II. ESPORTE E CIDADANIA
5. USOS, ABUSOS, CONTRADIÇÕES E CONSENSOS NO ESPORTE
5.2. Instrumentalidade do Esporte
5.2.2. Idolatria como instrumental
Os estudos relacionados ao esporte sob um enfoque especificamente social têm crescido bastante em todo o mundo. De modo geral, o futebol abarca a grande maioria deles. Conforme afirma Piza (apud GIULIANOTTI, 2002), o futebol é o mais globalizado dos esportes. No Brasil, a imensa maioria dos estudos sobre esporte, dentro das ciências sociais, número ainda reduzido, trata do futebol, principalmente em uma perspectiva da Antropologia, em relação às idéias mitológicas que se configuraram no entorno desse fenômeno.
Destacam-se, aqui, dois aspectos que se considera relevante nesses estudos: a idéia do futebol como um talento natural ou uma característica inata do brasileiro, principalmente do brasileiro pobre; e a crença na mobilidade social a partir dessa prática, com base no talento natural e na convicção do sucesso pelo esforço individual.
A relação direta que se faz da escassez (dificuldade econômica) com o desenvolvimento do esporte (principalmente o futebol no Brasil) não é recente. Ela alicerçou suas bases no processo de profissionalização do esporte no Brasil, com a possibilidade de ascensão dos pobres mediante essa prática.
De acordo com Soares (2001:20), “da escassez e da intuição nasceria o estilo brasileiro de futebol, isto é, o elemento mágico de que o herói precisa para vencer as adversidades. É comum em países subdesenvolvidos e pobres a crença que são mais criativos em função da escassez”. Os “meninos brasileiros nascem sabendo jogar futebol” (DAOLIO, 1995:40), mais especificamente os meninos brasileiros pobres.
Soares (2001) argumenta, em relação às equipes que foram vitoriosas, que quase ninguém lembra o quanto essas equipes treinaram, ou de outras variáveis indicadoras do sucesso alcançado. Porém, a capacidade mágica de improvisação é sempre lembrada. É com a figura de Pelé que, definitivamente, Mário Filho
(autor de O negro no futebol do Brasil) vai demonstrar que o negro poderia ser negro e ter orgulho da sua “raça” (SOARES, 2001).
Conforme Soares (2001:30),
o futebol estaria no “sangue” afro-brasileiro (...) Nesse tipo de construção está suposto que os negros se possuíam uma habilidade natural ou historicamente condicionada, apenas aprenderam o formato do jogo: os objetivos e as regras do esporte (...) elogio da sensibilidade e habilidade corporal. O negro seria “naturalmente” bom para o trabalho pesado e para a expressão estética na dança, na luta da capoeira e na música. A capacidade intelectual ou de razão e de condução ficava, por certo, fora do elogio. O argumento a favor do negro no futebol poderia tornar o preconceito tradicional virtude esportiva. (grifo meu).
Nesse quadro, a mobilidade social corresponde, também, à “mobilidade racial” (SOARES, 2001).
Todas essas idéias alicerçaram-se ao longo da história e não somente no Brasil, conforme se observa nas palavras de Coubertin – “pai” da olimpíada moderna – em 1918 (apud TAVARES, 2003:11):
Desigualdade nos esportes é baseada na justiça, por que o indivíduo deve o sucesso que ele obtém apenas às suas qualidades naturais multiplicadas pelo poder de seu desejo; é além disto uma desigualdade muito instável, porque esta forma efêmera de sucesso exige contínuo esforço.
Essas idéias influenciaram o desenvolvimento do esporte ao longo de sua história, e fortaleceu-se a crença na possibilidade de ascensão social dos estratos mais pobres da população mediante a prática do esporte. O fato de ser brasileiro e ter “talento natural” auxilia o processo, juntamente com a forte crença de que o sucesso depende apenas do trabalho duro e que o fracasso é falta de esforço. Os exemplos transmitidos pela mídia de atletas que alcançaram o sucesso serviram muito para alicerçar essas idéias.
Normalmente, as trajetórias de vida dos atletas, rumo à fama e ao estrelato, costumam ser narradas pela mídia de forma mítica, e as biografias dos ídolos chamam muito a atenção para a infância pobre (HELAL, 2001). A quantidade de ídolos na história do futebol brasileiro é muito grande, mas também é crescente esse processo no voleibol, no judô, no basquetebol, no atletismo, etc. Mais
recentemente, no século XXI, acompanhou-se o apogeu da ginasta brasileira Daiane dos Santos, negra e de origem humilde, que, com muito talento e esforço, alcançou a vitória e o sucesso, o que acendeu as expectativas de vida de muitas meninas brasileiras.
Nunes (apud HELAL, 2001:146) afirma, em relação às trajetórias dos ídolos esportivos, que “foi com absoluta convicção que ele pode comprovar, mais uma vez, que o trabalho com determinação é o capital que menos falha”. Observa- se, aí, a perspectiva liberal amplamente difundida no mundo capitalista. De acordo com Helal (2001), a postura “anglo-saxônica” é enfatizada tanto ou mais até do que o talento extraordinário do atleta.
Há uma particularidade concreta no esporte, que é o fato do “potencial físico” não poder ser ocultado. Esse aspecto constrói, também, uma crença mítica que reforça as anteriormente citadas. A crença de que com potencial natural (talento) e com esforço próprio se possa “chegar lá”, pois o potencial esportivo estaria livre de clientelismos. Cabe, aqui, perguntar, se o esporte estaria tão impermeável, alienado e imune a essas práticas sociais (HELAL, 2001). A história tem demonstrado que não, conforme os exemplos já destacados neste estudo. O esporte, com destaque para o futebol no Brasil, tem uma importância política e simbólica profunda (GIULIANOTTI, 2002).
