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IDENTIFICANDO AS VOZES SOCIAIS DO ROMANCE

No documento A: AUTORIDADE, ARTE, ADULTÉRIO (páginas 33-37)

CAPÍTULO 2 SOCIEDADE – IDENTIDADE – ADULTÉRIO

2.1. IDENTIFICANDO AS VOZES SOCIAIS DO ROMANCE

Ao tratarmos das penas sofridas por Hester Prynne – e, consequentemente, por sua pequena Pearl – é importante observarmos tais medidas punitivas como resultados de um sistema androcêntrico,53 assumido e defendido não só pelo grupo social (masculino) dominante, mas também pelas mulheres puritanas, as quais exerciam sua identidade feminina de modo servil ao homem, esse responsável por configurar o modelo feminino vigente, ditando os requisitos necessários para caracterizar a mulher puritana. Percebe-se a manifestação desse modelo cultural antes mesmo de Prynne deixar pela primeira vez a prisão de Cornhill em Boston acompanhada por sua filha recém nascida. No capítulo intitulado A Praça do Mercado encontramos uma multidão que se aglomerava diante da porta da prisão aguardando um grande acontecimento para aquela comunidade. Naquela praça, onde um cadafalso ocupava um local de destaque, a expectativa dos habitantes era comparável àquela antecedente à “execução de algum criminoso notório, sobre o qual a sentença do tribunal da lei não fizesse mais do que confirmar o veredicto da opinião popular”, ou, talvez se tratasse de “um escravo preguiçoso ou um menino rebelde, entregue à autoridade civil, que tivesse de ser castigado sobre o pelourinho. Podia ser um antinomiano, um quacre, ou qualquer sectário da religião heterodoxa, que estivesse em via de expulsão da cidade.54” Nota-se, contudo, um clamor público elevado naquela espera da multidão, principalmente por parte das mulheres que ali se entremeiam aos homens. À época dos acontecimentos, independentemente da natureza das faltas cometidas por Hester, “mulheres criminosas eram suficientemente raras,55 o que provocava uma repercussão popular mais acentuada quando do cometimento de um crime por uma mulher. No caso do romance, o pecado/crime cometido alvoroçava ainda mais as mulheres presentes que se sentiam particularmente atingidas, deixando que seu discurso fosse tomado pelo desprezo e repulsa pela adúltera, como se vê em suas falas enquanto aguardavam a chegada da pecadora:

- Senhoras – disse uma cinquentona de fisionomia dura – vou revelar-vos um pouco do que penso. Seria de muito proveito geral que nós, mulheres de idade madura, e religiosas de boa reputação, tivéssemos o encargo de lidar com criminosas da espécie dessa Hester Prynne. Que achai, amigas? Se a velhaca comparecesse perante nós cinco que aqui estamos, sairia com uma sentença como a que o magistrado proferiu? Palavra, não creio.56

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57. Ibidem. 58. Ibidem.

Apesar da inegável dureza das penas impostas a Hester, o grupo de mulheres não parecia satisfeito com as medidas punitivas tomadas pelos clérigos e magistrados. Segundo a opinião de outra personagem feminina anônima da multidão,

-Os juízes são cavalheiros tementes a Deus, porém por demais complacentes. Esta é que é a verdade!” (...) Deviam pelo menos marcar-lhe a testa com ferro em brasa. Assim a dona Hester espernearia, garanto eu! Mas pouco se incomodará com o que lhe puserem no corpete do vestido, a reles prostitua! Ora! Com um broche qualquer ou outro enfeite pagão poderá esconder o emblema e passear pelas ruas, atrevida como sempre!57

É sabido que a identidade é marcada por meio de símbolos, havendo estreita relação entre a identidade e os elementos visuais externos, vestimentas, acessórios, tatuagens, marcas tribais, entre outras58. Para as autoproclamadas julgadoras de Hester Prynne, contudo, as marcas da diferença sobre a pecadora deveriam ter um alcance permanente não somente na força da palavra legal, a qual a obrigava a sempre utilizar o ferrete sobre as vestes. Percebemos no discurso dessas mulheres a vontade de que essa marca da diferenciação não fosse removível ou disfarçável, pois, retirando-lhe a letra “A” das vestes, a pecadora seria fisicamente igual às puritanas santificadas. A marca de ferro em brasa lhe perseguiria através do tempo, denunciando seu comportamento pecaminoso ainda que decidisse fugir da Nova Inglaterra. A sugestão aqui apresentada de uma marcação definitiva sobre o corpo da pecadora nos parece conectada à caracterização da mulher a partir da diferenciação baseada na anatomia feminina. Isso em razão de que, antes do descobrimento do seu pecado, para as puritanas de Boston, a costureira não era capaz de ser diferenciada das demais mulheres santificadas. Apenas com a revelação de sua gravidez é que ocorreu a classificação social da personagem como prostituta. A remoção de seu ferrete, entretanto, permitiria seu retorno ao modelo feminino puritano meramente anatômico, ao menos para as mulheres da colônia; diante disso, percebemos o público feminino como avesso à criação de um terceiro grupo de oposição constituído por Hester e Pearl. Acreditamos que a dicotomia “nós e eles”, presente na conceitualização da identidade puritana repelia um novo “eles”; essa repulsa se dá em virtude dessa dicotomia entender a mulher como outro, o “eles”, e os homens o “nós” da sociedade. Admitir a pecadora e sua filha como um grupo antagônico à identidade feminina puritana importava na percepção de si como um “eles” social diferente daquele que estavam habituadas a ser, colocando em questão sua posição de sujeito, mas não dando a ela a

