SER MULHER: REVISANDO CONCEPÇÕES, DIALOGANDO TEORICAMENTE.
1.1. IDENTIDADE: UMA QUESTÃO INSTITUÍDA E INSTITUINTE.
A tentativa de evidenciar algumas questões sócio-culturais que historicamente vêm contribuindo para a construção da identidade de gênero, possibilita a compreensão de que este processo incorpora experiências passadas tanto individualmente quanto socialmente.
São bastante evidentes na sociedade ocidental as dificuldades enfrentadas pelas mulheres para viver a condição de ser humano, pois, como afirma Beauvoir (1975), as mulheres são herdeiras de um pesado passado, o que não as impede de forjar um futuro, ainda que isto demande intensos esforços.
Entre o tempo em que Simone de Beauvoir descreveu profundamente o desenvolvimento da existência feminina – 1946/48 – na cultura ocidental, e o momento atual, há um espaço de mais de meio século e parece que ainda há muito por fazer, haja vista o que apontam os relatos, os trabalhos acadêmicos e outros meios de comunicação que circulam no cotidiano denunciando práticas abusivas contra mulheres.
É possível dizer com Bordo (2000) e Saffioti (2000) dentre outros/as que as idéias de Beauvoir causaram amplo e profundo impacto no pensamento ocidentalizado do século XX,
8 A primeira, fundamentada na biologia, sugere que as pessoas são dotadas de características inatas que
permanecem inalteradas ao longo da vida. A perspectiva anti-essencialista admite as diferenças e considera a identidade um processo mutável e instável, marcado pelas condições sociais e materiais
representando o berço do feminismo contemporâneo. Sua obra, O Segundo Sexo tornou-se um clássico da literatura feminista.
No ano em que a obra completava cinqüenta anos, o Núcleo de Estudos Interdisciplinares Sobre a Mulher – NEIM, da Universidade Federal da Bahia, publicou em sua homenagem o livro Um diálogo com Simone de Beauvoir e outras falas, organizado por três autoras baianas Alda Britto da Motta, Cecília Sardenberg e Márcia Gomes (2000).
De acordo com as autoras, ainda hoje as questões abordadas por Beauvoir são polêmicas, constituindo-se em alvo de críticas e fonte de inspiração e reflexão para estudos que contestam a formação da identidade de gênero. Grande parte das considerações e análises de Beauvoir se mantêm bastante atuais, a exemplo da desconstrução do mito da maternidade como destino feminino, problematizado nessa pesquisa.
Bordo (2000) chama atenção para o desprezo e o lugar periférico ocupado pelos estudos feministas, independente do alcance de suas preocupações e de sua aplicação a inúmeros discursos críticos sobre raça, colonialismo, heterossexismo etc. como se identifica na obra de Beauvoir. Apesar do valor teórico e filosófico, O Segundo Sexo permanece sem reconhecimento na cultura mais geral, uma vez que, de acordo com a visão eurocêntrica, “[...] somente os homens fazem filosofia; as mulheres servem mais para escrever, quando muito, sobre os fatos de nossa própria condição” (BORDO, 2000, p. 12).
A luta contra a opressão das mulheres é uma luta contra o sexismo e o patriarcalismo desencadeada pelo feminismo e pode ser percebida em muitos e diversos momentos históricos, com reivindicações de várias ordens que resultaram em conquistas irreversíveis para as mesmas, como por exemplo o direito ao voto e ao estudo. Contudo, não se pode ainda concluir que as tradições hierárquicas estabelecidas entre o masculino e o feminino tenham sido dissipadas, tendo em vista que no mundo contemporâneo as mulheres continuam sendo desvalorizadas, assim como na sociedade os direitos só são iguais nos termos legais, o que se constitui como verdadeiro empecilho para que as mulheres vivam como cidadãs, no seu conceito máximo.
Partindo do pressuposto que a problemática levantada nessa pesquisa se funda no tempo passado mas se atualiza no presente, faz-se necessário a insistência de estudos que visem a desconstrução das distinções relacionadas à condição biológica da mulher. Para Scott (1989, p. 14) “[...] temos que nos perguntar mais freqüentemente como as coisas aconteceram para descobrir porque elas aconteceram”. Nesta perspectiva, é preciso buscar explicações que remontem ao processo histórico e sociocultural no qual essas desigualdades têm suas origens fincadas. Ao utilizar a palavra origens, comunga-se com Scott (1989) a idéia de que não é
satisfatório perseguir uma única origem para explicar os problemas da vida humana uma vez que os processos que a constitui são complexos e estão tão ligados entre si que é impossível separá-los.
