4 AS ESCOLAS E O ENSINO POR PROJETOS – IDENTIFICANDO ASPECTOS DAS
4.1 O ensino por projetos: as professoras e os contextos escolares
4.1.2 Identificando alguns elementos do contexto da ESCOLA G
Na ESCOLA G, entrevistamos três professoras, todas com contrato ACT, com média de 6 anos de atuação e, de acordo com representante da escola, todas desenvolvendo o ensino por projetos, informação contradita na entrevista com as mesmas, quando apenas duas declararam realizar tal trabalho.
Beatriz, 35 anos de idade, professora ACT com 20 horas de vínculo, Curso Magistério concluído em 1989 e cursando o 6º semestre de Pedagogia da UDESC, atua na rede estadual de ensino há 11 anos e nesta escola há nove anos. Atualmente trabalha com uma 4ª série. A professora informou não trabalhar com projetos e não ter feito estudos sobre isso, mas que na escola algumas pessoas compreendem que ela trabalha dessa forma porque geralmente
desenvolve atividades com os alunos de maneira “mais concreta” como a elaboração de terrários. Na verdade, segundo Beatriz, na opinião de alguns integrantes da escola, a única coisa que faltaria para “ser projeto” seria a materialização dessa prática montando um registro estruturado das atividades. No entanto, ela considera que ela só pode desenvolver um outro trabalho depois de estudar e conhecê-lo melhor.
Bárbara, 38 anos de idade, professora ACT com 40 horas de vínculo e também presidente da Associação de Pais e Professores (APP) da escola, concluiu o Curso de Magistério no Rio de Janeiro (mas não informou o ano) e cursa pedagogia na UDESC; atua na rede estadual de ensino há 10 anos e nessa escola há cinco. Atualmente trabalha com a 4ª série (com duas turmas em um mesmo turno com duas disciplinas — Português e Estudos Sociais, dividindo o horário da turma de 4ª série com a professora Bianca que também faz parte da pesquisa) e uma 1ª série. Essa professora declara trabalhar com o ensino por projetos e geralmente busca envolver as outras professoras com o objetivo de fortalecer o trabalho, principalmente aquela com quem divide as turmas da 4ª série. Apesar de ter ações voltadas aos projetos, a professora explicita que esta não é a forma exclusiva de desenvolver sua prática pedagógica, porque compreende que não é possível ignorar certos conteúdos de programas curriculares apresentados sob a forma disciplinarizada e mais específica uma vez que esses são um dos enfretamentos que o aluno das séries iniciais terá no processo de progressão durante as séries e também em determinadas exigências sociais.
Bianca, 39 anos, é professora ACT com 20 horas de vínculo e também, com mais 20 horas de uma escola particular. Concluiu o magistério em 1983 e está cursando Pedagogia na UDESC. Trabalha na rede estadual de ensino e nessa escola há quatro anos. Atua com duas turmas de 4ª série nas disciplinas de Matemática e Ciências. A forma de se envolver com o ensino por projetos é geralmente colaborando com aqueles propostos pela professora Bárbara
com quem partilha o atendimento das turmas. Segundo suas informações, na escola particular o ensino por projetos é bastante desenvolvido, o que colabora fornecendo traços a sua atividade de ensino na rede estadual.
Considerando a implicação dos projetos na organização pedagógica da escola, vale ressaltar que nessa escola não há especialistas, sendo que para a equipe pedagógica os profissionais que dão apoio para a escola são professores readaptados (ver capítulo 1). Esse apoio consiste em atendimento fora de sala de aula para alunos, pais e outras necessidades pedagógicas das classes. Segundo informaram, não atuam impondo ou realizando intervenções no trabalho dos professores.
As professoras trabalham juntas e se reúnem para discutir o conteúdo e a forma de trabalhar, sugerindo que às vezes trabalhem o mesmo assunto. A escola realiza diversas atividades extracurriculares, em outro horário, por meio de projetos em música, informática, teatro, artes e língua estrangeira (francês e italiano).
Não existe um tempo destinado para estudo ou pesquisa das professoras e o ensino por projetos faz parte do que é referido como “plano de curso de cada série”. Conforme expressaram, o caminho para as mudanças da forma de trabalho pedagógico enquadradas como “tradicionais” é gradativo e, assim, o ensino por projetos não contempla todos os conteúdos desenvolvidos no currículo.
Observando o processo de ensino e aprendizagem em relação ao ensino por projetos, nota- se uma preocupação com a forma do ensino, com os projetos se encaixando em uma tentativa de produzir práticas pedagógicas que busquem se distanciar da forma de ensino geralmente relacionada ao chamado “ensino tradicional.” Entendemos que são expressões de suas interpretações: “[...] a gente estava muito bitolado àquele ritmo de trabalho: professor dá
informação e o aluno só recebe. Então, houve uma dificuldade muito grande da gente modificar esse sistema. Tanto que a modificação está sendo gradativa. Não é que são todos os conteúdos trabalhados que são através de projetos. Não são todos.”
Sobre as situações de aprendizagem, as professoras destacaram a dificuldade em lidar com a aproximação do currículo da escola com a aprendizagem do aluno em virtude de quem é esse sujeito, como se pode perceber na fala:
O problema maior na nossa escola é que a gente atende alunos de classe social muito diversificada, esse para mim é o maior problema de aprendizagem. Porque eu tenho a turma que aprende logo, tem aquela que tem dificuldade, e tem aquela que não tem dificuldade mais não tem interesse.
A interpretação formulada sugere uma leitura do contexto da escola que emerge da preocupação com as condições sociais dos alunos e, de outro lado, também está presente a preocupação com o seu envolvimento, o qual independeria das condições supracitadas.
Quanto à concepção de docência e o desenvolvimento do ensino por projetos, nessa escola as informações giraram em torno da concepção de que o aluno exerce certa força para que o professor modifique sua prática, mas não foi apanhada a direção que ela deveria ter ao negar a anterior, compreendida como um ensino mais “tradicional”. Na mesma medida, ao expressar o contexto do trabalho docente, interpreta-se que há uma dificuldade quanto à condição do trabalho do professor, por ser solitária, levando-o a depender do seu próprio esforço para realizar o ensino por meio de projetos.
O que permanece em jogo na concepção de docência dessa escola relaciona-se com o formato e o conteúdo das aulas, cujo valor positivo está em não se enquadrar num modelo de ensino conhecido como “tradicional”. Isso significava apontar para outra forma de organização do espaço da sala de aula explicitando um tipo específico de relação professor-aluno, de processo
de avaliação, de aulas mais prazerosas, de trocas ocorridas nas aulas entre aluno-aluno e professor-aluno.
Contudo, constitui-se em um paradoxo essa concepção de docência e as condições institucionais para que ela se efetive.