4 AS ESCOLAS E O ENSINO POR PROJETOS – IDENTIFICANDO ASPECTOS DAS
4.1 O ensino por projetos: as professoras e os contextos escolares
4.1.3 Identificando alguns elementos do contexto da ESCOLA H
Na ESCOLA H, o número total de professoras das séries iniciais, em 2003/2, era de cinco e no ano da realização da pesquisa (2004), esse número passou para seis (ver a introdução). Escolhemos essa escola porque ela teria uma representatividade de professores que realizam o ensino por projetos ou não e em graus diversificados. Isso possibilitaria conhecer pontos de vista diferentes frente aos sentidos que se articulam no ensino.
Janice, 32 anos de idade, professora efetiva em 40 horas de vínculo, concluiu o Curso Magistério no ano de 1987, o curso de Pedagogia - Séries Iniciais em 1998 e a Especialização em Educação no ano de 1999. Trabalha na rede estadual de ensino há 15 anos e como professora dessa escola há oito. Atua com crianças de 1ª série. Assim como a professora Luiza da escola C, atuou com Classe de Aceleração do município na qual, segundo declara, aprendeu a trabalhar com projetos. Atualmente afirma desenvolver o ensino por projetos, que representa a base de sua prática pedagógica, destacando inclusive não utilizar o livro didático para o atendimento das crianças.
Juliana, 22 anos de idade, professora ACT em 20 horas, concluiu o curso Magistério no ano de 2000 e cursa Pedagogia na UNIVALI. Trabalha na rede estadual há um ano e na escola há
um mês, onde atua com crianças de 4ª série. Segundo ela, já trabalhou com o ensino por projetos com crianças de dois anos de idade em uma escola particular. Atualmente não mais, pois considera que a prática pedagógica do professor não muda quando recorre ao trabalho por projetos. Inclusive considera que esse tipo de ensino não permite muita flexibilidade do professor, pois ele tem que seguir uma “seqüência para chegar ao ponto final”. Destacamos que pela turma que assumiu já haviam passado mais de três professoras até maio de 2004.
Joana, 44 anos de idade, é professora efetiva em 40 horas de vínculo. Concluiu o Magistério e cursou Pedagogia na UDESC, mas não informou o ano. Trabalha na rede estadual há 24 anos e sete meses e na escola há 23 anos e cinco meses. Atua com crianças de 4ª série. Sua opinião sobre o ensino por projetos é percebida como algo significativo, porque, conforme interpreta, possibilita ao aluno uma participação maior e, a partir de uma problemática gerada por uma necessidade coletiva, há o seu envolvimento.
Jaqueline, 25 anos de idade, professora de contrato ACT em 40 horas, concluiu o Curso Magistério no ano de 2001 e cursa Pedagogia Séries Iniciais e Educação Infantil na UNIVALI. Trabalha na rede estadual há um ano e sete meses e na escola há dois meses; também não era a primeira professora da turma quando da entrevista, em abril. Atua nas 3ª séries. Não executa o ensino por projetos e declara que nem sabia dessa possibilidade na escola, trabalhando a partir dos “referenciais de sua experiência”. Também informou não ter muito conhecimento a respeito, mas, pelo pouco que sabe, considera que os projetos no ensino parecem não permitir ao professor caminhar conforme as necessidades do grupo, pois deve direcionar o trabalho para um resultado final.
Janete, 33 anos de idade, professora de contrato ACT em 20 horas, concluiu o Curso Magistério no ano de 2003. Trabalha na rede estadual e nesta escola há dois meses. Atua junto a
uma 3ª série. Segundo ela, sua prática não é voltada ao ensino por projetos. Na verdade, informou não ter muito conhecimento a respeito dessa perspectiva pedagógica. Vale ressaltar que ela é a quinta professora da turma até o mês de maio de 2004.
Sara, 55 anos de idade, professora efetiva em 40 horas, concluiu o Curso Magistério no ano de 1966 e o curso de Pedagogia pela UDESC em 1991. Trabalha na rede estadual há 18 anos e dez meses e na nesta escola há 12 anos e dois meses. Atua com crianças de 2ª série. Afirmando- se bastante frustrada com a falta de condições da escola, atualmente desenvolve pequenos projetos, nomeados por ela como “projetinhos de uma semana a 15 dias”, sem haver uma constante preocupação nesse sentido. Já desenvolveu práticas pedagógicas voltadas a projetos com muito mais ênfase e de longo prazo, mas enquanto as condições da escola estiverem do modo que estão, considera inviável, apesar de desenvolver pequenas ações nesse sentido.
Nesse estabelecimento de ensino, ao observar a implicação dos projetos na organização pedagógica, verificou-se existirem projetos que envolviam toda a escola, de 1ª a 8ª séries e outros por turma, sendo a decisão de trabalhar o ensino por meio de projetos do professor. Quanto à participação dos pais, a escola oferece espaços como discussão do plano estadual, conselhos, reuniões destinadas a turmas com problemas, contudo a presença é mínima apesar de ter havido um crescimento nos últimos anos.
No desenvolvimento do currículo, a organização dos conteúdos e das disciplinas por séries é parte de um trabalho de discussão e decisão coletiva da escola. Por meio de reuniões no início do ano se decide o que desenvolver como conteúdo das disciplinas com a participação de todos os professores da 1ª até 8ª série e Ensino Médio.
Para definir os conteúdos das séries foram organizados grupos por disciplina, que decidem o que é preciso aprender em cada nível. A finalidade desse trabalho é evitar o “problema
da falta de base” e dar continuidade ao trabalho da escola mesmo quando há trocas de professores, devido à rotatividade de professores ACT.
Sobre as relações no processo de ensino e aprendizagem ao ensino por projetos, as respostas remetem a questões voltadas à forma e ao conteúdo de ensino, destacando ações que não se restringem ao espaço escolar, tais como passeios, pesquisas na internet, entrevistas, visitas. Além disso, para algumas professoras o ensino por projetos possibilita à criança uma maior relação do conhecimento aprendido com a sua vida:
a questão que me chama a atenção mesmo é o aluno se perceber nesse contexto, não esse conteúdo quando é trabalhado enquanto conteúdo isolado [...];
se ele está lá no bairro dele e vê as pessoas jogando lixo, que ele vê as pessoas matando, que ele saiba compreender isso, saiba se construir diferente e intervir se puder.
Assim, há indícios de que nesse contexto se acredita que o ensino por projetos contemplaria a possibilidade de lidar com diferentes recursos materiais, espaços e produções, rompendo com uma organização curricular mais convencional e, quem sabe, de abarcar a vida do aluno.
No que tange à concepção de docência e ao desenvolvimento do ensino por projetos, os depoimentos mostraram que a característica dos professores de 1ª a 8ª série que trabalham com projetos estão voltados principalmente ao fato de serem ativos, críticos, resistentes, pesquisadores, envolvidos com questões da escola e com atitudes como estar sempre propondo, buscando e problematizando. Esses profissionais são localizados na escola como diferentes positivamente e articulam um movimento na direção da mudança da prática pedagógica.