emancipatórios
na reforma agrária
S a r a D e o l i n Da C a r D o S o p i M e n taR e s u m o
o artigo trata de estudo de caso realizado em assentamento de re- forma agrária do Vale Jequitinhonha, minas Gerais, resultante da luta organizada de posseiros. a trajetória de luta e trabalho construída coletivamente e a criação do projeto de assentamento possibilitaram mudanças expressivas nas relações sociais e familiares, com a amplia- ção do campo de sociabilidades, construção de novas identidades e significativas mudanças nas relações de gênero. o processo psicossocial de construção de identidades coletivas é investido de potencial eman- cipatório, o que favorece a transformação do quadro de discriminação e desigualdade, com possibilidades reais de crescimento e autonomia das mulheres assentadas.
Palavras-chave: reforma agrária, assentamento, identidade coletiva, gênero.
I n t ro d u ç ão
• Os assentamentos de reforma agrária têm comprovada importância para a democratização do acesso a terra, permanência e vida digna no campo de diversos segmentos de trabalhadores, para o desenvolvimento econômico e social e, em especial, por constituírem um território privilegiado para a construção de
novas identidades e relações sociais (Rua; Abramovay, 2000; Medeiros; Leite, 1998). Considerar os assentamentos um território significa reconhecer a multiplicidade de aspectos que se constroem no espaço e tempo e compõem uma re- alidade particular, fonte de identidade pessoal e grupal. O território se constitui por…
laços informais e modalidades não mercantis de interação… e integram sentimentos de
pertença, raiz e trajetórias comuns, memória coletiva, valores e crenças partilha- dos, e um universo simbólico que lhes é próprio (Abramovay; Filho, 2003:3). A criação dos assentamentos, sobretudo se resultante de um processo de orga- nização e luta pela terra, favorece mudanças significativas na vida dos assentados e no contexto em que se inserem. Implica em mudanças expressivas na dinâmica relacional dentro e fora dos assentamentos, no rearranjo espacial das famílias, em novas formas organizativas, de solidariedade, na formação de grupos diferen- ciados e conflitos internos. Novas sociabilidades são construídas, inclusive em assentamentos nos quais as famílias assentadas já viviam na área, antes mesmo do processo de desapropriação (Leite et al., 2004:259). Não por outro motivo, os assentamentos de reforma agrária estimulam novos estudos e pesquisas, como no campo da psicologia social, fazendo dialogar diferentes aspectos da vida social e dimensões da subjetividade. Dessa perspectiva, as formas que adquirem o com- portamento social expressam as condições concretas de existência em espaços e tempos determinados e a interação permanente e dinâmica das dimensões es- truturais e subjetivas. Os modos de sentir, pensar e agir dos sujeitos, atores sociais, não somente resultam do contexto sócio-econômico, político e cultural em que se inserem, como o transforma, num movimento de reciprocidade (Lane, 1997; Campos; Guareschi, 2000). Os fenômenos sociais, situados e datados, são protagonizados por sujeitos que agem, interagem, protagonizam mudanças, cons- troem identidades, e se fazem reconhecer enquanto atores sociais em um campo permeado por tensões e conflitos, a indicar o processo contínuo de mudanças sociais (Jurbert; Montero, 2000).
O projeto de assentamento em foco resulta de um conflito pela posse da terra em área ocupada por sucessivas gerações de agregados/posseiros.1 Essa situação fez supor relações sociais consolidadas em redes de sociabilidades construídas através dos anos. Trata-se de trajetórias de resistência na terra, de luta organizada de posseiros, reconhecida em documentos oficiais, e presente, porque compar- tilhada, revivida e re-significada pelos assentados e assentadas. Localizado nos municípios de Pedra Azul e Cachoeira do Pajeú, Vale do Jequitinhonha, região
o termo agregados refere-se aos trabalhadores/camponeses que residiam nas fazendas sob o consentimento do fazendeiro, sem necessariamente estarem subordinados a relações de tra- balho ou emprego. o uso da terra era compartilhado com o fazendeiro, porém os agregados não possuíam o domínio da terra. posseiros refere-se aos trabalhadores, antigos moradores de fazendas, que no uso da terra construíram roças e benfeitorias, adquirindo direitos sobre a terra.
