PARTE II – IDENTIDADE CONSTRUÍDA
1. O PAPEL DA MEMÓRIA SOCIAL
Assim como lembranças de fatos de nosso dia-a-dia como aniversário,, datas alusivas a festividades nacionais, as memórias fazem parte dos processos de construção de uma história que tem como mecanismo principal a perpetuação dos traços, dos acontecimentos, sejam eles felizes ou não, de uma pessoa ou de um grupo.
Através do histórico e do lingüístico produz-se na memória uma força simbólica que a transforma numa questão social. Se para gerações anteriores as memórias foram o enfoque das histórias orais sobre todos os acontecimentos, na medida em que passam para as próximas gerações, vão perdendo a força, pois a eficácia da imagem simbólica não se faz presente. É um tema controverso em que
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Folha de São Paulo, 26 de Abril de 2007. Folha Turismo, pag. F5. Colaboração da matéria de Renata Summa.
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muitos estudiosos desvalorizam a história oral como fonte de trabalho acadêmico como base de reconhecimento das informações. Nossa reflexão é que muito do que presenciamos em todos os sentidos está intimamente ligado às memórias passadas, e estas memórias são trazidas por livros, filmes, fotos, imagens, lembranças de fatos narrados pelos protestantes armênios.
Após nossa incursão no grupo de senhoras e exposição da proposta do trabalho, fomos amplamente assessorados por literaturas que algumas senhoras possuíam, pelas lembranças de fatos narrados pelos pais, avós, e também por fotografias.
Uma das memórias com grande conteúdo histórico foram os aportes sobre a história do Monte Ararat. Ele tem significado histórico, bíblico, mas também um significado geográfico “do lugar do Ararat”.
Quando da visualização do filme “A Long Journey Home Isabel Bayrakdarian”
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na lembrança.
O filme fala de mãe e filha armênias que saem do Canadá para a Armênia por conta de uma apresentação da filha (Isabel) que é cantora. O filme todo é um resgate da memória coletiva dos lugares e igrejas importantes para os armênios, porém o ponto emocional se dá quando elas partem para um local do lado armênio, onde é possível avistar o Monte Aratat, e a reação da mãe ao vê-lo de longe é de extremo êxtase emocional. É possível perceber que mesmo para os membros das colônias diaspóricas o passado histórico ainda está presente. Diríamos que, dentro do conceito de Hall, essa identificação emocional desse símbolo da armenidade é o que ele chama de “celebração móvel”, pois ela é construída constantemente através das representações. (HALL, 2006, pg. 12-13)
Recentemente em novembro de 2011, num jantar típico da ICEASP, pudemos na oportunidade compartilhar de uma apresentação de lugares históricos e não históricos de uma recente viagem de um dos membros em terras armênias, reconstruindo a sua memória histórica e expressando os símbolos assimilados e compartilhando com a comunidade.
Apesar de ser um descendente da diáspora armênia a passagem pelo território armênio e a vista do Monte Ararat evidenciou que a distância e o tempo não o impediu de manifestar sua alegria por esta história e esse nacionalismo.
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Filme apresentado no curso de Cultura Armênia – Manifestações Artísticas. Novembro/2010. FFLCH. USP. Curso de Cultura ARMÊNIA II. Profa. Deize Crespim Pereira.
O primeiro sentimento sobre a identidade étnica é o do pertencimento a um determinado grupo. Embora todos os traços de etnicidade se interliguem, pois não sobrevivem isoladamente, diríamos que a língua é o fator de reprodução da bagagem cultural.
A língua se consistiu num traço de identidade armênia que dá a característica de como o grupo se articula e expressa sua cultura, seja ela oral ou escrita. Há uma relação íntima entre a linguagem e a vivência histórica que é transmitida. May fala que:
“a língua se relaciona com a sociedade porque é a expressão das necessidades humanas de se congregar socialmente, de construir e desenvolver a expressão da “alma” ou do “intimo”, ou do que quer que seja, do individuo; é, acima de tudo, a maneira pela qual a sociedade se expressa como se seus membros fossem a sua boca”. (2006, pgs. 76-77)
O pertencimento da língua a um ramo isolado indo-europeu demonstra as diversas incursões que as colônias armênias sofreram ao longo de sua história, reconstruída posteriormente no seu idioma. Os antigos dialetos estão ligados a este idioma tornando-o uma língua complexa de ser pesquisada e de ser aprendida. Como falamos em capítulo anterior esta particularidade lingüística tornou os armênios um grupo mais isolado ainda em relação aos seus vizinhos geográficos.
A língua armênia resistiu ao longo dos tempos; na comunidade evangélica e nos cultos religiosos, sua presença é significativa. Num dos resumos da história da ICEASP, lemos o seguinte: [...] a igreja sempre teve e tem até hoje, como objetivo principal salvaguardar a fé cristã e transmitir para as gerações toda a cultura e a língua armênia.39
No grupo de senhoras, todas falam as línguas presentes: português do Brasil e armênia. Uma delas tem dificuldade ainda de entendimento do português sendo que muitas vezes é necessário intervenção de uma outra senhora para a tradução do que foi falado.
