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PARTE I – HISTÓRIA, MITOS E FATOS

D. Quarto concílio – Calcedônia (451 d.C.)

2.3 Igreja Protestante

Os diversos movimentos que vimos anteriormente, considerados hereges pela igreja armênia, como os paulicianos e tondraquianos, já faziam parte de um anseio popular para a renovação na Igreja Apostólica Armênia. Não é nosso foco neste trabalho, o aprofundamento das correntes teológicas no oriente e no ocidente que renovaram o cristianismo, mas é possível perceber que as reformas são partes constituintes do cristianismo e que ecoaram em todas as direções.

A Igreja Apostólica teve o mérito de manter sua autenticidade e preservar a igreja como instituição nacional com algumas reformas mas não o suficiente para acompanhar os anseios populares e se modernizar. No final do século XVIII a igreja católica se fazia presente, a ordem mekhitarista tinha se tornado uma das grandes benfeitoras da cultura armênia, incluindo institutos de ensino superior. Jovens armênios partiram para Europa em busca do ensino superior, retornando posteriormente com novas idéias. É fato que o primeiro contato da Igreja Armênia com o protestantismo ocidental ocorreu em 1576 em Constantinopla quando o pastor luterano Stephan Gerlock encontrou-se com o patriarca Hovannes de Diarbekir. Foi uma visita breve de trocas de informações doutrinárias. Como efeito da visita houve a menção nos escritos protestantes da época, com informações verídicas sobre a doutrina armênia. (CARMONA, 1996, pgs. 194-195)

Nesse período a colônia armênia desejava uma igreja mais piedosa, mais democrática e mais sensível às aspirações populares. (SAPSEZIAN, 1997, pg. 140)

Inicia-se uma reforma dentro da igreja armênia organizada, chamada “União Pia”, a fim de estudar as escrituras e voltar às antigas origens em oração e espiritualidade bíblica. Este grupo era coordenado por Houhanes Der Sahaguian e tinha como incentivador o patriarca de Constantinopla Stepanos Zakarian e o professor de história e teologia do seminário teológico do patriarcado. (SAPSEZIAN, 1997, pg. 141)

Para promover a renovação contavam também com bíblias impressas na língua armênia popular, principalmente com a distribuição do novo testamento pela Sociedade Britânica. Tudo feito com aquiescência da igreja armênia.

Os missionários americanos Plínio Fisk e Levi Person, ambos da Junta Americana de Missões Estrangeiras desembarcaram em Esmirna em 1820 com a intenção da propagação do protestantismo, que foi bem aceito em Beirute.

Eram missionários com fervor triunfalista das missões, que embora competentes, não tinham muita sensibilidade para com as igrejas cristãs orientais.

No lado ocidental da Armênia sob o Império Russo, os missionários da Missão de Basílica (Suíça) conseguiam algum êxito junto aos armênios, fundando uma escola em 1828 (Shushi).

Passados alguns anos a Igreja Apostólica se levanta contra a missão e com a ajuda do governo czarista a escola é fechada e, como conseqüência contra as intenções ativistas das missões, foi quase impossível a entrada de outros missionários na Armênia Russa após esse episódio. (SAPSEZIAN, 1997, pg.142)

Posteriormente é designado pela junta americana de missões estrangeiras o pastor William Goodell incumbido de levar o protestantismo somente para a Armênia.

Era uma organização criada com o objetivo de todas as organizações de missões: Levar a luz da verdade aos povos que não conheciam o cristianismo.

Especificamente essa organização missionária que chega a Armênia fora criada em 1807, em Massachusetts que incorporava as igrejas presbiterianas e congregacionais, cujo avivamento religioso que os envolveu nas treze colônias incentivou-os a seguir até os confins da terra para efetivar a missão que lhes cabia. Claro que tal missão visava o evangelismo de judeus e mulçumanos, mas diante da dificuldade que encontraram reavaliaram os propósitos da missão da “Ásia Ocidental”.

