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III – O ESTADO DE BEM-ESTAR KEYNESIANO

No documento O estado como opressor e civilizador (páginas 150-163)

O Estado de bem-estar keynesiano2 surgiu a partir de

uma crise cujos marcos fundamentais foram a Primeira Guerra Mundial, a Revolução Russa e a Grande Depressão de 1929. Este Estado foi de fundamental importância para a superação da crise de 1929, uma vez que ele se transformou no sujeito ativo e dirigente do processo de desenvolvimento capitalista.

2 Este Estado assumiu diferentes denominações — Welfare State, na Inglaterra e Estados Unidos; Sozialstaat, na Alemanha; État-Providence, na França; Estado Desenvolvimentista, nos países de economia periférica. Nos últimos anos, este moderno Estado de bem-estar tem sido analisado de diferentes perspectivas. Ver, por exemplo, Esping-Andersen (1991), Habermas (1975), King (1988), Rosanvallon (1984).

As intervenções do Estado keynesiano, tanto na economia como na vida social, foram cruciais para a sobrevivência do capitalismo na década de 1930, e para garantir seu crescimento nos anos de ouro do segundo pós-guerra, a época dourada do capitalismo, período histórico iniciado em 1948 e concluído em 1973.

Com a crise geral do capitalismo nos anos de 1930 as reivindicações do movimento operário concretizaram-se em novas instituições democráticas. O Estado keynesiano foi consequência das lutas populares pela democracia e pela igual- dade, essa forma de Estado representava a conquista da classe trabalhadora no mundo inteiro. A força da classe trabalhadora, da sua organização e mobilização para articular demandas por melhores condições de vida e trabalho, foi de fundamental importância para a formação e a expansão do Estado de bem-estar keynesiano. Este tipo de Estado foi formado a partir de um compromisso de classes, em que o objetivo principal era político, ou seja, quebrar ou fragilizar o movimento operário.

Ao mesmo tempo que o Estado keynesiano revelou-se como uma solução para a crise do capitalismo, ele produziu muitas transformações que modificaram sua morfologia e seu funcionamento. Depois da Segunda Guerra Mundial ocorreu uma mudança profunda no papel do Estado. Como afirma Brunhoff (1991, p.22):

o Estado apareceu como um agente econômico particular, emissor e receptor de fluxos que atravessavam toda a economia nacional. Sua intervenção assumiu um caráter legí- timo, não mais em tempo de guerra apenas (mobilização de todos os recursos disponíveis contra o inimigo), mas também em tempo de paz, para sustentar o crescimento econômico. Mudança ideológica considerável, que dominou as idéias

desde a Grande Depressão dos anos 30 até meados dos anos 70: “período keynesiano”, ligado ao advento da economia.

De acordo com Keynes, em General Theory of Employment, Interest and Money, obra que foi publicada em 1936 e que contém os elementos de sua teoria econômica, a qual assinala a ampliação das ações estatais na economia como o requisito necessário à sobrevivência do capitalismo, a reali- zação de um programa de reforma social deve ser executada dentro do arcabouço da ordem social existente. E “o primeiro requisito prévio para uma sociedade melhor é a abolição do desemprego. O segundo é uma distribuição mais equitativa e menos arbitrária da riqueza e da renda” (DILLARD, 1986, p.297). Isto porque, para ele, as propostas que hão de promover um alto nível de emprego proporcionarão também, como resultado, uma distribuição mais equitativa do rendimento e da riqueza.

Nesse sentido, a ampliação das funções do Estado se revelou como a única forma de evitar a destruição total do sistema capitalista diante da sua mais grave crise do século XX.3

Em relação à participação do Estado na economia, diz Keynes (1949, p. 290), “defendo-a tanto por ser o único meio praticável para evitar a destruição total das formas econômicas existentes como por ser condição de funcionamento adequado da livre iniciativa”. Portanto, a economia política de Keynes preconizava

3 A teoria econômica de Keynes proporcionou uma base teórica para um novo liberalismo, o qual, ao contrário do liberalismo clássico, rejeita o laissez-faire. Além disso, Keynes apresentava uma posição teórica que atacava o capitalismo financeiro e defendia o capitalismo industrial com vista à capacidade de sobrevivência do capitalismo. A extensão das ações do Estado em forma de obras públicas, assim como de intervenções na economia faziam parte do programa liberal para evitar o Socialismo. Ver Dillard (1986).

a necessidade de intervenção direta do Estado na economia, para garantir o equilíbrio e a modernização do capitalismo.