Assim como também tem duas senhoras que só entendem o armênio, porém não falam. O valor da manutenção da língua pode-se dizer que é um patrimônio de propriedade da comunidade. Notamos que mesmo diante da dualidade de pertencimento, existe resistência no plano lingüístico, uma rejeição ao integracionismo. A única escola armênia da coletividade ligada a Igreja apostólica continua com o modelo de manutenção da identidade armênia com o ensino da língua nos seus cursos.
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Borges Pereira analisando grupos urbanos (judeus, sírios e libaneses) relata o seguinte:
“A análise sócio-antropológica, alongando-se para outros níveis da situação de contato, permite detectar as manifestações e movimentos de resistência de grupos que, sufocados pela política de homogeneização da cultura, tentam preservar as suas identidades étnicas e lutam para quebrar os bloqueios que se colocam a sua plena participação na vida nacional” (2000, pg. 9)
Tanto quanto existe a multiplicidade de etnias, existe também um patrimônio rico de línguas diferentes presentes não apenas na zona urbana de São Paulo como em diferentes pontos do país. Falta uma política de preservação desses diferentes idiomas.
Nenhum fato poderia ter sido registrado neste trabalho se não estivesse impregnado na memória de cada participante da pesquisa como também daqueles que com mais sorte conseguiram registrar através de literatura.
Essa memória coletiva tem força para resistir por 90 anos ou mais e ainda assim permanecer atual.
Falamos dos relatos que todos têm a respeito do genocídio, que sem dúvida nenhuma nos dias de hoje se transformou na maior marca identitária dos armênios, pois mobiliza o mundo todo.
Não há duvidas que fatos narrados de extrema crueldade tendem a trazer no cotidiano das pessoas um sentimento de indignação, mas que com o tempo tende a cair no esquecimento. Estes não foram fatos simples, foi um extermínio em massa com requintes de crueldade. São marcas na vida de pessoas que esperam nesse reconhecimento o retorno da existência, pois na medida em que esse processo não se completa é como se essas pessoas, essas famílias nunca tivessem existido.
“Halbwachs caracteriza a memória como “o que ainda é vivo na consciência do grupo para o indivíduo e para a comunidade”.” (HALBACHS, apud NUNES, 2007, pg. 25)
Diante do problema do reconhecimento do Genocídio Armênio, o Rev. Roy se posiciona de maneira muito consciente da sua cidadania e da sua função pastoral, fazendo a seguinte colocação:
“O amor é o distintivo do cristão, e, assim, amamos os trucos e desejamos que eles sejam recipientes de todas as ricas benção de Deus. São seres humanos dignos do amor de Deus. Respeitamos a inteligência e os ricos valores históricos e culturais deste povo a quem amamos sinceramente. Admiramos as reformas históricas, sociais e culturais promovidas pelo governo turco e de alguns países de não reconhecimento do genocídio é injusta e, como toda injustiça, desperta em nós, armênios, o sentimento de indignação. Creio que toda humanidade torna-se alvo de violência quando um ato bárbaro praticado por quem quer que seja deixa de ser reconhecido e punido. Portanto, como cristãos, continuaremos protestando contra a injustiça e clamando para que Deus nos conceda misericórdia, e que este tipo de
barbárie jamais seja repetido na historia. Mas desejamos, ao mesmo tempo, como cristãos, que a população turca seja ricamente abençoada pelo Deus de amor a quem nós adoramos. (ROY ABRAHAMIAN, 2011 – Entrevista em Anexo)
A história e a memória recuperam marcas identitarias para protegê-las do esquecimento. Mas algumas são possíveis de se transportar de forma material; é o caso da minha curiosidade no início do trabalho em saber o que era aquela cruz estranha na parede da igreja que pode ser observada do metrô.
Alguns autores dizem que a Armênia é a terra das pedras, devido à quantidade e a variedade de tonalidade de pedras em suas terras.
Sabe-se que a arte de se esculpir cruzes em pedras se iniciou na era medieval e se transformou em uma tradição e composição puramente armênia. São cruzes de vários tamanhos chegando a três metros de altura e também com formatos que não se repetem e que podem ser vista em praticamente todo o território armênio.
Como esta arte é uma expressão da cultura armênia em visita a várias casas de descendentes armênios notamos a presença destes objetos decorativos.
Diz-se que as igrejas e as cruzes foram as formas que o povo encontrou para consagrar a sua terra e seu país à fé em Cristo daí sua importância como símbolo da fé cristã.
Recentemente em 17 de novembro de 2010 a UNESCO endossou as cruzes da Armênia como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.