusive, demonstra consciência do seu lugar ao afirmar que, independentemente do que a digam, ela sabe que não é branca, porém possui alguns privilégios que outras pessoas mais escuras não têm.
Burton et al. (2010) descrevem o que acontece com sujeitos como Maria (e, possivelmente, com grande parte da população que se auto-declara parda45) através do termo “colorismo”. Tendo como base os estudos de Burke (2008) e Hall (2005), os autores apontam que há uma distribuição de privilégio versus desvantagem que acontece devido à cor da pele do indivíduo. Os de pele mais clara teriam mais “vantagens sociais”, enquanto os negros retintos sofreriam violência de modo mais direto. Aspectos como textura do cabelo, cor dos olhos e características físicas associadas à negritude também podem funcionar como indicadores de mais ou menos violência. Entretanto, no Brasil, como pode também ser visto no relato de Maria, a leitura racial acaba tendo como base principalmente a cor de pele.
O que podemos interpretar sobre a trajetória de leitura racial de Maria, no entanto, com base nas discussões anteriores sobre raça, é que embora
“pardo” seja a palavra que a jovem usou para representar o seu lugar no intervalo do binário, seu uso acabou por, também, perpetuar o limbo social composto de pessoas que não se identificam com qualquer um dos dois extremos. A essas pessoas é minada a consciência de como aspectos de sua história e trajetória podem ser diretamente influenciados por racismo – Maria pode perceber, desde cedo, a falta de representatividade no material didático, os estereótipos associados a mulheres negras e pessoas ditas pobres, a ideia de beleza eurocêntrica que a excluía; no entanto, ao não se ler como negra, embora sentisse as marcas do racismo, não poderia tomar para si a luta deste grupo racial; afinal, de acordo com sua mãe e outros indivíduos “negros de
45 https://g1.globo.com/economia/noticia/populacao-que-se-declara-preta-cresce-149-no-brasil-em-4-anos-aponta-ibge.ghtml
verdade”, com a percepção nordestina de raça, a estudante não era negra.
Através da não-consciência ou não-domínio de sua própria opressão, unidos às artimanhas do racismo institucional, é mantido o mito da democracia racial e, com ela, diversos obstáculos para desmantelamento do racismo. Por e para este grupo, os pardos, é moldada uma comunidade imaginada específica, e também uma comunidade de prática, marcada pela sensação mútua de não-pertencimento.
Quando Maria muda de região e chega ao Sul, sua leitura racial muda.
Enquanto anteriormente, entre seus familiares negros, Maria era afastada deste rótulo, ao chegar ao estado sulista (e mesmo antes, no início de seus estudos de pós-graduação, ainda no nordeste), a identidade negra passou a ser “dada” a ela, sem que fosse necessário seu posicionamento pessoal.
Assim, Maria afirma ter se percebido negra somente depois do mestrado, quando o assunto era trazido à tona, e o rótulo estabelecido por terceiros. Duas coisas podem ser interpretadas a partir disto. Primeiramente, a carga negativa associada à própria negritude que, juntamente ao mito da democracia racial e ao colorismo, faz com que pessoas negras busquem um afastamento da identidade negra. As experiências de Maria apontam que, no Nordeste, para ser negro, é preciso o tom de pele escuro – associado, ainda, a locais específicos, como o continente africano e o estado da Bahia – e qualquer outra coisa que marque um indivíduo racializado pode ser relevado frente a possíveis semelhanças com a branquitude. Em contrapartida, o modus operandi da região Sul – conhecida por sua população que, quando comparada ao Norte e Nordeste, é majoritariamente branca – é diferente. Para a população constituída de pessoas brancas, as que, por motivos estruturais, não costumam sofrer diretamente os efeitos destrutivos do racismo, a leitura racial de pessoas negras não causa dúvidas. Ser negro no Nordeste é diferente de ser negro no Sul do país. Assim sendo, é possível concluir que o próprio conceito de negritude e de identidade racial negra constituem-se a partir de ancestralidade, fenótipos, cor de pele, e, tão relevante quanto, contexto geográfico no qual o sujeito esteja inserido.
Tratar questões de raça em sala de aula, desta forma, envolve também o entendimento e a reflexão contínua sobre o que é ser negro, como essa
identidade é construída em diferentes contextos e pode ser “dada” ou imposta a cada pessoa, e as demais identidades que estão associadas à negritude (como questões de classe social).