Júlio Resende: pintura sem idade
II 1 Conversa, sossego, tranquilidade.
2. Acto directivo. 2.1 Perguntar. 3. 1 c); 2 b); 3 d); 4 a).
3.1 1. Conector discursivo de oposição / restrição; 2. conector discursivo de causa; 3. operador discursivo: função de reforço; 4. estruturador da informação.
4.1 Não – advérbio de negação; algumas – quantificador indefinido; mesas – nome comum, contável; seu – determinante possessivo; que – conjunção subordinativa integrante; o – pronome pessoal.
4.2 a) mas é natural; b) Não sei;
c) Se Bocage escreveu algumas poesias sobre as mesmas do seu café; que o tenha feito. 4.3 a) Bocage – sujeito;
b) natural – predicativo no sujeito; c) o – complemento directo.
5. A presença destes sinais auxiliares de escrita justificam-se pois entre aspas aparecem nas citações poéticas. Entre parênteses são apresentadas informações complementares e um aparte.
III
Em Portugal, até metade do séc. XIX a figura do Natal era o presépio. A partir de 1834, a Árvore de Natal chegou ao povo. Só em 1960, através dos media, é que é feita a grande divulgação da Árvore de Natal e do Pai Natal, representativo do consumismo, sobrepondo-se à essência do espírito natalício.
Com o casamento de D. Maria II com D. Fernando, mudaram os hábitos da corte. Estes tiveram muitos filhos que a rainha educou com esmero. Afirmou-se, desde então, a tradição da Árvore de Natal na noite de Natal, o rei vestia-se de S. Nicolau e oferecia presentes aos filhos num ambiente familiar.
Foi por estas alturas que se apresentou Domigos, o primeiro pretendente sério de Amância. Demasiado sério, ai!
Demasiado sério: Era um rapaz dos seus vinte e cinco anos, moreno e simpático, talvez já um pouco pesado. Aliás de boa figura, mas vulgar, sem atractivos especiais para uma bela rapariga moderna. Filho único do mais bem afreguesado ourives da terra, já empregado na loja que viria a herdar – toda a gente achou que era óptimo partido para a filha de um modesto amanuense. Os próprios pais de Amância o acharam; mas sem se atreverem a tentar qualquer pressão sobre o espírito da filha. Porque logo a filha revelou espíritos por de mais alevanta- dos na filha de um modesto amanuense, declarando não corresponder Domingos ao seu «ideal». Além de que não estava disposta a casar tão nova! Queria gozar a sua juventude, e, sem se comprometer, recolher incenso dos vários turíbulos… Ora Domingos pretendia casar-se quanto antes. Há mais de um ano que Amância dera pela sua paixão. Há mais de um ano que ria, simultaneamente lisonjeada e sempre um tanto desdenhosa, ao cruzar procurando os seus, onde quer que se encontrassem, esses olhos leais e súplices de tímido… Não era caso para rir! Demasiado sério, talvez já um pouco pesado, muito apegado ao trabalho, muito metido consigo como quase todos os tímidos e surdos (pois também era um pouco duro de ouvido), Domingos podia muito bem saber amar com uma energia e uma delicadeza cada vez mais raras. Por isso mesmo, porém, que futuro poderia esperar a sua futura mulher? O de uma dona de casa vivendo para o marido, para os filhos, para os cuidados domésticos. Adeus liberdade de viver como a borboleta, espanejando os seus brilhos ao ar e ao sol! Mesmo que Domingos lhe agradara (e não era bem o caso), muito dificilmente pudera resolver-se Amância a aceitar tão nova a prisão dos seus braços honrados. Assim Amância ria. Não era caso para rir! Mas quem pode- ria zangar-se com o riso de Amância? Não mostrava ela tão lindos dentes, iguais e pequeninos? E não era ele natural, nessa deliciosa boca suculenta, como o colorido numa flor ou a frescura na água de uma fonte?
Por fim, a instâncias do enamorado, teve o pai de Amância de dar uma resposta: que a filha ainda era muito nova, e não queria sujeitar-se tão cedo aos cuidados do matrimónio. Agradecia a honra que lhe era feita, reconhecia as excelentes qualidades do seu pretendente, desejava-lhe todas as felicidades com aquelou- tra que não teria dificuldade em achar… O amanuense havia estudado este pequeno discurso. Domingos fez - -se, primeiro, muito vermelho; e cravara no seu interlocutor uns olhos vidrados, fixos, que pareciam examiná-lo e em verdade o não viam. Depois, ficou pálido como um cadáver. Por fim respondeu, com uma voz presa e baixa, descendo os olhos sobre as mãos que tremiam torturando-se uma na outra:
– Diga-lhe que esperarei. Ela há-de cansar-se de se divertir… O amanuense não gostou desta insinuação.