Goodell foi designado para ativar os projetos e recursos para a Armênia, porque os armênios já eram cristãos e poderiam ser o referencial para posteriormente expandir a missão. Esse missionário ao se familiarizar melhor com as atividades da igreja milenar armênia, tece comentários a seus superiores nos Estados Unidos sobre a igreja nacional, que era “corrupta,... supersticiosa,... idólatra,... cerimonialista”. (SAPSEZIAN, 1997, pg. 143).

Apesar dessa convicção não demonstravam nenhuma posição abertamente frente à igreja.

Os missionários trabalhavam numa versão bíblica armêno-turca visto que muitos armênios falavam a língua turca no Império Otomano, e também numa versão bíblica armênia em armênio popular, que foi publicada em 1853. Goodell, que aprendera turco, dedicou-se à bíblia armeno-turca, e outros dois missionários Elias Riggs e Itarrison Dwight, ajudados por armênios, fizeram a tradução para o armênio popular (Ashkarappar), a partir dos textos originais. (SAPSEZIAN, 1997, pg. 144)

Sem dúvida que foi uma contribuição importante para a população que não fazia parte da elite e se tornou um instrumento de grande ajuda para o evangelismo. Esta bíblia foi impressa pela organização dos missionários que haviam se estabelecido em Esmirna.

Além disso, organizavam reuniões de estudos bíblicos com a participação da União Pia. Estes missionários fundaram uma primeira escola armênia de grau secundário em Constantinopla (1834) com princípios pedagógicos modernos. Isto revela o valor da educação na estratégia de evangelismo da Junta Americana de Missões Estrangeiras. Posteriormente estes missionários começaram a realizar cultos públicos em sua sede em Constantinopla, com a participação de outros simpatizantes, membros da Igreja Apostólica.

Os primeiros anos de relacionamento com a igreja foram de cordialidade. Posteriormente passou-se a uma campanha discriminatória tomada pelo patriarca Hagop Seropian (1839), como a interdição das publicações missionárias e uma campanha para expulsá-los do país, porém foram reprimidas graças à diplomacia americana junto às autoridades.

O fato é que várias outras escolas foram criadas nos anos seguintes e a população sentia os benefícios que os armênios podiam contar com esse movimento renovador de missões.

Em 1844 a discriminação contra os renovadores, que já contavam com 8000 membros, retornou com mais violência na pessoa do patriarca Mateus Tchuhadjian.

Este fez várias tentativas para reconquistar os dissidentes e esclarecer aos que estavam indecisos, através de debates públicos, porém sem o sucesso esperado. Ele faz uma declaração na qual, após descrever os reformistas como enganosos, satânicos e pecadores contra a Igreja Apostólica, determina que se retratem e que admitam culpa, prometendo submissão absoluta e incondicional aos dogmas tradicionais.

Os renovadores respondem com uma carta respeitosa, rejeitando o que lhes fora declarado e reiterando o seu amor à nação e à igreja armênia e afirmando que

estavam de conformidade com a bíblia e despedem-se na carta assinando “cristãos perseguidos”.

A reação do patriarca Mateus foi imediata através de uma bula onde excomungava aos renovadores, datada de 4 de junho de 1846.

Este ato além do religioso trouxe também conseqüência política, pois os tornava exclusos da proteção civil do patriarcado, ficando exilados no meio de seu próprio povo. (SAPSEZIAN, 1997, pg. 147)

Então em 1º de julho de 1846 o grupo de 40 pessoas (37 homens e três mulheres) se organiza como igreja separada e se reúne na capela da missão norte- americana (Constantinopla).

No término do culto neste dia, elegeram Absalão Lutiudjian como reverendo, o qual foi consagrado pelos missionários uma semana depois. Nesta oportunidade elegem também dois diáconos e decidem denominar-se Igreja Evangélica Armênia; não desejando se submeter a qualquer proteção doutrinária decidem também fazer conhecer ao povo sua formação e profissão de fé. Posteriormente empenharam-se para criar uma estrutura civil e religiosa com a interferência do embaixador britânico, Lord Stratford, conseguindo o estatuto de “Protestant Millet”28 em 1847.