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nordeste de Minas Gerais, o Projeto de Reforma Agrária Aliança – PA, foi cria- do em 1987 e, por meio da Resolução no. 52 de 02 de junho de 2000, declarado
“consolidado e emancipado” pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma
Agrária (Incra). Atualmente conta com 110 famílias em 85 lotes, local de moradia e trabalho dos assentados e assentadas.
Com essas características a situação apresentou-se propícia ao estudo das trajetórias construídas na luta pela terra e na constituição do assentamento com foco no processo de construção de identidades coletivas. Esse processo foi considerado em seus aspectos psicossociais relacionados, sobretudo, às possí- veis mudanças na dinâmica das relações de gênero no âmbito da unidade de produção familiar e no cotidiano do assentamento. Em outras palavras, buscou- se compreender os significados das ações coletivas, sociabilidades e mudanças operadas por homens e mulheres, assentados do PA Aliança, em seu potencial emancipatório e integrantes de uma dinâmica identitária a partir de um con- junto de questões assim sintetizadas:
Que mediações sociais, históricas, culturais e políticas se fazem presentes na tra- jetória de luta pela terra e constituição do assentamento?
Que mudanças são identificadas no campo de sociabilidades dos assentados e assentadas e em que medida favorecem a construção de novas identidades? Que significados essas mudanças adquirem na interação social, especialmente
em sua dimensão de gênero?
Que potenciais e limites são identificados no processo de construção de identi- dades coletivas na perspectiva de um processo emancipatório?
Assim, sociabilidades, gênero e identidades coletivas se apresentaram como categorias principais, articuladoras de outras que emergiram no tratamento ana- lítico dos dados construídos no curso da pesquisa. Um processo construído com a participação ativa dos assentados e assentadas no qual foram adotados proce- dimentos da pesquisa qualitativa, mais propriamente a observação participante, com registros etnográficos no caderno de campo e entrevistas abertas, semi-estru- turadas. Todos os investimentos se voltaram para estimular e possibilitar a livre expressão dos assentados e assentadas,… para criar as condições de aparecimento
de um discurso extraordinário. Que poderia nunca ter tido e que, todavia, já estava lá, esperando suas condições de atualização (Bourdieu, 2003:704).
O trabalho de memória individual e coletiva por meio do qual se alternam lembranças, esquecimentos e silêncios, possibilitou o resgate dessa trajetória em que agregados se fizeram posseiros, que por sua vez se fizeram assentados da reforma agrária. Na interação entre escuta e narrativa foram evocados e reafirma- dos os sentimentos e vínculos de pertencimento, a coesão e as fronteiras sociais. O trabalho de memória se concretiza na narrativa, que não consiste em transmitir •
• • •
o acontecimento “em si,” mas o acontecido transformado através de uma evocação reflexiva e localizada, passando por uma inteligência do presente (Bosi, 1979).
A origem, o contexto e processo de criação do projeto de assentamento foram significados nas narrativas dos assentados e assentadas de modo a reproduzir os fatos sociais, preservando-os no tempo e dotando-os de estabilidade. Nesse sentido, a memória constitui-se num trabalho de construção e reconstrução, em campo e objeto de luta, integrando redes sociais e cognitivas pela qual é possível acessar o… sentido de certos acontecimentos, uma verdade intersubjetiva e não refe-
rencial. (Mendes, 2002:515).
Falar de trajetórias implica em um movimento de reciprocidade a unir pas- sado e presente, mas, sobretudo, no tratamento das práticas sociais por meio dos significados construídos sobre essas práticas, o que remete a um campo de contradições e ambigüidades e ao reconhecimento dos limites e incompletude das interpretações.
A inserção em campo e a metodologia de pesquisa adotada possibilitaram o acesso e registro de uma variedade de situações, fazendo interagir o trabalho de memória e narrativa com as práticas construídas no cotidiano do assentamento. O recorte realizado neste artigo objetiva colocar em evidência a dimensão de gênero nas mudanças operadas por homens e mulheres, assentados e assentadas, mudanças que compõem a construção de identidades coletivas e processos emancipatórios.
Identidades em trajetória é, portanto, um modo de se referir ao campo dinâ- mico de interação social em que mobilização de recursos, demarcação de posi- ções, ações coletivas, e projetos de futuro configuram o movimento que homens e mulheres, assentados e assentadas recriam e constroem em busca de serem na terra e com a terra.
