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2. ANÁLISE DO DISCURSO FRANCESA: UM PERCURSO INTRODUTÓRIO

2.3. Ideologia, sujeito e sentido: outros conceitos basilares

Ao propor uma teoria materialista dos processos discursivos, a Análise do Discurso tenta compreender as relações ou luta de classes nos processos discursivos, por meio da tríade Ideologia/Sujeito/Sentido, buscando romper com “os paradigmas que sustentam o objeto como determinante da significação e com os que afirmam ser o sujeito o senhor absoluto de seu dizer” (AMARAL, 2013 apud AMARAL e ZOPPI FONTANA, 2017, p.44). Leva-se para o terreno de discussão da linguagem a materialidade histórica dos processos de constituição do sujeito e do sentido, delimitados pelas relações de força e confronto entre classes na sociedade. Ou seja, as formas de individuação dos sujeitos e de construção de sentido(s) em sociedade são constituídas historicamente, simbolizando as relações de forças, de conflito, entre classes.

Dessa perspectiva, a Análise do Discurso “propõe outra leitura das formas de significação da existência, das formas como os homens atribuem sentido à vida, aproximando-se à concepção de história do marxismo, como história das formações

38 sociais” (AMARAL, 2013 apud AMARAL e ZOPPI FONTANA, 2017, p.44), marcadas pelas relações de dominação e luta de classes.

Em sua proposta como teoria materialista do discurso (PÊCHEUX, 1975), a Análise do Discurso questiona a evidência de uma existência espontânea do sujeito (como causa e origem de si mesmo) e a evidência de uma literalidade do sentido.

Um dos elementos de ruptura política e epistemológica da Análise do Discurso, perante outras ciências, encontra-se na importância da ideologia no estudo da linguagem, concebendo o discursivo como um dos aspectos materiais da instância ideológica.

Para Pêcheux, a ideologia não é acúmulo de ideias. Muito menos, ocultação de ideias. O teórico francês define a ideologia como o que interpela os indivíduos em sujeito em um processo de assujeitamento. Este é um processo constituído pela/na linguagem. Lembremos que a linguagem produz como efeito as evidências dos sentidos e dos sujeitos.

Em Pêcheux (1975), detalha-se que esse assujeitamento “se realiza mediante o complexo das formações ideológicas (e, especificamente, mediante o interdiscurso imbricado nesse complexo), e fornece a “cada sujeito” sua “realidade”, enquanto sistema de evidências e de significações percebidas – aceitas – experimentadas” (PÊCHEUX, 1975 [2014], p.149). Essas formações ideológicas fornecem aos indivíduos conjuntos de regras e práticas que lhes permitem a identificação a uma posição como sujeito, dono de seu dizer, ao mesmo tempo que dão embasamento à forma como os sentidos se constroem dentro de seu sistema de “evidências e significações percebidas”.

Complementa-se ainda que, ao lado do inconsciente, a ideologia é vista como “uma estrutura/funcionamento que dissimula sua existência no interior mesmo do seu funcionamento, produzindo um tecido de evidências 'subjetivas' […] nas quais se constitui o sujeito” (PÊCHEUX, 1975 [2014], p. 139). Em seu funcionamento, a ideologia apaga a sua existência, criando como natural aquilo que é da ordem de uma construção histórico-social.

39 Sob esse “tecido de evidências subjetivas”, a ideologia ou instância ideológica funcionaria pela interpelação (ou assujeitamento) do sujeito (FUCHS e PÊCHEUX, 1975, p. 162), que se articula em um duplo esquecimento: o sujeito não é a fonte e origem de seu dizer (esquecimento nº 1) e o sentido pode ser outro (esquecimento nº 2).

O primeiro esquecimento é inerente à prática subjetiva ligada à linguagem. Definido como esquecimento ideológico (ORLANDI, 1999 [2015], p.33), refere-se ao silenciamento de como somos afetados pela ideologia, para que tenhamos a ilusão de ser, na qualidade de sujeitos, a origem do nosso dizer, e para nos identificarmos a uma posição como sujeitos.

Caracteriza-se por uma contradição: o sujeito não é a origem ou fonte de seu dizer, posto que os dizeres se constituem como o formulável no interior da matriz de sentido inerente à formação discursiva. No entanto, como afirma Fuchs e Pêcheux (1975), “se realizam necessariamente neste sujeito” (FUCHS e PÊCHEUX, 1975 [2014], p. 169), no momento que este ocupa um lugar para que o seu dizer possa fazer sentido.

É a ilusão constitutiva do efeito-sujeito na linguagem (FUCHS e PÊCHEUX, 1975, p. 167), tomando o dizer como próprio, natural do sujeito falante, negando-lhe a percepção da subjetividade como algo delimitado por condições histórico-sociais. É o esquecimento que apaga no sujeito a determinação histórica de sua posição, inerente à formação social em que se insere. Os sentidos se materializam, no sujeito, por sua identificação a uma formação discursiva ancorada a uma formação ideológica, possibilitando a forma como o sujeito se posiciona e se constitui pela linguagem.

Ao se inscrever numa formação discursiva, o indivíduo se identifica com um primeiro e elementar efeito ou ilusão da ideologia: a evidência de que ele é um sujeito pleno, centralizado, assim como dono e fonte do seu dizer. Desse modo, pelo trabalho da ideologia, constitui-se como natural e transparente aquilo que é da ordem da materialidade histórica.

O indivíduo se inscreve como sujeito ao identificar-se com uma posição, assumindo como natural aquilo que é resultado do processo de formação histórica e

40 simbólica de seu assujeitamento. Tal assujeitamento permite ao indivíduo projetar sua situação social, de ordem empírica, em uma posição-sujeito, de ordem discursiva.

