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a de que, uma vez eleito, os governos são agentes perfeitos

No documento O estado como opressor e civilizador (páginas 133-143)

I – AS TRÊS VISÕES DOMINANTES SOBRE O ESTADO CONTEMPORÂNEO

4. a de que, uma vez eleito, os governos são agentes perfeitos

de suas bases eleitorais.

No que se refere à primeira premissa, Przeworski (1995) ressalta que as preferências dos indivíduos são transformadas ao longo do processo político, mudando, endogenamente,

por meio das interações políticas. Isto significa dizer que as preferências individuais podem ser alteradas, ou melhor, mani- puladas pelos políticos, os quais utilizam estratégias eleitorais para maximizar apoio político.

A segunda premissa – de que, numa democracia, os polí- ticos competem por apoio e se preocupam, especificamente, com votos, e que, para concretizar esse apoio, eles estão dispostos a assumir qualquer posição e entrar em qualquer coalizão para vencer eleições – não é considerada plausível por Przeworski, visto que o que os políticos fazem depende do contexto no qual os partidos procuram obter votos suficientes para vencer eleições.

No que tange à terceira premissa, o fato é que as teorias econômicas da democracia admitem duas classes de atores – os indivíduos e os políticos. Entretanto, na verdade há um número ilimitado de grupos de pressão. Ou seja, as formas de repre- sentação de interesses não são limitadas àquelas de grupos de interesses, uma vez que muitas decisões importantes são tomadas por fora da política eleitoral.

Por fim, quanto à última premissa, Przeworski destaca o fato de que não apenas as teorias econômicas da democracia, mas todas as teorias que partem do princípio de que as políticas públicas são respostas às demandas da sociedade falham em admitir que os políticos eleitos podem ter vontade de agir conforme os seus próprios valores e interesses, independen- temente dos interesses daqueles que o elegeram para aquele determinado cargo. Daí porque várias perspectivas teóricas sustentam a autonomia do Estado em sociedades democráticas. Este, nesse caso, em vez de responder a demandas externas, implantaria políticas de acordo com os seus objetivos. Como diz Przeworski (1995, p. 43), “o Estado pode ofertar polí- ticas autonomamente, seja no auto-interesse dos próprios

governantes, seja no interesse público, conforme a interpre- tação dos governantes”.

Portanto, em oposição àqueles que defendem a existência de um governo do povo, Przeworski (1995) afirma que o Estado pode criar e implementar políticas públicas com o objetivo de satisfazer as necessidades dos cidadãos, mas também as suas próprias necessidades.

Na segunda perspectiva, que destaca a autonomia do Estado, as políticas governamentais são explicadas a partir das preferências dos governantes e pelas características das instituições estatais. Os teóricos dessa perspectiva partem do princípio de que os governantes têm objetivos próprios e, em certas condições institucionais e políticas, implementam políticas orientadas para alcançar esses objetivos.

É por isso que, para os teóricos alinhados a essa perspec- tiva, o Estado é autônomo, uma vez que os dirigentes estatais têm a capacidade institucional e a usam para realizar seus próprios interesses, de impô-los à sociedade. Segundo Skocpol (1985, p. 46-47):

os Estados, concebidos como organizações que reivindicam controle sobre territórios e pessoas, podem formular e perseguir objetivos que não são simplesmente reflexos das demandas e interesses dos grupos sociais, das classes, ou da sociedade. Isto é o que usualmente se entende como “autonomia do Estado”.

Dentro desse grupo de interpretação, há um significativo número de explicações que se diferem quanto à origem da autonomia do Estado. A abordagem da “autonomia relativa” é de inspiração marxista. Nesse caso, a autonomia do Estado

se explica pelas relações de classe. Segundo Przeworsky (1995, p. 51-52):

a autonomia do Estado pode ser explicada pelo fato de ser benéfica para a classe economicamente dominante, ou ela pode ocorrer pelo fato de que não há uma única classe dominante. A autonomia é assim sempre “relativa”, no sentido de que o Estado se torna autônomo apenas sob certas condições da sociedade.

A forma pela qual as relações de classe promovem a auto- nomia do Estado foi objeto de discussão de várias perspectivas teóricas, as quais podem ser agrupadas da seguinte forma:

• Teoria da Abdicação/Abstenção – desenvolvida por

Marx. Parte da premissa de que a burguesia é capaz e tem condições de exercer o poder de Estado, na medida em que tem a capacidade organizacional e econômica neces- sária para governar diretamente. No entanto, prefere abdicar da luta pelo poder político porque percebe que seus objetivos são melhor realizados se permanecerem fora da política.

• Teoria da Burguesia Fraca – é a interpretação dada,

principalmente, para o papel da burguesia em países menos desenvolvidos, de economia periférica, onde a burguesia era frágil, sem importância econômica e organizacional para conquistar e exercer o poder polí- tico, assim deixa um espaço para a autonomia do Estado.