– Pois que espere! – disse Amância quase desabridamente, quando o pai lhe transmitiu o recado. E conti- nuou a rir com uns e outros, recolhendo incenso de diversos turíbulos.
José Régio, «Os Namorados de Amância», Contos, Publicações Europa-América (excerto)
I
1. «Demasiado sério» (ls. 1-2), assim é apresentado «o primeiro pretendente sério de Amância». 1.1 Faz o retrato de Domingos.
1.2 Refere o processo de caracterização que predomina na sua descrição. Exemplifica. 2. Refere a opinião de «toda a gente» e dos pais de Amância sobre este pretendente.
2.1 Apresenta a opinião da jovem, relativamente ao filho do «ourives da terra».
Teste de Avaliação 8
Contos do Século XX 5 10 15 20 25 30 Lê atentamente o texto.3. Indica o sentimento que tinha Domingos para com a rapariga e como se revelava. 4. Clarifica o que significava o casamento para Amância.
5. «Assim Amância ria. Não era caso para rir!» (ls. 19-20).
5.1 Tendo em conta a expressão sublinhada, classifica o narrador desta história: 5.1.1 quanto à presença;
5.1.2 quanto à posição.
5.2 Apresenta outro exemplo em que esteja presente a opinião do narrador.
6. Identifica os argumentos utilizados pelo pai de Amância, para recusar o pedido de casamento de Domingos. 6.1 Indica as diferentes reacções do rapaz.
6.2 Identifica a figura de estilo presente em «com uma voz presa e baixa» (ls. 29-30) e refere a sua expressi- vidade.
6.3 Mostra como a resposta final do jovem é sinónimo de uma forte paixão.
7. O último parágrafo apresenta um traço caracterizador de Amância que perdurará no futuro. Identifica-o. II
1. Transcreve do texto três co-referentes do nome Domingos. 2. Atenta nas frases:
a) «Diga-lhe que esperarei.» (l. 30) b) «Pois que espere!» (l. 32)
2.1 Classifica os actos de fala ou ilocutórios presentes nas mesmas e esclarece a sua intencionalidade comu- nicativa.
3. «Era um rapaz dos seus vinte e cinco anos, moreno e simpático, talvez já um pouco pesado.» (ls. 3-4)) 3.1 Integra os vocábulos sublinhados na classe e sublasse a que pertencem.
4. Classifica as seguintes orações:
a) «que era óptimo partido para a filha de um modesto amanuense» (ls. 5-6) b) «mas sem se atreverem» (ls. 6-7)
c) «Porque logo a filha revelou espíritos por de mais alevantados...» (ls. 7-8) 4.1 Refere as funções sintácticas de:
a) «óptimo partido»; b) «logo»;
c) «a filha»;
d) «revelou espíritos».
III
Num texto narrativo, de cento e cinquenta a duzentas palavras, imagina um final feliz para esta história de amor.
Proposta de correcção
I
1.1 Domingos era um rapaz de vinte e cinco anos, moreno, um pouco forte, um pouco surdo. Tinha uma boa figura, mas não era sedutor. Era simpático, mas taciturno «sério». Traba lhava como ourives na loja do pai da qual viria a ser dono.
1.2 Caracterização directa: «moreno e simpático», «um pouco pesado». 2. Domingos era considerado um «óptimo partido» para casar com Amância.
2.1 Amância afirmava que Domingos não era o seu «ideal», isto é, o rapaz não tinha as características que a jovem desejava para seu marido.
3. Uma paixão obsessiva; amor platónico. Esse sentimento revelava-se pelo olhar leal e suplicante de Domingos que observava Amância com timidez.
4. Amância considerava o casamento uma prisão. 5.1.1 Não participante.
5.1.2 Subjectivo.
5.2 «e não era bem o caso» (l. 18)
6. Amância era muito jovem; não queria casar-se tão cedo.
6.1 Domingos ficou vermelho, olhou fixamente o pai de Amância, ficou muito branco, «pálido como um cadáver».
6.2 Metáfora. O rapaz ficou tão nervoso que quase não conseguiu falar.
6.3 A resposta mostra que Domingos acreditava que o seu amor por Amância era tão forte que resistiria ao tempo e ao ciúme.