Como formula Orlandi (1999), “os sentidos apenas se representam como originando-se em nós”, apagando-se para o sujeito que os sentidos não são decorrentes de sua vontade, mas “são determinados pela maneira como nos inscrevemos na língua e na história” (ORLANDI, 1999 [2015], p. 33), na condição de sujeito.

Por este esquecimento, recalca-se no sujeito sua identificação a uma formação discursiva que o ‘convoca’ a assumir um determinado papel diante do duplo processo de sua constituição como sujeito e da constituição dos sentidos.

O segundo esquecimento, denominado ‘enunciativo’ (ORLANDI, 1999 [2015], p. 33), constitui-se na ilusão referencial, que “nos faz acreditar que há uma relação direta entre o pensamento, a linguagem e o mundo” (idem). Dito de outro modo, refere-se à ‘evidência’ da literalidade do sentido, esquecendo-se de que o sentido é instituído historicamente na relação do sujeito com a língua e que faz parte das condições de produção do discurso.

Torna-se transparente, natural, a construção dos sentidos das palavras no interior de uma formação discursiva, quando atrelada à formação ideológica, o que faz o sujeito se inscrever em um modo de dizer e dar sentido às coisas. Ou seja, os significados das palavras são determinados por aquilo que é possível e historicamente definido, a partir de uma formação discursiva específica, vista como matriz de sentidos.

Outra questão de interessa na Análise do Discurso é o seu ponto de vista sobre o sujeito.

Contrapondo-se a outras linhas de estudo de linguagem, alicerçadas em um sujeito psicológico, centrado, homogêneo, dono de si e total governante de seu dizer, a Análise do Discurso formula o sujeito como um ente descentrado, difuso, que assume uma posição sujeito, delimitada por condições histórico-sociais. Essa posição sujeito define seu modo de dizer e significar as coisas no mundo.

41 O sujeito então inscreve-se na língua e na história para constituir o sentido e a si mesmo como sujeito. Não há como ele existir fora dessa relação, que se dá pela interpelação ideológica e leva o indivíduo, subjetivamente, a se identificar com uma posição sujeito, desde a qual se institui como fonte e origem de seu dizer.

Nesse trabalho da interpelação pela ideologia, o “sujeito é chamado à existência” (PÊCHEUX, 1975 [2014], p. 141), tomando como próprio, natural, o que é da ordem de uma identificação a um conjunto de regras, crenças, comportamentos, bem como de formas de significar-se e dar sentido às coisas.

Como seres simbólicos, instaurados pela linguagem, somos então instados, em todas as nossas práticas discursivas a dar sentido às coisas no mundo, ou seja, a interpretar. Nas palavras de Orlandi (1996), “a interpretação está presente em toda e qualquer manifestação de linguagem. Não há sentido sem interpretação” (ORLANDI, 1996 apud ORLANDI, 2013. p. 05).

Pensando o processo de constituição dos sentidos como gesto de interpretação, a Análise do Discurso se posiciona contra a literalidade do sentido. Ou seja, segundo essa teoria, o sentido (ou efeito de sentido) não se encontra encerrado em uma relação idealista entre pensamento-linguagem-mundo, mas sim a filiações de sentido que se materializam por determinações histórico-sociais.

Como irão afirmar Fuchs e Pêcheux (1975):

o “sentido” de uma sequência só é materialmente concebível na medida em que se concebe esta sequência pertencente necessariamente a esta ou aquela formação discursiva ... É este fato de toda sequência pertencer necessariamente a uma formação discursiva para que seja “dotada de sentido” que se acha recalcado para o sujeito.

(FUCHS e PÊCHEUX, 1975 [2014], p. 167).

Como explicado anteriormente, as formações discursivas são matrizes de sentido, representantes de formações ideológicas, delimitadoras de como as palavras, expressões ou enunciados constituirão efeitos de sentido para o sujeito

42 falante, a partir das circunstâncias imediatas e das determinações histórico- ideológicas de produção do discurso.

Aproveitamos ainda para retomar o conceito de sentido como “relação a” (ORLANDI, 1999 [2015], p. 23). Para uma palavra fazer sentido, é necessário que o interlocutor se inscreva em uma posição como sujeito. Essa posição, associada a uma formação discursiva, estabelece como naturais ou evidentes determinadas relações de significação entre palavras, expressões e enunciados, bem como a própria identificação do sujeito com aquilo que ele fala.

O sentido ou efeito de sentido constitui-se pelas possibilidades de significação permitidas pela formação discursiva à qual o sujeito está vinculado. Esta formação também sofre limitações de outras formações discursivas, e de sua relação com o interdiscurso, ou memória discursiva, que reúne o dizível ou todas as possibilidades de significação de uma palavra, expressão ou enunciado dentro de determinadas condições de produção, no interior de uma formação social.

Com este percurso acerca da Análise do Discurso, buscamos destacar o trabalho teórico e analítico articulado por Pêcheux para a compreensão da linguagem, também considerando suas determinações histórico-sociais, igualmente constitutivas dos sujeitos e do processo de produção de sentidos pela língua.

Mobilizamos alguns conceitos centrais à teoria, igualmente importantes no gesto de construção das análises a serem apresentadas nesta pesquisa, e esperamos ter delimitado, para os leitores, alguns dos pressupostos teóricos que norteiam este trabalho.

Em continuação, nos próximos capítulos, falaremos sobre a questão do arquivo, bem como sobre o discurso jornalístico, sob o ponto de vista da Análise do Discurso.

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3. ALGUMAS PALAVRAS SOBRE O ARQUIVO EM ANÁLISE DO DISCURSO, O

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