Não parece um equívoco propiciar uma vivência participativa e includente para “aqueles” menos favorecidos através da manifestação esportiva. O equívoco seria limitar esse âmbito como “o único lugar para eles”, pois não encontrariam outras oportunidades por falta de capacidade. Aí se encontra o aspecto instrumental disfuncional que não valoriza o potencial positivo do esporte, que reduz o fenômeno esportivo indo contra uma perspectiva ampla de construção de cidadania – à qual legitimaria essas práticas – e que, fundamentalmente tornaria as ações esportivas paliativas e promotoras de reprodução social. Nessa linha, estariam de acordo com a “receita” criticada por Schwartzman (2004), em que a única solução seria transformar a miséria viciada em pobreza virtuosa, trazendo todos para o mercado, o mercado esportivo.
A imagem do atleta, como ‘herói desportivo’, projetada pelos meios de comunicação de massa constitui um importante instrumento de fácil comercialização e de valor de venda inusitado (SILVA, 2001). Observa-se o exemplo do caso Zico, uma lição de vida (HELAL, 2001:141), no depoimento do próprio atleta:
“Sempre entendi, desde menino, que ninguém será capaz de exercer bem a sua profissão, sem se exercitar bastante e sempre, para o exercício dela. Afinal, não aprendemos que o maior merecimento dos vitoriosos é confiar, apaixonadamente, na eficácia do trabalho? Acho que isto deveria ser, sempre, o objetivo maior de cada um de nós: lutar por aquilo que se gosta. A vitória será conseqüência. Mas, sem dúvida, muita luta, muito trabalho, muito suor existem no caminho da determinação de cada um”.
Helal (2001:138) destaca que
a biografia de Zico fala de uma outra realidade, calçada primordialmente no predomínio do esforço e da determinação como instrumentos basilares para se alcançar êxito. (...) a biografia de Zico ao enfatizar, de forma peremptória, o sucesso através do esforço e do trabalho, junta-se aos modelos de heróis mais próximos das sociedades anglo-saxônicas, permeadas por uma ética única do trabalho e do indivíduo.
O autor afirma que a FTD, editora que publicou o livro, é especializada em bibliografias dirigidas para o público juvenil. A publicação da biografia de Zico revelaria a crença na importância da sua história para a formação do caráter dos jovens (HELAL, 2001).
Essa perspectiva constrói, no imaginário coletivo, a idéia de que, seguindo essa “receita”, o sucesso está garantido como recompensa, impossibilitando uma leitura mais ampla da realidade social. Assim, diz Cardoso (2003), não há nenhuma garantia de sucesso ou “espaço” no mercado mesmo para aqueles que investem e dedicam grandes esforços.
Ao ser legitimada uma trajetória de vida pessoal e profissional, principalmente com muito sucesso, surge uma série de conseqüências que pode ter aspectos positivos, mas também negativos.
Giulianotti (2002:121) cita um caso que considera puro imperialismo cultural:
Parece ter se desenrolado entre o Brasil e o Japão. O famoso brasileiro Zico e proprietário do time de um clube em crescimento no Rio de Janeiro, patrocinado por seu clube anterior japonês, Kashima Antlers. O arranjo permite que os jogadores circulem entre os dois clubes. O lucro líquido favorece apenas o clube japonês, enquanto seu parceiro brasileiro é transformado em um campo de treino glorioso. Os jovens japoneses têm benefício de jogar com os jogadores e técnicos brasileiros. Mas o Kashima Antlers tem o direito de escolher todos os craques do clube: o status de Zico no Brasil garante que milhões de jovens jogadores aspirem juntar-se a ele. Uma situação mais sinistra prevalece na África ocidental. Um agente do futebol italiano fundou um clube em Gana para recrutar jovens jogadores que possam ser, então, vendidos para Europa quando atingirem dezesseis anos de idade, um sistema denunciado pelas autoridades de futebol italiano como “escravidão” (...) Portanto, o envolvimento ocidental no desenvolvimento dos esportes no Terceiro Mundo tende a mascarar casos de imperialismo clássico, transformando o atleta em mercadoria como o grão de café ou a banana. Agentes ocidentais constroem campos de treino para refinar o material bruto e rico de talento nos esportes, que aceita a oferta específica. Os produtos mais finos são enviados para serem consumidos pelo afluente mercado ocidental; o resíduo inferior é deixado para a população local.
Em outro exemplo similar, Aquino (2002:111) afirma:
O Jornal do Brasil, de 9 de agosto de 2001, noticiou a criação do Projeto Comunitário Europeu. Organizado em São Paulo pela Portuguesa de Desportos, implica a montagem do primeiro time de futebol para exportação no Brasil. Nele, não bastava ser bom de bola, tinha de ser filho ou neto de imigrantes do Velho Mundo. A notícia também informava que jogadores juvenis do projeto embarcariam para fazer testes em clubes italianos e suíços.
Esses exemplos apontam para a instrumentalidade do fenômeno esportivo em um contexto distinto daquele que poderia contribuir para o desenvolvimento da cidadania, e que, infelizmente, tem cada vez mais, se sedimentado na sociedade brasileira, movimentando um astronômico mercado esportivo.