Em 27 de novembro de 1850 conseguiram o estatuto com direitos na sociedade civil e com liberdade de ação construíram o seu perfil doutrinário que estava baseado nos seguintes princípios: fé na divina Trindade; forma clássica de credos antigos e Jesus Cristo como cabeça da igreja; autoridade suprema da Bíblia; Cristo o único mediador, e a salvação pela graça; compromisso pessoal de cada crente na causa do evangelho, tudo isto típico da Reforma Protestante do século XVI. Rejeitaram: a oração pelos mortos, veneração de relíquias e imagens e santos. (SAPSEZIAN, 1997, pg. 149)

Assim que o movimento protestante se fortaleceu, se consolidou também em Esmirna e rapidamente chegou às colônias de Anatólia, Cilícia, Síria e Líbano.

Nas cidades de Anatólia, Marash e Urfa formaram as mais dinâmicas congregações de armênios evangélicos.

A cidade de Kharput, na Anatólia, ficou conhecida como o centro de propagação evangélica, conseguindo se expandir até o território russo.

28

‘Millet’ foram comunidades criadas com critérios étnicos e religiosos, responsáveis pela gestão de seus assuntos internos e possuíam um papel fundamental na garantia dos direitos da comunidade. Summa, 2007, pg.15.

A igreja evangélica em uma década após seu nascimento cresceu imensamente e contava com 137 congregações, 60.000 membros e 180 pastores e evangelistas.

A reforma armênia evangélica começou como um movimento único na colônia, porém as igrejas locais (Marash, Antab, Urfa, Anatólia, Tibilissi, Bacu, etc.) eram geridas autonomamente pelos próprios fiéis locais (sistema congregacionista). (SAPSEZIAN,1997, pg. 149)

Com a expansão das igrejas nas colônias, foram organizados agrupamentos regionais: União da Bitinia (1864); União do Oriente (1866); União da Cilícia (1867), União Central (1868); depois mais dois grupos foram acrescidos: União Evangélica do Leste dos Estados Unidos (1901), União Evangélica da Califórnia (1908) e em 1914 União das Igrejas Evangélicas Armênias do Ararat.

A União da Cilícia foi extremamente atuante. Instituíram Escolas Dominicais com cursos de formação bíblica e moral cristã, e a associação de jovens preparando-os para a solidariedade e para futuros pastores.

As escolas fundadas pelos missionários se multiplicaram e quase todas as igrejas locais tinham uma escola primária e secundária. No começo do séc. XX contavam com 400 escolas entre seminários, escolas secundárias e colégios, com aproximadamente vinte e cinco mil alunos provenientes de todas as confissões armênias.

Esta investidura financeira e humana dos missionários em ajudar aos protestantes armênios proporcionou a eles a pretensão de subordinação das igrejas à junta das missões. Fato que foi rejeitado pelos evangélicos que continuaram com autonomia de desenvolvimento em suas causas. (SAPSEZIAN,1997, pgs. 149-151)

O genocídio armênio entre 1915 e 1922 acabou com os grupos de União Evangélicos criados até então no território turco. Os sobreviventes evangélicos conseguiram se organizar em 1920 em dois grupos em suas terras de adoção: A União Evangélica da Síria e do Líbano e a União das Igrejas Evangélicas Armênias no Oriente Próximo, e em 1930 a União Evangélica da França. Atualmente a maioria dos evangélicos armênios que vivem no Oriente Médio está na Síria e no Líbano e conta com várias escolas e associações para jovens. Realizam trabalhos sociais e contam com várias instituições filantrópicas e humanitárias e também com várias publicações comuns.

Um importante órgão foi criado em 1918 para dar suporte e fortalecer a união entre todas as igrejas evangélicas armênias: Agency Missionary Association of Armênia Inc. (AMAA).

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