Um segundo momento de pesquisa foi possibilitado no dia seguinte, em material escrito. Disposto no meio da sala, este material era composto por livros didáticos de ciências, revistas da área de saúde, livros infantis, jornal etc. A orientação consistia em apanhar o material e consultá-lo para verificar se havia uma nova informação para ser completada àquela já anotada sobre “qualidade de vida”.
O Discurso Pedagógico comporta as posições-sujeito que predominam na instituição escolar e reflete as relações entre essas posições a partir da linguagem. Mas como funciona o DP nas instituições de ensino? Para a AD, a noção de funcionamento adquire destaque, pois ao se compreender como um discurso funciona, há a compreensão das formações discursivas as quais ele (o discurso)se filia e, portanto, como os sentidos são produzidos nesse funcionamento.
No recorte abaixo, vemos a posição-sujeito aluno e a posição-sujeito professor inscrita no discurso pedagógico, no qual prevalece a paráfrase.
As professoras explicam como procederá a atividade de escolha de material para leitura, que está em cima de mesas no centro da sala:
Professora 1 explica: vocês podem ir trocar. Só que pode í todo mundo ali no meio? Vários alunos respondem concomitantemente: não!
Professora 1 continua: vamos fazer um combinado: um da dupla sai, pe... devolve o que você já tem e pega outro. Mas e só quando... eu... por exemplo, a XXX9 foi lá, vai pegar um livro, eu posso ir lá...
Aluno 1 interrompe: não. Tem que espera ela voltá.
Professora 1 continua falando: ... ou esperá a XXXXX voltar pra depois eu ir?
Professora 2 complementa: é, você tem que esperá ela voltá. Professora 1 concomitantemente: esperá a sua vez.
Professora 2: (inaudível)
Professora 1 continua: a XXXX pegô o livro, foi sentar, aí eu posso í, senão dá bagunça. Certo? Eu vou í chamando então as duplas, pra irem pegá dois, ou jornal, ou revista, ou livro. Certo? Podem í vocês... do... dois. (Fala para os dois alunos).
O funcionamento do DP enquanto um discurso com pouca nenhuma reversibilidade, atuando com o possível discurso neutro, informacional, nos permite compreender o gesto da acadêmica-bolsista ao organizar a sala de aula para a pesquisa em material escrito. Nesse momento, ela pretende autorizar o deslocamento dos alunos de forma ordenada. Para isso, o diálogo acima apresenta a circularidade do DP quando, a partir de perguntas retóricas, ela faz com que os próprios alunos digam o que deve ser feito. A aparente neutralidade do discurso de organização ecoa no princípio do DP. Orlandi (2011, p. 28) aponta que “ A escola se institui por regulamentos, por máximas que aparecem como válidas para a ação, como modelos”
A instituição escolar faz circular o DP como sentido único (e possível), no entanto pensamos que instaurar o polêmico possibilita o sentido outro, o deslize, o deslocamento. Discordar é deslocar recusando a fixidez do sentido e, assim como diz a autora “[... ] questionar os implícitos, os locutores, o conteúdo, a finalidade, o sentido dado ao ensino pelo DP do poder [... ] isto é questionar as condições de produção desse discurso” (p. 35). O DP instaura-se na ordem da Escola a fim de reduzir o erro e afirmar a repetição. Não houve discussão sobre o como fazer, como circular pela sala, como pegar o material, mas, aparentemente, houve a participação dos alunos na decisão de como se movimentar na sala para pegar o material. Entendemos, então, que a pesquisa realizada em material escrito (livros e revistas) seguiu e correspondeu ao DP, à FD e à FI da Escola: a professora pergunta, o aluno responde e, quando isso desregula, cabe aos sujeitos (principalmente ao professor) repensar e retomar para a regulação do processo.
É possível ver isso acontecer no recorte abaixo no qual, durante a pesquisa sobre qualidade de vida, em materiais escritos, um aluno aponta um texto e o lê, inclusive. O texto tratava sobre tipos de solo.
Transcrição da pesquisa em livro e revista (Anexo D):
Alunos dirigem-se até o centro da sala onde há duas mesas com diversos tipos de texto para manusearem. (... )
Aluno 1: ah, vô pegá esse memo.
Professora 2 dá uma olhada no material: aqui óh, aqui tem coisas legais, ali tem coisas... (trecho inaudível)
Aluno 2: pussôra, num, num tem nada quase! (Olhando material que escolheu) Aluna 3: não... tem! Olha o tantão. (Olhando o livro que escolheu)
Professora 2: aham, bem legal. Nossa, olha que bacana esse! Aluno 2 diz: olha pussôra.
