CAPÍTULO I: Globalização e integração financeira: a visão convencional e uma alternativa
I. ii.3.2 Ciclos de liquidez e seus determinantes
Ao longo da história do pensamento econômico, não foram poucas nem irrelevantes as formulações teóricas acerca do comportamento cíclico da economia capitalista. Autores da estatura de Schumpeter, Kalecki, Hicks e muitos outros, trataram do tema das flutuações periódicas, que assumiriam certa regularidade. De uma observação bastante impressionista desta literatura, alguns traços gerais ajudam no raciocínio sobre os temas do presente trabalho.
Em primeiro lugar, a constatação do comportamento oscilante de uma variável, ou de um conjunto de proxies para um mesmo fenômeno econômico. Na análise da dinâmica da economia, ou do crescimento a médio e longo prazos, o foco das análises são grandezas como a renda e o emprego – com o investimento ocupando, muitas vezes, o papel de variável determinante e determinada. Nesta linha, a segunda observação: o que se busca é sempre a compreensão das causas para o comportamento cíclico, e aqui se encontra grande parte da variedade das explicações. Por ciclo, geralmente se entende uma etapa ascendente seguida por uma descendente (mesmo que não se exija a mesma duração dessas duas fases para a
caracterização de um ciclo). Portanto, são no mínimo duas as explicações a apresentar: quais os mecanismos que iniciam e sustentam a fase ascendente, e o que gera a reversão cíclica.
A quantificação do fenômeno que aqui se busca incorporar à análise da inserção periférica na globalização financeira – os ciclos da liquidez internacional disponível para estas economias – é uma das tarefas do capítulo IV, por meio de medidas complementares. Esta seção é dedicada à segunda tarefa: de maneira breve, apontar as explicações de fundo para esses ciclos, a partir do que já foi desenvolvido acima.
O ponto de partida é a idéia de que, da ótica dos gestores das grandes massas de riqueza direcionadas à acumulação financeira, o duplo imperativo rendimento-liquidez está, constantemente, permeado pelas considerações a respeito do risco. Esta constatação óbvia, quando transportada para a dimensão internacional, ajuda a compreender a gênese do movimento cíclico. Já foi apontado, na seção I.ii.1, que durante a “diplomacia do dólar forte” foi necessária a imposição de um elevado diferencial positivo de rendimento para que “a passagem por Nova Iorque se tornasse obrigatória” para todos os aplicadores à escala global (Tavares, 1985). Posteriormente, já a partir de 1985, reafirmada a hegemonia monetária, bastam o risco zero e a sofisticação do sistema financeiro capitaneado pela dívida pública; o rendimento não precisa mais – e nem deve – ser tão elevado. Isto quer dizer que, dali em diante, não há mais dúvidas sobre qual é o “porto seguro” do sistema, e que portanto estar fora dos títulos públicos americanos significa incorrer em riscos progressivamente mais elevados – primeiro nos outros papéis em dólar, posteriormente nas outras moedas conversíveis definidas na seção I.ii.3.1 e, finalmente, nos mercados “emergentes”.
Chega-se, assim, ao cerne da explicação da fase ascendente dos ciclos de liquidez em tela. A busca por rendimento – o money chasing yield, na famosa expressão minskyana – em ativos denominados em moedas fracas é um movimento que significa, sempre, uma redução na aversão ao risco dos aplicadores globais ou, na linguagem keynesiana, uma queda na preferência pela liquidez por parte dos mesmos agentes.
Há aqui alguma semelhança com o ciclo minskyano (outra explicação para as oscilações características da economia capitalista, mas que têm no comportamento do sistema financeiro seu elemento central): vive-se uma fase de otimismo, em que as expectativas sobre os rendimentos futuros sustentam o crescimento das operações financeiras em direção a “regiões” mais arriscadas e, assim, eleva-se a fragilidade financeira. No raciocínio original do autor, esta fragilidade se transformava em crise a partir de um choque de expectativas, que derrubasse o
fundamento das relações financeiras anteriormente estabelecidas – as rendas esperadas do investimento – e detonasse uma violenta elevação da preferência pela liquidez. 77
Com o ciclo de liquidez internacional a reversão assume feições semelhantes: algum fenômeno que seja capaz de alterar o estado geral de expectativas – aqui não quanto aos investimentos futuros, mas sim em relação à combinação risco/rendimento dos ativos em países emergentes vis-a-vis aqueles dos mercados centrais – provoca o movimento de volta para o porto seguro ou a “fuga para a qualidade”. Que, fechando o raciocínio, significa sempre o mesmo fenômeno de aumento da preferência pela liquidez ou ampliação da aversão ao risco.
Tanto em uma direção quanto na outra, as alterações nas convenções podem representar um movimento de prazo mais longo – que dá origem às etapas ascendente e descendente do ciclo de liquidez, tratadas aqui como “fase de cheia” e “fase de seca” – ou uma mera mudança passageira que não é capaz de alterar num prazo mais alongado o traço geral (no que pode ser definido como “mini-ciclos”).78 O fato das relações financeiras em geral (e os fluxos
internacionais de capital em particular) serem, como já discutido, permeados pela lógica especulativa e pelas outras decorrências do “curto-prazismo”, tanto as duas fases parecem ser mais curtas no período atual em relação a épocas anteriores, como a ocorrência dos mini-ciclos se torna mais freqüente.
