Capítulo 3: Elaboração de estudos de improvisação idiomática (referents) organizados a partir da combinação
3.4. Idiomatímo técnico instrumental do trompete
A nomenclatura “idiomatismo” (e suas variantes) frequentemente é utilizada em trabalhos musicais. Todavia, aparece em diferentes acepções. Já no primeiro capítulo da presente dissertação aparece o termo “improvisação idiomática” para delimitar um tipo de prática de improvisação que tem como finalidade a configuração de estilos musicais pré- estabelecidos (BAILEY, 1993, p. xii).
Outra acepção do termo idiomatismo é encontrado em Thiago Kreutz (2014, p. 103- 104). Para o referido autor, essa expressão diz respeito tanto a um determinado estilo, ou procedimentos composicionais típicos explorados por determinado compositor/escola, quanto pode se referir às possibilidades técnicas de determinado instrumento.
A partir das próximas páginas dessa dissertação, o termo idiomatismo será abordado principalmente para descrever as possibilidades de execução de um instrumento musical, ou seja, as especificidades técnicas instrumentais de dado instrumento. De acordo com Kreutz:
O idiomatismo instrumental compreende características de escrita típicas de um instrumento. Dentre os assuntos que o termo engloba destacamos: técnicas específicas de execução; possibilidades físicas e mecânicas; procedimentos típicos da escrita/maneirismos; nível de exequibilidade/dificuldade; conhecimento de obras relevantes para o instrumento; recursos expressivos; técnicas estendidas, etc. (2014, p. 105)
Acerca dessa temática, os autores David Huron e Jonathon Berec complementam que uma obra musical idiomática, no que tange à questão técnico/instrumental, é a adequação de pensamentos musicais para algum instrumento (levando-se em consideração peculiaridades desse), com a qual se busca alternativas que sejam mais facilmente executáveis do ponto de vista técnico. Entretanto, é importante salientar que idiomatismo não significa o mesmo que facilidade.
A ideia de facilidade, na acepção desses autores, está relacionada a um parâmetro comparativo entre as possíveis adaptações de pensamentos musicais à escolha de quais instrumentos possam executar melhor tais pensamentos. Partindo da perspectiva dos autores supracitados acerca desse ponto, “apesar de o nível de dificuldade de uma peça não ser o mesmo que idiomatismo, […] a medida de dificuldade de uma performance é um pré-requisito para mensurar o idiomatismo instrumental”125 (HURON; BEREC, 2009, p. 105).
125 “While degree of difficulty is not the same as idiomaticism, we will see later that a measure of performance
Nesse sentido, no caso da presente dissertação, cuja finalidade é contemplar a elaboração de estudos melódicos que visem o desenvolvimento de vocabulário musical do trompetista almejando improvisar no gênero MPIB, faz-se necessário conhecer especificidades técnicas desse instrumento.
Portanto, a seguir serão apresentados os aspectos mecânicos do trompete apontados por Huron e Berec, fazendo-se uso do modelo mecânico126 proposto pelos autores (idem, p. 106).
Esses aspectos mecânicos são: digitação, registro, resistência, respiração, transições intervalares, dinâmica e articulação, os quais foram levados em conta para a elaboração dos estudos melódicos propostos no próximo subitem.
Digitação – esse aspecto diz respeito às sete possibilidades de combinações de pistões do trompete. Um tópico que é importante, dentro dessa temática, para o presente trabalho está relacionado às possibilidades e seu relativo grau de dificuldade de transições das combinações entre pistões. Huron e Berec (idem, p. 107) definiram o grau relativo de dificuldade em uma escala numérica que varia de 0,0 (trivial) a 10,0 (maior dificuldade). 0 = posição aberta; 1 = primeiro piston; 2 = segundo piston; 1-3 = primeiro e terceiro piston etc., para cada transição de combinação de pistões.
Tabela 1: Média de dificuldade para transições de combinações de pistões (HURON; BEREC, 2009, p. 107)
A Tabela 2 explicita quais notas são tocadas em quais combinações nos sete primeiros harmônicos do trompete, que compreende a tessitura entre Fá sustenido 2 e Dó 5. Os números representam os pistões.
