O modelo teórico-metodológico delineado no terceiro capítulo com a finalidade de possibilitar a apreensão das representações identitárias construídas pelos noticiários submetidos à análise aponta a ideologia como um elemento essencial do discurso. Em última instância, ele sustenta que a formação discursiva apreendida a partir da identificação dos aspectos estruturais de uma superfície textual – os interdiscursos, os silêncios constituivos, os silêncios locais etc – consiste na materialização de uma formação ideológica.
Ao se assentar sobre este princípio, o dispositivo analítico em questão almeja que a análise por ele subsidiada seja capaz de evidenciar a visão de mundo, o conjunto de valores e representações por intermédio dos quais os sujeitos enunciadores - no caso, as empresas jornalísticas - constroem uma determinada concepção da realidade, avaliam as ocorrências factuais e orientam seu modo de ser e agir no mundo.
Por conseguinte, ele elege como fim último de sua aplicação não a descrição dos elementos implicados em uma construção discursiva – tal como realizado nos capítulos precedentes -, mas algo que ultrapassa a dimensão textual, encontra suas raízes no próprio corpo social: as determinações ideológicas que transformam os indivíduos em sujeitos sociais.
Tendo em vista este fundamento metodológico e a hipótese sustentada pelo presente trabalho, segundo a qual os noticiários produzidos por El Universal e O Globo acerca do governo Hugo Chávez reverberam o discurso do “atraso” subjacente a representações identitárias sobre a política e o povo latino-americanos, procura-se nesse capítulo demonstrar como as marcas discursivas coligidas anteriormente remetem à formação ideológica típica do liberalismo.
Em virtude das significativas semelhanças de enquadramento entre as coberturas empreendidas pelos dois jornais - determinadas pela existência de estruturas discursivas e, muitas vezes, até de conteúdos idênticos -, opta-se aqui por realizar uma explanação que apresente de forma generalizada as principais evidências da presença subliminar da ideologia liberal nos discursos analisados e especifique as particularidades quando necessário.
Dado o caráter perene da ideologia, na acepção do termo adotada neste trabalho, nas intervenções discursivas realizadas por um determinado sujeito social, o presente capítulo faz, ainda, referência a outras pesquisas que realizamos a respeito da cobertura do governo Hugo Chávez empreendida pelos jornais El Universal e O Globo, com o intuito de evidenciar com ainda mais clareza que a ideologia liberal se encontra no cerne das produções discursivas engendradas por ambos os veículos.
Para respaldar a identificação de argumentos e traços discursivos típicos do liberalismo, o capítulo em questão adota como referência a definição de Norberto Bobbio (2004; 2001), explicitada a seguir.
6.1 A visão de mundo liberal
Ao discorrer sobre as categorias que defende serem centrais na distinção entre doutrinas situadas à esquerda e à direita do espectro político – a igualdade e a liberdade -, Bobbio (2001) apresenta os principais traços que constituem a ideologia liberal. Partindo do pressuposto de que a postura igualitária21 é uma marca distintiva da esquerda e reconhecendo em várias passagens que o ideal de liberdade encontra-se predominantemente – embora não
21 Bobbio (2001) define a postura igualitária não como o ideal da igualdade de todos em tudo – que, para ele,
consiste em uma bandeira do igualitarismo utópico -, mas como uma proposta de minimização de determinada(s) desigualdade(s) social(is) existente(s) em um grupo específico de indivíduos, a partir da aplicação de critérios bem definidos.
exclusivamente22 - associado à direita, o autor define nos seguintes termos o modelo liberal hegemônico na atualidade:
(...) continuamos a ter sempre presente sob os nossos olhos a sociedade em que vivemos, na qual são exaltadas todas as liberdades, e com particular relevo a liberdade econômica, sem que nos preocupem, ou só nos preocupem marginalmente, as desigualdades dela derivadas e presentes em nosso mundo e, com visibilidade ainda maior, nos mundos mais distantes (BOBBIO, 2001, p. 128).
Sob esta perspectiva, a ideologia liberal é tida como uma vertente da direita política. Ela consiste em uma doutrina que se centra na proclamação de liberdades individuais (os chamados direitos civis e políticos) e relega a um segundo plano medidas destinadas a combater as desigualdades humanas23 (os direitos sociais) (BOBBIO, 1992).
Trata-se, portanto, de uma vertente ideológica que, para conduzir à extrema conseqüência a proposta de usufruto de um bem individual – a liberdade –, impõe significativos limites a um princípio de natureza social – a igualdade. Esta aparece no liberalismo apenas sob a forma de um igualitarismo mínimo, de um direito humano à idêntica liberdade, segundo o qual cada indivíduo deve limitar sua própria liberdade, compatibilizando-a com a dos outros para garantir que todos usufruam de igual liberdade (BOBBIO, 2001).
Em consonância com esses princípios, as correntes majoritárias do liberalismo defendem, no plano político-institucional, a existência de um aparelho estatal com poderes mínimos de intervenção na sociedade. Eles concebem o Estado como uma entidade laica, desvinculada de preceitos religiosos e de concepções filosófico-políticas, e detentora de restritos poderes sobre a esfera civil.
22 Para Bobbio (2001), tanto à direita quanto à esquerda do espectro político é possível encontrar doutrinas
libertárias. A liberdade seria, na visão do autor, um valor comum a movimentos políticos moderados, por ele identificados como de centro-esquerda e de centro-direita.
23 Vale mencionar que, segundo o autor, a direita não encara as desigualdades humanas como distorções da vida