Uma dimensão adicional, mas não menos importante, diz respeito aos processos econômicos que, para além dos fatores psicológicos, pautam essa oscilação de expectativas, preferência pela liquidez, graus de aversão ao risco. Uma questão teórica presente em qualquer discussão sobre ciclos é a atinente à endogeneidade ou exogeneidade dos mecanismos que explicam a fase ascendente e, principalmente, a reversão. Na problemática em tela, ela toma a forma da oposição entre fatores externos e internos às economias receptoras dos fluxos – ou, na denominação comum na literatura internacional, entre pull e push factors.
Sem entrar nos detalhes do debate específico sobre os determinantes dos ciclos de liquidez na globalização – tratados no capítulo IV – a concepção de fundo aqui é a de que, por mais que haja uma interação com os fatores domésticos,79 são as condições vigentes nas
economias com moedas conversíveis que pautam o ciclo. Particularmente, como a própria
77 A “hipótese da fragilidade financeira”, principal contribuição de Minsky, é discutida com um nível bem maior de
detalhamento na seção II.ii.1.2.
78 Boom and burst, feast and famine, ou mesmo os já comentados sudden stops são expressões em inglês presentes na
literatura para caracterizar as fases do ciclo. Aqui são usadas estas outras três denominações, de acordo com sua duração.
expressão já deixa claro, a busca por rendimento em papéis mais arriscados é um desdobramento da queda da remuneração nos ativos lá negociados. Assim, para além de outras variáveis externas – como a taxa de crescimento da economia global – que também influenciam o estado geral de aversão ao risco dos aplicadores globais, é principalmente a política monetária nos países centrais, a começar do emissor da moeda reserva, quem define a maior ou menor disponibilidade de financiamento para economias como a brasileira.
A obviedade da constatação anterior não deve obscurecer o seu significado mais importante: por mais que os “fundamentos” domésticos possam reforçar uma ou outra direção, as condições gerais de acesso ao mercado financeiro internacional e aos seus supostos benefícios são definidas, essencialmente, por políticas e processos alheios ao controle (ou, até, à capacidade de influência) local.
Esta é a lição final, que se revelará um pressuposto fundamental para o desenrolar da argumentação do presente trabalho. Nos termos em que as coisas são colocadas nesta seção, o fato de o mundo das finanças globalizadas ser desigual no tempo decorre de serem, antes disso, desiguais no espaço. Ou, de outro modo, a condição de vítima, muito mais do que protagonista, dos ciclos de liquidez, é decorrência do conjunto de assimetrias discutidas acima. Na síntese de Ocampo (2001),
“...whereas the center economies – particularly the largest economies among them – are ‘business cycle makers’, the developing countries (…) are ‘business cycle takers’. This reflects the fact that, broadly speaking, the center generates the global shocks (in terms of economic activity, financial flows, commodity prices and the instability of the exchange rate of major currencies), to which developing countries respond.” (p. 7, ênfases no original)
Considerações finais
Neste primeiro capítulo, o trabalho de pesquisa envolveu o exame da literatura teórica sobre a abertura e a integração, particularmente dos países periféricos, à ordem financeira internacional característica da globalização financeira, tendo como eixo a divisão algo arbitrária entre “visão convencional” e “visão crítica”.
Um primeiro objetivo foi retratar como, ao longo dos últimos tempos e em resposta a uma série de dificuldades de diferentes naturezas, se comportou a produção no interior do mainstream acadêmico. Tomando-se, de um lado, as formulações originais e, de outro, as evidências colhidas e as idéias desenvolvidas nas cinco frentes de “reação” desta literatura, pode-se afirmar que, sem dúvida, as concepções evoluíram – e de maneira geral evoluíram
positivamente (sob um ponto de vista crítico). O conteúdo e principalmente a articulação entre as diferentes frentes desta evolução, porém, se revelam bastante insatisfatórios, e recomendam o tratamento das questões discutidas até aqui a partir de bases teóricas radicalmente distintas.
Mas, antes de detalhar estes problemas, cabe identificar os pontos em que a evolução do pensamento convencional acaba atingindo a temática mais ampla desta tese. Duas das “tábuas de salvação” da agenda da abertura/integração dizem respeito exatamente aos impactos das relações financeiras externas sobre as internas. De um lado, a defesa do exame empírico – e do próprio encaminhamento do processo de reformas – com uma abordagem parcial que, além de se concentrar nas evidências microeconômicas, separa os diferentes segmentos das relações financeiras com o exterior, e parece produzir resultados mais favoráveis relacionados especificamente ao mercado de capitais. De outro, a última versão do receituário, a sustentar – em meio ao raciocínio que embute um verdadeiro “curto-circuito” lógico entre pré-requisitos e conseqüências – que os benefícios se manifestariam na verdade sobre as condições financeiras domésticas: é principalmente por meio do aprofundamento do mercado local, e da melhora nas condições de financiamento em termos microeconômicos (afetando a produtividade total dos fatores), que a globalização cumpriria as suas promessas de crescimento e desenvolvimento. São resultados importantes para o desenrolar do trabalho, como ficará claro.