Por entender que a formação da identidade do indivíduo é um dos elementos constituintes da vida humana, coloca-se essa questão como uma das mais importantes e difíceis de ser discutida e que desperta na atualidade o interesse de filósofos, sociólogos, antropólogos e outros cientistas sociais, como admite Ciampa (1997) dentre outros/as.
O que se prenuncia como complexidade para essa discussão é a dificuldade do próprio conceito pelas diferentes perspectivas que ele pode tomar, sob o ponto de vista teórico ou pela reduzida concepção do senso comum.
Neste sentido, quando se interpela uma pessoa sobre sua identidade, comumente a resposta imediata comporta dados contidos num documento civil, com alguns acréscimos de qualidade imaginando-se assim a descrição de uma totalidade acabada, com autoria própria.
Uma outra forma simplista de se averiguar o que é identidade, é recorrer ao dicionário onde é possível se constatar que identidade vem do latim escolástico identitate e significa qualidade de idêntico (FERREIRA, 1986, p. 913).
Se se continuar num percurso interrogativo pelas disciplinas acadêmicas, encontrar-se- á no interior das matrizes teóricas, diferentes conceitos filosóficos criados num determinado tempo e espaço donde se deduz que não é tão simples discutir sobre identidade pois seu conceito é “[...] demasiadamente complexo, muito pouco desenvolvido e muito pouco compreendido na ciência social”, conforme afirma Hall (2003, p. 8).
Do ponto de vista filosófico, a concepção sobre identidade está relacionada à própria definição que se tem do ser humano. Não é necessário proceder a uma revisão histórica densa, para considerar que o conceito sobre o ser humano e as coisas mudam, se transformam, exigem renovação. Certamente, quando um conceito passa a ser dominante numa determinada época, ele está relacionado com os problemas do momento histórico e sobretudo com os
devires (DELEUZE; GILLES, 1992).
Parece que sempre existiu uma predisposição geral em se questionar o que é o ser humano. As respostas podem ser as mais diversas possíveis, porém, as visões filosóficas acabam se transformando em paradigmas que podem durar séculos, entrar em crise e serem até teoricamente substituídos por outros.
Duas concepções básicas para se compreender a questão do ser humano, são colocadas por Passos (1999, p. 95):
Houve e há quem a interprete sob a ótica idealista, identificando o ser humano como um ente abstrato e contemplativo, dotado de natureza absoluta e imutável. Do mesmo modo há quem a veja sob a ótica materialista e dialética, negando a visão essencialista, a existência de uma natureza absoluta e afirmando que o ser humano constitui-se na história e se modifica com o tempo e a cultura.
Aproximando esses dois enfoques constata-se a configuração de dois tipos de sujeitos que convivem no mundo contemporâneo, apesar de ter quem afirme a morte do primeiro. Depreende-se dessa reflexão que a concepção que se tem sobre os homens e as mulheres estão assentadas em duas definições: essencialista e anti-essencislista.
As idéias essencialistas que remontam ao Iluminismo construíram identidades masculinas e femininas, entretanto, as marcas deixadas nas relações sociais de gênero, tendenciosamente, persistem em identificar as mulheres pela sua natureza. Os discursos feministas críticos contrapõem-se às idéias de sujeito e verdade imutáveis e universalizantes e afinam-se mais com as idéias provisórias, variáveis e complexas da pós-modernidade. (FLAX, 1991; HALL, 2003).
Admitindo-se a complexidade para a discussão sobre identidade, admite-se também a utilização de elementos de diferentes teorias que se apliquem a esse estudo, especificamente às mulheres (HARDING, 1993) desde que os mesmos contribuam para reflexões interessantes que persigam a solução de problemas pertinentes às desigualdades sociais entre os sexos.
1.2. CONSTRUINDO CONCEITOS, DISCUTINDO IDENTIDADE, ALTERIDADE E