O a s s e n ta m e n to : s o c i a b i l i da d e s , i d e n t i da d e s
c o l e t i va s e n ova s c i da da n i a s
Assentamento é uma categoria bastante abrangente, como se pode verificar nas definições oficiais, a indicar diferenciados processos de constituição, contextos de criação e a participação de atores e mediadores diversos.
Em geral os projetos de assentamento de reforma agrária têm origem numa situação de conflito e se estruturam sob a gestão e orientação do Estado. São criados em terras desapropriadas, para fins de reforma agrária, como resultado de ações coletivas, constituindo-se de acordo com Leite et al. (2004:28).
em ponto de chegada de um processo de (…) transformação de um amplo setor de “excluídos”
em sujeitos políticos, novos atores em cena, com a participação e apoio de movimentos sociais.
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tivos, praticar uma nova sociabilidade interna (…) e inserir-se num jogo de disputas políticas visando sua reprodução. (Leite et al., 2004: 28-29).
A criação dos assentamentos engendra trajetórias individuais e coletivas onde convivem tradição e renovação, fonte de sociabilidades e identidades. Nes- se processo são produzidos e organizados os significados da dimensão coletiva e social que se alimenta da cultura e da história compartilhada.(Castells, 2001; Prado, 2002). São criados e recriados os vínculos grupais e sociais dando lugar a novas redes de sociabilidades onde se fazem reconhecer como assentados e assen- tadas da reforma agrária. Trata-se de um processo de construção de identidades coletivas em que instabilidades e conflitos, situados na origem do assentamento, dão lugar a outras relações de poder e, portanto, a novas formas de conflitos so- ciais com a presença de outros atores em cena.
A identidade coletiva constitui, portanto, em fonte de significados que emer- gem na interação e na ação coletiva permeados por sentimentos e práticas sociais desenvolvidas por um grupo, num contexto específico, e que definem a pertença dos sujeitos a esse grupo. Demarca posições identitárias dos sujeitos por meio de formas diferenciadas, dentre elas: a compreensão construída acerca da trajetória do grupo; as estratégias para mobilizar recursos e definir projetos de futuro; o com- partilhamento de valores e crenças que compõem a cultura e opera na mediação entre grupos diferenciados e como forma de pertença social (Prado, 2002: 66).
Para Santos (2003), a noção de identidades coletivas está associada…
às diferentes formas de resistência, de mobilização, de subjetividade… geradas por práticas
diversas de opressão ou de dominação, implicando em noções diferenciadas de justiça.
Essas diferentes formas de resistência, mobilização e subjetividade são tratadas enquanto
lutas emancipatórias, que engendram a ampliação de círculos de reciprocidade num campo
de tensões entre igualdade e diferença, entre a exigência de reconhecimento e o imperativo da
redistribuição (Santos 2003:61).
A subjetividade e intersubjetividade, os sentimentos e interesses em jogo nas relações e práticas sociais consistem em aspectos psicossociais, que configuram dimensões da alteridade na dinâmica identitária. Há, portanto, uma indissolúvel relação entre identidade e subjetividade, entre subjetividade e diferença, na qual a diferenciação se constitui em atividade fundamental à assunção identitária. O sentimento de pertença social enseja a significação da relação com o outro e tem seu lugar numa rede intersubjetiva, que compõe a estrutura das relações sociais num determinado tempo e lugar histórico.
Assim, a identidade é uma categoria de análise que integra ambigüidades e dissociações, e não se confunde com papéis sociais. Os papéis sociais podem fa-
zer parte da identidade, a depender de como o sujeito os assume e os integra em suas práticas cotidianas, na percepção de si e dos grupos aos quais se vincula (Castells, 2001; Prado, 2002).
No assentamento pesquisado, a trajetória coletiva permanece, mesmo com o passar dos anos, como principal referência para a identificação e apresentação dos assentados e assentadas. A identidade coletiva de assentados e assentadas do PA Aliança tem como fonte principal a trajetória de lutas construída, inter- pretada e compartilhada coletivamente. A luta das famílias de posseiros pela permanência, trabalho e direito à propriedade da terra compõe as trajetórias individuais e coletivas que tem sua sustentação na intensa relação com a terra, no sentimento de enraizamento, nas ações coletivas, no compartilhamento da expe- riência vivida e no fortalecimento dos vínculos do grupo. Constitui-se, portanto, em fonte permanente de significados que compõe a dinâmica identitária. Nesse processo são compartilhadas crenças, valores, interesses e esperanças que forta- lecem vínculos e se materializam em projetos e ações coletivas ao longo de sua trajetória como agregados, posseiros, assentados, trabalhadores e trabalhadoras rurais (Castells, 2001; Mendes, 2002; Prado, 2002).