Esta nova forma estatal capitalista passou a adquirir uma centralidade tanto para garantir a continuidade da acumulação capitalista, como para manter a legitimidade do sistema. Nesse sentido, o Estado keynesiano repousava sobre a problemática compatibilização de duas lógicas, conforme Boron (1994):

• uma, de tipo econômica, que estava relacionada com a reani- mação e estabilização da acumulação capitalista; e outra, • de tipo política, preocupada em encarar os perigos da revo-

lução, assegurar a pacificação social, a institucionalização dos conflitos classistas e a criação de uma ordem burguesa estável e legítima

Isto significa dizer que o Estado keynesiano, ao mesmo tempo que surge para recuperar o capitalismo, surge também numa perspectiva de ampliar as bases de legitimidade desse Estado. Desse modo, o consenso representado por essa forma de Estado teve como base de sustentação um compromisso de classes que envolvia “uma dupla moldura institucional: a) de um lado, o funcionamento da democracia parlamentar com sufrágio universal e livre competição partidária; b) de outro lado, uma economia de mercado com substancial inter- venção do Estado” (SPINELLI, 1993, p. 207) – sendo muito mais amplo do que os interesses do capital. Daí porque esse Estado se constituiu como um exemplo de Estado democrático, que incorpora as demandas da sociedade. O Estado keynesiano incorpora as demandas e produz políticas governamentais tendentes a satisfazer as reivindicações populares. Portanto,

em virtude do surgimento e da consolidação de uma demo- cracia social e econômica o Estado tem por função conciliar os imperativos da acumulação capitalista com os da legitimação democrática. Democracia essa que se expressa, segundo Boron (1994, p.79), da seguinte forma:

1. no fato de que sua fonte de legitimação provém do sufrágio universal; 2. no caráter democrático dos procedimentos de constituição da autoridade política e da formação da “vontade nacional”, e 3. na qualidade e na quantidade das respostas governamentais às demandas populares, isto é, nas políticas sociais que levem adiante os governos democráticos.

Destaca-se, aqui, que a política econômica defendida por Keynes chama a atenção para um Estado forte com capacidade de impor à sociedade o aumento das despesas públicas para acabar com a crise do capitalismo. O financiamento público das despesas sociais relacionadas à educação, à saúde e à seguridade social nesse tipo de Estado são prioridades.

Com a crise do capitalismo, ocorre uma intensificação no processo de exclusão social e a pobreza passa a existir de forma alarmante. Diante disso, a questão social, que, segundo Castel (1998), pode ser caracterizada por uma inquietação quanto à capacidade de manter a coesão de uma sociedade, se apresenta como uma ameaça de ruptura da ordem estabe- lecida. Essa situação social estava presente em todo o mundo, não se tratando de uma exclusividade de países periféricos, como o Brasil, mas dizia respeito a um fenômeno que atingia, também, os países desenvolvidos.

Na medida em que o Estado tem o papel de garantir as condições para a acumulação e a legitimação do sistema,

ele precisa responder às demandas da sociedade, precisa efetivar políticas públicas que sejam capazes de responder às necessidades básicas dos cidadãos, prevenir e aliviar a pobreza.

Como chama a atenção Mishra (1995, p. 21), o Estado keynesiano partia do princípio de que eram “os governos que podiam e deviam assumir a responsabilidade de manterem um mínimo decente de condições de vida de todos os cidadãos”. Em resumo, são três tipos de compromissos que o Estado keyne- siano assume para enfrentar a mais grave crise do capitalismo, a qual tinha como consequência um significativo aumento na taxa de desemprego, que tinha como resultado altos índices de pobreza, de miséria e de exclusão social: política de pleno emprego; um conjunto de serviços sociais universais (educação, saúde e segurança social) para satisfação das necessidades básicas dos cidadãos; e uma série de medidas para evitar e aliviar a pobreza (assistência social).

Dessa forma, o Estado keynesiano simboliza um novo consenso entre o capital e o trabalho, assim como entre a democracia capitalista e os seus cidadãos, uma vez que promove a realização de certas garantias e direitos sociais. O fato é que o Estado social está vinculado à ideia de direito, na medida em que foi uma conquista da classe trabalhadora. Como diz King (1988, p.55):

O desenvolvimento do estado de bem-estar e os direitos sociais de cidadania a ele associados remodelaram funda- mentalmente a natureza das sociedades modernas, as quais são atualmente caracterizadas por uma combinação única de estado de bem-estar e economia. [...] O estado de bem-estar do pós-45 confere direitos sociais (padrões mínimos de saúde, renda, educação, direito ao trabalho) os quais,

em sua implementação e plena expressão, transformaram o papel do Estado e a relação entre Estado e economia; em conseqüência, as causas e a natureza do conflito social nessas sociedades modificaram-se.