Voltando à insatisfação com a evolução da visão convencional, vale a pena enumerar os seus motivos, a título de síntese: (i) a inadequação dos pressupostos macroeconômicos de inspiração clássica; (ii) a crença na eficiência alocativa e nos ajustamentos automáticos promovidos pelas forças de mercado; e (iii) o tratamento insuficiente das especificidades dos países em desenvolvimento.
Quanto ao primeiro ponto, parece claro que a concepção pré-keynesiana de precedência lógica da poupança em relação ao investimento, e do papel da taxa de juros na intermediação entre essas duas variáveis – que será particularmente grave nas discussões do capítulo seguinte – já é aqui responsável por uma série de problemas, de que são exemplos a não verificação prática da “contribuição da poupança externa” aos países em desenvolvimento e a dificuldade em compreender as elevadas correlações entre níveis de investimento e poupança domésticos (interpretadas como evidência do baixo grau de integração).
Por outro lado, e já entrando na segunda razão para a insatisfação, a hipótese de mercados eficientes só é desafiada, como visto na seção I.i.2.3, por algumas apreciações dissidentes sobre a abertura e a integração financeiras. O problema é que nem este elemento isolado de crítica
parece ser incorporado em sua plenitude, sendo ignorado pela ampla maioria dos analistas. Mesmo quando a realidade contesta de maneira cabal um dos pilares da argumentação favorável à abertura – o mito da diversificação internacional de riscos, com os capitais livres esgotando as possibilidades de ganhos extraordinários através de uma carteira verdadeiramente global – os dados servem não para re-analisar os determinantes da dinâmica destes fluxos, mas sim para culpar as fraquezas e insuficiências, de natureza institucional e política, das economias em desenvolvimento alijadas.
No que se refere ao tratamento das especificidades de tais países, também pode-se dizer que os inegáveis avanços permanecem isolados e não são levados às últimas conseqüências. Se a literatura tratada na seção I.i.2.4 foi capaz de “endogeneizar” elementos como o “medo de flutuar” ou as “paradas súbitas”, não parece no entanto ter respostas suficientes para a dinâmica internacional que leva a estes episódios; se alguns autores chegam a afirmar que a causa última do “pecado original” se localiza em elementos alheios ao controle dos que sofrem deste mal, acabam caindo no extremo oposto ao rejeitar qualquer iniciativa de auto-defesa, com base nos mesmos benefícios teóricos originais. Em suma, a visão convencional revela-se incapaz de responder, de forma abrangente e integrada, ao conjunto de desafios a ela impostos, em uma evolução marcada por avanços pontuais e limitados, quando não acompanhados de recuos.
Diante disso, buscou-se na literatura crítica uma interpretação alternativa, e o resultado foi uma visão organizada em três planos.
No primeiro, histórico, a concepção é a de que o período atual é marcado por uma combinação peculiar dos aspectos monetário e financeiro da economia internacional e que este arranjo não é um simples desdobramento da evolução natural das forças de mercado ou produto exclusivamente das mudanças tecnológicas. Por processos políticos e diplomáticos de natureza complexa, define-se uma época em que claramente há ganhadores e perdedores. Entre estes últimos, situam-se na maior parte do tempo as economias menos desenvolvidas – ao contrário do que se poderia concluir a partir do argumento da “contribuição da poupança externa”.
Em primeiro lugar porque – e aqui o segundo plano de análise – as mudanças qualitativas nos sistemas financeiros e a emergência de um novo conjunto de atores-chave com seus critérios, procedimentos e valores de atuação, foi capaz de disseminar a lógica especulativa para um amplo conjunto de relações econômicas e financeiras, com impacto inevitável nos fluxos internacionais de capital. Adicionalmente, também contribuem para a dinâmica instável e especulativa as características do padrão monetário internacional em vigor.
E em segundo porque – descendo para o terceiro plano – estas economias são as grandes prejudicadas pelas diferentes assimetrias do sistema: a financeira, a macroeconômica e, provavelmente a mãe de todas as outras, a monetária. É isto que significa, aqui, trazer para o primeiro plano da análise as especificidades da condição periférica. São países emissores de moedas inconversíveis, incapazes de desempenhar no plano internacional as funções clássicas da moeda (principalmente a de reserva de valor), tornando suas economias suscetíveis a uma série de características negativas deste mundo desigual. Destacou-se aqui uma destas conseqüências: a oscilação cíclica da disponibilidade de financiamento externo para tais economias e o fato de que tais ciclos são comandados, em essência, por fenômenos e políticas que estão muito além do controle destas suas maiores “vítimas”.
Partindo desta visão de fundo, levantam-se sérias dúvidas sobre a capacidade da integração a esse estado de coisas – principalmente se encaminhada de maneira “voluntariosa” e imprudente – gerar os benefícios prometidos, particularmente sobre o sistema financeiro doméstico.