A história da violência do latifúndio e do conflito pela propriedade da terra é também a história de resistência e fortalecimento da identidade de posseiros. Estes, com sua organização e ação coletiva, desenvolveram a capacidade de fazer pressão em defesa do projeto coletivo, e obterem o reconhecimento dos direitos de posse da terra. Nesse fazer, construíram articulações, novas relações e redes de sociabilidade trazendo outros atores à cena, na qualidade de mediadores do conflito, como é o caso da Igreja e do Sindicato dos Trabalhadores Rurais.
A grande novidade que será o motor de todas as mudanças na vida dos pos- seiros é sua organização e participação social. Os vínculos construídos a partir da história de uma raiz comum são fortalecidos e re-significados pela expansão e constituição de novas famílias, mas, sobretudo, pela ampliação das formas de sociabilidade.
O tema principal associado à trajetória de lutas é a mudança. As mudanças operadas por homens e mulheres, abundantes em significados, foram tratadas espontaneamente pelos assentados e assentadas como forma de se apresentarem ou falarem de suas vidas. De modo entusiasta, ressaltaram como principais mu- danças a condição de liberdade para trabalharem na própria terra; o acesso a bens e serviços; novos costumes, formas de se apresentarem e se relacionarem interna e externamente ao assentamento; a organização e participação em atividades cole- tivas no assentamento, na associação e no sindicato; o acesso aos direitos sociais e cidadania. Para os assentados e assentadas do PA Aliança, a importância primeira do assentamento reside na terra em suas próprias mãos, condição essencial para a sua liberdade de trabalhar e viver. Os tempos do trabalho agregado, mesmo
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quando o fazendeiro permitia o uso da terra sem importunar os moradores, eram tempos de permanente dependência e insegurança.
Assentada: Quieta moça! Não pode nem comparar os momento, nós sofria demais mesmo. (…) Aí a gente tinha a terra livre, só que eu não sei lá, parece que a gente era mais pobre. A gente fazia as roça, mas parece que não tinha a capacidade de sair e fazer as roça igual agora. Eu não sei se é porque a gente também não tinha a experiência de fazer mais coisas, igual a mandioca. A mandioca nós fazia só mesmo a farinha, não fazia outra coisa. Hoje nós, nós da mandioca nós faz o beiju igual você tá vendo aí, faz a puba, faz a goma seca pra fazer o biscoito, faz a farinha, tudo enfins faz. E antigamente ninguém descobria essas forma de crescer mais.
No processo de conquista e apropriação da terra o sentimento de liberdade impulsiona a geração de novas capacidades e experiências, que articuladamente, resultam na possibilidade de criar e recriar as condições para produzir, trabalhar e viver com dignidade. Para uma assentada que chegou com a família após a cria- ção do assentamento, mesmo com a falta de água e a moradia de pau-a-pique, a vida no assentamento nem se compara aos duros tempos de sujeição do trabalho na carvoeira. Trabalho forçado, sacrificando crianças e adultos, para garantir o mínimo da sobrevivência restrita à comida de cada dia.
Assentada: Só pra comer. Não dava pra outra coisa, só pra comer. (…) Hoje que nós tem um pouquinho mais de recurso. Pelo menos tá morando no que é da gente. Tem o gadinho da gente, tem o lugarzinho da gente sossegado.
O período anterior à criação do assentamento é lembrado como um tempo em que homens e mulheres tinham sua vida social restrita à comunidade, onde viviam isolados, sem comunicação com o mundo externo. Essa situação de isola- mento era quebrada somente pela necessidade de provimento, através da com- pra, venda, ou mesmo troca de produtos essenciais à sua sobrevivência. Nessas circunstancias a feira consistia praticamente no único lugar freqüentado na sede do município, e ainda assim com maior freqüência pelos homens.
