Mapa 15 Regiões do Rossio de Campinas
3.3 ESTABELECIMENTO DE UM MÉTODO PARA O TRATAMENTO DE DADOS DAS CARTAS DE
3.3.1 Identificação da estrutura e conteúdo dos registros
Como visto, as cartas de data de terra eram documentos pelos quais, mediante requisição do interessado, a Câmara Municipal concedia uma dada porção de terra do rossio para que nele fosse edificada a residência ou comércio daquele que fazia o pedido; esta doação estava condicionada à efetiva ocupação do solo pelo interessado (SILVA, 2012).
No caso de Campinas, os registros dessas doações eram lavrados em livros específicos cujos originais (Fig. 4) – não transcritos, não publicados e não editados – conservam-se hoje no Arquivo da Câmara Municipal de Campinas (ACMC). Estes livros num total de dez volumes encadernados em capa dura34 cobrem o período de 1815 à 1859 e
compõem-se dos registros das doações de datas de terra e dos “registros de arruação” destas doações, conservam-se na forma de livros encadernados, com folhas numeradas sequencialmente35, possuindo também um termo de abertura e de encerramento, datados e
assinados pelo escrivão responsável pelos registros. São todos manuscritos, com uma grande 34 A encadernação dos volumes visivelmente não é a original, sendo claro inclusive que alguns volumes tiveram suas folhas guilhotinadas para a nova encadernação. Felizmente estes procedimentos não prejudicaram a leitura dos dados contidos tendo em vista que a maioria dos livros possuem em suas páginas uma vasta margem à esquerda e à direita do texto.
35 Em todos os volumes a numeração é feita por folha (e não por página) aposta sempre na página da frente, no canto superior direito. A numeração é feita de uma só vez pelo oficial responsável pela abertura do livro contento sob o número de cada folha a rubrica do mesmo.
variação no estilo de escrita e caligrafia consoante ao grande número de escrivães que se sucederam no ofício ao longo do período.
Exemplo de uma das folhas de um dos livros com os registros das Datas de terra da Vila de São Carlos / Cidade de Campinas exemplificando as condições materiais dos registros: manuscritos, não-gráficos. No exemplo a folha 119 verso do livro de tomo nº 23 do ACMC, contendo o início da carta de data cedida a Joaquim Alves dos Santos (ver anexo A para a transcrição da mesma).
Fonte – Fotografia do autor; reprodução do original pertencente ao ACMC Figura 4 - Carta de data de terra
O conjunto de livros é formado pelos tomos de número 23 a 3336 e possui
variações em seu conteúdo:
a) O tomo 23 contêm o “registro das cartas de datta mandadas passar pela mesma câmara [da vila de São Carlos]”. Possui termo de abertura datado de 25 de setembro de 1816 e possui termo de encerramento realizado no mesmo momento de sua abertura e com a mesma data, tendo seu primeiro registro sido datado em 10 de março de 1817 e o último em 4 de agosto de 1821; contêm 152 folhas (304 páginas). Seus registros contêm simultaneamente a doação das datas de terra e seus respectivos termos de arruação;
b) O tomo 24 contêm o “registro das cartas de datta de terras que concede a Camara da Villa de S. Carlos”. Possui termo de abertura datado de 02 de julho de 1822 e possui termo de encerramento realizado no mesmo momento de sua abertura e com a mesma data, tendo seu primeiro registro sido datado em 02 de agosto de 1822 e o último em 25 de outubro de 1822; contêm 193 folhas (386 páginas). Seus registros contêm simultaneamente a doação das datas de terra e seus respectivos termos de arruação;
c) O tomo 25 contêm o “registro das cartas de datas e conceção deterrenos concedidas pela mma Cama [da Vila de São Carlos]37”. Possui termo de abertura
datado de 12 de julho de 1826 e possui termo de encerramento realizado no mesmo momento de sua abertura e com a mesma data, tendo seu primeiro registro sido datado em 09 de agosto de 1823 e o último em 30 de janeiro de 1826; contêm 200 folhas (400 páginas). Seus registros contêm simultaneamente a doação das datas de terra e seus respectivos termos de arruação;
d) O tomo 26 é referido para conter “as cartas de datas que conceder esta camara de São Carlos”. Possui termo de abertura datado de 30 de dezembro de 1825 e possui termo de encerramento realizado no mesmo momento de 36 A numeração dos tomos é aquela atribuída pelo ACMC, não constando nenhum tipo de numeração dos
livros nos seus respectivos termos de abertura ou encerramento.
