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II. ESPORTE E CIDADANIA

5. USOS, ABUSOS, CONTRADIÇÕES E CONSENSOS NO ESPORTE

5.2. Instrumentalidade do Esporte

5.2.1. Legitimidade

O esporte é um fenômeno social culturalmente construído, ou seja, o esporte é construído, reproduzido e transformado em sociedade. Afinal, o que qualifica a ação corporal humana é o sentido ou significado desta ação (BRACHT, 2003), sentido que é a expressão de nossa cultura.

Cada sociedade constrói técnicas de movimento (Mauss apud DAOLIO, 1995) à sua maneira, de forma que, mesmo um esporte que tomou uma dimensão planetária tem formas específicas de ser realizado de acordo com sua cultura, não apenas no sentido técnico/tático – na forma como determinadas culturas executam, ensinam e treinam determinadas habilidades motoras, o tipo de defesa e ataque que utilizam em seus jogos, etc. – mas, também, e principalmente, na dimensão de sua representação simbólica.

Afinal de contas, se o esporte é um fenômeno socialmente construído, ele envolve muito mais do que apenas técnicas e táticas. Nessa perspectiva, Damo (2002:50), ao falar sobre futebol diz que, “além do domínio das técnicas corporais propriamente ditas, nas peladas são aprendidos certos códigos, valores e atitudes que dizem respeito à sociabilidade e ao conflito dentro e fora do grupo, do time e do pedaço. (...) como instituição laica onde se aprende e se ensinam noções elementares de fidelidade, honradez e pertencimento grupal”.

O futebol, no Brasil, tomou a dimensão de expressão da cultura brasileira, do mesmo modo que outras manifestações, por exemplo, o samba e o carnaval, exercendo importante função como elemento de identificação cultural do brasileiro. Daolio (2003:156) afirma que não é exagero dizer que a sociedade brasileira está impregnada de futebol, “no nascimento de uma criança (...) ela recebe um nome, uma religião e um time de futebol”. O futebol tornou-se quase que uma “marca natural” dos brasileiros. No ano de 2006, ano de copa do mundo, as camisetas

oficiais da seleção brasileira vendidas tinham impresso o slogan “nascido para jogar futebol”.

Mas o futebol não penetrou apenas no Brasil. Ele se disseminou, como outros esportes, por todo o planeta. Por que o esporte tomou tamanha dimensão? O esporte está presente na vida das pessoas, em diferentes proporções: atletas amadores, profissionais, participantes assíduos ou ocasionais, espectadores, torcedores, entre outros.

Ao se relacionar essa questão à observação de Guiddens (1998:109), de que “toda reprodução social em larga escala ocorre de acordo com condições de intencionalidade mista”, o que faz com que um fenômeno permaneça e se reproduza socialmente, em larga escala, decorre de uma série de condições intencionais ou não ao longo do processo histórico, das conseqüências objetivas ou subjetivas que as funções relacionadas ao fenômeno exercem (MERTON, 1970), ou seja, um conjunto de fatores e não um aspecto apenas.

Quanto ao gigantesco alcance do futebol, as teorias são inúmeras. Muitas são as características atribuídas ao potencial “popular” do futebol. Um esporte que não predefine atletas pelas características físicas. A simplicidade da prática – no que se refere ao material – é muito lembrada como facilitadora para popularização do futebol, seja com bola de meia, lata, tampinha, plástico (DAOLIO, 2003). A imprevisibilidade dos resultados, ou seja, muitas vezes uma equipe tecnicamente inferior com “um pouco de sorte” pode ganhar de uma equipe superior. É comum ouvir dizer que o futebol é o esporte mais “democrático” que existe (Piza apud GIULIANOTTI, 2002).

Qualquer um, inclusive indivíduos de segmentos pobres e não alfabetizados da sociedade, poderiam praticá-lo facilmente segundo as regras. Bastava dispor de uma bola, de couro ou de pano, para animar um ‘racha’. O campo podia ser um terreno baldio, uma várzea, uma praça ou uma rua (AQUINO, 2002:32).

Em outra linha, Damo (2002) aponta que ao se observar a popularidade do futebol em regiões tão díspares do ponto de vista macroeconômico, como é o caso da Europa Ocidental e da América do Sul, é possível concluir facilmente que

a pretensa conexão entre o futebol e a pobreza é inexistente, sendo improcedente a tese de que a precariedade econômica do povo brasileiro determinou a sua inclinação por um esporte barato. Para o autor, o fato de as regras do futebol se apresentarem aparentemente tão simples e até mesmo óbvias decorre, principalmente, do fato deste esporte fazer parte do processo de socialização dos brasileiros.