Professora 2 fala: troque informação com... se você não achou nada aí, acha outro livro.
Aluno 2: oh! (Lendo)“os solos podem ser formados por terra solta como as areias ou terras em terrões como os solos argilosos”. (lendo do livro) Posso fazê isso?
Professora 2: isso é através do solo. Se você não achô nada sobre éh... qualidade de vida vá lá e troque, pegue outro material, até você achá algum.
Figura 10 - A leitura no ato falho da pesquisa (Print Screen da filmagem).
Fonte: a autora
Nessa oportunidade, a bolsista-docente não perguntou quais relações o aluno faria com o tema, ou por que razão “ousou” desregular a pesquisa lendo um texto que, aparentemente, não havia relação com a temática. Quando o aluno aponta o texto e o lê para a docente, ela o interpela e o aluno desiste, fecha o material, pois a pergunta já oferece o sentido de que não é possível pesquisar ali, o sentido de regulação do trabalho. Nesse recorte, vemos a possibilidade do polissêmicos e instaurar num trabalho de busca/pesquisa e, apesar das recomendações para que a pesquisa fosse livre, houve a interferência do professor. Por isso Orlandi (2011) considera importante tornar o DP um discurso polêmico, pois o discurso é “efeito de sentido e não transmissão de informação” (p. 31). Ainda podemos visualizar no recorte abaixo:
Aluna 3 fala: o meu também tem bastante coisa.
Aluna 3: aham.
Professora 2: legal né? Aluna 3: aham.
Professora 2: muito bacana. O que você achá interessante aí você anota. Aluna 3: ... (trecho inaudível) na primera página .
Professora 2: olha, tem um monte de coisa boa aí. Legal
Esse recorte ilustra a instalação da paráfrase a que nos referimos neste texto. Nela o sujeito não é defrontado com outras leituras e/ou atividades que não as do professor. Quando nos referimos à paráfrase entendemos que“[... ]é difícil traçar limites estritos entre o mesmo e o diferente. Daí considerarmos que todo funcionamento da linguagem se assenta na tensão entre processos parafrásticos e processos polissêmicos” (ORLANDI, 2012a, p. 36).
As relações de sentido ficam restritas ao que é oferecido ao sujeito sem possibilidade outra para que ele recupere, no texto, outras marcas que o autor tenha deixado. A imobilização dos sentidos e a sua estabilização na Escola restringem os sentidos e mantêm a polissemia controlada. A relação de tensão entre a polissemia e a paráfrase influencia a construção de um sentido que favorece a incompletude do discurso. O efeito de linearidade das atividades de leitura impossibilita essa incompletude, visto que tudo precisa ser completo e completado para que, ao ser respondido, faça de forma única. Pode-se pensar que a função da Escola é exatamente a de responder perguntas prontas e afirmar o conhecimento acumulado pela humanidade, parafrasticamente, porém a construção e o desenvolvimento de um sujeito autônomo (ou relativamente autônomo) não podem ser estabelecidos nessa perspectiva.
São as relações de produção na sua condição política que vão assegurar as relações de exploração. Tomemos o corpus deste trabalho e o analisemos nesta perspectiva: assegurar a repetição, a cópia é permitir e assegurar que as relações de exploração permaneçam como estão.
O processo de busca/pesquisa realizado pelos alunos, no buscador Google, com a pergunta do professor inscrita, portanto, no Discurso Pedagógico, permite antecipar que a procura de respostas às perguntas se assemelha a uma atividade desenvolvida nos livros didáticos. Como o material de leitura disposto na textualidade digital não era o próprio livro, não havia, por isso, uma resposta certa para dar. O buscador se inscreve no exterior do DP e não é adequado ao esquema parafrástico do DP, ao qual o livro didático responde tão bem, o que nos faz refletir que isso já bastaria para que um processo polissêmico oportunizasse a instauração do polêmico... Mas não é tão simples assim.
Quando os alunos não encontraram a resposta “certa”, estabeleceu-se o que queremos chamar de caos pedagógico, pois o buscador não oferecia uma resposta apenas; mas, várias. Isso desencadeou comportamentos que não se inscrevem no DP e, portanto, provocaram esse caos a que nos referimos. Para pensar num trabalho de busca/pesquisa com leitura em textualidade digital, é necessário aceitar que professores e alunos, os sujeitos da aprendizagem, estarão inscritos em uma forma polêmica, a qual não discursiviza resposta e sentidos únicos, mas ancora possibilidades além daquelas propostas no livro do professor.
