3. A ECLESIALIDADE DO CRISTIANISMO: PERTENÇA PELA FÉ
3.2 A ECLESIALIDADE DO CRISTÃO: PERTENÇA PELA FÉ
3.2.1 IGREJA, COMMUNIO ECCLESIALIS: INICIAÇÃO À VIDA COMUNITÁRIA-
3.2.1.1 Igreja, comunidade batismal – communio fidelium
A Igreja é uma comunhão concreta de crentes (cf. LF 22). Ela não é um mero agregado de crentes individuais451, nem é uma simples soma da fé subjetiva de todos os fiéis452. Ela é uma communio fidelium: uma comunhão de fiéis batizados453 e, por conseguinte, uma
communio ecclesialis454. Uma comunidade eclesial, portanto, indissoluvelmente congregada
em torno de “uma só fé” (cf. Ef 4,5). A fé batismal (cf. Tt 1,4) é o princípio de comunhão eclesial455. Através dela, o batizado aprende: a) a ver-se a partir da fé que professa (cf. LF 22)
e, por conseguinte, b) a compreender-se a partir de sua pertença numa comunidade de fé (cf.
LF 22). O batismo é o início de uma vida eclesial456.
A comunidade de fé, por sua vez, é visível e sacramental. Vive o dom de Deus que recebe através dos irmãos e irmãs, e o celebra no sacramento como dom que é. Se fé
447 RAHNER, Karl. Curso Fundamental da fé, p. 404. 448 Cf. RATZINGER, Joseph. O novo povo de Deus, p. 85.
449 PIÉ-NINOT, Salvador. Eclesiología: la sacramentalidad de la comunidad cristiana, p. 259.
450 CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. SOBRE ALGUNS ASPECTOS DA IGREJA
ENTENDIDA COMO COMUNHÃO, n. 5. In.: https://goo.gl/nEjySt. Acesso: 20/01/2018.
451 Cf. TRÜTSCH, Josef. Explicação Teológica da Fé, p. 72. 452 BARREIRO, Álvaro. Povo santo e pecador, p. 74.
453 Cf. RATZINGER, Joseph. La Chiesa: una comunnità sempre in caminho, p. 56. 454 KASPER, Walter. A Igreja Católica, p. 155.
455 Cf. RATZINGER, Joseph. O novo povo de Deus, p. 14. 456 Cf. RATZINGER, Joseph. O novo povo de Deus, p. 14.
intrinsecamente significa ser incorporado à Igreja e pela Igreja, tem que inclui também a festa sacramental de iniciação ao mistério de Deus, manifesto no Crucificado- Ressuscitado, pela ação do Espírito Santo. O batismo expressa, portanto, essa dupla transcendência ou gratuidade do ato de fé: a fé é dom de Deus através da Igreja, comunidade de fé; ou: dom de Deus e dom da Igreja – não por si, mas por ser este sacramento da autocomunicação de Deus em Cristo e no Espírito. Sem essa dupla transcendência, a fé não seria fé cristã. Somos justificados, mas por uma fé que é eclesial, sacramental, recebida e apropriada no sacramento. E vice-versa: o batismo é a apropriação concreta, eclesial, da fé, a que o batizando-se atreveu a aderir e que recebe como dom.457
A comunidade batismal é uma comunhão de iniciados, desde o batismo, na fé eclesial458: “o batismo é a apropriação concreta, eclesial, da fé”459. O dom batismal de Deus faz existir o
corpo eclesial (cf. LG 7): a) ele inicia o indivíduo à fé comum (cf. Tt 1,4) – “a fé é dom de Deus através da Igreja”460. A fé batismal, nesse sentido, incorpora-o numa comunidade eclesial (cf.
1Cor 12,13), que é – em primeiro lugar – uma “comunidade sacerdotal” (cf. LG 11),
incessantemente reunida para “existir diante Deus”461. Através da fé batismal, o indivíduo é iniciado à fé eclesial e, simultaneamente, à vida cristã: cremos porque pertencemos à Igreja462. A existência do crente é uma existência eclesial (cf. LF 22): ele pertence à Igreja, que lhe fez cristão463, na liturgia batismal (cf. LF 39).