sua abertura e com a mesma data, tendo seu primeiro registro sido datado em 02 de fevereiro de 1826 e o último em 16 de janeiro de 1829; contêm 196 folhas (392 páginas). Seus registros contêm simultaneamente a doação das datas de terra e seus respectivos termos de arruação;
e) O tomo 27 contêm “as cartas de datas de terra concedidas pela camara desta villa de São Carlos”. Possui termo de abertura datado de 29 de agosto de 1828 e possui termo de encerramento realizado no mesmo momento de sua abertura e com a mesma data, tendo seu primeiro registro sido datado em 05 de setembro de 1828 e o último em 28 de abril de 1831; contêm 128 folhas (256 páginas). Seus registros contêm simultaneamente a doação das datas de terra e seus respectivos termos de arruação;
f) O tomo 28 é referido para “nele se registrar as cartas de datas”. Possui termo de abertura datado de 07 de abril de 1831 e possui termo de encerramento realizado no mesmo momento de sua abertura e com a mesma data, tendo seu primeiro registro sido datado em 28 de abril de 1831 e o último em 31 de maio de 1836; contêm 108 folhas (216 páginas). Seus registros contêm simultaneamente a doação das datas de terra e seus respectivos termos de arruação;
g) O tomo 29 é referido para “registrar as cartas de datas concedidas pela camara desta va”. Possui termo de abertura datado de 10 de setembro de 1836 e
possui termo de encerramento realizado no mesmo momento de sua abertura e com a mesma data, tendo seu primeiro registro sido datado em 14 de novembro de 1836 e o último em 20 de maio de 1851; contêm 194 folhas (388 páginas). Seus registros contêm a doação das datas de terra e seus respectivos termos de arruação em parte de suas entradas, embora em algum registros nomeadamente ao longo do ano de 1842, 1843 e 1846 os registros são incompletos contendo apenas a doação da data, mas sem a menção da petição inicial do morador;
h) O tomo 30 é referido para “registrar as cartas de datas concedidas pela camara municipal”. Possui termo de abertura datado de 27 de agosto de 1851 e possui
termo de encerramento realizado no mesmo momento de sua abertura e com a mesma data, tendo seu primeiro registro sido datado em 16 de agosto de 1851 e o último em 19 de fevereiro de 1854; contêm 20 folhas (40 páginas). Seus registros contêm o registro dos termos de arruação, sendo que os registros de cartas de datas do mesmo período encontram-se nos livros 31 e 32;
i) O tomo 31 é referido para “registrar as cartas de datas concedidas pela camara municipal desta cidade”. Possui termo de abertura datado de 17 de maio de 1851 e possui termo de encerramento realizado no mesmo momento de sua abertura e com a mesma data, tendo seu primeiro registro sido datado em 21 de maio de 1851 e o último em 14 de fevereiro de 1853; contêm 49 folhas (98 páginas). Seus registros contêm a doação das datas de terra, sendo que os termos de arruação do mesmo período encontram-se no livro 30;
j) O tomo 32 é referido para “registrar as cartas de datas concedidas pela camara municipal desta cidade”. Possui termo de abertura datado de 1853 (dia e mês ilegíveis) e possui termo de encerramento realizado no mesmo momento de sua abertura e com a mesma data, tendo seu primeiro registro sido datado em 19 de fevereiro de 1853 e o último em 05 de dezembro de 1854; contêm 17 folhas (34 páginas). Seus registros contêm a doação das datas de terra, sendo que os termos de arruação do mesmo período encontram-se no livro 30;
k) O tomo 33 é referido para “registrar as cartas de datas concedidas pela camara municipal”. Possui termo de abertura datado de 09 de março de 1854 não possuindo termo de encerramento explícito, tendo seu primeiro registro sido datado em 10 de março de 1854 e o último em 28 de janeiro de 1859; contêm 11 folhas (22 páginas). Seus registros contêm o registro dos termos de arruação e de alinhamentos de edifícios bem como a posse das datas de terra, não fazendo menção à concessão da data propriamente dita.