7. Amância era leviana.
II
1. «um rapaz dos seus vinte e cinco anos» (l. 3); «Filho único do mais bem afreguesado ourives» (ls. 4-5): «pretendente» (l. 1).
2. a) Acto declarativo – assertivo; afirmar. b) Acto expressivo; exprimir sarcasmo. 3.1 Classe / Subclasse
«Era»: verbo; copulativo. «rapaz»: nome; comum, contável. «seus»: determinante; possessivo. «vinte e cinto»: quantificador; numeral. «simpático»: ad jectivo; qualificativo. «já»: advérbio; valor temporal. 4. a) Subordinada substantiva completiva.
b) Coordenada adversativa. c) Subordinada adverbial causal. 4.1 a) Predicativo do sujeito.
b) Modificador. c) Sujeito simples.
d) Predicado verbal, transitivo directo.
III Resposta livre.
Lê atentamente o texto.
Miura Palmas, gritos.
Desesperado, tornou a escarvar o chão, agora com as patas e com os galhos. O homem!
Mas o inimigo não desistia. Talvez para exaltar a própria vaidade aparentava dar-lhe mais oportunidades. Lá vinha todo empertigado, a apontar dois pequenos paus coloridos, e a gritar como há pouco.
– Eh! toiro! Eh! boi!
Sem lhe dar tempo, com quanta alma pôde, lançou-se-lhe à figura, disposto a tudo. Não trouxesse ele o pano mágico, e veríamos!
Não trazia. E, por isso, quando se encontraram e o outro lhe pregou no cachaço, fundas, dolorosas as duas farpas que erguia nas mãos, tinha-lhe o corno direito enterrado na fundura da barriga mole.
Gritos e relâmpagos escarlates de todos os lados.
Passada a bruma que se lhe fez nos olhos, relanceou a vista pela plateia. Então?!
Como não recebeu qualquer resposta, desceu solitário à consciência do seu martírio. Lá levavam o mori- bundo em braços, e lá saltava na arena outro farsante dourado.
Esperou. Se vinha sem a capa enfeitiçada, sem o diabólico farrapo que o cegava e lhe perturbava o enten- dimento, morria.
Mas o outro estava escudado.
Apesar disso, avançou. Avançou e bateu, como sempre, em algodão. Voltou à carga.
O corpo fino do toureiro, porém, fugia-lhe por artes infernais. Protestos da assistência.
Avançou de novo. Os olhos já lhe doíam e a cabeça já lhe andava à roda.
Humilhado, com o sangue a ferver-lhe nas veias, escarvou a areia mais uma vez, urinou e roncou, num sofrimento sem limites. Miura, joguete nas mãos de um Zé-Ninguém!
Num ímpeto, sem dar tempo ao inimigo, caíu sobre ele. Mas quê! Como um gamo, o miserável saltava a vedação.
Desesperado, espetou os chifres na tábua dura, em direcção à barriga do fugitivo, que arquejava ainda do outro lado. Sangue e suor corriam-lhe pelo lombo abaixo.
Ouviu uma voz que o chamava. Quem seria? Voltou-se. Mas era um novo palhaço, que trazia também a nuvem, agora pequena e triangular.
Mesmo assim, quase sem tino e a saber que era em vão que avançava, avançou. Deu, como sempre, na miragem enganadora.
Renovou a investida. Iludido, outra vez.
Parou. Mas não acabaria aquele martírio? Não haveria remédio para semelhante mortificação? Num último esforço, avançou quatro vezes. Nada. Apenas palmas ao actor.
Quando? Quando chegaria o fim de semelhante tormento?
Subitamente, o adversário estendeu-lhe diante dos olhos congestionados o brilho frio de um estoque. Quê?! Pois poderia morrer ali no próprio sítio da sua humilhação?! Os homens tinham dessas generosidades?! Calada, a lâmina oferecia-se inteira.
Calmamente, num domínio perfeito de si, Miura fitou-a bem. Depois, numa arremetida que parecia ainda de luta e era de submissão, entregou o pescoço vencido ao alívio daquele gume.
Miguel Torga, Bichos, Coimbra Editora