A transmissão da fé verifica-se, em primeiro lugar, através do Batismo. Poderia parecer que este sacramento fosse apenas um modo para simbolizar a confissão de fé, um acto pedagógico para quem precise de imagens e gestos, e do qual seria possível fundamentalmente prescindir. Mas não é assim, como no-lo recorda uma palavra de São Paulo: «pelo Batismo fomos sepultados com Cristo na morte, para que, tal como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos pela glória do Pai, também nós caminhemos numa vida nova» (Rm 6, 4); nele, tornamo-nos nova criatura e filhos adotivo de Deus. E mais adiante o Apóstolo diz que o cristão foi confiado a uma «forma de ensino» (typosdidachés), a que obedece de coração (cf. Rm 6, 17): no Batismo, o homem recebe também uma doutrina que deve professar e uma forma concreta de vida que requer o envolvimento de toda a sua pessoa, encaminhando-a para o bem; é transferido para um novo âmbito, confiado a um novo ambiente, a uma nova maneira comum de agir, na Igreja. Deste modo, o Batismo recorda-nos que a fé não é obra do indivíduo isolado, não é um ato que o homem possa realizar contando apenas com as próprias forças, mas tem de ser recebida, entrando na comunhão eclesial que transmite o dom de Deus: ninguém se batiza a si mesmo, tal como ninguém vem sozinho à existência. Fomos batizados (LF 41).
457 TABORDA, Francisco. Nas fontes da vida cristã, p. 212.
458 O costume de batizar, como rito de iniciação, em si não é genuinamente cristão. Na história comparada das
religiões da Antiguidade encontramos ritos batismais semelhantes aos cristãos. Pode, até mesmo, descobrir-se aspectos comuns. Na história das religiões em geral, os ritos batismais também são interpretados como ritos de iniciação ou transição (Cf. ZILLES, Urbano. Os sacramentos da Igreja Católica, p. 81).
459 TABORDA, Francisco. Nas fontes da vida cristã, p. 212.
460 TABORDA, Francisco. Nas fontes da vida cristã, p. 212.
461 Cf. LACOSTA, Jean-Yves. Dicionário crítico de teologia, p. 1419.
462 PAPA FRANCISCO. Audiência Geral, 25-VI-2014. In.: goo.gl/526DSn. Acesso: 15/11/2017.
3.2.1.1.1 Batismo, porta e fundamento da fé cristã
No catecismo da Igreja Católica (1983), redigido depois do Concílio Vaticano II (1962-65), reafirmou ser o batismo, o sacramento da fé (cf. CEC 1236): a porta sacramental na vida da fé (cf. CEC 1236) e o fundamento de toda a vida cristã (cf. CEC 1213). Através dele o indivíduo é: a) liberto do pecado e regenerado como filho de Deus (cf. CEC 1213); b) sepultado na morte de Cristo (cf. CEC 1214) e c) ressuscitado como nova criatura (cf. CEC 1214). O batismo é o início próprio para “tornar-se cristão” (cf. CEC 1229): através deste sacramento, o batizado é iniciado na fé eclesial464, que é dom batismal. A fé cristã vem eclesialmente, pelo sacramento do batismo: ou seja, “fé e batismo vêm juntos”465.
O batismo expressa, portanto, essa dupla transcendência ou gratuidade do ato de fé: a fé é dom de Deus através da Igreja, comunidade de fé; ou: dom de Deus e dom da Igreja – não por si, mas por ser este sacramento da autocomunicação de Deus em Cristo e no Espírito. Sem essa dupla transcendência, a fé não seria fé cristã. Somos justificados, mas por uma fé que é eclesial, sacramental, recebida e apropriada no sacramento. E vice-versa: o batismo é a apropriação concreta, eclesial, da fé, a que o batizando-se atreveu a aderir e que recebe como dom.466
Na liturgia batismal, o indivíduo é iniciado na fé eclesial467 – “nós cremos” e,
simultaneamente, na vida cristã – “eu creio”. “Que pedes à Igreja de Deus?” - “A fé” (cf. CEC 168). A fé cristã é fé eclesial (cf. CEC 181). Através desta fé, que é dom batismal, são gerados novos cristãos eclesiais: ou seja, membros de Cristo (cf. CEC 1213), sacramentalmente, incorporados na Igreja (cf. CEC 1213), que é seu corpo eclesial. O fiel batizado, dentro dela, professa no singular – “eu creio” – aquilo que é, na verdade, professado no plural – “nós cremos”468. A fé cristã é um apropriar-se da fé batismal469, sacramentalmente, compartilhado:
“crer é um ato eclesial” (CEC 181).