Apesar das alterações sofridas ao longo do período, os registros contidos nestes livros apresentam um conteúdo bastante similar e relativamente estável em virtude de serem escritos em uma fórmula jurídica mais ou menos padrão, de modo que a estrutura
básica se manteve inalterada consistindo em documentos escritos, sem quaisquer apoios gráficos de plantas ou mapas e cujos registros podem ser divididos em quatro partes principais:
a) A petição inicial;
b) A deliberação da Câmara; c) O termo de arruação;
d) Uma declaração final contendo os direitos, deveres e condicionantes relativos à posse da terra.
Para exemplificar e ilustrar esta estrutura básica apresenta-se, na sequência, a transcrição, na totalidade, de um dos registros consultados. Foi selecionado um registro típico, tratando-se da carta de data de terra concedida à Joaquim Alves dos Santos no ano de 1821 e que se encontra registrada à folha 119 v. do tomo nº 23 (ver Anexo A).
O registro é sempre aberto com uma linha indicando o nome do “suplicante”38.
Segue-se uma abertura formal que busca indicar a autoridade da câmara para realizar aquele ato de doação e uma breve apresentação da petição do suplicante:
Registro da Carta de Data de Joaq.m Alves dos Santos =
O Juiz Presidente da Camara e nos vereadores republicanos que servimos na Governaça desta villa de Sam Carllos prezente anno por pellouros na forma das Ordennaçons de Sua Magestade Fidellissima que Deos Guarde et setra = Fazemos saber aos que aprezente nossa carta de de Data de terra para sempre virem que por parte de Joaquim Alves dos Santtos nos foi feita a petiçam de teor seguinte = Ilustrissimos Senhores do Nobre Senado Dis Joaquim Alves dos Santtos morador desta villa que elle suplicante quer fazer seu edificio para sua morada em hum terreno que se axa devoluto detras da Igreja Matriz que se a de fazer da parte do caminho que vae para a villa de Itu e porque não pode obter sem digo não pode obter o ditto lugar sem Carta de Data por isso que pede a Vossas merces sejaõ servidos conceder ao suplicante o terreno do costume e receber a merce. (CAMPINAS, Termos de arruação..., 1817 – 1821, fls.119v – 120v.)
38 Os solicitantes das doações e dos registros são sempre referidos nos textos como suplicantes, termo que passaremos a utilizar deste ponto em diante para nos referirmos aos mesmos.
Pela leitura do conjunto de registros pode-se observar que a petição apresentada no texto parece refletir com fidelidade a solicitação feita pelo suplicante, tanto que em alguns registros a doação acaba por ser em condições diferentes de dimensões ou locais daquelas indicadas na petição original.
A esta petição inicial segue um trecho com o indicativo da deliberação dos vereadores e o despacho resultante em favor do suplicante solicitando ao almotacel e ao arruador do concelho que verifiquem a disponibilidade da terra, isto é, que o terreno pedido se ache devoluto:
Aqual petição sendonos aprezentada em Camara e por nos vista e examinada demos o nosso Despacho do teor seguinte = Informe ao Almotace e ao Arruador. Sam Carllos em Camara de trinta de Junho de mil oitocentos e vinte e hum = Mattos = Silva = Andrade = Guimaraes (CAMPINAS, Termos de arruação..., 1817 – 1821, fls.119v – 120v.)
