CAPÍTULO III A SOCIEDADE EM CONFLITO
3.4 Ideologia e Direito: duas faces da mesma moeda
Conforme exposto ao fim do ponto antecedente, a perspectiva desta pesquisa não seguirá a suspeita de “vingança dos juízes”, trazida pelo bispo Dom
Tomás Balduíno, mas sim, pautar-se-á pela questão ideológica – ideologia do legislador e ideologia do julgador, ideologia, portanto, do Direito aplicado.
Rui Portanova atenta para o fato de que, ao tratar da ideologia do julgador está se referindo as influências pré-jurídicas sobre significados, valores e fins humanos, sociais e econômicos, ocultos ou não que inspiram a decisão do juiz: “a ideologia de que falamos não é má-fé, é um conjunto de representações, saberes, diretrizes ou pautas de conduta (2003, p. 17).
No entendimento de Cláudio Souto, a ideologia no Direito, afastada a pretensão de neutralidade axiológica absoluta nem sempre resulta em erro. O que deve ser ponderado é a quantidade de ideologia que se aplica ou se pode observar no processo de formação do convencimento e decisão jurídica. Só há prejuízo para a validade da decisão nos casos em que o conteúdo ideológico sobrepõe-se ou não está amparado por conhecimento empírico-social substantivo (1997, p.115).
Não sendo possível a indivíduo algum livrar-se de suas preferências, diz Souto que não há necessidade de exposição velada de uma ideologia para efetivamente defendê-la, basta seguir determinados caminhos avaliativos e interpretativos para fazer valer a efetivação da causa, sem, para isso, ter que alegar preferências políticas e ideologias evidentes (1997, p. 117). A não observância a esse quantum aceitável de ideologia pode implicar em deslocamento da função fim do Direito, também atento a essa questão, atenta Azevedo, ao citar Coing: “Todo o direito está em perigo de servir a interesses de classes e, com efeito, amiúde, sucumbe a esse perigo” (2002, p. 12).
Entende Aguiar (1990, p. 27), que a principal atribuição do Direito, enquanto instrumento ideológico de dominação, é convencer aos destinatários das leis e das sanções que a ordem defendida é a única possível, por que natural, e que é
justamente pela aplicação e cumprimento de tais normas, que garantem a manutenção de tal ordem, que os poderes constituídos agem em benefício da coletividade – mesmo que, para algumas coisas, não haja solução. Em assim sendo, conclui Portanova: “Nestas condições, é plantada a falsa idéia de ordem, segurança, desenvolvimento e progresso. Na verdade, o Direito é usado como instrumento de conservação” (2003, p. 67).
Nesse liame, Faria entende que é justamente pela observância desse estado de Direito que se conduz o falso entendimento de que a ordem de interesses particulares se confunde com a ordem de interesses gerais, expondo que “Na verdade, o estado de Direito é o topos justificador de exercício da dominação política [...] (1988, p. 12).
Essa visão tradicional do Direito esta alicerçada na tríade paz – ordem – segurança, uma vez que, com a queda dos absolutismos, procurava-se assegurar a nova ordem social. Contudo, indaga-se:
Que ordem? Que segurança, que paz? Ou melhor, a ordem, a segurança a paz de quem? O que o direito tem assegurado é a ordem imposta pela dominação capitalista, machista e heterossexual [...] A sociedade não é igual, pois dividida em classes; e não é harmônica, pois essas classes vivem em conflito. As relações de superioridade e inferioridade hierárquica e de exploração tem como conseqüência interesses conflitantes (PORTANOVA , 2003, p. 63).
Também assim posiciona-se Roberto Aguiar: “não existe harmonia, mas a cada passo, a manifestação de lutas e contradições que se constituem no próprio motor da história”(1990, p. 71).
