4. SOBRE O DISCURSO JORNALÍSTICO
4.3. O discurso jornalístico como um discurso sobre
Comungamos ainda com Mariani quando esta afirma que o discurso jornalístico constitui uma modalidade de discurso sobre. Para Mariani (1996), os
discursos sobre são:
... discursos que atuam na institucionalização dos sentidos, portanto, no efeito de linearidade e homogeneidade da memória. Os discursos sobre são intermediários, pois ao falarem sobre um discurso de (discurso-origem), situam-se entre este e o interlocutor, qualquer que seja. De modo geral, representam lugares de autoridade em que se efetua algum tipo de transmissão de conhecimento, já que o falar sobre transita na co-relação entre o narrar/descrever um acontecimento singular, estabelecendo sua relação com um campo de saberes já reconhecido pelo interlocutor.
(MARIANI, 1996, p.64)
Como uma modalidade de discurso sobre, o discurso jornalístico produz um efeito de distanciamento do mundo relatado, tornando-o um objeto observável. Para isso, o jornalista projeta a imagem de um observador imparcial, formulando como transparente em seu relato aquilo que é do campo da construção discursiva, e, consequentemente, ideológica, sobre o mundo que aparece como objeto nas páginas do jornal.
Imprime-se a imagem de uma atividade enunciativa que apenas faria uma mediação do leitor com o mundo objetivo, de forma mais literal possível, como se os fatos falassem por si.
A partir de uma posição de enunciação conferida à Imprensa historicamente por efeitos de informatividade e objetividade, a prática discursiva constitutiva do discurso jornalístico apaga o gesto de interpretação para a constituição do noticiado, instituindo como transparentes, naturais, determinados processos de significação sobre uma realidade.
61 Quando apresenta a discussão sobre a regulamentação do (des)armamento no Brasil, o discurso jornalístico traz, em seu bojo, um discurso sobre o discurso jurídico referente ao (des)armamento, conduzindo em seu processo de produção de sentidos um gesto de interpretação da legislação, bem como de suas implicações para a população brasileira. Em sequência, vejamos um breve exemplo desse funcionamento:
Em artigo de opinião publicado em 17 de agosto de 2015, sob o título Mudanças no Estatuto do Desarmamento, O Globo formula:
SD 3: Há, na equivocada tese do incremento do armamentismo, um misto de ingenuidade e esperteza. No primeiro caso, situam-se faixas da sociedade para as quais armar os cidadãos seria um anteparo individual contra a violência. Essa visão não leva em conta que, diante de um bandido armado, o cidadão estará sempre em desvantagem pela surpresa do ataque ou inabilidade do manejo de uma arma, entre outras circunstâncias.
Embarcar nessa opção leva à degradação de princípios constitucionais, descambando-se para irreparáveis equívocos, por exemplo, o justiçamento, a prática de justiça instantânea – com a particularidade de tais tipos de reação terem como principal agravo a possibilidade de deixar ao juízo da sociedade, e não do Estado e suas instituições, a decisão sobre a vida de alguém.
A esperteza se dá na manipulação que setores ligados à indústria armamentista, ou mesmo que comungam de ideologias estranhas à obediência a princípios constitucionais, fazem daquele tipo de ingenuidade para pôr combustível nos movimentos que visam a, pelo esvaziamento do Estatuto, multiplicar a venda de armas e munição.
(Opinião, p.16, 17/08/2015, grifo nosso).
Ao inverter a ordem direta na primeira frase do primeiro parágrafo da SD 03, destaca-se a tomada de posição do jornal diante do armamentismo, pela expressão “equivocada tese”. No entanto, no complemento verbal – “um misto de ingenuidade e esperteza” – é que são apresentados os argumentos contra os defensores do armamentismo, produzindo um efeito de complementariedade com relação à antítese formada pelas palavras “ingenuidade” e “esperteza”, núcleos do sintagma nominal que funciona como complemento.
Sob as palavras “ingenuidade” e “esperteza”, o jornal O Globo estabelece, em seu processo discursivo, a delimitação de possibilidades de significação aos apoiadores do armamentismo.
62 Em continuação, no fio discursivo dessa sequência, a partir de uma passiva sintética (situam-se), caracteriza-se um dos grupos partidários do armamentismo (os ingênuos), pelo sintagma “faixas da sociedade para as quais armar os cidadãos seria um anteparo individual contra a violência”. O uso do partitivo “faixas da” funciona como um termo que restringe o universo desse grupo de partidários, discriminados pela oração relativa restritiva “para as quais armar os cidadãos seria um anteparo individual contra a violência”, que no intradiscurso se apresenta como um termo qualificativo dessa parcela de adeptos do armamentismo.
Com os sintagmas “essa visão” e “nessa opção”, retoma-se anaforicamente o enunciado “armar os cidadãos seria um anteparo individual contra a violência”, o que se constitui num “já-dito” filiado à uma memória de defesa do armamento. Estes sintagmas acabam deslocando-se a contra-argumentos que deslizam para uma produção de sentidos associada a filiações de sentido em prol do desarmamento.
No segundo parágrafo, por exemplo, o sintagma verbal “embarcar nessa opção” funciona como sujeito do predicado iniciado pelo verbo “leva”, filiando o armamentismo ao efeito de degradação. Essa oração reduzida de infinitivo encadeia-se anaforicamente ao enunciado – “armar os cidadãos seria um anteparo individual contra a violência” – o qual se une à predição iniciada pelos verbos “leva” e “descambando-se”, como “degradação de princípios constitucionais” e “irreparáveis equívocos”.
Apresentam-se ainda argumentos da formação discursiva desarmamentista quando vincula-se a segurança pública como princípio constitucional a ser defendido pelo Estado e suas instituições, reforçando o efeito de contrariedade ao armamento dos cidadãos.
No último parágrafo da SD, o substantivo “esperteza” materializa, no fio discursivo, uma outra delimitação de sentido aos legionários do armamentismo, discriminados pelos qualificativos “setores ligados à indústria armamentista” ou “que comungam de ideologias estranhas à obediência a princípios constitucionais”. Tais expressões estabelecem como efeito de sentido uma associação do armamentismo aos interesses econômicos e às posições político-ideológicas.
63 Como forma de discurso sobre, o discurso jornalístico produz como evidência um olhar de distanciamento quanto à análise da questão do (des)armamento de civis. Contudo, como exemplificado na SD apresentada, está sempre em jogo em sua prática um processo de produção de sentidos sobre o assunto tematizado, filiado ao posicionamento ideológico do jornal.
Como exemplificado pela SD 03, O Globo circunscreve em sua formulação determinadas possibilidades de constituição de sentidos sobre as motivações daqueles que defendem o armamentismo. Além disso, reforça o próprio posicionamento do jornal frente ao controle do uso de armas pela população brasileira.
Ao trazer em suas páginas o (des)armamento como pauta, o periódico carioca está produzindo um recorte sobre um tema da atualidade, construindo-o como um acontecimento jornalístico. Como recorte, representa a delimitação de possibilidades de constituição de determinados sentidos como evidentes. Contudo, em contrapartida, apaga ou silencia outras formas de significação sobre a questão das armas.
Aproveitando o mote, falaremos um pouco mais sobre o acontecimento discursivo e o acontecimento jornalístico na nossa próxima seção.