E na sequência, diante da informação prestada pelos oficiais à câmara de que a terra se acha devoluta é que efetivamente os vereadores fazem a cessão:
Em cumprimento do ditto despaxo o Almotace e o Arruador forão ao ditto lugar e por axarem devolluto prestarão suas informaçons Com a qual sendo nos outra vez presentes demos o nosso segundo despacho de teor seguinte = Passe Carta na forma do estillo. Sam Carllos em Camara de dez a seis digo de dez de Julho de mil oitocentos e vinte e hum. (CAMPINAS, Termos de arruação..., 1817 – 1821, fls.119v – 120v.)
Os registros prosseguem, então, com o termo de arruação, onde são registradas as dimensões da data concedida e alguma forma da sua localização:
Em cumprimento deste nosso despaxo foi medido judicialmente seis braças defrente e dez a seis [de] fundos no lugar pedido de que se lavrou termo no livro competente e parte de hum lado com Mariana dos Prazeres e de outro como beco. (CAMPINAS, Termos de arruação..., 1817 – 1821, fls.119v – 120v.)
Na maioria absoluta dos registros as dimensões das datas concedidas eram àquela padronizadas pela Câmara “na forma do costume”, ou seja, seis braças de frente por dezesseis de fundos (aproximadamente 13,20 m X 35,20 m) e as indicações do arruador ora repetem o local, ora limitam-se a indicar, como neste exemplo, que se situa “no lugar pedido”, isto é, no local mencionado na petição inicial. As informações são normalmente complementadas com a indicação dos vizinhos e terrenos conflitantes à direita e à esquerda e, por vezes, com a indicação dos fundos.
Por fim, o registro tipicamente encerra com uma declaração dos direitos e obrigações do suplicante beneficiado com a data de terra. Entre os direitos cita-se a posse “real, civil e natural” da terra “para todo o sempre” e sem pensão ou foro de qualquer natureza, para o beneficiado e seus herdeiros. Entre as obrigações, cita-se a de edificar em um prazo máximo de seis meses, conservar as testadas da parcela limpas e manter desobstruídas as servidões públicas que possa haver, sob pena da terra voltar a ser considerada devoluta e, portanto, passível de ser concedida a outra pessoa que a pedir:
E por virtude desta Carta de Data demos ao ditto suplicante a terra com a condissam de no prazo de seis meses levantar seu edificio. com a penna de de se julgar devolutto na forma dos Provimentos de Correiçam. e a damos sem penssam de for[m]a alguma de hoje para todo o sempre e por si e seus erdeiros com posse Real, Civel e natural Com sendo para isso obrigado a deixar as servidoens publicas livres e desembaraçadas sem obstaculo algum e da mesma forma forma obrigado a conservar as suas testadas limpas tudo com penna de assim o não cuprindo sedar por devolutas aquem a pedir e sem prejuizo. E para constar lhe mandamos passar a prezente Carta para seu di[ilegível] que se registre no livro competente onde [ilegível]. Dada e passada nesta villa de Sam Carllos sobre nossos signaes e sellos das Reais Armas que ante nos serve em Camara de 4 de 9bro de 1821. (CAMPINAS, Termos de arruação..., 1817 – 1821, fls.119v – 120v.)
Assim, pela leitura deste registro típico, nota-se que existem neste conjunto de dados os elementos mínimos necessários para a identificação da parcela e de sua localização no tempo e no espaço. Estão presentes dados relativos ao suplicante detentor da cessão e também aos detentores das parcelas vizinhas que permitem integrar (como se verá adiante) os registros em cadeias de relações de vizinhança entre as parcelas; estão indicadas as dimensões da parcela; é registrada algum tipo de indicação da localização (ainda que
referencial) e, por fim, há uma data do registro que o permite situar no tempo e identificar sua posição em relação aos demais registros. Estes elementos mínimos são os que permitirão estruturar os dados e proceder a localização da parcela.