As narrativas nos remetem a um tempo em que os antigos moradores, agrega- dos, desfrutavam de uma sociabilidade estável e pouco dinâmica, em um campo bem delimitado, próprio a comunidades e economias fechadas, como as descritas por Cândido (2003). Os hábitos, costumes e formas de interação, relembrados pelos assentados e assentadas deixam entrever semelhanças com comunidades primitivas, origens e heranças indígenas tornadas patrimônio cultural dos agre- gados daquelas fazendas. Na trajetória coletiva não somente fortalecem os vín- culos na comunidade, como constroem vínculo social. A interação com o mundo
externo no processo de resistência, luta e organização, gera novas possibilidades de mobilidade, comunicação e expressão, que se traduzem em evolução e desen- volvimento sócio cultural do grupo (Castells, 2001; Prado, 2002).
A memória de um tempo significado como de isolamento e falta de liberda- de revela a visão de uma sociedade que, se de um lado lhes apresentava como estranha e ofensiva, de outro, parecia refletir o próprio medo que sentiam da convivência social. A falta de comunicação com a sociedade local resultava em identificações simbólicas povoadas por emoções que aprofundavam a situação de isolamento social. A luta e conquista do assentamento mobilizaram outras emoções, que fortaleceram os vínculos do grupo, favorecendo o reconhecimento da trajetória construída coletivamente, do projeto comum, daquilo que os uniu, que os faz semelhantes e que os diferencia do seu entorno.
Assentado: Na parte também que eu te falei o que era, daquela parte sobre o pessoal, parece que até tinha medo da gente. Porque não tinha aquele conhecimento do pessoal. Porque isso aqui era um centro encostado aí deles. Não tinha trânsito de ninguém, não tinha estrada, não tinha nada. (…) Quer dizer, tudo isso foi organização. (…) nem a gente tinha muito conhecimento com o pessoal da cidade, nem o pessoal da cidade tinha conhecimento com nós aqui. Hoje nós já tem um conhecimento imenso com a maioria do pessoal da cidade (…) E a gente tem aquela liberdade dentro da cidade.
A trajetória coletiva e o novo contexto de vida no assentamento são marcados por emoções que conformam uma ordem moral, que se manifestam pessoal e coletivamente não como… algo que invade ou domina os indivíduos, mas… impõe-se
aos dispositivos sociais e culturais existentes. Enquanto tal, as emoções articulam… possíveis descobertas permanentes de possibilidades de ser e de fazer. Nesse processo
os assentados e assentadas compõem um conjunto de relações diferenciadas no âmbito da família, do trabalho, da comunidade, nas atividades associativas, polí- ticas e culturais. Essa teia de relações conforma uma dinâmica identitária na qual ocupam posições provisórias e negociadas, segundo uma determinada hierarquia de credibilidade (Mendes, 2003:205).
A participação e organização são temas recorrentes nas conversas, seja qual for o assunto em pauta. A conquista do assentamento é atribuída à força da partici- pação e da organização e relacionada às mudanças ocorridas na vida de homens, mulheres, jovens e crianças, e à dinâmica interna da comunidade.
Assentado: “Hoje eu agradeço o que? Primeiro eu agradeço nós mesmo, que foi a nossa organização nossa. Que nós organizou. (…) Mais primeiro de tudo a organização nossa foi que levou o mais reconhecimento, foi a nossa organização.”Se por um lado a participação e organização é fonte de união, de solidificação de vínculos, de sentimento
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de pertença grupal, por outro é também fonte de conflitos, de disputa de poder e de interesses diferenciados. Entretanto, ao se falar de mudanças, de evolução no modo de vida, a participação e a organização dos assentados e assentadas aparece com toda a sua positividade, gerando novos aprendizados e, sobretudo, reconhecimento e valorização, tanto no plano pessoal como social.
As mulheres trouxeram o tema da mudança de modo mais enfático ao se referirem a diversos aspectos de suas vidas, transformadas com a criação do as- sentamento, mas, sobretudo, pela descoberta e entendimento da sua condição de mulher trabalhadora rural.
Com o assentamento tem lugar um novo ciclo em que participação e orga- nização se difundem e diversificam em grupos, projetos diferenciados e espaços institucionalizados com normas específicas. Ao tempo em que a presença dessas