Como já se destacou anteriormente, um dos importantes aspectos de desenvolvimento de tamanho alcance do esporte, a partir da modernidade, é que ele foi um importante componente de afirmação e identificação da nacionalidade no processo de constituição dos Estados-nação. Mas, o ponto que se deseja alcançar é que elementos subjetivos estão implícitos no fenômeno esportivo, ou ainda, apontar que característica poder-se-ia considerar comum e, talvez, inerente a todo fenômeno esportivo – sejam os jogos, as ginásticas, as lutas, as danças –, em distintas sociedades, e que o tem legitimado ao longo da história como uma atividade moralmente aceitável e funcional para a sociedade. Esses aspectos fazem do esporte um instrumento presente na grande maioria das políticas sociais preventivas.

Consideram-se aqui, três elementos fundamentais: agregação, no sentido de que o esporte em sua perspectiva coletiva reúne as pessoas, a partir de um objetivo que normalmente lhes é prazeroso; participação, no sentido de que a vivência prática do esporte “chama à participação ativa” (é impossível vivenciar uma prática esportiva sem “fazer parte de”, seja na definição das normas de ação, como na ação em si); e a integração, no sentido de colocar as pessoas em pé de igualdade dentro de regras estabelecidas pelo grupo (oficiais ou não) com vistas a um objetivo. Pode-se considerar que, se algo é inerente ao esporte e pode ser um instrumental realmente válido na construção da cidadania, ‘esse algo’ são seus potenciais de agregação, participação e integração social (VARGAS, 2001), o que justificaria o interesse e retorno da sociedade a essas políticas e, conseqüentemente, o próprio interesse crescente em políticas sociais nessa linha de ação.

Muitos autores destacam potenciais do fenômeno esportivo nessa linha de pensamento. Giulianotti (2002) afirma que o esporte pode intensificar os vínculos culturais e a integração social de diferentes indivíduos dentro das sociedades modernas. Silva (2001) destaca que o que projeta a importância do esporte nos campos cultural, político, social e econômico é seu potencial como instrumento de socialização, educação, meio de mobilização de grupos populacionais.

Segundo Friedberg (1995:133), “o jogo constitui a figura fundamental da cooperação humana, a única que permite conciliar a idéia de constrangimento e a de liberdade, a idéia de conflito, de concorrência e de cooperação, a única, também, a acentuar, desde logo, o caráter coletivo e o substrato relacional da construção da cooperação”.

O esporte apresenta-se atrativo também em suas facetas de participação, lazer e saúde, congregando elementos que lhe permitem ser um valioso instrumento, objetivando a liberdade, o humanismo, a participação voluntária, a solidariedade, a responsabilidade pessoal e social, por meio de atividades individuais e coletivas. Cerqueira (2004) afirma que, quanto maior for o envolvimento do cidadão no sistema social, quanto maiores forem seus elos com a sociedade, menores seriam as chances de esse ator se tornar um criminoso, aspecto este que também colabora com o fato de o esporte, sendo uma atividade moralmente aceitável, estar tão presente em políticas sociais preventivas.

Para Lovisolo (2001), esse campo, formado por esporte, música e dança, apresenta-se muito aberto à participação, principalmente daqueles que encontram dificuldades sérias na educação, na economia e na política. Portanto, o esporte destaca-se como uma oportunidade para os excluídos, os sem possibilidades em áreas que exigem maiores qualificações, sendo apontado como instrumento eficaz na prevenção e recuperação de setores marginalizados da população, um instrumento capaz de produzir cultura cívica, identificação nacional e cidadania.

Destaca-se, aqui, na perspectiva de torcedores e expectadores, o binômio participação-integração que possibilita aos excluídos o sentir-se “parte de”.

grandes metrópoles. Esta sensação do “fazer parte de” (...) O futebol pode catalisar também a experiência de igualdade, que o indivíduo sabe não ter em quase todas as situações da vida, mas que no futebol é exercitada. Para torcer por uma equipe, não é necessário ter renda mínima, grau de instrução ou emprego fixo (...). Não importa se o meio de transporte para se chegar ao estádio foi o carro próprio ou o ônibus superlotado. Lá dentro, todos têm a mesma função e o mesmo desejo: a vitória do seu time. (...) Um jogo da seleção é capaz de reavivar a idéia de coletivo, de fraternidade e de união (DAOLIO, 2003:174).