• Autonomia do Estado e Equilíbrio de Classes – se

constitui na explicação marxista ortodoxa, que parte do princípio de que o equilíbrio de classes é uma condição necessária para a autonomia do Estado. Autonomia esta que só seria possível se em algum momento uma classe (1) é economicamente dominante; se (2) pode se organizar politicamente; e se (3) o poder dessa classe não é seriamente contestado, então tal classe exerce o poder de Estado. Se alguma dessas condições é violada, um espaço é aberto para a autonomia. Aqui, a habilidade da burguesia para conquistar e exercer o poder político depende da força de seus oponentes. Isto porque, mesmo que a burguesia seja forte, tanto economicamente como em termos de habilidade e recursos políticos, caso seus adversários sejam também politicamente fortes, é deixado um espaço para que o Estado se torne autônomo.

• A abordagem centrada no Estado – explica a autonomia

do Estado em relação à sociedade em virtude da primazia da força, perspectiva que sofre forte influência de Max Weber. Os Estados, de acordo com essa teoria, criam, organizam e regulam as sociedades. Na verdade, nessa abordagem o termo que chama a atenção para a relação entre o Estado e a sociedade é a dominação e não a auto- nomia. Segundo Przeworski (1995, p. 65), o problema da autonomia do Estado em relação à sociedade não faz sentido dentro dessa perspectiva.

Frente a essas várias teorias, podemos dizer que todas elas, sem exceção, apresentam pontos positivos e negativos. Na verdade, todas essas teorias trazem uma contribuição

ao entendimento sobre o Estado capitalista contemporâneo, no entanto, apresentam fragilidades que não cabe aqui fazer qualquer análise nesse sentido.

O terceiro grupo de interpretação, por sua vez, relaciona as ações estatais aos interesses dos que possuem a riqueza produzida na sociedade, configurando-se o governo do capital. Nesse caso, é necessário chamar a atenção para o fato de que, nessa perspectiva teórica, os governos devem respeitar e proteger os valores e objetivos daqueles que possuem o poder econômico. De acordo com essa visão, os governantes no capi- talismo atuam conforme o interesse do capital. Isto porque, mesmo os governos agindo segundo mandatos populares e os governantes tendo interesses próprios, a capacidade efetiva de qualquer governo para atingir qualquer meta ou objetivo é limitada pelo poder público do capital.

Uma corrente muito forte dentro do marxismo é a que vê o Estado como um instrumento da classe dominante, como a instituição que tem como função assegurar e conservar a dominação e a exploração de classe. Essa interpretação instru- mentalista, clássica no pensamento marxista, está presente na teoria de Lênin (1987), o qual, pretendendo restabelecer a verdadeira doutrina de Marx sobre o Estado, em sua obra “O Estado e a Revolução”, apresenta o Estado como um órgão de dominação de classes, um órgão de submissão de uma classe por outra, enfim, como um instrumento de dominação da classe mais poderosa, que também, graças a ele, se torna a classe politicamente dominante e adquire novos meios de oprimir e explorar a classe dominada (LÊNIN, 1987).

As teorias marxistas do Estado que surgiram recente- mente, durante as décadas de 1960 e 1970, compartilham da tese de que a sobrevivência do capitalismo deve-se às intervenções

do Estado, uma vez que os governos agem para fomentar o capi- talismo. O papel do Estado para a manutenção, consolidação e reprodução do capitalismo é de fundamental importância, na medida em que ele atua para promover as bases da acumulação e as bases da legitimação do sistema capitalista. Nesse sentido, as instituições do Estado funcionam para reproduzir o capita- lismo e esse seria, portanto, o objetivo das políticas públicas.

Para Offe (1975), como a reprodução do capitalismo necessita de continuada acumulação e legitimação, e estas duas condições não são geradas espontaneamente pelas economias capitalistas, o Estado assume essas duas funções. A acumulação continuada, a primeira condição necessária para a repro- dução do capitalismo, e a legitimidade, a segunda condição, se revelaram como os dois pré-requisitos funcionais centrais para a manutenção do sistema capitalista. A legitimidade é fundamental porque o apoio popular é uma exigência da democracia, e, na medida em que o capitalismo sempre enfrenta a ameaça da classe trabalhadora, o consentimento é extre- mamente necessário para desarmar a onipresente ameaça revolucionária dos trabalhadores.

Nessa concepção, o Estado aparece como a única instituição capaz de promover as condições necessárias para a manutenção e consolidação do capitalismo. Portanto, o papel do Estado nas recentes teorias marxistas é desempenhar as funções necessárias para fornecer as condições para aqueles dois pré-requisitos centrais – a acumulação e a legitimação –, quando estes estão ausentes e ameaçando a reprodução capitalista. Logo, as políticas públicas constituem um esforço para criar as condições necessárias para preservar a produção capitalista, ou seja, toda política pública constitui uma tentativa de implementar a acumulação e a legitimação.