É impossível crer sozinhos. A fé não é só uma opção individual que se realiza na interioridade do crente, não é uma relação isolada entre o « eu » do fiel e o « Tu » divino, entre o sujeito autônomo e Deus; mas, por sua natureza, abre-se ao « nós », verifica-se sempre dentro da comunhão da Igreja. Assim no-lo recorda a forma dialogada do Credo, que se usa na liturgia batismal. O crer exprime-se como resposta a um convite, a uma palavra que não provém de mim, mas deve ser escutada; por isso, insere-se no interior de um diálogo, não pode ser uma mera confissão que nasce do indivíduo: só é possível responder «creio» em primeira pessoa, porque se pertence a
464 Cf. RAHNER, Karl. O desafio de ser cristão, p. 30. 465 TRÜTSCH, Josef. Explicação Teológica da Fé, p. 74. 466 TABORDA, Francisco. Nas fontes da vida cristã, p. 212. 467 Cf. SESBOÜE, Bernard. Os Sinais da Salvação, p. 259.
468 Cf. BARREIRO, Álvaro. A eclesialidade da fé nos novos contextos socioculturais p. 123. 469 TABORDA, Francisco. Nas fontes da vida cristã, p. 212.
uma comunhão grande, dizendo também «cremos». Esta abertura ao «nós» eclesial realiza-se de acordo com a abertura própria do amor de Deus, que não é apenas relação entre o Pai e o Filho, entre «eu» e «tu», mas, no Espírito, é também um «nós», uma comunhão de pessoas. Por isso mesmo, quem crê nunca está sozinho; e, pela mesma razão, a fé tende a difundir-se, a convidar outros para a sua alegria. Quem recebe a fé, descobre que os espaços do próprio «eu» se alargam, gerando-se nele novas relações que enriquecem a vida (LF 39).
Nesta perspectiva, a fé cristã é a apropriação concreta da fé batismal470: a) ela inicia o indivíduo à fé eclesial (cf. 1Cor 12,13) e, consequentemente, b) incorpora o fiel batizado na comunidade eclesial, que é – em primeiro lugar – uma comunidade de batizados, sacramentalmente, “reunido para existir diante Deus”471.
Ninguém se torna cristão por si só! É claro isto? Ninguém se torna cristão por si só! Os cristãos não se fazem no laboratório. O cristão faz parte de um povo que vem de longe. O cristão pertence a um povo que se chama Igreja, e é esta Igreja que o faz cristão, no dia do Batismo e depois no percurso da catequese, e assim por diante.472
3.2.1.1.2 Comunidade batismal: pertença à única fé
A comunidade eclesial é uma comunidade de batizados473. Ela é uma communio
fidelium. A fé batismal, nela, é um princípio de comunhão eclesial. Através do batismo, o fiel
é congregado nela. Ela não é um simples corpo social, mas uma comunhão de fiéis batizados. Ela é uma assembleia de pessoas batizadas. O batismo, nesse sentido, marca o início de uma pertença comunional, descortinada pela fé, assumida na liturgia: ele imprime, na vida do batizado, a) um caráter eclesial474 e, por conseguinte, b) um modo novo de existir475. A pertença eclesial, efetivada pela fé, torna-se uma existência eclesial (cf. LF 22). Ela introduz o fiel batizado num novo modo de existir: um existir cristão476.
Não vivemos isolados e não somos cristãos a título individual, cada qual por sua própria conta, não, a nossa identidade cristã é pertença! Somos cristãos porque pertencemos à Igreja. É como um sobrenome: se o nome é «sou cristão», o sobrenome é «pertenço à Igreja». (...) Ninguém se torna cristão por si só! É claro isto? Ninguém se torna cristão por si só! Os cristãos não se fazem no laboratório. O cristão faz parte de um povo que vem de longe. O cristão pertence a um povo que se chama Igreja, e é
470 TABORDA, Francisco. Nas fontes da vida cristã, p. 212.
471 Cf. LACOSTA, Jean-Yves. Dicionário crítico de teologia, p. 1419.
472 PAPA FRANSCISCO. Audiência Geral, 25-VI-2014. In.: goo.gl/526DSn. Acesso: 15/11/2017. 473 BARREIRO, Álvaro. Povo santo e pecador,, p. 60.
474 Cf. SESBOÜE, Bernard. Os Sinais da Salvação, p. 259.
475 BINGEMER, Maria Clara. A Identidade Crística: sobre a identidade, a vocação e a missão dos leigos, p. 32.
esta Igreja que o faz cristão, no dia do Batismo e depois no percurso da catequese, e assim por diante.477
Uma existência cristã é uma existência eclesial (cf. LF 22). Um cristão, separado da
communio fidelium, deixaria de ser cristão478. Cada fiel batizado participa de uma comunhão ininterrupta de fiéis: “ser cristão significa sempre pertencer ao Cristo total e, portanto, à Igreja também”479. O cristão batizado é um cristão eclesial: através do batismo é incorporado à fé
eclesial, que é dom batismal. O batismo é um início que aponta para a incorporação plena na comunhão eucarística (Cf. UUE 66).