126 Para a elaboração do referido modelo, foi utilizado linguagem de programação AWK (HURON; BEREC, 2009,
p. 111), fazendo-se uso de dados obtidos com 2 trompetistas, um profissional de orquestra e um amador ativo (idem, p.106).
0 2 1 1-2 2-3 1-3 1-2-3 Dó 3 Si 2 Lá# 2 Lá 2 Sol# 2 Sol 2 Fá# 2 Sol 3 Fa# 3 Fá 3 Mi 3 Ré# 3 Ré 3 Dó#3 Dó 4 Si 3 Lá# 3 Lá 3 Sol# 3 Sol 3* Fá# 3* Mi 4 Ré# 4 Ré 4 Dó# 4 Dó 4* Si 3* A# 3* Sol 4 Fa# 4 Fá 4 Mi 4* Ré# 4* Ré 4* Dó# 4* Lá# 4* Lá 4* Sol# 4* Sol 4* Fá# 4* Fá 4* Mi 4* Dó 5 Si 4 Lá# 4 Lá 4 Sol# 4 Sol 4* Fá# 4*
Tabela 2: Relação de combinação de pistões com notas (*notas pouco usadas na respectiva posição, conhecidas como posições auxiliares), onde # significa sustenido
Registro – esse aspecto aponta as regiões grave médio e agudo em que são possíveis a utilização do trompete. Segundo o modelo proposto por Huron e Berec, a região aguda pode ser de maior complexidade do que as demais, como pode ser averiguado na Tabela 3:
Registro agudo (Sol 4 para cima) 9,5
Registro médio (Sol 3 até Fa# 4) 5,0
Registro grave (Sol 2 até Fá# 3) 4,25
Tabela 3: Dificuldade relacionada a registro (HURON; BEREC, 2009, p. 107)127
Resistência – diz respeito à duração de tempo que o trompetista consegue tocar. Existem fatores que podem comprometer a performance do trompetista nesse aspecto, tais como: tocar muito no registro agudo, falta de pausas, execução de intervalos melódicos distantes etc.
Um fator que está intimamente relacionado à resistência diz respeito ao bom funcionamento da embocadura. Para Paulo Adriano Ronqui:
Cansaço físico ou pressão exagerada do bocal contra os dentes, atrelados à quantidade insuficiente de ar nos pulmões, prejudicam a embocadura, uma vez que só há vibração labial, se houver ar. Aconselha-se ao instrumentista de bocal não tentar manipular os músculos específicos responsáveis pela embocadura, pois a preocupação demasiada com esses músculos pode provocar tensão e prejudicar a vibração dos lábios. O movimento conjunto que se inicia na coluna de ar, passando pela glote, envolvendo a língua, os dentes, o maxilar e a musculatura facial, culmina na vibração do ar, consequentemente na produção do som. (RONQUI, 2010, p. 94 -95)
127 No presente artigo, encontra-se uma correção do modelo proposto por Huron e Berec, que originalmente é:
Respiração – esse parâmetro pode ser entendido por dois viéses, ou seja, como aspecto mecânico e como aspecto interpretativo. Como aspecto mecânico, haja vista que o trompete é um instrumento de sopro, o ar é sem dúvida o principal veículo para a emissão de sonoridade, assim, é necessário que um trecho a ser executado tenha momentos que permitam ao trompetista tomar respirações. De acordo com Ronqui:
Para se produzir qualquer tipo de som em um instrumento de sopro (uma nota curta ou de grande duração de tempo), deve-se inalar a maior quantidade de ar possível. Quanto à expiração, o mais importante fator consiste no controle da velocidade do ar introduzido no instrumento através da vibração [...], o ar é a matéria-prima do som nos instrumentos de sopro. Portanto aconselha-se ao instrumentista inspirar sempre o máximo possível (respiração completa), por acreditar que esse tipo de respiração ajuda o indivíduo a permanecer calmo, evita qualquer tipo de pânico durante a performance e proporciona menor esforço na expiração. (2010, p. 94).
O referido autor acrescenta:
No ato da inspiração, os músculos do abdômen e ombros devem estar relaxados para que o trabalho involuntário do diafragma ocorra de forma natural. Se os músculos do abdômen estiverem excessivamente tensos, pode ocorrer bloqueio da passagem de ar pela garganta. Se os ombros estiverem levantados, a capacidade de ar dos pulmões pode ficar diminuída. (RONQUI, 2010, p. 94)
Sobre o aspecto interpretativo, a respiração também deve ser entendida como recurso que auxilia na inteligibilidade do discurso musical, pois pode ser utilizada para a delimitação de frases.