Admitindo-se, assim, a premissa de que o Estado burguês é o Estado capitalista-liberal e que, por esse turno, está estruturado na divisão da sociedade em
classes inexoravelmente antagônicas e regido por relações de dominação, pode-se dizer que:
Desponta daí a falsidade do Estado-Instituição que se alto-retrata como uma racionalidade superior e autônoma, negando correlativamente, seu primordial e verdadeiro sentido de articulador desigual e contraditório da sociedade civil. Para encobrir essa realidade são criadas algumas simbologias que servem de mediação entre os dois pólos aparentemente separados. E é o direito que vai se ocupar precisamente de fornecer os modelos formais dessas mediações, estabelecendo conceitos de nação, povo e cidadania, todos eles baseados na noção de indivíduo. O direito,
assim, adquire caráter instrumental inexorável, posto que serve de instrumento a dominação capitalista (SANTOS, 1990, p. 46 - grifo).
De acordo com Marx, acerca da formação social das idéias e das consciências “O que a história demonstra, senão que a produção intelectual se transforma junto com a produção material? As idéias dominantes de uma época sempre foram as idéias da classe dominante” (MARX; ENGELS, 1998, p. 72 – grifo).
Neste sentido, no que tange as idéias dominantes do momento atual, diz Slavoj ZizeK, que tem sido mais fácil para muitos imaginar o fim do mundo do que uma mudança modesta no mundo de produção do capitalismo liberal, como se fosse esse o „real‟ absoluto: “Assim, pode-se afirmar categoricamente a existência da ideologia qua matriz geradora que regula a relação entre o visível e o invisível, o imaginável e o inimaginável, bem como as mudanças nessas relações” (1994, p. 7).
A predominância do macro modelo ideológico-produtivo capitalista que se estabeleceu no mundo após a “abertura” dos países do Leste europeu, principalmente da União Soviética, teve implicações não só nos terrenos econômico e político. Implicou, também, uma massificação sem precedente da ideologia burguês-imperialista, com o escopo de impor a sua lógica de dominação em escala
mundial. Uma das manifestações teóricas mais emblemáticas dessa ofensiva foi o livro O fim da história e o último homem, do historiador norte-americano Francis Fukuyama57.
Ao desenvolver uma abordagem da história do ocidente, desde Platão até Nietzsche, Kant e Hegel, propôs que o capitalismo e a democracia burguesa constituem o estágio último da racionalidade social e, assim, da história da evolução social; ou seja, de que a humanidade teria atingido, no final do século XX, o ponto máximo de sua evolução, com o triunfo da democracia liberal ocidental sobre todos os demais sistemas e ideologias concorrentes. Fukuyama elenca de maneira bastante competente, do ponto de vista acadêmico, os motivos que levaram ao desmantelamento dos regimes fascistas e socialistas, que foram, cada um ao seu modo, adversários ideológicos do capitalismo e do liberalismo no pós-guerra. O que é possível se apontar, sob a sua ótica, é o generalizado descrédito que se abateu sobre as bases teóricas das duas alternativas globais, restando apenas, atualmente, em oposição à proposta capitalista liberal, resíduos fragilizados de nacionalismos, sem possibilidade de significarem um projeto para a humanidade, além do fundamentalismo islâmico, restrito ao Oriente e a países de regime teocrático.
Destarte, com a derrocada do socialismo, sugere que a democracia liberal ocidental firmou-se como a solução final do governo humano, decretando, assim, o "fim da história" da humanidade. Assim, o novo modelo social, fundado no terreno político da democracia burguesa, teria como marca principal o discurso acerca do direito de livre atividade econômica e troca econômica, com a menor interferência estatal possível, e baseado na supremacia do setor privado e dos mercados.
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Neste sentido, o discurso predominante das últimas décadas, mesmo tendo matriz política, tende a influir peremptoriamente no universo jurídico, orientado as suas discussões.