O Estado na concepção de Marx, em O Capital, não desem- penhava qualquer papel sobre a economia capitalista, uma vez que, para ele, o capitalismo se reproduz e se desenvolve por si próprio. No entanto, as teorias marxistas contemporâneas do Estado chamam a atenção para o fato de que a afirmação de Marx de que o capitalismo reproduz as condições de sua própria existência está ultrapassada frente ao desaparecimento do capitalismo liberal. Tais teorias rejeitam essa afirmação com base na ausência, nas sociedades capitalistas, de algumas das condições necessárias à reprodução do sistema. Isto porque, segundo Przeworski (1995, p. 97), “mesmo que Marx estivesse certo sobre sua época – e as referências à “lei do valor” indi- cariam que ele estava –, sua teoria não é mais relevante para o capitalismo contemporâneo, pois ele não é mais organizado pelo mercado, mas pelo Estado”.

De acordo com Offe (1975), o capitalismo ao apresentar uma tendência em direção à “desmercantilização” começa a criar problemas para o sistema: “quando o capital e o trabalho se retiram das trocas mercantis, a acumulação não é mais auto- mática, a legitimação é ameaçada e o Estado fica desprovido de recursos e de apoio popular. Nasce então o problema do Estado capitalista” (PRZEWORSKI, 1995, p. 97).

Para promover a acumulação, a fonte de seus próprios recursos, e assegurar a legitimação, já que os governos, em um regime democrático, devem buscar apoio popular (expresso eleitoralmente), tanto Habermas (1975) quanto Offe (1975) oferecem uma lista completa e longa das funções que cabe ao Estado realizar. Essa lista, por sua vez, pode ser resumida em tudo que os governos fazem.

A teoria de Offe e Habermas acerca do Estado no capitalismo, de fato, advoga a ideia de que o papel do Estado

é promover a acumulação e manter a legitimidade, e que toda política pública deve ser vista como um esforço para implementar tais objetivos.

Já a teoria de Poulantzas (2000) parte da premissa de que “o capitalismo jamais poderia reproduzir-se sem o Estado, uma vez que o Estado tem a função particular de ser o fator de coesão das sociedades capitalistas” (PRZEWORSKI, 1995, p. 105). Nessa teoria, as funções políticas do Estado são de signi- ficativa importância para a existência e o funcionamento do capitalismo, da mesma forma que para Offe e Habermas.

No entanto, Poulantzas (2000) chama a atenção para a independência do Estado, ou melhor, para a autonomia do Estado. Ou seja, para realizar suas funções, o Estado precisa ser independente da influência dos capitalistas, é aqui que reside a teoria da autonomia relativa do Estado de Poulantzas. Para ele, a autonomia é sempre relativa porque o Estado é autônomo, porém, desempenha a função de reproduzir o capitalismo.

Para Poulantzas (2000), o Estado não representa um monopólio do capital, mas sim o resultado de uma luta de classes resultante da divisão social do trabalho. Trata-se de um ente rodeado de interesses pertencentes a diversos segmentos, que se consubstancia em uma organização da classe dominante sobre as classes dominadas. O interesse dessa última, por sua vez, é absorvido parcialmente, o que reflete em uma presença marginal no aparato estatal. O domínio do Estado, por sua vez, vai além da repressão, destacando-se o uso dos aparelhos ideo- lógicos como forma de construir um consenso entre as classes. O Estado possui a materialidade específica de uma correlação de forças entre classes e frações de classe.

Frise-se que Poulantzas (2000) não retira o caráter de classe da compreensão acerca do Estado capitalista, e sim

acresce a essa discussão a necessidade de que sejam conside- radas as diversas contradições entre classes e inter classes para conformação de uma política. No sentido do exposto, a atuação do Estado traduz os interesses do capital não de forma automá- tica, mas sim em razão de uma correlação de forças advinda da luta de classes. Nessa perspectiva, o direito do qual emana as ações do Estado, “expressa as relações de força no seio do bloco no poder” (POULANTZAS, 2000, p. 91). De forma direta, o autor se afasta de uma visão do Estado enquanto mero instru- mento de classe, compreendendo que:

Se o Estado não é integralmente produzido pelas classes dominantes, não o é também por elas monopolizado: o poder do Estado [...] está inscrito nesta materialidade. Nem todas as ações do Estado se reduzem à dominação política, mas nem por isso são constitutivamente menos marcadas (POULANTZAS, 2000, p. 12).

De acordo com Poulantzas (2000, p. 108):

o capitalismo não pode durar a menos que o Estado assegure que as diferentes atividades socialmente organizadas sejam funcionais à produção capitalista; a menos que o Estado obrigue a burguesia particularista à defesa de seu próprio interesse coletivo; e a menos que ele impeça a organização da classe trabalhadora como ator revolucionário. E o Estado invariavelmente realiza tudo isso.

Em linhas gerais, o que essas teorias compartilham é a tese de que os Estados, de uma forma ou de outra, são tão

constrangidos pelos interesses do capital que atuam em favor daqueles que o detém.

A seguir, apresentaremos um exemplo que poderá elucidar um caso relativo a essa terceira perspectiva.

No documento O estado como opressor e civilizador (páginas 133-143)