Transições intervalares – esse aspecto está relacionado à execução de mudanças de notas, tanto por grau conjunto como por salto. A base para a boa execução desse parâmetro se relaciona ao controle otimizado de coluna de ar, pois é a base para se obter uma boa fluência, aqui entendida como a capacidade de se executar mudanças de notas sem que ocorram quebras na coluna de ar.
Um parâmetro do trompete que alicerça uma boa fluência na execução de diferentes transições intervalares diz respeito à flexibilidade, entendida como a capacidade de se mudar os harmônicos no trompete sem o auxílio de pistões, ou seja, tocar notas diferentes na mesma posição. Nesse sentido, o bom domínio da coluna de ar é crucial para a geração das pressões responsáveis pela possibilidade de mudanças de notas.
Diferente dos instrumentos de sopro do naipe de madeira, o trompete não possui chaves de registro, o que torna a execução de determinados intervalos mais complexa, como pode ser visto na Tabela 4, que apresenta a média de dificuldade de transições intervalares proposta por Huron e Berec, nas regiões grave, média e aguda do trompete.
Tabela 4: Média de dificuldade dos intervalos melódicos (HURON; BEREC, 2009, p. 107)128
Dinâmicas129 – relaciona-se à intensidade na qual o trompetista irá executar a música
(ou o estudo proposto). Nesse caso, estamos diante da dinâmica de decibéis.
Tabela 5: Média do nível de dificuldade em relação à dinâmica (HURON; BEREC, 2009, p. 108)
128 Na Tabela 4, a sigla p1 significa perfect 1, ou seja, primeira justa e assim sucessivamente.
129 Vale ressaltar a existência de outras espécies de dinâmica, tais como: dinâmica de acústica – é uma característica
da maioria dos instrumentos de sopro. Quando se toca em intervalos ascendentes, existe a tendência de a nota superior soar mais forte do que a nota inferior; dinâmica de vibração – é o efeito do vibrato que pode ser produzido através de contrações repetidas da musculatura abdominal, modificando a velocidade da coluna de ar. Este efeito também pode ser alcançado através do uso da garganta e/ou maxilar, ou pelo movimento da mão que segura o instrumento; dinâmica rítmica – é uma técnica composicional empregada para dar maior presença e destaque a determinada frase ou motivo musical; dinâmica de articulação – refere-se a acentos e corte de notas (staccatos) que alteram a projeção do som e, consequentemente, a dinâmica; e dinâmica de timbre – é aquela baseada na qualidade do timbre do som (RONQUI, 2010, p. 96).
Articulação – relaciona-se à pronúncia de uma nota, que pode ser, a depender da intenção musical, abrupta, suave, leve, etc. Segundo Ronqui (2010, p. 93), a articulação está relacionada com a conexão entre notas, o que pode acontecer “por meio do som ou do silêncio, através de ligaduras ou de articulação (notas destacadas)”.
Vale ressaltar que existem variadas possibilidades de articulações. Algumas listadas por Passos são: “Staccato, o Heavy Accent [Marcatto], o Tenuto, o Scoop, o Bend, o Gliss/rip, o Short fall, o Pitch closed sound e o Ghost note” (PASSOS, 2016, p. 65-66). Todavia, para a confecção dos exercícios melódicos, foram utilizadas apenas o Staccato, o Tenuto, o Ligado e o Marcatto.
A partir das reflexões apresentadas acerca do idiomatismo técnico/instrumental do trompete, foram elaborados estudos melódicos, que serão apresentados no próximo subitem. Existem situações nas quais determinados aspectos apresentam determinadas dificuldades que não puderam ser evitadas, como no caso de digitações em dadas tonalidades.
Para além do desenvolvimento de vocabulário musical a partir do frevo e do baião, espera-se que os estudos propostos auxiliem também no aperfeiçoamento técnico do trompetista, tanto quanto no desenvolvimento da percepção musical harmônica e melódica.
3.5. Proposição de estudo para o desenvolvimento de vocabulário musical para improvisação