Acerca da força dessa prática ideológica, coloca Chauí que o discurso ideológico tem por escopo fazer coincidir com as coisas, anulando falsamente as diferenças entre o pensar, o dizer e o ser procurando, por esse artifício, criar uma lógica da identificação que unifique pensamento, linguagem e realidade para, “através dessa lógica, obter a identificação de todos os sujeitos sociais com uma imagem particular universalizada, isto é, a imagem da classe dominante” (1996, p. 3). É talvez nessa linha que segue a reflexão de Manoel José do Santos (Contag), em depoimento na CPMI da terra:
Quem está provocando o caos social? Os trabalhadores que estão morrendo ou os fazendeiros que estão matando? Essa é a discussão que precisamos fazer. Não é ameaça. [...]. Os trabalhadores que estão morrendo são os que criam a insegurança no País? Nós achamos que não. Não haveria ocupação se houvesse, antes ou durante, um plano de reforma agrária em que o conjunto das autoridades cumprisse o seu papel. O judiciário deve promover a justiça, não fazendo uma atuação direcionada, como tem feito. Se pegarmos a atuação do judiciário nos diversos processos de desapropriação que chegam às barras da Justiça, vamos ver: o Judiciário concedeu, em menos de uma semana, a maioria das liminares de reintegração de posse[...] (apud MELO, 2002, p. 70-71).
Em outro momento, em livro introdutório, porém referencial, diz também Chauí:
A ideologia burguesa, através de seus intelectuais, irá produzir idéias que confirmem essa alienação, fazendo, por exemplo, com que os homens creiam que são desiguais por natureza e por talentos, ou que são desiguais por desejo próprio, isto é, os que honestamente trabalham enriquecem, e os preguiçosos empobrecem. Ou então faz com que creiam que são desiguais por natureza, mas que a vida social, permitindo a todos o direito de trabalhar, lhes dá iguais chances de melhorar – ocultando, assim, que os que trabalham não são senhores do seu trabalho e que, portanto, sua „chances de melhorar‟ não dependem deles, mas de quem possui os meios
e as condições do trabalho. Ou, ainda, faz com que os homens creiam que são iguais por natureza e pelas condições sociais, mais que são iguais perante a lei e perante o estado, escondendo que a lei foi feita pelos dominantes e que o estado é instrumento de dominantes (CHAUÍ, 2004, p. 73).
Mais uma vez os conflitos pela posse da terra são emblemáticos para essa discussão. Na análise do dirigente nacional do MST, o economista João Pedro Stedile: “Temos bancos proprietários de terra. Temos políticos, senadores, proprietários de terra, juízes... A classe dominante como um todo, no Brasil, é proprietária de terra” (2003, p. 04).
Não seria sensato negligenciar o fato de que as leis a serem aplicadas pelo Poder Judiciário são produzias pelo Legislativo, supostamente legítimo representante do povo. Lédio de Andrade, em trabalho estatístico sobre a formação da Câmara dos Deputados, demonstrando a sua formação elitista, com 39% de empresários e apenas 5% de trabalhadores. Em seguida mostra a presença de 16,6% de parlamentares pertencentes ao bloco ruralista, 10,4% ao das empreiteiras e apenas 5,9% dos sindicatos ligados aos trabalhadores (apud XAVIER, 2002, p. 45). Os números atualizados e específicos à matéria em comento não deixam dúvidas, posto que “na atual legislatura, 2003-2006, foram por enquanto identificados 73 parlamentares ruralistas e simpatizantes”. Contudo, há parlamentares que exercem profissões que nada tem a ver com a produção rural, mas que pertencem a famílias de tradição agrária e sempre se alinham com os ruralistas (POMPEU, 2003, p. 12)
Nesse sentido, Raphael de Queiroz (apud XAVIER 2000, p. 20-21) pondera que, como os grupos poderosos têm maior influência na elaboração dos modelos jurídicos, torna-se forçoso concluir que as classes dominantes se utilizarão do
processo legislativo na defesa dos seus interesses. Da mesma forma entende Roberto Aguiar:
Quem legisla é o grupo social que detém o poder, por deter o controle da vida econômica e conseqüentemente política de uma sociedade. (...) nenhum legislador é suicida... nunca legislará contra sua ideologia que será, por extensão, a ideologia do Estado. (1990, p. 24-26).
A lei só serve, assim, na medida em que se mostre apta para justificar a relação de dominação. Por esse turno, os grupos dominantes editam leis dizendo o que é justo e o que é injusto, em seguida afirmam que justo é o que está posto na lei: “Ora, sendo esta feita por eles próprios, a Justiça disponibilizada aos dominados é a Justiça elaborada pelos dominantes, segundo os preceitos convenientes à sua manutenção no poder” (MARQUES, 2002, p. 19).