No mesmo sentido, afirmou Przeworski (1991, p.244):

Em linhas gerais, o Estado de bem-estar keynesiano base- ava-se na idéia de compromisso social, o qual relaciona o Estado, o capital e o trabalho. Ou seja, os trabalhadores (a classe operária) concordam em não contestar as relações de produção, a propriedade privada dos meios de produção, em troca de um Estado social comprometido com a distri- buição de renda e a eqüidade social. E, como vimos, o Estado keynesiano teve como base de sustentação o compromisso de classes que estava pautado no pleno emprego e na igualdade. Em relação ao pleno emprego é preciso dizer que este seria regulado por meio da administração da demanda (gastos governamentais), e a igualdade seria buscada a partir da rede de serviços sociais que compunham o Estado de bem-estar. Nesse sentido, como afirma, o Keynesianismo forneceu os alicerces ideológicos e políticos para o compromisso da democracia capitalista, ao mesmo tempo que ofereceu a perspectiva de que o Estado seria capaz de conciliar a propriedade privada dos meios de produção com a gestão democrática da economia [...].

A partir dessa lógica, Przeworski (1991) destacou que o controle democrático sobre o nível de desemprego e a distribuição da renda tornaram-se, portanto, os termos do compromisso que viabilizou o capitalismo democrático.

Com a consolidação da democracia, o Estado não pode ser mais visto de forma isolada, ou atendendo aos interesses do povo, ou os seus próprios interesses e objetivos, ou do capital, e o Estado de bem-estar keynesiano é um exemplo do que estamos afirmando.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste capítulo propusemos explorar as várias interpre- tações do Estado capitalista contemporâneo, que podem ser encontradas na Ciência Política, identificando seus argumentos principais. No entanto, passando em revista algumas das prin- cipais interpretações do Estado contemporâneo, concluímos que devemos adotar uma nova perspectiva analítica para uma melhor compreensão do Estado democrático.

Na verdade, as teorias analisadas precedentemente são apenas parcialmente verdadeiras e, portanto, unilaterais e incapazes de dar conta de toda a complexidade do Estado capitalista. Logo, não é possível analisar o Estado nas sociedades capitalistas com base em uma única teoria, uma vez que, como diz Przeworski (1995, p.133), “cada sociedade se defronta com três diferentes problemas políticos: 1) como tornar manifestas e agregar as preferências individuais; 2) como manter as insti- tuições políticas especializadas responsivas às demandas democráticas; e 3) como satisfazer os objetivos democratica- mente escolhidos, referentes à alocação de recursos escassos”. Problemas esses que são de fundamental importância para uma compreensão do Estado moderno de bem-estar.

A partir da análise das três grandes visões dominantes na Ciência Política sobre o papel do Estado capitalista contem- porâneo, é necessário dizer que nenhuma delas – a que explica o Estado pelos interesses dos cidadãos; a que explica a auto- nomia do Estado e das instâncias de governo, o Estado-Sujeito; e a que explica o Estado do ponto de vista dos valores e objetivos do capital –, que, como vimos, incorporam inúmeras correntes teóricas, deve ser tratada de forma isolada em contextos democráticos, uma anulando a outra. Tal afirmação se justifica, pois o Estado não é só governo do povo, não é só governo do Estado e não é só governo do capital. O Estado é uma arena muito mais ampla que engloba todas essas formas de governo. Aponta-se, portanto, que a análise do Estado dentro de uma só perspectiva constitui-se como uma interpretação rasteira, sob uma lente inadequada e pouco segura. O Estado, na medida da evolução da democracia, cada vez mais é um pouco de governo do povo, é um pouco de governo do Estado e é também um pouco de governo do capital.

E o Estado de bem-estar keynesiano se apresenta, histo- ricamente, como a expressão maior desse Estado mais amplo e aberto, porque é um Estado que surgiu a partir de um consenso social que envolvia classes em luta, trabalhadores, empresários.

Ainda, aponta-se que, com a consolidação da democracia, o Estado passou a atuar em múltiplas esferas sociais, o que demonstra que ele não pode ser analisado a partir de uma única dimensão. O governo, para ser legítimo, precisa exercer mais do que um papel ativo na economia, ele precisa também fornecer serviços sociais eficazes para os cidadãos, ou seja, responder às demandas da sociedade com políticas governa- mentais efetivas, eficientes e eficazes.

Por fim, em Przeworski (1995, p. 134) encontramos o substrato para sintetizar o que aqui buscamos expor:

uma democracia madura exige instituições eleitorais que sejam representativas, instituições estatais responsivas à democracia e mecanismos de alocação de recursos que obedeçam ao processo democrático.

Daí porque partimos do princípio de que as três grandes visões dominantes que explicam o papel do Estado na sociedade capitalista são incapazes de dar conta de toda a complexidade desse Estado. Portanto, consideramos o Estado um pouco de governo do povo, governo do Estado e governo do capital.

REFERÊNCIAS

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