Sobre as manifestações esportivas:

O espaço público torna-se de domínio privado, intimista, com desconhecidos comunicando-se entre si em total frenesi. Com poucas oportunidades para manifestações coletivas de sentimentos intensos, o homem moderno encontra neste espetáculo esportivo, uma experiência única e singular que ganha uma dimensão simbólica ainda maior em um país onde a totalidade, o sentido patriótico e a identidade nacional são mais facilmente atingidos nas esferas informais (DaMatta apud HELAL, 2001:151).

O fato de compartilharem algo em comum transforma desconhecidos em “cidadãos futebolísticos”, promovendo sua identificação imediata com um sistema simbólico específico (MACHADO, 2003:187).

Torcer é mesmo que pertencer, o que significa, literalmente, fazer parte, tomar partido, assumir certos riscos e vivenciar excitações agradáveis ou frustrações. Torcer por um clube de futebol é participar ativamente da vida social, construindo identidades que extrapolam o indivíduo, a casa e a família. Vivencia-se concretamente o pertencimento na rua, no estádio, em pleno domínio público (DAMO, 2002:12).

Conforme afirma Tavares (2003), não se pode incorrer no erro do que ele chama de uma das mais generalizadas crenças sobre o esporte em nosso tempo, de que, através do esporte, pode-se experimentar a redução das diferenças sociais. Porém, embora as experiências de “fazer parte de” proporcionadas pelo esporte nem sempre se ampliem para além das quatro linhas que delimitam essa manifestação, cita-se novamente, o argumento da eficácia do plano simbólico e de sua materialização a partir do imaginário coletivo, com resultados no plano concreto. Para os “excluídos”, sentir-se parte dessas manifestações parece fundamental.

O esporte apresenta-se como um fenômeno com uma dimensão social extremamente relevante, guardando, ainda, particularidades destacáveis. De acordo com Viana (apud VARGAS, 2001:18) é uma manifestação que,

resiste às diversidades religiosas, étnicas, políticas, ideológicas etc., razão por que, normalmente não pode se submeter ao direito comum de cada nação, pois este se define em função de convicções doutrinárias, religiosas, ideológicas, econômicas etc.

Bourdieu (apud GIULIANOTTI 2002:12) afirma que

a história do esporte é uma história relativamente autônoma, que mesmo marcada por acontecimentos importantes da história econômica e social, tem seu próprio tempo, suas próprias leis de evolução, suas crises, em síntese, sua cronologia específica.

E Teves (apud VARGAS, 2001:19) salienta que

o jogo pressupõe uma relação espaço-temporal distinta da realidade. No espaço e no tempo específicos do jogo algo acontece e o indivíduo se comporta não somente pela percepção imediata dos objetos, mas também pelas circunstâncias objetivas de sua atuação. O que afeta diretamente é o significado daquela situação. Nesse sentido, o jogo se circunscreve na esfera do sagrado, se constitui como um lugar ‘outro’ que não aquele da mundanidade.

Esses aspectos não apontam o esporte distanciado da realidade em que se desenvolve, mas destacam que esse fenômeno guarda seus elementos inerentes no decorrer dos processos históricos, o que garante sua perpetuação. Assim como na origem – que a atividade esportiva tinha cunho religioso – o esporte na atualidade – com outros objetivos –, continua agregando pessoas.

Ao se considerar alguns aspectos do esporte, como o caráter coletivo – não somente relacionado a esportes oficialmente considerados coletivos, mas no sentido de qualquer atividade física realizada com um grupo –, participativo, relacional, de pertencimento grupal, cooperativo e integrativo pode-se encontrar uma íntima relação com aspectos relacionados a uma perspectiva de cidadania humanista, em que a cultura e o grupo integrado é que conferem identidade ao indivíduo, processo construído em contextos culturais compartilhados em sociedade, com ênfase na solidariedade social.

Concorda-se com Daolio (2003), ao afirmar que o esporte não é nem bom nem mau, certo ou errado, expressão generosa do povo brasileiro ou seu ópio. Constitui-se em uma forma de expressão da sociedade, refletindo-a de modo

dinâmico, apresentando funções e disfunções (MERTON, 1970). Com todas as contradições possíveis o esporte é ou pode ser uma forma de cidadania.