Sendo sustentável tal perspectiva, afigura-se como viável a possibilidade de validação da tese de que a conformação social do campo brasileiro, mesmo apresentando-se desigual – e por isso conflitiva – tem na legalidade aferida pelas decisões jurídicas instrumento político e ideológico para a sua legitimação.
Tal incongruência social fática só pode ser possível com o entendimento de que o Direito possui inegáveis conotações políticas e ideológicas. Sofre fortes influências tanto destes universos, como dos sistemas econômico e ético e pode, como vem sendo por vezes, ser utilizado como instrumento legitimador de um estado de coisas sabidamente desigual.
Quem interpreta e aplica as leis, ademais, são os profissionais do Direito, e nesse processo, possivelmente, fazem uma escolha, consciente ou não, do bem jurídico que se pretende tutelar. É o que entende Afrânio da Silva Jardim:
É comum que ministros do Supremo Tribunal Federal, diante de uma mesma situação de fato e das mesmas normas jurídicas, cheguem a decisões díspares. Por que isso ocorre? Ocorre porque antes de buscarem a fundamentação jurídica, os magistrados já tinham a sua decisão política.
É isso: o direito é essencialmente político. A opção pelo valor a ser protegido pela lei é política; o processo legislativo de elaboração da lei é submetido a embates políticos; a interpretação da norma é um ato político, como político também é o procedimento da sua aplicação no caso concreto, decidindo um determinado conflito de interesses
(apud XAVIER, 2002, p. 46 - grifos).
É nesta esteira que se, na interpretação e aplicação da lei, houver prevalência do valor propriedade sobre os valores dignidade humana, bem-estar social, equidade etc, o Direito pode se tornar um dos principais entraves para efetivação de uma reforma agrária que reflete o antagonismo de uma sociedade marcada pela lógica de poucos com muito, alguns com pouco e muitos sem nada.
Essas são questões que permeiam o seio de toda a sociedade. Os cidadãos se apercebem disso, compreendem essa situação, e talvez por isso desacreditam da lei, dado o flagrante afastamento de parcela considerável da população do acesso à Justiça, entendendo-se este não apenas no seu sentido formal, de poder demandar as suas pretensões ao Judiciário, mas como a verdadeira possibilidade de os ver satisfeitos. Também por que:
O aparelho judicial só é apto a atender uma parcela pequena da população, se não os que compõem o poder, porque têm interesse de manter o status quo, a que serve e instrumentalisa o Judiciário. Os pobres, os minusválidos, encontram-se à margem da efetiva tutela jurisdicional. Esta mostra-se deficiente, falha e sem aptidão para amparar os interesses dos miseráveis, sobretudo quando o litígio é entre estes e ricos. Numa estrutura cara, não são todos que possuem condições de arcar com despesas envolvendo honorários de advogado, custas processuais e outros gastos. (MARQUES, 2002, p. 22).
Enfim, é de bom alvitre lembrar que boa parte dos clamores e anseios do povo brasileiro já estão, formalmente, garantidos pela “Constituição Cidadã”: A saúde, a educação, a moradia, o emprego, o salário justo, a dignidade, a desapropriação das terras improdutivas para fins de reforma agrária... Tudo isso consta como “conquista” do povo brasileiro. Formalmente, ou legalmente, o Brasil é uma sociedade democrática e igualitária, sob a tutela de um Estado amplamente assegurador de direitos e garantias.
Contudo, não indica ser essa a realidade observável. Diante dessa constatação, como devem se portar o Direito e o Poder Judiciário? Se for aceita a suposição positivista da neutralidade, e, máxime, a idéia de que, o conteúdo da norma não importa, devendo ser observado apenas o seu formalismo, então pouco pode ser feito.
Não há de se negar, pois, a possibilidade de que o Direito possua condicionantes ideológicos, e que, por este turno, possa representar, os anseios da classe dominante.
Essa perspectiva será, porém, testada na pesquisa empírica do capítulo seguinte.
CAPÍTULO IV: UMA INVESTEGAÇÃO SOCIOJURÍDICA ACERCA DO