A Análise de Discurso francesa originou-se nos anos sessenta, a partir das reflexões acerca do que se entendia por texto/conteúdo e sobre como se entendia leitura. EmAD importa saber como um texto funciona (ORLANDI, 2012b) e não o que o texto ou o autor quer dizer. É a questão do sentido que se oferece, então, ao estudo da AD e com essa questão remetemo-nos à interpretação considerando que não há sentido sozinho e por si próprio e é por isso que a AD “interroga a interpretação” (2012b, p. 22). Pensa-se no funcionamento daquilo que pode ser interpretado para se compreender como faz esse e não outro sentido. É no funcionamento da linguagem que o sujeito lança gesto de interpretação, conforme sua posição, fazendo sentido nesta prática simbólica que é a interpretação.
A teoria do discurso, levando em conta o materialismo histórico, confirma a língua como base na qual os processos discursivos se constroem, e reserva a expressão processo discursivo para compreender a realização do discurso, pois é na incompletude que se fazem os dizeres, perpassados pela ideologia que leva o sujeito a acreditar-se na origem do que diz e que só há um sentido naquilo que diz. A língua é a base dos processos discursivos. Diferentes sujeitos se valem da língua para fazer circular a ideologia. Pêcheux (2009) alerta que a fala não é discurso, assim como discursividade não é fala, mas uma forma de habitar a abstração dela. Na verdade, não é, como diz o autor, uma forma de usar ou realizar uma função da língua: “processo discursivo visa explicitamente recolocar em seu lugar a noção de fala, pois todo processo discursivo se inscreve numa relação ideológica de classes” (PÊCHEUX, 2009. p. 82).
O processo discursivo faz funcionar as Formações Imaginárias (FI) que determinam o lugar do sujeito que enuncia. São projeções no/do sujeito sobre quem ele é quando ele fala e para quem ele fala. Por isso o sujeito ocupa uma posição que nem sempre é aquela na qual é visto por outros sujeitos, mas pode ser aquela em que acredita que é a sua posição, do lugar de onde deve se colocar. Isso é o que Orlandi (2012a) define como “relação de forças. Segundo essa noção, podemos dizer que o lugar a partir do qual fala o sujeito é constitutivo do que ele diz” (p. 39). Esses funcionamentos mantém estreita relação com as Formações Imaginárias que amparam as projeções de cada sujeito o que, de acordo com a autora, permitem ao sujeito passar de lugar para posição
A ideologia “cola” no sujeito a partir da linguagem e com ela possibilita as significações, os sentidos. O discurso produz o sentido, porém não um sentido qualquer, mas um sentido que é possível na confluência: sujeito, ideologia e discurso. A relação do sujeito
com a sociedade, segundo Orlandi (2012b), é uma relação política e não há, pois, relação política sem a presença da ideologia. Para Orlandi (2012b, p. 46), a ideologia é condição para a constituição do sujeito e do sentido. É importante perceber a teia que evidencia e esconde sentidos que são esquecidos, para que outros apareçam. É na linguagem que a ideologia ancora sua relação com o mundo e com a história. O sujeito produz sentidos a partir da língua e da história num processo inconsciente, mas ele julga ser consciente e, julga ainda, que o produz pela própria vontade. Essa relação necessária do sujeito com a língua e com a história para que se efetive o sentido, inaugura a discursividade.
O sujeito discursivo se faz na linguagem e acredita ser a origem do que diz. Ele não é capaz de exteriorizar-se da posição que ocupa, mobilizando a memória e o esquecimento presentes no seu dizer. Para ele, o sentido está evidente, a transparência ilusória das palavras produz esse efeito, não há como não ser a origem do que diz. É assim que a ideologia dissimula sua existência no próprio funcionamento que produz com o inconsciente. Retomo Althusser (1980, p. 85), que apresenta duas teses a fim de discutir a presença material da ideologia:
“Tese I: A ideologia representa a relação imaginária dos indivíduos com suas condições reais de existência. ”de acordo com o autor, são representações imaginárias de mundo e não correspondem à realidade, mas se referem a ela. Nas palavras de Althusser: “É representado na ideologia não o sistema das relações reais que governam a existência dos homens, mas a relação imaginária desses indivíduos com as relações reais sob as quais eles vivem” (p. 88).
Na “tese II: A ideologia tem uma existência material”, Althusser explica que quando fala dos Aparelhos Ideológicos do Estado e de suas práticas, ele afirma que “ cada um deles era a realização de uma ideologia”; [... ] “uma ideologia existe sempre em um aparelho e em sua prática ou práticas. Esta existência é material” (p. 89). Então podemos dizer que a presença da ideologia está sempre determinada em uma prática e, a partir dela, se realiza.
As evidências que se mostram ao sujeito são, na verdade, opacas e marcadas pela posição-sujeito que ele ocupa. Essa opacidade tem a ver com a materialidade histórica, ideológica e social do discurso, imperceptíveis para o sujeito que vê clareza no que é dito.
O discurso, como efeito de sentido entre locutores, apresenta marcas que possibilitam a sua interpretação e torna visível a relação da língua com a história expondo o funcionamento da ideologia. A língua nos é dada marcada já pela ideologia, por isso sofre apagamentos e é sempre lugar de restrição e de possibilidades. Quando a língua se materializa
em enunciados permite o movimento do político, favorecendo os jogos de linguagem, o apagamento e a possibilidade de um sentido que sempre poderia ser outro.
A ideologia a que nos referimos aqui conjuga a realidade do poder a partir dos Aparelhos Ideológicos do Estado descritos por Althusser que são designados pelo autor como “um certo número de realidades que se apresentam ao observador imediato sob a forma de instituições distintas e especializadas” (1980, p. 43). Os AIEs materializam-se em instituições que funcionam pela ideologia, que sendo a da classe dominante, prevalece como sendo instância de prestígio, dissimulando e simbolizando a partir da linguagem. É na configuração das práticas sociais que a ideologia se estabelece no jogo da linguagem, influenciando e determinando relações entre o sujeito, a língua e a história.
Pêcheux (2009) afirma que o caráter comum da ideologia (e do inconsciente também) é o de dissimular sua própria existência no interior do seu funcionamento. Isso produz evidências que constituem o sujeito e o sentido. A constituição do sentido se junta à constituição do sujeito na figura da interpelação a qual Althusser (1980) atribui o teatro da consciência: o sujeito é chamado à existência, sendo o sujeito um sempre já sujeito e recebe como evidente o sentido, isso pode ser percebido na afirmação: “colocando o sujeito do discurso como origem do sujeito do discurso”. (p. 144).