A repressão, mesmo que de forma branda, da acadêmica-bolsista, nesse caso, é tomada como uma (im)possibilidade ao erro, garantindo a reprodução do mesmo e a hegemonia da classe dominante. Para tanto, reportemos Althusser:
Afirmamos que o Aparelho Ideológico de Estado que assumiu a posição dominante nas formações capitalistas maduras após uma violenta luta de classe política e ideológica contra o antigo aparelho ideológico do estado dominante, é o aparelho ideológico escolar. (1980, p. 77).
Para Althusser, o aparelho ideológico escolar, estabelecido pela burguesia, substitui o aparelho ideológico da igreja nas funções de reprodução das relações de exploração capitalista, que inclui o modo de vida da classe dominante como sendo exemplar, executando o concerto, de que fala o autor, de uma música que não ouvimos, mas que é tocada a fim de reproduzir o status quo.
A Escola, de acordo com o autor, é a instituição hoje tão natural como o era a Igreja e, portanto, reproduz a formação social capitalista de forma “natural” e “indispensável”, colaborando para a formação da sociedade que perpetua “uma representação” - relação imaginária dos indivíduos com suas condições reais de existência, concernente ao capitalismo. Essa relação imaginária se estabelece em atos inscritos em práticas reguladas por rituais. Reportando-nos aos dados da pesquisa a que se refere este texto, relação imaginária do sujeito aluno que pesquisa, se inscreve como ato escolar regulado pelo ritual de pesquisa escolar já instituído pela Escola. Mas o que nos interessa é como esse ritual funciona no novo, como o velho. Explico: pesquisa-se na rede internet e anota-se em papel, o novo e o velho se encontram no ritual de simulação de aprendizagem. Se entendemos que só pode haver ato educativo com interferência do educador, compreendemos a existência das perguntas retóricas: será que é isso que você deseja pesquisar?; será que é isso que interessa? Essas questões retóricas mostram a reiteração do ritual que garante aos Aparelhos Ideológicos de Estado que a Escola (se) condiciona o sujeito à massa subescolarizada, não autônoma, visto a
necessidade frequente da interferência da professora perpetuando o movimento ideológico que confirma as duas teses de Althusser (pg. 93):
“1 só há prática através de e sob uma ideologia 2 só há ideologia pelo sujeito e para o sujeito”.
O reconhecimento das “evidências” produzidas pela ideologia fazem-nos ser sujeitos dos rituais que garantem essa nossa condição. A condição de sujeito se faz pela ideologia que interpela os indivíduos em sujeitos, isto é, o sujeito se reconhece como parte do processo de exterioridade, de pertencimento à ideologia e não exterior a ela, refletindo-se na própria estrutura dela (a ideologia).
A exemplo de Althusser, quando convoca a ideologia religiosa cristã, façamos a ideologia escolar falar: o aluno é aquele que está na Escola para aprender e o professor, aquele que possui o saber e está na Escola para ensinar, num processo no qual não há possibilidade de reflexão, e que instaura a repetição.
Não estamos dizendo aqui que não se pode mediar, mas queremos compreender as limitações de sentido que essa mediação pode oferecer para o sujeito contemplado nesse processo, quando ele é predominantemente autoritário. É ainda em Orlandi que ancoramos: “Quando falamos em mediação, gostaríamos de dizer que não pensamos essa mediação no sentido de colocar a linguagem como um instrumento, mas pensamos, antes, a mediação como relação constitutiva, ação que modifica, que transforma (2011, p. 25).
A linguagem estabelece o processo de mediação, mas o que importa aqui é o modo de produzir a linguagem na mediação, aquele que traz a instauração das condições de produção de um discurso que oportuniza a sequência verbal produzida pelo sujeito. E a produção de linguagem se faz estabelecendo dois processos: o parafrástico e o polissêmico, indicando o sedimentado e o sentido outro, respectivamente.
Na atividade de pesquisa e leitura, o conhecimento se instala a partir do movimento entre o parafrástico e o polissêmico, os quais não podem ser negados ou postergados pela instituição escolar. Sendo o discurso pedagógico um transmissor de informação sob a rubrica da cientificidade, a caracterização de atividades escolares parte da dissimulação da neutralidade. Isto quer dizer que a atuação da linguagem limita-se às inferências permitidas e avalizadas pela Escola.