__________ 59. Woodward in Silva, 2009. p 14. 60. Hall in Silva, 2009. p 109. 61. Ibidem. 62. Ibidem. 63. Apfelbaum, in Hirata, 2009. p 76. 64. Hall in Silva, 2009. p 109.

capacidade de se tornar um “nós” estruturante da sociedade, pelo contrário, somente caracterizaria a existência de uma nova marca de diferença, de uma nova identidade feminina capaz de pôr à prova os valores daquela já existente. Esse novo grupo social composto por mãe e filha seria, pois, um “outro” para o “outro” e para o “nós”; as exigências do público feminino por medidas mais severas que as tomadas pela justiça puritana expressam, portanto, um posicionamento contrário a um novo exame do seu sistema de classificação social.59

A partir da análise dessas opiniões puritanas a respeito de Hester, observamos uma marca de dominação da mulher firmemente disposta no discurso das personagens. A expressão das mulheres puritanas parece se apresentar aqui como um elemento passivo dessa relação de dominação, legitimando a construção cultural que as aprisionava naquele sistema opressivo. Ao classificar Hester como a prostituta responsável por lançar a desgraça sobre sua comunidade, as mulheres de Boston não somente lançam seu repúdio sobre o ato da pecadora, mas também reproduzem o um discurso histórico constatável naquela cultura, no qual a mulher se reveste de uma moral irrepreensível. Como aponta Hall60 é dentro do discurso que podemos encontrar as identidades, sendo essencial “compreendê-las como produzidas em locais históricos e institucionais específicos, no interior de formações e práticas discursivas específicas, por estratégias e iniciativas específicas”. A cena de A Praça do Mercado nos traz um momento histórico específico da construção identitária da mulher na Nova Inglaterra; a partir dessa narrativa, conseguimos compreender uma relação de dominação masculina erguida a partir de um discurso religioso determinado, presente “no interior do jogo de modalidades específicas de poder;61” percebe-se, portanto, a identidade feminina puritana como um produto da marcação da diferença e da exclusão62 criada a partir de uma relação evidentemente sexuada de poder. Entendemos que

Toda relação de dominação, entre dois grupos ou duas classes de indivíduos, impõe limites, sujeição e servidão àquele(a) que se submete. Ela introduz uma dissemetria estrutural que é, simultaneamente, o efeito e o alicerce da dominação; um se apresenta como representante da totalidade e o único depositário de valores e normas sociais impostas como universais porque os do outro são explicitamente designados como particulares. Em nome da particularidade do outro, o grupo dominante exerce sobre ele um controle constante, reivindica seus direitos fixando os limites dos direitos do outro e o mantém num estatuto que retira todo seu poder contratual.63

Nesse passo, a relação de dominação exercida pelo grupo social dos homens puritanos nos apresenta sinais de um conceito de identidade essencialista;64 nela, a mulher é observada

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65. Hall in Silva, 2009. p 109. 66. Ibidem.

como portadora de um núcleo imutável, intocável pelo discurso religioso masculino de irrepreensibilidade moral. Hall65 aponta para a observação da identidade a partir de um conceito “estratégico e posicional”, o qual “não assinala aquele núcleo estável do eu que passa, do início ao fim, sem qualquer mudança, por todas as vicissitudes da história.”, não tendo como referência um segmento idêntico do indivíduo ao longo do tempo.

Em seu discurso, o pesquisador contraria a possibilidade do estabelecimento identitário a partir de um “eu coletivo ou verdadeiro que se esconde dentro de muitos outros eus – mais superficiais ou mais artificialmente impostos – que um povo, uma história e uma ancestralidade partilhadas mantêm em comum,66” que é exatamente o que observamos na comunidade narrada por Hawthorne. Esse essencialismo identitário é, como assinalado em Apfelbaum, estruturalmente desproporcional, expresso por um processo de servidão por parte da mulher. Essa sujeição aos valores impostos pelo homem acaba por servir de alicerce para a reprodução da opressão que, por sua vez, é transferida para Hester em razão não meramente da desobediência às normas sociais, mas por ir de encontro aos princípios basilares daquela dominação. Entendemos a tensão estabelecida pela pecadora como um conflito de vozes no romance. Ao passo que a voz feminina é praticamente emudecida, Hester assume a responsabilidade pelo próprio discurso, fazendo-se ouvida na performance de uma prática discursiva contrastante com os papéis sociais comumente ocupados pela mulher no Puritanismo. Ao questionar a estrutura assimétrica puritana, a costureira sai do anonimato moral imposto pela sombra do grupo dominante, assumindo a autoria de sua vida; como observaremos mais detalhadamente ao tratarmos especificamente da execução de seu banimento, Hester não tinha espaço naquela comunidade; dessa forma, entendemos que não havia alternativa para Hester, senão deixar o convívio comunitário, fosse forçadamente, como se deu, ou voluntariamente, tendo em vista o aumento da incompatibilidade entre a mulher socialmente ativa e independente que resultou das transformações identitárias sofridas por ela no romance, e as demais mulheres da colônia, assumidamente submissas.

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67. Woodward in Silva, 2005. p 27. 68. Ibidem.

69. Santos, 1994. p 32.

No documento A: AUTORIDADE, ARTE, ADULTÉRIO (páginas 33-37)